Quis trazer comigo alguém que muito admiro, desde há muito, e que considero um dos maiores, se não o maior, de todos os intelectuais portugueses. Alguém que foi tão grande em sabedoria quanto em valores humanos e cívicos.O seu senso de humor nunca o abandonou em circunstância alguma. Quem não teve o prazer de se deliciar - vendo-o e ouvindo-o, na TV - com as suas "Conversas Vadias"?
Ei-lo: O Professor/Filósofo Agostinho da Silva, um portuense que falava à moda do Porto e que dava gosto ouvir!
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Queria
Que Os Portugueses
Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor
sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal.
E tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale
até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião.
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor
sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal.
Todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler
teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que o livro dura.
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale
até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião.
Que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira
alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto.
Se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia
deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro.
Professor Agostinho da Silva - 1906-1994
* O título deste postal é uma frase a que o Professor é totalmente alheio. Faz parte de um chiste que circula cá pelos meus lados e me ocorreu em virtude da ironia implícita neste poema.
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