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sábado, 15 de junho de 2024
________ LI E RECOMENDO!________
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
"A Viagem, Enfim."
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IMAGEM DAQUI. |
Era assim: saía de casa, ia até ao carro e dizia à família: «Vamos lá fazer essa viagem».
A mulher aconselhou-lhe uns calmantes, para ver se o sonho se ia.
Os sogros disseram-lhe que não se interessavam em ir, não faziam questão, já estavam velhos para viagens.
Os pais prontificaram-se a ceder os lugares deles.
Toda a família colaborava, mas o sonho continuava.
Chegou a fazer experiências, a meter a família completa no velho Citroën arrastadeira. E conseguia, lá se metiam todos, mais ou menos apertados mas entravam. Mas no sonho não.
A coisa tornava-se desesperante.
- Porque é que não vais ao Mora? Ele é psicanalista, explica-te, tira-te isso
- Tens razão, Xuxa, vou mesmo, que isto assim não pode ser. Tens sempre razão, menina.
Contou tudo. O Mora mandou-lhe contar mais, o passado continua sempre oculto, ao que disse. Deitado, contou-lhe o que ele precisava era de derivar, sabem, encontrar qualquer coisa além do carro e da viagem que não fazia em sonhos. Derivar. Substituir o carro.
Chegou a casa, aliviado, e esclareceu a Xuxa:
- Vou derivar, menina.
- Derivar?
- Sim, substituir o carro e tudo o mais, excepto tu, as crianças, os velhos e a casa.
(...)
À noite não sonhou. No dia seguinte a Xuxa disse-lhe que até parecia dez anos antes.
E, de repente, tornou a sonhar. O sonho.
Assim: saiu de casa, foi até ao carro e disse à família: «Vamos lá fazer essa viagem».
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
Como Um Camponês Aprendeu O Padre - Nosso.
Tinha um coração duro e não era esmoler. Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitência rezar sete vezes o Padre-Nosso.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
Qualquer Semelhança com a Realidade...
...É pura coincidência!!

E a qualidade das fotos também não abona muito a favor da publicação...Mas foi o que pude arranjar!!
…E os Dois Ficaram Sujos.
Um moleiro
E um carvoeiro
Travaram-se de razões;
Era um da cor da neve;
Outro da cor dos carvões.
Cada qual deles teimava
Que o outro mais sujo estava;
Tinham ambos a mão leve,
Choveram os bofetões.
E qual foi o resultado?
Um ao outro se sujou;
Pois ficou,
O carvoeiro,
Empoado;
E o moleiro,
Enfarruscado.
Assim fazem as comadres,
Se começam a ralhar;
Assim fazem os compadres,
Se a política os separa:
Cada qual sem se limpar,
Consegue o outro sujar;
Nem é isso coisa rara.
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
"Os Ciganos"
Quem melhor do que o seu neto, Pedro Sousa Tavares, filho primogénito de Miguel S. Tavares, que completou o livro que a Avó deixou inacabado, para homenagear esta grande figura da Literatura Portuguesa?
Completaria, hoje, noventa e cinco anos de idade!
Obrigada, pelo imenso e maravilhoso espólio que nos deixaste, Sophia!
sexta-feira, 6 de maio de 2011
DESAFIOS.
Conto de Miguel Torga
Imagens recolhidas da Net
segunda-feira, 28 de março de 2011
EM LITÉM....ERA ASSIM...!


sábado, 26 de março de 2011
TORGA .... URZE BRANCA.


Em Março, quando Vale de Mendiz se cobriu de camélias e mimosas, o Alfredo à frente do macho carregado de sacas, deu a grande notícia: os filhos do Justo tinham chegado do Brasil. - Os dois? – perguntaram todos. – Os dois de uma vez?! - Olarila! - Então o Arlindo que se acautele. Mas nada parecia bulir naquele princípio de Primavera. A Matilde há muito que calara as lamúrias; o pai, a todos que lhe falavam no caso, respondia secamente que a filha dele não era melhor do que as demais; e os irmãos encheram a irmã de prendas, tratavam-na como uma rainha, e nem por sombras falavam no sucedido. - A mim até a alma se me apertava com tal sossego - dizia de vez em quando o Rodrigo. – os de Litém engolirem uma pastilha assim! - Que pastilha?! Eu quis a rapariga quis, quem tem lá com isso? Farroncas. No fundo, também ele, Arlindo, andava de coração como a noite. Bem sabia que não se vem de repente do Brasil sem uma razão qualquer, e que se quisessem resolver o caso a bem já o teriam procurado. Entrou Abril, passou Maio, principiou Junho, e o mesmo fado corrido...
Continua...
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sábado, 29 de janeiro de 2011
O MILAGRE DA MATERNIDADE....

