A TODOS DESEJO FESTAS FELIZES.

A TODOS DESEJO FESTAS FELIZES.
Obrigada. Feliz Natal.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

AINDA NÃO SEI...!



"HORTÊNSIAS AZUIS"

Quis ver o meu jardim todo florido
De hortênsias azuis, belas, ornamentais
Desde o “Sei Lá” tristemente amanhecido
Pelo quebrar interior de frágeis cristais.






Quem ainda se lembra do meu desalento
Naquela manhã quando o sol raiava?



Hortênsias azuis me lembram ausências
Sombras fugidias de quem não volta mais.

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segunda-feira, 23 de maio de 2011

PARADOXOS!!



“Humilhações”

Esta aborrece quem é pobre. Eu, quase Job.
Aceito os seus desdéns, seus ódios idolatro-os
E espero-a nos salões dos principais teatros,
Todas as noites, ignorado e só.

Lá cansa-me o ranger da seda, a orquestra, o gás
As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos.
E enquanto vão passando as cortesãs e os brilhos
Eu analiso as peças no cartaz.

Na representação de um drama de Feuillet
Eu aguardava, junto à porta, na penumbra
Quando a mulher nervosa e vã que me deslumbra
Saltou soberba o estribo do coupé.

Como ela marcha! Lembra um magnetizador
Roçavam no veludo as guarnições das rendas
E, muito embora tu, burguês, me não entendas
Fiquei batendo os dentes de terror.

Sim! Porque não podia abandoná-la em paz!
Ó minha pobre bolsa! Amortalhou-se a ideia
De vê-la aproximar, sentado na plateia,
De tê-la num binóculo mordaz!

Eu ocultava o fraque usado nos botões
Cada contratador dizia em voz roufenha:
- Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
E ouviam-se cá fora as ovações.

Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger
Via-a subir, direita, a larga escadaria
A entrar no camarote. Antes estimaria
Que o chão se abrisse para a abater.

Saí; mas ao sair senti-me atropelar
Era um guarda municipal sobre um cavalo
Espanca o povo, irei-me; e eu, que detesto a farda
Cresci com raiva contra o militar.

De súbito, fanhosa, infecta, rota, má
Pôs-se na minha frente uma velhinha suja
E disse-me, piscando os olhos de coruja:
 Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?...   

                                                                                                    
Poema de Cesário Verde.

(De todo o coração a - Silva Pinto)
 Dedicatória do Autor.

"A esperança é como o céu nocturno: não há recanto tão escuro onde um olhar que se obstina não acabe por descobrir uma estrela."

Citação de Octave Feuillet
Dramaturgo e escritor francês do século XIX
ao qual o autor se refere no poema.

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quarta-feira, 18 de maio de 2011

JUSTOS E PECADORES...




“O MELRO”


Andava, o cura, no quintal um certo dia
Lendo em voz alta o Velho Testamento
Enxergou por acaso (que alegria!
Que ditoso momento!)
Um ninho com seis melros escondido
Entre uma carvalheira.
E ao vê-los exclamou enfurecido:
«A mãe comeu o fruto proibido;
Esse fruto era a minha sementeira:
Era o pão, e era o milho
Transmitiu-se o pecado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho.
É doutrina da Igreja. Estou vingado!»
E engaiolando os pobres passaritos,
Soltava exclamações:
«É uma praga. Malditos!
Dão-me cabo de tudo estes ladrões!
Raios os partam! Andai lá que enfim…»
E deixando a gaiola pendurada,
Continuou a ler o seu latim
Fungando uma pitada.
*
*     *
Vinha tombando a noite silenciosa
E caía por sobre a natureza
Uma serena paz religiosa
Uma bela tristeza
Harmónica, viril, indefinida.
A luz crepuscular
Infiltra-nos na alma dorida
Um misticismo heróico e salutar.
As árvores, de luz inda doiradas
Sobre os montes longínquos, solitários,
Tinham tomado as formas rendilhadas
Das plantas dos herbários.
Recolhiam-se a casa os lavradores
Dormiam virginais as coisas mansas:
Os rebanhos e as flores,
As aves e as crianças.

