sábado, 1 de abril de 2017

Acordes da Alvorada.

Asilo

Sou velho e como tal não preciso de dormir muito. Acordo ainda de noite.
Ouço ao longe os primeiros acordes da alvorada no assobio dos melros que fizeram da cidade o seu bosque.

“Aquela triste e leda madrugada,
  cheia toda de mágoa e de piedade,
  enquanto houver no mundo saudade
  quero que seja sempre celebrada.”


Faço um esforço para me recordar dos outros versos. No silêncio da minha memória, quando termino de declamar, já é dia.
Regresso ao presente com o ruído da porta do quarto a abrir e com um sonoro bom dia que me faz estremecer.
Porque grita?
A sua primeira tarefa consiste em abrir as janelas, de par em par, para renovar o ar do aposento.
Traz a seguir uma esponja e começa a higiene do meu corpo frágil e dorido. Compõe a roupa da cama.
Não fala, só o indispensável. Porque haveria de desperdiçar o seu discurso com alguém que nunca se sabe quando esta lúcido?
Rezo para que tudo termine rapidamente para voltar a ficar sozinho.
Rezo, que ironia! Deixei de rezar em criança e agora volto a fazê-lo!
Quem me visita ao longo do dia, ou melhor, quem espreita pela porta entreaberta, vê sempre o mesmo cenário
 (peça de teatro inacabada à espera que o pano caia):

Um quarto espartano, de paredes brancas salpicadas de humidade em vários lugares e janelas pintadas de verde, com a tinta estalada a propagar-se em todas as direcções como teias de aranha. Pousam os olhos no leito e no corpo envelhecido, retesado como uma árvore ressequida que morre aos poucos; um monte de ossos que parece querer perfurar a pele (que se assemelha a um mapa-múndi de rugas entrecruzadas).
Desviam os olhos - não vale a pena - eu também desvio os meus.
Procuro nas gavetas da memória e encontro: Uma velha foto de mulher. Apesar dos anos ainda vislumbro o cintilar do sol, o jogo das sombras na sua pele e o vento despenteando os seus cabelos.
Visito todos os pormenores da fotografia ao compasso de fragmentos de uma melodia romântica:


“Sei de cor cada traço do teu rosto, do teu olhar
Cada sombra da tua voz e cada silêncio,
Cada gesto que tu faças
Meu amor sei-te de cor

Um leve rumor faz-me olhar para a janela. Lá está a pomba que costumava pousar na janela do quarto ao lado do meu e que comia, sem medo, as migalhas de pão que a velhota deixava no peitoril. Agora vens até à minha, pareces perguntar porque razão aquela janela nunca mais se abriu.
Não te posso dar de comer, amiga, mas posso contar-te uma história. Tens tempo para ouvir um alienado como eu? Ora escuta:
Eu era jovem, talvez um pouco inocente…um dia conheci o amor, uma paixão que…
Atenta neste pedacinho de poema que nos diz que amar:


“É querer estar preso por vontade;
 é servir a quem vence, o vencedor;
 é ter com quem nos mata, lealdade.”

Espera, não te vás embora, ainda agora comecei, por favor!
Voaste…
Sinto um ardor mas as lágrimas já não me surpreendem como antigamente.
Quem tiver coragem de olhar para dentro dos meus olhos só verá um abismo, um requiem de emoções que ninguém poderá entender, uma cegueira para este mundo, uma noite escura.

 “Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
   Quantas vezes têm eu interrogado
   Teu verbo, teu oráculo sagrado,
   Confidente e intérprete da Sorte”


  O pano tarda em cair...

Autor: Ricardo Rodrigo


Este é o mais belo e comovente texto que já tive oportunidade de ler na blogosfera. O seu Autor, de quem tenho o privilégio de ser amiga, aniversaria hoje. Quero presenteá-lo com algo que eu jamais conseguiria escrever. O retalho de uma realidade que todos sabemos existir e vamos tentando não pensar.

PARABÉNS, QUERIDO RICARDO, QUE A TUA VIDA SEJA O SOMAR DE BONS MOMENTOS QUE, COMO   SEMPRE ME DIZES, CONSTITUEM A TAL FELICIDADE.