Certas como relógios, o Abril a cair, e cada uma com o seu menino.
A Cacilda soube do caso ainda antes do tempo de resguardo. Nas terras pequenas, as boas e as más notícias entram pelas frinchas da parede. E já com outra humanidade na alma, mãe de todos os pimpolhos do mundo e solidária com todas as mães amigas ou inimigas, mandou chamar a Rosa e pôs-lhe as fontes do peito à disposição.
Com uma condição apenas: que a Sofia não soubesse de nada. À laia de passear o menino, lho levasse lá e ela havia de ver como o pequeno arribava, que tinha leite naqueles seios que chegava para um regimento. Até lhe doíam.
Assim foi. A Sofia, a poder de remédios e mais remédios, ia tendo mão na vida. E enquanto ela dormia, desmaiava, ou estava para ali amodorrada, a Rosa era como o vento: agarrava no garoto e corria para casa da Cacilda a fartá-lo.
Até que a Sofia arribou. Levantou-se muito fraca, muito amarela e quis dar de mamar ao filho. Já podia.
Mas, quando foi abrir a blusa e pôs à mostra os dois seios secos, nem o catraio as quis, nem a Rosa consentiu que lhas metesse na boca.
- Guarda lá isso, mulher, que até o podes envenenar! Eu lhe darei de comer. Olha que à fome não morre.
Humilhada, a Sofia começou a chorar. E ainda mais desespero sentiu, pouco depois, ao ver a criança espernear nos braços da Rosa, recusar a chupeta e começar num berreiro de atroar os céus. O seu rico filho estava doente. Nem comer queria!
A Rosa é que não atribuiu grande importância à birra, como lhe chamou. A criança precisava de sair um migalho, de apanhar sol…Ia passeá-la.
A Sofia ficou só, cheia da sua mágoa. Nunca fora fortalhaça, como a Cacilda, mas sempre esperara poder criar um filho, se Deus lho desse. Afinal…E por via disso o menino tinha de beber à sobreposse leite de cabra, que se calhar lhe fazia mal.
Valha a verdade que não estava magro…Contudo, sempre era criado como os enjeitados. Que alegria para a Cacilda!
Malucava nisto, quando a Rosa entrou com o rapaz, calado e sonolento.
- Vamos experimentar outra vez?
A Rosa respondeu que sim, que ia encher a mamadeira…E nunca mais voltou.
Como o menino não chorava e se lhe ferrou a dormir no colo, a babar-se, a Sofia desconfiou. Ali andava segredo.
No meio da tarde, cansada, a doente foi-se deitar e pegou no sono. A criança lá estava no berço, rosada como um anjo.
Apesar de adormecida, a Sofia continuava na sua grande labuta. A maternidade incompleta doía-lhe na raiz do instinto. E via em sonho o pequeno mirrar-se de fome, vítima inocente de uma mãe que o não era. Ofegante, tentava libertar-se do pesadelo. Não conseguia. Cada vez mais sumido, esquelético, o infeliz acusava-a com os seus grandes olhos negros, que cintilavam da escuridão de umas órbitas fundas como poços.
Num grito de terror, acordou e deu pela falta do filho.
- Tia Rosa, o menino? - Perguntou, aflita.
Respondeu-lhe o marido, da cozinha.
- Tenho-o aqui ao colo…Vê se dormes. Cresceu-lhe a desconfiança.
E no dia seguinte, pé ante pé, ainda a cair de fraqueza, quando a Rosa foi dar um dos tais passeios ao garoto, seguiu-a. Da esquina da rua viu-a chegar à eira

Aproximou-se. O pequeno parecia um bacorinho ao peito da inimiga.
- Olha lá se me engasgas o rapaz, ó Cacilda!....
FIM
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Este poema de Miguel Torga, já antes o publiquei
num post dedicado à Poesia Ibérica, em português.
Hoje, vou apresentá-lo na Língua de Miguel Cervantes, uma vez que o autor mantinha uma forte ligação com o País vizinho e era entusiasta admirador dos três grandes vultos da Literatura Espanhola, que já mencionei no post anterior.
POEMAS IBÉRICOS

Tierra.
Cuanto dé la palabra, y nada más.
Sólo así la resume
Quien la contempla desde una alta cumbre
Bien cargada de sol y de pinares.
Tierra-tumor-de-angustia de saber
Si el mar es hondo y al fin deja pasar...
Una antena de Europa que recibe
La voz de lejos que le quiere hablar...
Tierra de pan y vino
Cuando espuma salobre sea el camino
Donde uno anda desdoblado en dos).
Tierra desnuda y anta
Que en ella cupo el Mundo-Viejo y Nuevo...
Que en ella caben Portugal y España
Y la locura alada de su Pueblo.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
FICÇÃO OU REALIDADE?...

