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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

DAS CALHAS DE RODA.


Frederico Lourenço encontra-se neste momento a trabalhar numa nova tradução integral da Bíblia.

Restituir-me por inteiro é dar-me até ao fim.
No jardim barroco, tanques e repuxos gelaram
durante a noite, mas os limoeiros estão intactos
contra os muros caiados de branco.

O gelo no chão não tocou as flores da laranjeira:
Este Dezembro, as fontes geladas e as flores
partilham a manhã em conciliada coexistência;
Ao meio-dia o termómetro continua abaixo de zero,
mas as árvores meridionais frutificam.

Assim dar-me por inteiro não me isenta de mim,
do mesmo modo que na manhã de Dezembro
a fonte gelada não impede a laranjeira de florir.


[ Frederico Lourenço “ in Santo Asinha e outros poemas,” Caminho, 2010 ]





Autopsicografia

( Fernando Pessoa)

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que ele não tem.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


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