segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

"ODE AO AMOR".

Alexander Sulimov


Tão lentamente, como alheio, o excesso de desejo, 

atento o olhar a outros movimentos, 
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque, 
obscuro sexo à flor da pele sob o entreaberto 
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro 
e vago ainda, e súbito contrai-se, 
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes 
no interior da carne, as pernas se distendem, 
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as mãos, 
dedos esguios escorrendo trémulos 
e um sorriso irónico, violentos gestos, 
amor... 
             Ah tu, senhor da sombra e da ilusão sombria, 
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto, 
imagem sempre morta ao dealbar da aurora 
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida, 
fuga perpétua, demorado espasmo, distracção no auge, 
cansaço e caridade pelo desejo alheio, 
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes, 
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota, 
hesitação, vertigem, pressa arrependida, 
insuportável triturar, deslize amargo, 
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda. 

Distantemente uma alegria foi, 
imensa, já tranquila, apascentando orvalhos, 
de contacto a contacto, ansiosamente serenando, 
obscuro sexo à flor da pele... amor... amor... 
Ah tu senhor da sombra e da ilusão sombria... 
rei destronado, Deus lembrado, homem cumprido. 

Distantemente, irónico, esquecido. 


Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'  


26 comentários:

  1. E Jorge de Sena tão esquecido, ao que julgo!

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    1. Gosto de dar visibilidade aos que ficam mais esquecidos.
      Quase sempre os maiores...Menos lidos por serem mais complexos.
      :)

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  2. "uma alegria foi,
    imensa, já tranquila,
    apascentando orvalhos,
    de contacto a contacto"

    Sena
    excelente
    como sempre

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    1. Bonito, quando sentido e entendido, não é Rogério?

      :)

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  3. Continua o sentimento Love is in the air, não é, Janita??
    Beijinhos

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    1. É isso mesmo, Pedro!
      Sobretudo para "que não digam, que não falei d'Amor..."! :)

      Beijinhos

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  4. Dou-te um doce se conseguires compreender mais que : a, de que se, e, como, e, se !!!

    Dentífona apriuna a veste iguana
    de que se escalca auroma e tentavela.
    Como superta e buritânea amela
    se palquitonará transcêndia inana!

    Já fiz 3 posts sobre esta personalidade, mas em todos eles com sentido crítico negativo ! Na verdade "não o suporto" porque ele pretende gozar connosco, insultar a nossa inteligência e insultar-nos a nós portugueses e a Portugal !

    Vê e lê com a possível atenção ESTE .

    Beijinho, Janita !

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    1. Pois, Rui, não vou mesmo apanhar doce algum!!

      Ainda andei a ver no meu Dicionário da Língua Portuguesa, uma 5ª edição "muito corrigida e aumentada", segundo a Porto Editora, e não encontrei definição para as palavras "dentífona" e "buritânea".
      Desisti e fiquei por aqui.
      Isso tu já sabias que iria acontecer, não é? Pois!!

      Estive a ver com a atenção disponível, os teus post's de 2010, e de facto, aqueles poemas são intragáveis.

      Não acredito que Jorge de Sena tivesse intenção de ofender a inteligência de quem quer que fosse. Digo eu!
      Acredito mais que seja uma extravagância literária. Mas quem sou eu para opinar sobre o leitmotiv, ou lá o que é, que pode levar um intelectual a escrever bizarrias que ninguém entende?

      Repara que JS tem uma obra extensa e muito apreciada nos meios literários.
      Também Barbosa du Bocage escrevia todas as bacoradas que lhe vinham à cabeça e era um excelente poeta e escritor.
      O nosso Nobel, Saramago, por exemplo, tem uma escrita que eu não suporto. Digam lá o que disserem. Como poeta ainda o consigo ler, como romancista, não!
      E então? Estou no meu direito!! :)

      Claro que essa faceta de Jorge de Sena, também não gosto nem compreendo, mas quem sabe alguém estudioso desses 'fenómenos' literários, saiba explicar?

      Pois é, Amigo Rui, tu lá tens os teus justos motivos de não gostar do homem, mas se eu vir um poema que gosto, tanto se me dá que o autor tenha tido ataques de loucura de "escalca auroma e tentavela", ou não! :))

      Às tantas, estamos perante um idioma que não conseguimos detectar. Deixo o repto: Se houver alguém que nos possa elucidar quanto ao tema em questão, fico muito grata!

      Um beijinho e Obrigada, Amigo Rui! :)

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    2. “Tu leste com atenção “A Portugal” ? … o que ele diz de Portugal ?... Lê com atenção !

