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sábado, 16 de março de 2019

DA LUZ.



Claro mistério
Do azul etéreo
Sonho sidéreo
Luz!



Da terra dorida
Alento e guarida
Fermento da vida
Luz!

Eucaristia santa
Vinho e pão que alevanta
Homem, rochedo e planta…
Luz!



Virgem ígnea das sete cores
Toda abrasada d’esplendores
Mãe dos heróis e mãe das flores
Luz!


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As palavras são uma ínfima parte do poema de Guerra Junqueiro:
 ORAÇÃO À LUZ, no livro aqui publicado.

As fotografias, como bem deduzem, são do meu quintal/jardim.

TENHAM UM
 BOM
 FIM-DE-SEMANA.

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

DO SILÊNCIO.




Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,
Seca, deserta e nua, à beira d'uma estrada.

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.

Sobre uma folha hostil duma figueira-brava,
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,

A aurora desprendeu, compassiva e divina,
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.

Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la,
De perto era um diamante e de longe uma estrela.

Passa um rei com o seu cortejo de espavento,
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.

 "No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar,
Há safiras sem conta e brilhantes sem par,

"Há rubins orientais, sangrentos e doirados,
Como beijos d'amor, a arder, cristalizados.

"Há pérolas que são gotas de mágoa imensa,
Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.

"Pois, brilhantes, rubins e pérolas de Ofir,
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir

"Nesta c'roa orgulhosa, olímpica, suprema,
Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!"

E a lágrima de leste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.


A Lágrima – Poema de Guerra Junqueiro

[Fotografia é minha]



                                                                         

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domingo, 16 de dezembro de 2018

Porque É Tempo De Perdão, Tolerância E Compreensão......


Piloto 


Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, e o infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da quinta.
Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã Joaninha.
Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações: partia então como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.

Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da quinta.
Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.
Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade enquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.
Era como se dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu dono?»
O ladrão quis pôr então outra vez o saco donde o tinha tirado; Piloto não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não desonrar.
Mas o homem ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até à margem do ribeiro.
Atou uma grande pedra à outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o à água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço, caiu também.
Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes e trazido para terra o seu mortal inimigo.
Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.
Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse dia, esforçou-se a si mesmo e combateu as suas más inclinações.
O exemplo do cão corrigiu o homem.




* * * * * 


Nota: Dedico este postal a todos aqueles que gostam e zelam pelo bem-estar dos animais  -  de uma maneira geral e do cão em especial -  nomeadamente ao meu amigo Daniel, acérrimo defensor dos direitos dos animais. 
(sem pieguices nem exageros.)

+++

Dedico ainda este postal, por bem-vinda sugestão do Amigo Rogério:

"A todos os homens que, tendo errado, 
se envergonharam do erro
e enveredaram pelo caminho certo"

Pronto...está dedicado...!! 





quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Da Grandiosidade.

 “O maior homem para mim, é o mais virtuoso, o mais altruísta, o mais fraternal; e a maior nacionalidade, a que realize mais largamente o bem, isto é: mais harmonia entre os homens e entre os homens e a Natureza.”

(...)



(Fragmento)
(Notas sobre a Suíça.)

Pequeno extracto das notas enviadas por Guerra Junqueiro ao Jornal de Genebra, e publicadas em 1913.

Páginas 118/122 in “Prosas Dispersas”.








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terça-feira, 13 de março de 2018

Despedidas.



Carta a F.



Na hora em que parti meu coração deixei-o
Na urna divinal desse divino seio
E o teu sinto-o eu aqui a bater de mansinho
Dentro em meu peito como uma rola em seu ninho.


Quem terá sido esta F.  para quem Guerra Junqueiro escreveu estes versos há cento e trinta e cinco anos? Se alguém souber, diga. Eu ainda não sei quem é.

Só sei que para mim, não foi...ou será que foi?


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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

LUME D'ÁGUA.



“Cantar? E para quê? – me dizem todos:
Não é com cantos que se ganha a vida.
Por desgraça assim é; mas eu já agora,
Enquanto o barco da existência vogue
Ao lume d’água, irei cantando sempre.
Se com meus versos não alcanço glória,
Ao menos logro distrair o espírito
Das tristezas reais da vida amarga.”



Assim pensava e escreveu Guerra Junqueiro, como introdução
 ao seu poema "Baptismo de Amor", neste Vibrações Líricas." 

Concordo inteiramente: Quem não ganha a vida a cantar, 
canta  para as agruras da vida espantar. Ao menos isso...




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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Como Um Camponês Aprendeu O Padre - Nosso.



