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domingo, 31 de maio de 2026

SEM PRESSA.

 

Eu e Pessoa a tagarelar no Largo do Rossio...


Não tenho pressa. Pressa de quê?

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,

Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.


Não; não sei ter pressa.

Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -

Nem um centímetro mais longe.

Toco só onde toco, não aonde penso.


Só me posso sentar aonde estou.

E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,

Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,

E vivemos vadios da nossa realidade.

E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.


"Não Tenho Pressa" - Poema de Alberto Caeiro, 'in' Poemas Inconjuntos

Heterónimo de Fernando Pessoa.


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sábado, 24 de agosto de 2024

GRADUALMENTE.

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Foto minha - Porto-


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Gradual, desde que o calor
        Teve medo,
A brisa ganhou alma, à flor
        Do arvoredo.

Primeiro, os ramos ajeitaram
        As folhas que há,
Depois, cinzentas, oscilaram,
        E depois já
Toda a árvore era um movimento

        E o fresco viera.
Medita sem ter pensamento
        Ignora e espera!

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Poesias Inéditas 
31-8-1930
Fernando Pessoa. 

 Da Net



Foto minha. - Serpa -


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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

COMO NUVENS PELO CÉU.

 

Foto Minha

Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.
São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.
Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?

***

Poema in “Poesias Inéditas” da autoria de Fernando Pessoa:
O mais universalizado dos poetas portugueses
 desde Camões,
 o mais influente, o mais lido, o mais intrigante!

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Em jeito biográfico, para o leitor interessado ir degustando durante o fim-de-semana.

Fernando Pessoa, poeta bilingue, cidadão português ambíguo porque, no fundo, eterno estrangeiro em toda a parte, há-de continuar a ser, por muitos anos, o pretexto para uma bibliografia abundante e de qualidade variada: desde a inevitável e volumosa tese de doutoramento que poderá ou não acrescentar alguma coisa à compreensão profunda do poeta, até à delirante descoberta biográfica que há-de pretender demonstrar ter o poeta pertencido, afinal, no sector do vigor sexual, à categoria conhecida do 'português valente' e, está claro, imbatível. Pessoa tem dado, dá e continuará a dar para tudo. 

Nascido em Lisboa, em 13 de Junho de 1888 e falecido, 47 anos depois, em 30 de Novembro de 1935, a vida de Pessoa consistiu, por assim dizer, em não haver vida. Não casou, não teve filhos, não é mesmo certo que tenha praticado, com alguma convicção, aquele acto de que pode resultar o nascimento de filhos, não teve emprego certo, não teve, tirando Mário de Sá-Carneiro, amigos que se pudessem considerar íntimos, não concluiu um curso superior, não viajou.  A sua vida foi, uma sucessão ininterrupta de não aconteceres, só dramaticamente entrecortados, uma vez pelo suicídio de Sá-Carneiro. Bebeu muito – alguma coisa havia de ter feito em excesso.

O pai, Joaquim de Seabra Pessoa, era um pequeno funcionário, mas inteligente, lido e musicalmente dotado de cultura suficiente para se dedicar à crítica de música; a mãe, Maria Madalena Pinheiro Nogueira, era de boa cepa açoriana e recebera refinada educação.

O pai faleceu em 1893, tinha o futuro poeta 5 anos. Dois anos depois a mãe casa, em segundas núpcias, com João Miguel Rosa, cônsul português em Durban, a ele se indo juntar no ano seguinte. Entre 1896 e 1905, Fernando Pessoa faz os seus estudos em escolas inglesas  recebendo, em 1904, o Prémio Rainha Vitória por um pequeno ensaio em inglês, como parte do exame de admissão à Universidade do Cabo.
 Em Agosto de 1905, regressa sozinho a Lisboa para frequentar o Curso Superior de Letras da Universidade de Lisboa. É sol de pouca dura, vindo a abandonar o referido curso ao fim de poucos meses. 
A vida, o amor, a amizade, a Língua, a realidade do mundo, a literatura, iam ser, pela vida fora, territórios estrangeiros, não-evidências a investigar. 
Nada lhe seria nunca dado numa bandeja. Tudo tinha sido, era, iria ser, motivo de assombro. Na alma, aceitar é perder. 
Na perpétua exploração desse assombro estará a raiz da sua prodigiosa produção em verso e em prosa, prosseguida nos intervalos  da sua mais ou menos errática profissão de correspondente comercial em línguas estrangeiras (inglês, sobretudo). 

Se um homem conseguir escrever como vinte homens diferentes, ele será vinte homens diferentes (...) e os seus vinte livros estarão em ordem. 
Eis, em poucas palavras, a 'justificação' da sua famosa 'invenção' dos heterónimos, invenção que não foi, como se sabe, sua, embora ele a tenha levado a um tal paroxismo de intensidade e explicitação que, de algum modo, a fez nova e, por aí, a fez sua.

 (...) "se me conheço, deveria dizer que não tenho de todo personalidade... Sou tão mutável, sendo tudo à vez e nada por muito tempo – sou uma tal mistura de bem e de mal, que seria difícil descrever-me". 