Ia subindo a escada o velho abade;
A sua negra, atlética figura
Destacava na frouxa claridade,
Como uma nódoa escura.
E introduzindo a chave no portal
Murmurou entre dentes:
«Tal e qual…tal e qual!...
Guisados com arroz são excelentes.»
*
*     *
E nisto o melro foi direito ao ninho.
Para o agasalhar andou buscando
Umas penugens doces como arminho
Um feltrozito acetinado e brando.
Chegou lá e viu tudo.
Partiu como uma flecha; e louco e mudo
Correu por todo o matagal, em vão!
Mas eis que solta de repente um grito
Indo encontrar os filhos na prisão.
»Quem vos meteu aqui?!» O mais velhito
Todo tremente, murmurou então:
«Foi aquele homem negro. – Quando veio
Chamei, chamei…Andavas tu na horta…
Ai que susto, que susto! Ele é tão feio!...
Tive-lhe tanto medo!...Abre esta porta.
E o melro alucinado clamou:
«Senhor! Senhor!
É porventura crime ou é pecado
Que eu tenha muito amor
A estes inocentes?!
Ó Natureza ó Deus como consentes!
Não bastaria a Natureza inteira
Não bastaria o céu para voardes
E prendem-vos assim desta maneira!...
Covardes!
Falta-me a luz e o ar!...Oh, quem me dera
Ser abutre ou ser fera
Para partir o cárcere maldito!...»
*
*     *
E a Natureza fresca, omnipotente
Sorria castamente
Com o sorriso alegre dos heróis.
Nas sebes orvalhadas
Entre folhas luzentes como espadas
Cantavam rouxinóis.

Segundo o seu costume habitual
Logo de madrugada
O padre-cura foi para o quintal
Levando a bíblia e sobraçando a enxada.
Antes de dizer missa
O velho abade inevitavelmente
Tratava da hortaliça
E rezava vários trechos latinos
Salvando desta forma juntamente
As ervilhas, as almas e os pepinos.
E já de longe ia bradando:
«Olé! Dormiram bem?... Estimo…
Eu lhes darei o mimo
Canalha vil, grandíssima ralé!
Então vocês, suas almas do diabo
Julgavam que isto era só dar cabo?
Pois muito bem, agora que vos pilho
Eu vos ensinarei, meus safardanas!
Vocês são mariolões, são ratazanas
Têm bico, é certo, mas não têm tonsura…
E nas manhas um melro nunca chega
Às manhas naturais d’um padre-cura.
E depois de vos ter dentro da pança
Depois de vos jantar
Vocês verão como o velhote dança
Como ele é melro e sabe assobiar!...»
*
*    *
O melro, ao ver aproximar o abade
Despertou da atonia
Lançando-se furioso contra a grade
Do cárcere, torcia
Para partir os ferros da prisão
Crispando as unhas convulsivamente
Com a fúria d’um leão.
E alucinado, exangue,
Os olhos como brasas
Herói febril, a gotejar em sangue,
Partiu num voo arrebatado e louco
Trazendo dentro em pouco
Preso no bico um ramo de veneno.
E belo e grande e trágico e sereno
Disse:
«Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre. A liberdade é a Lei,
Prende-se a asa, mas a alma voa…
Ó filhos, voemos pelo azul!...Comei!»
Soltou, fitando o abade, uma pungente
Gargalhada de lágrimas, de dor.
E partiu pelo espaço heroicamente
Indo cair, já morto, de repente
Num carcavão com silveirais em flor.
E o velho abade, lívido d’espanto
Exclamou afinal:
«Tudo que existe é imaculado e é santo!
Há em toda a miséria o mesmo pranto
E em todo o coração há um grito igual.
Quer guarde um berço, quer proteja um ninho!
Só hoje sei que em toda a criatura
Desde a mais bela até à mais impura
Ou numa pomba ou numa fera brava
Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!...
Há mais fé e há mais verdade
Há mais Deus com certeza
Nos cardos secos d’um rochedo nu
Que nesta bíblia antiga…Ó Natureza
A única bíblia verdadeira és tu!...»


