«O poeta, sensível e até mais sensível porventura que os outros homens, imolou o coração à palavra, fugiu da autobiografia, tentou evitar a todo o custo a vida privada.
Ai dele se não desceu à rua, se não sujou as mãos nos problemas do seu tempo, mas ai dele também se, sem esperar por uma imortalidade rotundamente incompatível com a sua condição mortal, não teve sempre os olhos postos no futuro, no dia de amanhã, quando houver mais justiça, mais beleza sobre esta terra sob a qual jazerá, finalmente tranquilo, finalmente pacífico, finalmente adormecido, finalmente senhor e súbdito do silêncio que em vão tentou apreender com palavras, finalmente disponível não já tanto para o som dos sinos como para o som dos guizos e chocalhos dos animais que comem a erva que afinal pôde crescer no solo que ele, apodrecendo, adubou com o seu corpo merecidamente morto e sepultado.»
Ruy Belo
Ruy Belo acreditava que o sentido das coisas morava na Poesia e que foi graças à sua vulnerabilidade e sensibilidade perante a vida, que se tornou poeta.
De todos os temas que aborda na sua escrita, a solidão e a morte são os que tomam principal destaque.
Para contrariar, um pouco, esta quase generalidade da sua poesia, escolhi este poema sobre as coisas que o Poeta disse amar e todos os Poetas amam e enaltecem.
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"Amei a Mulher Amei a Terra Amei o Mar"
Amei a mulher amei a terra amei o mar
amei muitas coisas que hoje me é difícil enumerar
De muitas delas de resto falei.
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Das três coisas que o poeta enumerou
trago-vos a foto de uma delas,
comum no amor de todos os Poetas.
As duas restantes serão mais personalizadas...