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terça-feira, 27 de maio de 2025

*** SEGREDOS ***

 



O Segredo do Mar

A “Flor do Mar” avançando

Navegava, navegava,

Lá para onde se via

O vulto que ela buscava.


Era tão grande, tão grande

Que a vista toda tapava.


E Bartolomeu erguido

Aos marinheiros bradava

Que ninguém tivesse medo

Do gigante que ali estava.


E mais perto agora estão

Do que procurando vão!


E Bartolomeu que viu?

Que descobriu o valente?

- Que o gigante era um penedo

que tinha forma de gente.


Que era dantes o mar? Um quarto escuro

Onde os meninos tinham medo de ir.

Agora o mar é livre e é seguro

E foi um português que o foi abrir.


Afonso Lopes Vieira.

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Quase apostaria que , para além de mim,  anda por aqui muito boa gente que aprendeu este poema nos bancos da Primária.

As fotos e os versinhos são meus! 😊


Sim, foi esta história bonita

História linda, de encantar

Que me segredou ao ouvido

O meu búzio encantado

E outros ruídos que as vagas

Vêm segredar à areia

Lá das profundezas do mar!!


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domingo, 26 de maio de 2024

____CANTAR RECANTADO____

 


Obsessão

Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.

Depois, sonâmbulo, sonho
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar...

Sobre um lago, onde em sossego
As águas olham o céu,
Roça a asa de um morcego.
E ao longe o cantar morreu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim.

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Francisco José  Bugalho, in "Margens"

 26 de Julho 1905, Porto   
29 de Janeiro de 1949, Castelo de Vide

[ "O poeta da calma melancolia alentejana" ]

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domingo, 10 de dezembro de 2023

TRAIÇOEIRA COMO O MAR É A INSÓNIA

 Após dormir não mais do que quatro horas, a insónia sempre associada ao desassossego fez com que saltasse da cama depois de muitas voltas e reviravoltas e com o corpo já a ficar cansado. Não sou de dormir muito nem ficar na cama até ao meio-dia, mas sair da cama a meio da noite acontece-me muitas vezes. Vezes demais, até. Bom, é este o motivo deste post madrugador.

Esta é uma escultura, com o nome "Tragédia no Mar" que se encontra na praia 
em Matosinhos.

Clique na legenda e conheça a informação acerca desta escultura
bem como o nome do autor.


[ Também tenho fotografia minha, mas não a encontrei. ]


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Antes de mudar de tema quis trazer-vos mais um poema da poetisa Maria Noémia Ribeiro da Cunha, para vos mostrar quão versátil é a sua poesia. Espero que gostem.

Traição do Mar

Fui ao cais dos meus desejos
À espera de quem não vem
Em vez de abraços e beijos
Vi todos os meus desejos
Espalhados pelo mar além
Este mar calmo e sereno
Que tantos segredos guarda
Não resiste à tempestade
Que se faz ao mar não tarda
Neste mar dos meus enganos
Vi perdidos os meus anos
Vi tristes mulheres chorando
Outras ainda rezando
Todas de negro trajando
P’ra sua dor abafar
Implorando ao Senhor
Que acalme por favor
As águas no alto mar
Mas as ondas alteradas
Mais fortes que os seus desejos
Que em vez de abraços e beijos
Viu as águas murmurar
Que o barco não vai voltar...

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terça-feira, 13 de junho de 2023

MARGARIDAS.

 🌼 🌼 🌼 🌼 🌼 🌼



Ai, Margarida!

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria a tua mãe?
 — (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
  — Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
  — Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Álvaro de Campos

01-10-1927

[ arquivopessoa.net/textos ]


🌼 🌼

 Com pão já ninguém se contenta

Todos querem o conduto

Pão seco não faz merenda

Mesmo quando não há puto!!

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[ Digo eu, que sendo gente, não sou Pessoa]


Adenda: Por sugestão de "várias famílias" - como se dizia antigamente - alterei o último verso da minha quadra e até o coloquei a itálico, para dar o crédito a quem de direito.
Obrigada, amigo Jaime Portela. Quem sabe, sabe! 👍 

 😊 



 


terça-feira, 6 de junho de 2023

HOJE HÁ BOA FRUTA.

