quarta-feira, 29 de março de 2017

BLUFF...

DAQUI

O quarto encontrava-se completamente às escuras. O vento e a chuva fustigavam as janelas. Estava deitada na cama a ouvir a tempestade, de olhos fechados, respirando um ar pesado, sufocante, tapada apenas com um fino lençol.
Na sua mente teimava em passar, como num filme, a imagem de alguém que não conhecia, mas à qual havia dado uma identidade. Ilusória, sabia, tanto mais que não conseguia dar-lhe forma, apenas se delineavam traços de uma personalidade forte. Ah, aquela voz extraordinariamente doce e profunda... O equívoco na chamada telefónica que não lhe era destinada roubara-lhe noites de sono transformando-as em pesadelos.
Soltando um suspiro resignado e simultaneamente decidido, eliminou aquele número maldito que teimava em dançar na frente dos seus olhos. Sentia a pele escorregadia de suor.


Com um ruído surdo fechou bruscamente o livro.

Raio de vida aquela. Maldita obsessão a sua por romances em que imaginava sempre que a personagem central, uma bela e solitária mulher, vivia na incessante procura do homem ideal…que poderia perfeitamente, ser ele... e nunca era!...




                                                 

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segunda-feira, 27 de março de 2017

O Sono, Lugar Onde a Paixão Amansa



Pierrot escondido por entre o amarelo dos girassóis espreita em cautela o sono dela dormindo na sombra da tangerineira. E ela não dorme, espreita também os olhos descidos, mentindo o sono, as vestes brancas do Pierrot gatinhando silêncios, por entre o amarelo dos girassóis.
E porque Ele se vem chegando perto, Ela mente ainda mais o sono a mal-ressonar.
Junto d'Ela, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois os joelhos redondos e lisos, e já se debruçava por sobre os joelhos, a beijar-lhe o ventre descomposto, quando Ela acordou cansada de tanto sono fingir.
E Ele ameaça fugida, e Ela furta-lhe a fuga nos braços nus estendidos.
E Ela, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a fronte num grande perdão.

E, feitas as pazes, ficou combinado que Ela dormisse outra vez.



A Sesta -  de José Almada Negreiros


Texto publicado em 1913 no primeiro número da revista Orpheu. Em 1939 surge o desenho a carvão, com o mesmo título )



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domingo, 26 de março de 2017

SE...





Se
 tudo fosse fácil
Como aparenta ser
Eu pintaria como Ingres…
…mas fácil...fácil, nada é.
Nem o meu amor
Por ti.



Aviso à navegação: Quem não vir o vídeo não perceberá o "poema".


"A Grande Odalisca"   DAQUI




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sexta-feira, 24 de março de 2017

As Sapatilhas.



Comprei sapatilhas leves, confortáveis, para poder correr melhor e com mais velocidade atrás da Felicidade.
Depois pensei...para quê correr atrás de quem sabe onde me encontrar?
 Guardei as sapatilhas e fiquei quieta no mesmo lugar. 
 Quem quiser que me venha procurar!!...:))


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quinta-feira, 23 de março de 2017

Já Fui Feliz Aqui [ XXVIII ]




Com o meu neto João numa fase adorável da sua idade, em que me deu tanta, mas tanta alegria e felicidade...




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quarta-feira, 22 de março de 2017

Da Dor e Do Pranto.




A Chuva Desce a Ladeira


A água da chuva desce a ladeira. 
É uma água ansiosa. 
Faz lagos e rios pequenos,

 e cheira a terra a ditosa. 

Há muitos que contam a dor e o pranto 
De o amor os não querer... 
Mas eu, que também não os tenho,


 o que canto, é outra coisa qualquer. 



(Fernando Pessoa)



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terça-feira, 21 de março de 2017

Das Estrelas.






Estrelas há muitas
Chaparros há mais
Estrelas de seis pontas
São como pardais
Voam e saltitam
Subindo e descendo
Um dia lá ficam
Lá ficam gemendo
Ninguém acredita
Pensam que é mentira
E a estrela lá fica
Esperando o milagre
Que nunca acontece
Na noite que cai
Da Lua que cresce
Caiu uma estrela
Diz-se que do céu
E na árvore ficou
Fruto sem sabor
Santa sem andor
E o mundo escurece





É favor clicar que isso é um link





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