(...)
Ao fim da tarde passeio sozinho pela
marginal e olho o casario que se debruça ante a baía.
É impossível não ficar com essa imagem na
memória. E à noite, conduzem-me pelo rebuliço da «Ilha de Luanda».
A vitalidade
da vida nocturna já a conhecia mesmo nas festas que só terminavam na manhã do
dia seguinte. Forma criativa e lúdica de vencer os constrangimentos.
Sente-se
que estamos num limbo efervescente e que esta terra faz justiça à criatividade
que forjou o semba, a quizumba, o kuduro,
e como esses ritmos foram capazes de viajar e se mestiçar em terras
distantes. O mesmo sucedeu a expressões como «bué», «cota», «estamos juntos».
Tudo made in Angola.
Mas há qualquer coisa de Maputo naquele
alvoroço nocturno e me apaixona essa proximidade que, de quando em quando, se
revela distinta.
O meu amigo de viagem – que está jantando comigo
- contempla as luzes do outro lado da baía e
suspira antes de falar:
-- Faz lembrar a tua cidade, não é?
Aceno que sim sabendo que a pergunta tem
outro sentido. E sorrio não tanto para o meu interlocutor mas porque, de
repente, me pareceu ver as luzes de Maputo espelhadas na baía de Luanda.
Afinal, eu e o meu amigo sabemos: os
lugares não se comparam.
Como as pessoas, cada um deles acontece num
momento único, numa única e irrepetível vida.
(
Julho de 2008)
Nota. Encontro-me, neste momento, com Mia Couto, de alma e coração, a re)viver com ele as suas memórias. Estou a adorar...
Por isso, partilho com quem também quiser connosco embrenhar-se nos sons, cores, ritmos e belezas de África. Claro, só para quem quiser e gostar...






