Um abraço Grande, grande, e muitos beijinhos. 
:)



24 comentários:

  1. Parabéns ao Ricardo. Pelo aniversário e pelo belíssimo texto. Parabéns para si Janita. Por ser capaz de sentir essa bela amizade.
    Um abraço e bom fim de semana

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    1. Obrigada, amiga Elvira, em meu nome e do Ricardo.
      Um abraço

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  2. Bom dia
    há realmente muita sabedoria neste texto. PARABENS. e obrigado a quem o escreveu e a quem o publicou.
    B.F.S.
    JAFR

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    1. Bem-vindo, Joaquim Rosa.

      Há muita sabedoria e uma imensa sensibilidade, sim.
      Muito obrigada, em meu nome e do meu amigo.

      Bom fim-de-semana

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  3. Parabéns ,maravilhoso sábado ,beijinhos muitas felicidades

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    1. Obrigada, Emanuel, igualmente para si.

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  4. Que texto comovente e que revela sentimentos e sentires tão reais.
    Parabéns para o teu amigo e para ti que partilhaste este maravilhoso momento.

    Beijinhos Janita

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    1. Este texto já foi escrito em dois mil e treze e não me tenho cansado de o ler. Há medida que o tempo passa mais o sinto e me comovo.
      Em nome de ambos, o meu muito obrigada, Manu.

      Beijinhos.

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  5. Duplos parabéns ao se Amigo Ricardo.

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    1. Agradeço, em seu e meu nome, José.

      Muito obrigada.

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  6. Janita,
    O teu amigo tem muita sorte em ter uma amiga co o tu!

    Abraço grande

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    1. Somos ambos uns sortudos, Ricardo! :)

      Um beijinho

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  7. Parabéns ao teu amigo!
    A amizade é um dos sentimentos mais fortes que existe, mas infelizmente há quem não lhes dê valor.

    Beijinho Janita e bom fim de semana.

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    1. Uma boa e verdadeira Amizade é de valorizar e preservar, embora por vezes surjam desaguisados, Adélia. Acho isso tão natural...Eu, e o Ricardo, já temos tido as nossas questiúnculas. :) Mas tanto ele, como eu, sabemos separar as águas, e voltar a uni-las...

      Beijinhos, Adélia.

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  8. Bom, lá terei de ir conhecer esse teu amigo...

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    1. O Ricardo já não escreve em blogues, Rogério.
      Obrigada na mesma. :)

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  9. Uma realidade muito dura. Um excelente texto. É como dizes, uma realidade em que tento não pensar.

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    1. Uma triste realidade, tão bem descrita, que nos rasga a alma, Luísa.
      Algo que não quero pensar, mas penso, e temo tanto...

      Um beijo e obrigada.

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  10. Parabéns ao teu amigo, Janita
    O seu texto tocou-me, não devia ser assim
    um beijinho
    Gábi

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    1. O Ricardo vai gostar de ver o quanto foi apreciado o seu dom para escrever, com tanto sentimento, estes retalhos da Vida, Gábi. Obrigada.
      É um texto que não deixa ninguém indiferente.
      Um beijinho.

      Um beijinho

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  11. Não sei como este comovente texto me passou despercebido.
    Convivo muito perto com a velhice e querida Janita, não é fácil ser velho.

    Um beijinho comovido

    O Toque do coração

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    1. É natural que não te tenhas apercebido deste texto, Amiga Fernanda. Com tantos afazeres, o tempo para 'vadiar' pela blogo fica reduzido, mas ainda bem que o leste. Sabia que irias apreciar, precisamente, por estares perto desta realidade.

      Um beijinho e boa semana, amiga.

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  12. Quanta tristeza e amargura ressalta deste texto, quanto desejo de alcançar outras vidas, de ser diferente.
    Não sei se é ficção ou se é realidade. Mas sei (acredito saber) que é obra de um sonhador, dos que sonham com os olhos bem abertos para a realidade.
    Parabéns Ricardo Rodrigo pelo teu aniversário. Decerto que voltaremos ao mesmo assunto no próximo ano!
    Grande abraço pah!

    E para a amiga Janita: uma remessa de beijos *_ó

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    1. Comoveste-me, Kok, meu Amigo. Também tu és uma alma sensível e sonhadora, pois só o sendo poderias ter escrito este comentário.
      O Ricardo é um sonhador sim, mas atento às duras realidades da vida. Se ele não vier aqui não leves a mal, é muito tímido e não gosta de dar nas vistas. Este seu texto coloquei-o aqui sem lhe dizer nada, foi uma surpresa que lhe quis fazer e o deixou "sem jeito", como me disse.

      Obrigada amigo. Também, para ti, vai uma remessa de abraços e beijinhos...Ò.Ó

      :)

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