Sonhei com um país onde todos chegavam a
Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha à
escuta do universo; em seguida, fabricava desde a matéria prima o papel onde ia
assentando as confidências que recebia directamente do universo; depois, descia
até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chocos; gravava letra
por letra o tipo com que compunha as suas palavras; e arrancava da árvore a
prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros.
Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam
escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.
Quando
eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas,
só faltava uma coisa – salvar a humanidade.
(Extracto de um texto de Almada Negreiros)
Adenda: Agendei este post para as 08:00 de hoje, já tarde de madrugada. Por um lapso, do qual peço desculpa, não fiz referência à autora desta pintura: Sarah Afonso! Companheira, mulher e mãe dos filhos de Almada Negreiros. Como gosto muito deste outro auto-retrato, alargado à sua família, onde figura com o marido e o primeiro filho, aproveito o ensejo para vo-lo apresentar. Obrigada e desculpem a minha falha!