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"Cesta de fruta" - Tela de Caravaggio


Pêssegos, pêras, laranjas,

Morangos, cerejas, figos,

Maçãs, melão, melancia,

Ó música dos meus sentidos,

Deixai-me agora falar

Do fruto que me fascina,

Pelo sabor, pela cor,

Pelo aroma das sílabas:

Tangerina, tangerina.


 "FRUTOS" 

Poema de Eugénio de Andrade


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Fruta de Cuspo

[Versos meus]


Uma coisa há que me intriga

Me deixa aqui a pensar:

Porque foi que Caravaggio

Não quis meter nesta cesta

A tangerina perfumada

E o seu aroma exalar?


Depois de muito pensar

Cheguei a uma conclusão:

Os frutos com muita semente

São como o peixe de rio

Coisa de se comer a cuspir

   E disso ninguém gosta, pois não?!


E o meus prezados leitores, têm um fruto preferido ?

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Fruta do meu quintal, mas não de agora. Como toda a gente sabe o dióspiro é um fruto de Outono.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

DEPOIS DA FOLIA...A REFLEXÃO.

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Foto que captei no interior da Igreja de São Salvador - Serpa- Baixo Alentejo.


 Vivam, Apenas.

 

Vivam, apenas.

Sejam bons como o sol.

Livres como o vento

naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos

Que dão flores e frutos

sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos

A transformar os espinhos

Em rosas e canções. 

E principalmente não pensem na Morte.

Não sofram por causa dos cadáveres

Que só são belos

Quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A morte é para os mortos.


 José Gomes Ferreira

 





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quarta-feira, 17 de agosto de 2022

SEIOS...

    ...Porque:

"Todos os seios têm direito ao seu momento de glória."

Luís Rodrigues



FONTE da imagem. Por favor, não deixem de consultar este site.

Sei os teus seios.
Sei-os de cor.

Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.

Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.

Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!

Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!

Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?

Quantas vezes
Interrogaste, ao espelho, os seios?

Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!

Quantos seios ficaram por amar?

Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!

Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas quarentonas lágrimas...

Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.

Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...

Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!

Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...

Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!

Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.

Botas, botifarras
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece.

Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!

Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejaste, que perseguiste
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou:
"É isto que amas?"
De repente a podridão do seio.

Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida : inesperados seios...

Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...

Quantos seios devorou a guerra, quantos?
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!

Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.

Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser.


 Excerto do poema "Sei os Teus Seios" de Alexandre O'Neil. 


Nota da autora.

Até ao dia 05 de setembro continuarei em férias, pelo que as minhas publicações serão tão irregulares quanto a minha vontade, tempo e disposição. Visitar-vos-ei sempre que considerar ter algo de jeito para vos dizer. De resto, com mais ou menos assiduidade, irei lendo o que forem publicando. Muito Obrigada a Todos.


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quarta-feira, 6 de julho de 2022

O AMOR PELAS COISAS SIMPLES.

 

Foto minha.

 

Dialéctica. 

 De Vinicius de Moraes.


 É claro que a vida é boa

E a alegria, a única indizível emoção

É claro que te acho linda

Em ti bendigo o amor das coisas simples

É claro que te amo

E tenho tudo para ser feliz

 

Mas acontece que eu sou triste...

 


 Conhecido carinhosamente como "Poetinha", Vinicius de Moraes

 [1913 - 1980] foi um dos nomes mais marcantes  - e mais amados -

 da poesia e da música brasileira, como de resto não é novidade

 para ninguém! 






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quinta-feira, 5 de maio de 2022

FOTOGRAFAR SENTIMENTOS.

 


"O Fotógrafo"  Poema de Manoel de Barros


Difícil fotografar o silêncio.

Entretanto tentei. Eu conto:

Madrugada minha aldeia morta.

Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas,

Eu estava saindo de uma festa.

Eram quase quatro horas da manhã.

Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.

Preparei minha maquina.

O silêncio era um carregador.

Tive outras visões naquela madrugada.

Preparei minha máquina de novo.

Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.

Fotografei o perfume.

