Álvaro de Campos:
Um dos heterónimos de Fernando Pessoa
A característica predominante nos seus poemas, é a angústia existencial, porque está relacionada com o tédio e a náusea.
Essa angústia é provocada pela dor de ser lúcido e possuído de loucura, mas consciente dessa loucura, o que intensifica o seu sofrimento.
Outro factor que contribui para essa angústia é o facto de ele se considerar um inútil, um “vaso vazio inútil” que se partiu em mil pedaços:
“Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir”.
A angústia provocou-lhe um cansaço existencial devido às suas ambições não concretizadas na medida desejada: impossibilidade de anulação de todos os limites, sensações inúteis, paixões violentas por coisa nenhuma, o viver excessivo, o correr cada momento no limite, o ter querido o finito e o possível, mas ter-se desiludido:
“O que há em mim é sobretudo cansaço”.
Concluindo, Álvaro de Campos sente um cansaço de tudo, não especialmente e concretamente de coisa alguma...
--------------------------------------------------------------------------------------------------
--------------------------------------------------------------------------------------------------
"POEMA EM LINHA RECTA"
Álvaro de Campos
Nunca conheci quem tivesse levado pancada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil
Eu tantas vezes irresponsavelmente parasita
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda.
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras
pedido emprestado sem pagar.
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho.
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos.
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que sou vil e erróneo nesta Terra?
Poderão as mulheres não os terem amado.
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído.
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil.
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
***********************************************************
************************************************















Meu querido filho, que tu me amas eu já sabia...pois se eu te amo tanto!