domingo, 31 de maio de 2026

SEM PRESSA.

 

Eu e Pessoa a tagarelar no Largo do Rossio...


Não tenho pressa. Pressa de quê?

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,

Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.


Não; não sei ter pressa.

Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -

Nem um centímetro mais longe.

Toco só onde toco, não aonde penso.


Só me posso sentar aonde estou.

E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,

Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,

E vivemos vadios da nossa realidade.

E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.


"Não Tenho Pressa" - Poema de Alberto Caeiro, 'in' Poemas Inconjuntos

Heterónimo de Fernando Pessoa.


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10 comentários:

  1. Pelo que vejo, o Pessoa sabia muito bem onde tinha os pés. E a cabeça também, por isso nos deixou de herança muitas palavras bonitas que valem ouro!

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    1. Não sinto um grande fascínio pela poesia de Pessoa e alguns dos seus heterónimos, porém, este Guardador de Rebanhos tem, para mim, um encanto especial.

      Um abraço, Tintinaine

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  2. Curiosa essa multiplicidade de Fernando Pessoa_ penso que a intenção era apagar a identidade para que pudesse florescer em outro. Alberto Caieiro era considerado o mestre de todos , dizem.
    O poema nos faz pensar que deveríamos cuidar melhor da nossa ausência de calma , nem sempre conseguimos.
    Deixo abraços e desejo uma semana serena e poética.

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    1. Na verdade, Lis, este heterónimo de Pessoa é especial, embora goste, gostando menos, de Álvaro de Campos.
      É certo, conseguir manter o estado de espírito calmo, em situações difíceis não é para todos.
      Grata pela companhia mando um forte abraço.

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  3. Lindo poema e fotos e tua conversa com Pessoa ficou tri legal! beijos, chica

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    1. A minha conversa com o poeta foi tipo monólogo, querida Chica.
      Eu falei e muito, mas ele só escutou...
      Beijinhos e boa semana, amiga.

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  4. Já Sua Excelência o Presidente da República, Doutor António José Seguro, enquanto Secretário-Geral do PS, perguntava , então: "qual é a pressa?". Dizem, até, que coelhas apressadas parem os filhotes cegos.
    Devagar se vai ao longe, também é dito.
    Entretanto, que lhe parece que diria o Pessoa enquanto a ouvia a declarar o quanto gostava da sua poesia? Talvez: "e se me trouxesses um copinho de tinto ali do Martinho, ou até uma ginjinha?", enquanto dizia para si próprio: "bela mulher, esta. Desculpa lá, ó Efigénia"
    Tenha uma boa semana, quentinha como previsto.
    1 bji.

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    1. Mas que inspirado está!! Não terá ingerido uma bejeca a mais?
      Não sei como seria com o Fernando, mas com os anteriores poetas era absinto o que eles bebiam. Já agora...o que raio é essa bebida?- espirituosa ou altamente perniciosa?
      Bem não faria, pois todos morreram cedo e tuberculosos, coitados.
      Semana quentinha? E eu a suspirar por dias frescos...
      Beijinho

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  5. Não é Efigénia ou, melhor, Ifigénia, mas Ofélia. Erro meu, não direi "amor ardente", já que estamos na área da poesia.

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