Fernando Pessoa, repete-se, até pela multiplicação que deu à personalidade, criando cerca de trinta diferentes pessoas de vária importância, deu estatuto adulto à invenção e iluminou-a com uma intensidade capaz de nos fazer ter dela uma espécie de consciência nova, o que levaria John Pilling a afirmar ser o autor de Mensagem 'o mais múltiplo de todos os poetas modernos'.

Por outro lado, teve o cuidado meticuloso e, pelos vistos, frutuoso, de mitificar, em devido tempo, a sua própria invenção, na famosa e inspirada carta que escreveu a Adolfo Casais Monteiro , na qual confere ao dia  08 de Março de 1914 o estatuto de data-viragem nos anais da história literária pessoana e portuguesa, o dia do aparecimento tumultuoso e imparável da série de poemas a que deu o título de 'O Guardador de Rebanhos,' cujo autor, Alberto Caeiro, pagão de espécie complicada e simples, se revela, desde logo, seu mestre. Mestre que o será também, confessadamente, de Ricardo Reis e de Álvaro de Campos. 
Cunhando medalha para a posteridade, Álvaro de Campos proclamará com o exagero militante que competentemente cultivava: "O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o paganismo".  E o próprio Pessoa  fará o panegírico exaltado do seu mestre, em termos igualmente extremistas:  Pascoaes virado do avesso, sem o tirar do lugar onde está, dá isto – Alberto Caeiro deixa-nos perplexos. Somos arrancados à nossa atitude crítica por um fenómeno tão extraordinário. Jamais vimos algo de parecido com ele. 

Inventado Caeiro, Pessoa tratou de lhe descobrir uns discípulos. Assim nasceram Ricardo Reis e Álvaro de Campos. 
Reis é, como Caeiro, pagão, mas tem, ao contrário do outro, rigor e densidade.
Campos é o engenheiro graduado em Glasgow, futurista, amante do mundo moderno e aerodinâmico, oscilando entre a depressão e a histeria, desprezando os homens porque não brilham nem ostentam a simplicidade eficiente das máquinas:
"Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime.
Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!".

Jogando o jogo em que se fez Mestre consumado, Pessoa traçaria, ele próprio, o perfil magistralmente recortado de Álvaro de Campos.





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domingo, 14 de janeiro de 2024

POEMINHAS NAIFS #1

 

Este pucarinho de barro, com bochechas encarnadas
e faces afogueadas, é meu!



 Levava  eu  um  Jarrinho

 

Levava eu um jarrinho

Pra ir buscar vinho

E levava um tostão

Pra comprar pão;

E levava uma fita

Para ir bonita.


Correu atrás 

De mim um rapaz:

Foi o jarro pró chão,

Perdi o tostão,

Rasgou-se-me a fita...

Vejam que desdita!


Se eu não levasse um jarrinho,

Nem fosse buscar vinho,

Nem trouxesse uma fita

Para ir bonita,

Nem corresse atrás

De mim um rapaz

Para ver o que eu fazia,

Nada disto acontecia.


[Fernando Pessoa]


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domingo, 9 de fevereiro de 2020

TODOS SONHAMOS VOAR, MAS TEMEMOS AS ALTURAS.





Havia um bando de patos selvagens que voavam nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos. Tão lindo! Mas era uma beleza que doía. O cansaço das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando, as espingardas dos caçadores…


Foi assim que um pato selvagem, olhando lá das alturas para essa terra de anões aqui em baixo, viu um bando de patos domésticos. Estavam tranquilamente deitados à sombra de uma árvore, poupados do esforço de voar. E havia comida em abundância.

O pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse adeus aos seus companheiros, desceu e passou a viver a vida que pedira a Deus.


E assim viveu por muitos anos até que de novo chegou o tempo da migração dos patos. Eles apareciam, lá no fundo do azul do céu, formações em “V”, grasnando, um grupo após o outro. Aquela visão dos patos em voo, a memória das alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com algum lugar esquecido dentro do pato domesticado.


Uma saudade, uma nostalgia de belezas, o fascínio do perigo e o vazio que se abria… Até que não foi mais possível aguentar. Resolveu voltar a ser pato selvagem. Abriu as asas e bateu-se para voar, como outrora, mas não voou. Caiu, e esborrachou-se no chão.

Estava gordo demais. E assim passou o resto de sua vida: em segurança, protegido pelas cercas e triste por não poder voar.

* *

Acho que Fernando Pessoa se sentiu um pouco como o pato. Pelo menos é o que sinto ao ler este poema:




Ah, quanta vez, na hora suave
Em que não me esqueço,
Vejo passar o voo de ave
E me entristeço!

Por que é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Por que vai sob o céu aberto
Sem um desvio?

Por que ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?


Sei que me invade
Um horror de me ter
Que cobre como uma cheia
Meu coração,
E entorna sobre Minh’alma alheia
Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder ter
Não sei quê do voo suave
dentro do meu ser.



Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o voo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o voo por gaiolas.

As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.




Rubem Alves
 
Excerto da Introdução do seu livro “Religião e Repressão”

[Texto e imagem da Net] 


Fotografia Minha

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