Via uma lesma pregada na existência mais do que pedra.

Fotografei a existência dela.

Via ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.

Fotografei o perdão.

Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa

Fotografei o sobre.

Por fim enxerguei a Nuvem de Calças

Representou para mim que ela andava na aldeia

de braços com Mayakovski - seu criador

O Fotografei a "Nuvem de Calças" e o poeta.


* * * 

[ Aos interessados em ler alguns poemas do autor referido neste poema, ou seja, de Vladimir Mayakovsky, faça favor de clicar  AQUI ]



Já eu, que não sou fotógrafa nem poeta, não fotografei o perfume nem o silêncio nem a madrugada. Fotografei a fotografia de um passado  distante, do qual ainda lhe sinto um leve aroma de saudade.

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domingo, 20 de março de 2022

TÃO REAL QUANTO FATAL.

 




Aos Vindouros, Se os Houver...

Vós, que trabalhais só duas horas
A ver trabalhar a cibernética,
Que não deixais o átomo a desoras
Na gandaia, pois tendes uma ética.

Que do amor sabeis o ponto e a vírgula
E vos engalfinhais livres de medo,
Sem preçários, calendários, pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo.

Computai, computai a nossa falha
Sem perfurar demais vossa memória
Que nós fomos práqui uma gentalha
A fazer passamanes com a história.


 Que nós fomos (fatal necessidade!)

Quadrúmanos da vossa humanidade.


 Alexandre O'Neill, in "Poemas com Endereço"

[ Mais actual é impossível! ]


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BEM-VINDA  PRIMAVERA


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A Difícil Arte de Saber Viver.

 A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
A minha condição de mulher,
Aceitar as suas limitações
E fazer-me pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo.
Aprendi a viver.

"Assim Vejo a Vida"
Cora Coralina

Ana Lins dos Guimarães Peixoto (1889 — 1985), que se tornou célebre com o pseudónimo literário Cora Coralina, foi uma notória escritora brasileira que publicou o seu primeiro livro depois dos 70 anos.
Neste seu poema, o eu-lírico faz uma espécie de balanço sobre a vida, pesando o que aprendeu com ela e que lições nos pode passar. 
Na sua opinião, devemos compreender que o nosso percurso terá coisas ruins e coisas boas e que nem tudo será perfeito.
O segredo, é aprendermos a lidar com as dificuldades e crescermos graças a elas.

Como eu a compreendo.

"Não morre aquela
  que deixou na terra
 a melodia do seu cântico
     na música dos seus versos."

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

GOSTO DE PARTILHAR O QUE GOSTO. # 1

Nas minhas deambulações pela blogosfera não raras vezes descubro histórias fabulosas e interessantíssimas. Desta vez, descobri este blog que conta a história verídica do nascimento de um poema. Poema esse que, apesar da sua autora referir ser o mais conhecido de Ary dos Santos, eu desconhecia. Decidi, assim, criar esta rubrica, para partilhar com os meus leitores o que de interessante vou descobrindo. Desejo que gostem.

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Foi como se não bastasse
tudo quanto nos fizeram
como se não lhes chegasse
todo o sangue que beberam
como se o ódio fartasse
apenas os que sofreram
como se a luta de classe
não fosse dos que a moveram.
Foi como se as mãos partidas
ou as unhas arrancadas
fossem outras tantas vidas
outra vez incendiadas.

À voz de anticomunista
o patrão surgiu de novo
e com a miséria à vista
tentou dividir o povo.
E falou à multidão
tal como estava previsto
usando sem ter razão
a falsa ideia de Cristo.

Pois quando o povo é cristão
também luta a nosso lado
nós repartimos o pão
não temos o pão guardado.
Por isso quando os burgueses
nos quiserem destruir
encontram os portugueses
que souberam resistir.

E a cada novo assalto
cada escalada fascista
subirá sempre mais alto
a bandeira comunista.

 "A Bandeira Comunista" 
Poema de José Carlos Ary dos Santos

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Para que esta rubrica faça sentido e possa atingir o objectivo para que foi criada, por favor, não deixem de ir até AQUI  ler sobre o acontecimento que deu origem ao poema. Obrigada!


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