Tinha um coração duro e não era esmoler. Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitência rezar sete vezes o Padre-Nosso.
--  Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.
--  Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitência: dar a crédito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da minha parte.
     No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
      »Como te chamas?- perguntou-lhe o camponês»
      «Padre – Nosso – Que – Estais – No  - Céu, respondeu o pobre.
      «E o teu apelido?»
      »Seja – Santificado – O – Vosso – Nome. »
E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
Ao outro dia chega outro pobre.
       «Como te chamas?»
       «Venha – A – Nós – O – Vosso – Reino.»
        «E o apelido?»
        «Seja – Feita – A – Vossa – Vontade.»
 E partiu com o seu alqueire de trigo.
Veio terceiro pobre.
         «Como te chamas?»
         «Assim – Na – Terra – Como – No – Céu.»
         «E o teu apelido?»
         «Dai - Nos – Hoje – O – Pão – Nosso – De – Cada – Dia.»
E levou o seu alqueire.
Vieram ainda mais dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma forma até chegar ao Amén.
Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão
           – Então já sabes o Padre – Nosso?
         – Não, senhor cura, sei só os nomes e apelidos dos pobres a quem emprestei o meu trigo.
             – Quais são? Tornou o padre.
E o aldeão enumerou-lhos a seguir, e pela ordem em que cada um se tinha apresentado.

          – Já vês, disse o confessor, que não era muito difícil aprender o Padre- Nosso, porque já o sabes perfeitamente.  


Nota:
Há aprendizagens que só se conseguem adquirir a custo das próprias vivências e necessidades. Essas, são as que nunca se esquecem...ficam para toda a vida.

Do livro de Guerra Junqueiro: "Contos para a Infância".
( porque é de pequenino que se torce o pepino)

Pág. 57 - 58 - 59.






quarta-feira, 5 de abril de 2017

DO AZUL INFINITO.




ORAÇÃO À LUZ


 (  Excerto )



A inabalável rocha taciturna
Quando a electriza teu deslumbramento
Acorda e sonha na mudez soturna…


Por ti se volve areia; e num momento
A areia é lodo, é seiva, é fruto lindo
É carne humana, é sangue, é pensamento…


Por ti a água exulta, anda bramindo
Por ti rola do monte ao sorvedoiro
E voa, em nuvens, pelo azul infinito…


Por ti um sopro anímico e fecundo
Penetra o lodo, a rocha, a água, o ar
Voa de esporo a esporo, e mundo a mundo…


Por ti a asa, o lábio, a mão, o olhar…
Por ti o canto e o riso e o beijo e a ideia…
Por ti o verbo ser e o verbo amar!…




( Guerra Junqueiro )




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domingo, 19 de março de 2017

UM GRÃO DE TRIGO




        ORAÇÃO AO PÃO

( EXCERTO )


Com quantos grãos de trigo um pão se fez?
         Dez mil talvez?


Dez mil almas, dez mil calvários e agonias
     Todos os dias


Para insuflar alentos n’alma impura
           Duma só criatura


Antes que o mordas, tigre carniceiro
   Ergue-o na luz, beija-o primeiro


A humanidade é seara imensa em chão de areia,
    Que Deus recolhe e Deus semeia


E cada homem, quer o rei, quer o mendigo,
    É na seara de Deus um grão de trigo.





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domingo, 11 de dezembro de 2016

O PAPÃO.

Vá-se lá saber porquê - ou melhor, eu sei - quando as ruas começam a ficar profusamente iluminadas, com as luzes ornamentais natalícias, quando as palavras Humanidade e Fraternidade, atingem uma maior dimensão e  tudo e todos à nossa volta nos parecem mais predispostos a esquecer animosidades e o mundo se enche, subitamente, de um espírito de boa-vontade e entreajuda, lembro-me de Guerra Junqueiro e do livro: 
A Velhice Do Padre Eterno.
 Cá por coisas minhas...(*)


As crianças têm medo à noite, às horas mortas,
Do papão que as espera, hediondo, atrás das portas,
Para as levar no bolso ou num capuz dum frade.
Não te rias da infância, ó velha humanidade,
Que tu também tens medo ao bárbaro papão,
Que ruge pela boca enorme do trovão,
Que abençoa os punhais sangrentos dos tiranos,
Um papão que não faz a barba há seis mil anos,
E que mora, segundo os bonzos têm escrito,
Lá em cima, detrás da porta do infinito!





(*)...Que não vou dizer.



domingo, 18 de setembro de 2016

DOS MEDOS.



O  PAPÃO


As crianças têm medo à noite, às horas mortas
Do papão que as espera, hediondo, atrás das portas
Para as levar no bolso ou no capuz dum frade.
Não te rias da infância, ó velha humanidade,
Que tu também tens medo ao bárbaro papão
Que ruge pela boca enorme do trovão
Que abençoa os punhais sangrentos dos tiranos.
Um papão que não faz a barba há seis mil anos
E que mora, segundo os bonzos têm escrito,
Lá em cima, detrás da porta do infinito.


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( Estudo de Camilo Castelo Branco)

Desde que o nervoso poeta iconoclasta Guerra Junqueiro atirou às ventanias tempestuosas da opinião pública vinte e oito sátiras com o rótulo de Velhice do Padre Eterno, as tais ventanias, irrompendo dos odres, começaram a rugir que o poeta é...  ateu!  Que o dissesse a cleresia, não havia que estranhar à sua boa fé nem à sua inteligência; mas que o digam, com gestos escandalizados, uns leigos - leigos em duplicado - críticos inéditos, mas mexeriqueiros esclarecidos de leituras teutónicas, isso é que me impele a defender, sem procuração, o poeta da calúnia de ateísta.

(...)

São Miguel de Ceide, 1886
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