Final do poema de Guerra Junqueiro
Transcrito do livro A Velhice do Padre Eterno. 


Nota do Autor

“O facto em que se baseia este poemeto, conquanto pouco conhecido, é absolutamente verdadeiro. Os melros e algumas outras aves, como os rouxinóis e os pintassilgos, quando lhes encarceram os filhos, envenenam-nos. Ora nem todas estas aves assassinam os filhos, quando lhos prendem.
Só o fazem os mais extraordinários, os mais heróicos.
 O que nos demonstra que a acção é livre e responsável, e não um simples produto duma fatalidade orgânica.”

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domingo, 15 de maio de 2011

MURMÚRIOS.







Finda o Inverno
Surdo murmúrio
Fim do cativeiro.
O vento emudeceu,
O Sol desceu:
Renasce a Vida.
A Primavera
Vai, enfim, chegar,
Verdejante e florida.







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quarta-feira, 11 de maio de 2011

MISSÕES PREDESTINADAS.









Um dos meus (muitos) tesouros.


“O Melro”

O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, d’entre o arvoredo.
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para p passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro, d’entre a horta,
Dizia-lhe: «Bons-dias!»
E o velho padre-cura
Não gostava daquelas cortesias.

O Cura era um velhote conservado,
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado
Nem rosas no canteiro.
Andava às lebres pelo monte, a pé,
Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.
O melro desprezava os exorcismos
 Que o padre lhe dizia,
Cantava, assobiava alegremente,
Até que ultimamente
O velho disse um dia:
«Nada, já não tem jeito!
Este ladrão dá cabo dos trigais!
Qual seria a razão
Porque Deus fez os melros e os pardais?!»

E o melro no entretanto
Honesto como um santo,
Mal vinha no Oriente
A madrugada clara,
Já ele andava jovial, inquieto
Comendo alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara,
Desde a formiga ao mais pequeno insecto.

E apesar disto o rude proletário,
O bom trabalhador,
Nunca exigiu aumento de salário.

Que grande tolo o padre confessor!

Foi para a eira o trigo
E, armando uns espantalhos,
Disse o abade consigo:
«Acabaram-se as penas e os trabalhos.»
Mas logo de manhã, maldito espanto!
O abade, inda na cama,
Ouviu do melro o costumado canto,
Ficou ardendo em chama.
Pega na caçadeira,
Levanta-se dum salto
E vê o melro a assobiar na eira
Em cima do seu velho chapéu alto!

Chegou a coisa a termo
Que o bom do padre-cura andava enfermo
Não falava nem ria,
Minado por tão íntimo desgosto
E o vermelho oleoso do seu rosto
Tornava-se amarelo dia a dia.
E foi tal a paixão, a desventura
(Muito embora o leitor não me acredite)
Que o bom do padre-cura
Perdera…o apetite!




Excerto de um poema de Guerra Junqueiro.
Transcrito do livro "A Velhice do Padre Eterno".


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sexta-feira, 6 de maio de 2011

DESAFIOS.





"Vicente"


Naquela tarde, à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro, Vicente abriu as asas negras e partiu. Quarenta dias eram já decorridos desde que, integrado na leva dos escolhidos, dera entrada na Arca. Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz.
Calado e carrancudo, andava de cá para lá numa agitação contínua, como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje à criação.
Em semelhante balbúrdia – lobos e cordeiros irmanados no mesmo destino – apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus.
Numa indignação silenciosa, perguntava: - a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel? Que tinham que ver os bichos com a fornicação dos homens, que o Criador queria punir? Justos ou injustos, os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo, de irreprimível repulsa. E, quanto mais inexorável se mostrava a prepotência, mais crescia a revolta de Vicente.
Quarenta dias, porém, a carne fraca o prendeu ali. Nem mesmo ele poderia dizer como descera do Líbano para o cais de embarque e, depois, na Arca, por tanto tempo recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana. Mas pudera vencer-se. Conseguira, enfim, superar o instinto da própria conservação, e abrir as asas de encontro à imensidão terrível do mar.