      “Eu não mereço
      A pouca sorte de nascido nela.
      Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
      quanto esse arroto de passadas glórias.”
      “Torpe dejecto de romano império;
      porca de esgoto atlântico; irrisória face
      de lama, de cobiça, e de vileza,
      de mesquinhez, de fatua ignorância;””
      “ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
      eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
      és mais que cachorra pelo cio,
      és peste e fome e guerra e dor de coração.
      Eu te pertenço mas seres minha, não.”

      ...e sobre “No País dos Sacanas” ???... e refere-se a “nós” !!!

      “Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
      e todos estão contentes de se saberem sacanas.”
      “Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
      Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
      porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
      que a nobreza, a dignidade, a independência, a
      justiça, a bondade, etc., etc., sejam
      outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
      a um ponto que os mais não são capazes de atingir.”
      “No país dos sacanas, ser sacana e meio?
      Não, que toda a gente já é pelo menos dois.”


      … E ainda em “A Diferença Que Há” (e repara no último verso em que ele diz que somos todos analfabetos e que os poetas até abusam disso !

      A diferença que há entre os estudiosos e os poetas
      É que aqueles passam a vida inteira com o nariz num assunto
      A ver se conseguem decifrá-lo, e estes
      Abrem o livro, lêem três páginas, farejam as restantes
      (nem sequer todas) e sabem logo do assunto
      o que os outros não conseguiram saber. Por isso é que
      os estudiosos têm raiva dos poetas,
      capazes de ler tudo sem Ter lido nada
      ( e eles não leram nada tendo lido tudo).
      O mal está em haver poetas que abusam do analfabetismo,

      … E quanto ao soneto “PANDEMOS”

      … cheguei a ler que ele, criando palavras que não existem, está mesmo a gozar com o “analfabetismo” dos portugueses que “comem” tudo que lêem como sendo coisas boas , quando nem sequer existem !

      … É simplesmente revoltante !!! ... Eu não aguento !

      Abraço, Janita e desculpa a extensão

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    3. Não há nada para desculpar, Rui! Eu até agradeço a tua disponibilidade para fazer uma análise tão empolgante desses poemas que enxovalham a nossa Pátria.
      De facto, tens razão! A ser assim...Se ele inventava essas palavras só para querer fazer 'engolir' as suas enormidades. Porém, quem o lia não eram nem são os 'ignorantes' os 'iletratos'. Assim sendo, que pretenderia ele? Sobressair, perante os seus pares?

      Sinceramente Rui, gostaria muito de encontrar e entrar num consenso contigo, mas estou por demais perplexa. Sorry!

      Beijinhos.

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    4. Rui, escrevi ali em cima, 'iletratos' mas queria escrever "iletrados", obviamente!

      :)

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    1. Ah, teremos sempre Paris!!

      E o Rio Sena, pois claro, Eufrázio!

      :)

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  6. Conheço tão pouco Jorge de Sena...
    Obrigada Janita por o trazeres aqui.
    Gostei muito.

    Beijinhos Amiga
    (^^)

    (enviei-te um mail)

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    1. Obrigada, Afrodite. És uma querida!!

      Beijinhos

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  7. Querida Janita, gosto de Jorge de Sena, acho que é por vezes incompreendido, mas temos sempre que ver o contexto em que escreveu as suas poesias de amargura para com Portugal da altura.
    Quanto ao poema que escolheste tão bem, é um verdadeiro hino descritivo do amor.
    A arte de Alexander Sulimov que escolheste está também perfeita, eu reparo em tudo :)

    Um beijinho

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    1. Obrigada, querida Fê.

      Um beijinho amigo.

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  8. que amor tão "seco" de tão profundamente intelectualizado

    de que nos salva a feroz ironia do Poeta

    gosto do Sena, poeta.

    beijo

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  9. Tenho ouvido muitos elogios sobre Jorge de Sena e a sua obra sendo raras as críticas que oiço ou leio.
    Porque é mais fácil e menos comprometedor elogiar do que criticar? Talvez.
    Eu não "o li" o suficiente para ter uma opinião.
    Mas sobre o amor e o amar tenho alguma experiência e gosto!
    Beijokas abraçadas a sorrisos

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    1. Então se sabes e gostas, fala de Amor! Deixe-mos as críticas e os elogios para os críticos literários, boa?

      Beijokas enlaçadas de sorrisos, Ó Kok!!

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    2. É impossível criticar o Jorge de Sena como intelectual, escritor, poeta.

      Criticar o Jorge de Sena como um ser azedo, isso já é uma outra história.

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  10. Não conhecia. Gostei. Obrigada pela partilha aqui

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  11. Jorge de Sena, in Pedra Filosofal é uma escolha de mestre, Janita, com a bela imagem.

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    1. 'Pedra Filosofal', como sabes, Ematejoca, é o título do livro de poemas que inclui este: "Ode ao Amor" e outros.
      Eu gosto, mas admito que haja quem não goste.

      Obrigada, Ematejoca.

      Beijinhos

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