A linguagem usada é a típica das aldeias transmontanas naquela época da primeira metade do século passado.
Nascido em São Martinho de Anta, região transmontana, em Agosto de 1907, Adolfo Correia da Rocha adoptou o pseudónimo literário de Miguel Torga em homenagem aos três grandes “Migueis” espanhóis: Cervantes, Molinos e Unamuno e Torga por ser o nome de uma urze que existia em abundância naquela região de Trás-os-Montes.
Miguel Torga faleceu em Coimbra em Janeiro de 1995.
O conto que escolhi não será o mais interessante, mas é o meu preferido. Talvez porque define aquilo que entendo por verdadeira amizade. Mesmo quando parece desfeita, ela vive latente no fundo do coração e emerge no momento crucial...
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Na noite da tal zanga, andavam juntas no adro, felizes da vida, a comer peras e a beber limonada, quando o rapaz se aproximou, se eram servidas de qualquer coisa. Que muito obrigadas, mas que não tinham fome nem sede.
- E uma prenda?
Que aceitavam, já que estava tão daimoso.
Ora, o Augusto, na escolha dos ramos de rebuçados, teve tais artes, que só com a quadra que neles vinha encheu as duas da miragem dum amor sem misturas. Umas patetas!
O certo é que, mal o rapaz tirou a Sofia para dançar, a Cacilda ficou como se lhe tivessem dito que o fim do mundo era naquele instante.
Os arraiais da Senhora da Fraga são um bota-fora a noite inteira, com duas músicas a estrondar, uma de cada lado da Capela. Fogo, nem se fala. Até de Sanfins se pode ver o céu de Faiões, sem um minuto de intervalo, aberto de claridade. Coisa rica!
- Que mosca te mordeu, rapariga? Tu estás maluca ou quê?
Felizmente que o Augusto valeu àquilo, arredondando a fala e convidando-a também.
Toda babada por dentro, que não, que não dançava. Rogasse outra vez à Sofia. O rapaz insistiu, e o que foste fazer! Agarrou-se a ele e atirou-se à cana-verde que parecia um pé-de-vento! De madrugada, comiam-se uma à outra.
E valia a pena! As palermas a adorá-lo, a quebrar lanças pelo grande adereço, e o ladrão de caçoada! Ainda o cheiro dos foguetes andava pela serra a cabo, já os banhos do casamento dele a correr em Favaios com uma de lá!
Cuidaram todos que, morto o bicho, morta a peçonha. Oh, oh! Nem assim deram o braço a torcer! Engoliram a desfeita e ficaram como dantes, senão pior. E mutuamente a atribuírem-se as culpas do Augusto bater as asas! O grande prejuízo! Que valia ele mais do que os outros? Nada. E a prova disso é que não tardou muito estavam casadas, com dois rapazes bem jeitosos, de resto, o Alberto e o Raimundo. Que queriam mais? Mas meteu-se-lhes aquela vilania no corpo, que mesmo depois de o verem arrumado e de se arrumarem também, continuavam a ferro e fogo.
Na boda de ambas ainda houve quem tentasse fazer as pazes. De nada valeu! Danadas!
Como a Sofia casou primeiro, disse-lhe a Rosa:
- Eu se fosse a ti, convidava a Cacilda…Fostes tão amigas na mocidade!
Que não a queria ver nem pintada numa parede. E logo naquele dia, de mais a mais! Uma falsa, que se lhe atravessara no caminho como uma ladra! Não. Havia ofensas que nem à hora da morte…
E a Cacilda, quando lhe chegou também a vez, mal lhe falaram em convidar a Sofia, credo, mudou de cor e perguntou muito a sério se lhe queriam estragar a festa. A raiva que tinha da outra iria com ela para a sepultura.
Com tal gente, bom dia! É não fazer caso e deixar correr. Dar tempo ao tempo que cura males e embranquece os cabelos…"
Continua...
Lamento, mas estou a transcrever directamente do livro e não tive tempo para passar tudo...
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