A insólita partida foi presenciada por grandes e pequenos num respeito calado e contido. Pasmados e deslumbrados, viram-no, temerário, de peito aberto, atravessar o primeiro muro de fogo com que Deus lhe quis impedir a fuga, sumir-se ao longe nos confins do espaço. Mas ninguém disse nada. O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação. A consciência em protesto activo contra o arbítrio que dividia os seres em eleitos e condenados.
Mas ainda no íntimo de todos aquele sabor de resgate, e já do alto, larga como um trovão, penetrante como um raio, terrível, a voz de Deus:
- Noé, onde está o meu servo Vicente?
Bípedes e quadrúpedes ficaram petrificados. Sobre o tombadilho, desceu pesada, uma mortalha de silêncio.
Noé, porém, era homem. E, como tal, aprestou as armas de defesa.
- Deve andar por aí…Vicente! Vicente! Que é do Vicente?!...
Nada.
- Vicente!...Ninguém o viu? Procurem-no!
Nem uma resposta. A criação inteira parecia muda.
Até que alguém, compadecido da mísera pequenez daquela natureza, pôs fim à comédia.






- Vicente fugiu…
- Fugiu?!  Fugiu como?
- Fugiu…Voou…
Bagadas de suor frio alagaram as têmporas do desgraçado. De repente, bambearam-lhe as pernas e caiu redondo no chão.
Na luz pardacenta do céu houve um eclipse momentâneo. Mas a divina autoridade não podia continuar assim, indecisa, titubeante, à mercê da primeira subversão. O momento de perplexidade durou apenas um instante. Porque logo a voz de Deus ribombou de novo pelo céu imenso.
- Noé, onde está o meu servo Vicente?
Acordado do desmaio poltrão, trémulo e confuso, Noé tentou justificar-se.
- Senhor o teu servo Vicente evadiu-se. Ninguém o maltratou aqui. Foi a sua pura insubmissão que o levou…Mas perdoa-lhe, e perdoa-me também a mim…
- Noé!...Noé!...
Depois seguiu-se um silêncio terrível. E, no vácuo em que tudo pareça mergulhado, ouvia-se infantil, o choro desesperado do Patriarca, que tinha então seiscentos anos de idade.




Na consciência de todos a mesma angústia e a mesma interrogação. A que represálias recorreria agora o Senhor? Qual seria o fim daquela rebelião.
Teria Vicente resistido à fúria do vendaval, à escuridão da noite e ao dilúvio sem fim? E, se vencera tudo, a que paragens arribara?
Subitamente, um lince de visão mais penetrante viu terra. Toda aquela fauna desiludida e humilhada subiu acima, ao convés, no alvoroço grato e alentador de haver anda chão firme neste pobre universo.
Terra! Apenas a crista de um cerro a emergir das vagas. Mas bastava.
Terra!...Sim , existia ainda o ventre quente da mãe. Mas Vicente, o legítimo fruto daquele seio?
Vicente, porém, vivia. À medida que a barca se aproximava, foi-se clarificando na lonjura a sua presença esguia, que era ao mesmo tempo um perfil de vontade.
Chegara!... Conseguira vencer! E todos sentiram na alma a paz da humilhação vingada.
Ah, mas estavam «rotas as fontes do grande abismo e abertas as cataratas do céu»!
Ninguém podia lutar contra a determinação de Deus.





Transida, a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Como um espectador impessoal, seguia a Arca que vinha subindo com a maré. Escolhera a liberdade e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção.
Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação.
Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.
Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, a Arca estremeceu de terror, dependente do coração resoluto de Vicente. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu…
Que nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre…




Conto de Miguel Torga

Imagens recolhidas da Net

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