segunda-feira, 23 de maio de 2011

PARADOXOS!!



“Humilhações”

Esta aborrece quem é pobre. Eu, quase Job.
Aceito os seus desdéns, seus ódios idolatro-os
E espero-a nos salões dos principais teatros,
Todas as noites, ignorado e só.

Lá cansa-me o ranger da seda, a orquestra, o gás
As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos.
E enquanto vão passando as cortesãs e os brilhos
Eu analiso as peças no cartaz.

Na representação de um drama de Feuillet
Eu aguardava, junto à porta, na penumbra
Quando a mulher nervosa e vã que me deslumbra
Saltou soberba o estribo do coupé.

Como ela marcha! Lembra um magnetizador
Roçavam no veludo as guarnições das rendas
E, muito embora tu, burguês, me não entendas
Fiquei batendo os dentes de terror.

Sim! Porque não podia abandoná-la em paz!
Ó minha pobre bolsa! Amortalhou-se a ideia
De vê-la aproximar, sentado na plateia,
De tê-la num binóculo mordaz!

Eu ocultava o fraque usado nos botões
Cada contratador dizia em voz roufenha:
- Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
E ouviam-se cá fora as ovações.

Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger
Via-a subir, direita, a larga escadaria
A entrar no camarote. Antes estimaria
Que o chão se abrisse para a abater.

Saí; mas ao sair senti-me atropelar
Era um guarda municipal sobre um cavalo
Espanca o povo, irei-me; e eu, que detesto a farda
Cresci com raiva contra o militar.

De súbito, fanhosa, infecta, rota, má
Pôs-se na minha frente uma velhinha suja
E disse-me, piscando os olhos de coruja:
 Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?...   

                                                                                                    
Poema de Cesário Verde.

(De todo o coração a - Silva Pinto)
 Dedicatória do Autor.

"A esperança é como o céu nocturno: não há recanto tão escuro onde um olhar que se obstina não acabe por descobrir uma estrela."

Citação de Octave Feuillet
Dramaturgo e escritor francês do século XIX
ao qual o autor se refere no poema.

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22 comentários:

  1. Bonito poema de Cesário Verde!

    Beijinho e boa semana

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  2. Excelente a Janita ter ido buscar uma citação de Feuillet para ilustrar este belíssimo (este???) de Cesário Verde. Na verdade faço aquela interrogação porque sou apaixonado pela poesia de Cesário Verde. Este que hoje trouxe é fortemente observativo - não são todos? e tem aquele tipo de final que me seduz. O inesperado.

    Se aquela por quem já não tenho risos
    Me concedesse apenas dois abraços,
    Eu subiria aos róseos paraísos
    E a lua afogaria nos meus braços,

    PS. Tenho uma colecção bonita de fotos do Alentejo. É de onde mesmo?

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  3. Minha querida

    Um post muito lindo e perfeito, eu adoro ler Cesário Verde.

    Deixo o meu beijinho
    Sonhadora

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  4. Ele fala da insegurança que nos é comum a todos.... sem excepção!
    Sentimo-nos mal e olhados depreciativamente, quando queríamos que nos vissem maravilhosos!
    A vida é... e sempre foi assim!

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  5. Um texto forte, impressionante. Beijos, Janita.

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  6. Janita
    Bonito poema de Cesário!
    Nunca tinha ouvido falar de Feuillet.
    Apesar da poesia me poder transportar para outro universo, não sou propriamente um apaixonado da dita.
    Beijinho minha amiguinha!

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  7. Janita,

    a estrofe é mesmo de Cesário Verde e é do poema Arrojos.
    O ano passado estive em Vila Nova de S. Bento a assistir à festa das cruzes. Quanto a Serpa já lá não vou há uns tempinhos mas gosto muito e, obviamente, não dispenso o Lebrinha (imperial oblige).
    Quanto a Mértola tenho casa lá perto.
    Beijinho.

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  8. Minha querida janita, tudo bem ai em portugal? noticias tristes me chegam sob a situação desta terra linda, mas também noticias alegres principalmente de Fatima onde meus irmãos da consolata estão, jovens unidos em busca de um Ideal, gosto muito disto.
    belo texto o seu
    beijos

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  9. Olá, Janita!

    Corajosa e pungente a confissão deste paixão dorida dum Zé Ninguém assumido, pela mulher errada, de superior condição. Como se pode sofrer quando se não pode ter a mulher amada...!Ele descreve-o aqui lindamente bem!

    Gostei muito de ler; é um grande poeta, que merecia mais reconhecimento.

    Beijinhos.
    Vitor

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  10. Bonito poema que con cierto pesar debo decir que no lo conocía.

    Saludos

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  11. Amiga Janita!

    Pobre do plebeu que se apaixonou pela burguesa.
    O amor tem destas coisas.
    Já não me lembro de quando foi a última vez que li Cesário Verde.
    Obrigada.

    Beijinhos

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  12. Minha Querida Amiga Janita,
    Belo poema de Cesário Verde que bem revela o sentimento do Zé Ninguém pela bela Burguesa! O pensamento de Feuillet foi muito bem conseguido para fecho deste poema.
    Um beijinho muito amigo

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  13. Cesário, que morreu tão novo...e com receio de ser confundido com outro qualquer

    Um abraço

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  14. Un poema fuerte, con garras este de Cesário.

    besos

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  15. Querida Janita,

    Mais um belo momento de poesia.

    O poeta observador, objectivo para uns, subjectivo para mim, visto ser o olhar muito personalizado o dele.

    A grande distância entre o balcão e a plateia, a burguesia e o povão que se gostaria de ver diluída e equilibrada, mas que se constata que essas diferenças continuam a escavar um fosso enorme, também no momento presente.

    Puxo de um cigarro, não para dar à velhinha, mas porque nessa pausa, me escuso a disparates que nada resolvem e, enquanto isso olho o firmamento esperando vislumbrar uma estrela que sei brilhará, se as nuvens se dissiparem e o permitirem.

    Beijo e kandandos meus...

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  16. que texto fantástico! é maravilhoso.
    a nossa insegurança...que desenha monstros onde não há.

    um bom dia pra vc!

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  17. Gosto especialmente de Cesário Verde (o poeta de Lisboa), pela fina ironia dos seus poemas.
    Este é um exemplo da minha opinião.

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  18. Quando chego no seu blog não leio só a ultima postagem tenho prazer em ler tudo que escreves.
    Tem encanto a cada frase sua amiga.
    beijos meus,Evanir.
    www.aviagem1.blogspot.com

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  19. Boa quinta-feira!
    Beijinhos.
    °º♫
    °º✿ Brasil
    º° ✿♥ ♫° ·.

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  20. Olá querida amiga Janita!
    Lindo este poema. Passa pelo meu Transpondo Barreiras.

    Um beijo no coração.

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  21. Querida Janita quando damos de coração nunca é tarde, pois lá diz o ditado mais vale tarde que nunca, o meu sincero agradecimento pela tua presença pois sabes que serás sempre bem vinda, farei do mesmo modo jamais faltarei em te retribuir, com a mesma amizade que jamais esqueço.
    Beijinhos de luz e muita paz nos teus dias.

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