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sábado, 15 de junho de 2024

________ LI E RECOMENDO!________

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Se não mo tivessem oferecido talvez nunca eu tivesse lido Walter Hugo Mãe!  Sei o motivo mas prefiro não o revelar, de tão  estupidamente infantil. Ainda bem que há um Dia da Mãe...! 
São vinte capítulos em que os personagens, algo bizarros, nos vão sendo apresentados. Aparentemente, nada têm em comum, aliás, são todos muito diferentes uns dos outros. Porém, durante todo o romance e sobretudo no final,  convergem e formam uma família única e muito unida acolhendo-se e acolhendo-nos a nós, leitores, num amplexo pleno de emoções muito gratificantes e boas.

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Nota: O capítulo nº 2, "O Filho de Quinze Homens", por si só, trouxe-me um encanto tal, que o descreveria feito de espanto e magia. Quem diria...?! 😊 
Leiam!




quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

"A Viagem, Enfim."

IMAGEM   DAQUI.




Isto de ter sempre o mesmo sonho todas as noites torna-se aborrecido.
Era assim: saía de casa, ia até ao carro e dizia à família: «Vamos lá fazer essa viagem».

Primeiro entravam a mulher e as duas crianças, depois os pais, ele instalava-se ao volante e pronto, não havia lugar para os sogros! Era sempre a mesma coisa. Por mais que empurrassem, não conseguiam metê-los lá dentro.
Acordava a suar, empurrando ainda qualquer coisa que não estava lá.
A mulher aconselhou-lhe uns calmantes, para ver se o sonho se ia.
Mas nada. Lá vinha sempre, todas as noites. 
É verdade que empurrava menos, talvez os calmantes, mas continuava naquele desespero de não conseguir enfiar os sogros no carro alucinante.
Os sogros disseram-lhe que não se interessavam em ir, não faziam questão, já estavam velhos para viagens.
Os pais prontificaram-se a ceder os lugares deles.
Toda a família colaborava, mas o sonho continuava.

Chegou a fazer experiências, a meter a família completa no velho Citroën arrastadeira. E conseguia, lá se metiam todos, mais ou menos apertados mas entravam. Mas no sonho não.
A coisa tornava-se desesperante.

- Porque é que não vais ao Mora? Ele é psicanalista, explica-te, tira-te isso  

- insistia a mulher, já arreliada, e preocupada também, com aquelas viagens nocturnas e frustradas em que ele se envolvia sem culpa.

O Mora era amigo de infância, nem sequer permitia que ele pagasse, era extraordinário! Às vezes até ia lá jantar. E respondeu à mulher:

- Tens razão, Xuxa, vou mesmo, que isto assim não pode ser. Tens sempre razão, menina.

Contou tudo. O Mora mandou-lhe contar mais, o passado continua sempre oculto, ao que disse. Deitado, contou-lhe o que ele precisava era de derivar, sabem, encontrar qualquer coisa além do carro e da viagem que não fazia em sonhos. Derivar. Substituir o carro.
Agradeceu e convidou o Mora para jantar no sábado. O Mora não podia e deu-lhe uma palmada nas costas.
Chegou a casa, aliviado, e esclareceu a Xuxa:

- Vou derivar, menina.
- Derivar?
- Sim, substituir o carro e tudo o mais, excepto tu, as crianças, os velhos e a casa.

(...)

À noite não sonhou. No dia seguinte a Xuxa disse-lhe que até parecia dez anos antes.
Tudo voltou à normalidade, os sogros deixaram de se preocupar com a viagem, as crianças entusiasmaram-se com os estoiros da moto. E o carro na garagem.
E, de repente, tornou a sonhar. O sonho.
Assim: saiu de casa, foi até ao carro e disse à família: «Vamos lá fazer essa viagem».

A mulher e as crianças entraram, depois os pais, e ele instalou-se ao volante. E não havia lugar  para os sogros! Começaram a empurrar para os meter lá dentro, e nada. Então virou-se para a garagem.
Estava um pouco diferente mas a moto continuava lá dentro. Deixou tudo, montou a moto, pôs o chapéu de palha e avançou pela estrada. Uma estrada larga, muito aberta a tudo. Pareceu-lhe já a ter visto alguma vez. Olhou para  trás e lá ao longe, à porta da casa, continuavam a empurrar-lhe os sogros. Acenou uma despedida, acelerou e continuou, olhando árvores e nuvens.
Ainda não voltou.


Mário-Henrique Leiria,  in “Contos do Gin-Tonic”


Nota: Para ficar a saber mais sobre Mário-Henrique Leiria,  e o que está ser feito para divulgar a obra deste fantástico escritor/poeta surrealista português, clique AQUI e AQUI. 




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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Como Um Camponês Aprendeu O Padre - Nosso.



Tinha um coração duro e não era esmoler. Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitência rezar sete vezes o Padre-Nosso.
--  Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.
--  Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitência: dar a crédito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da minha parte.
     No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
      »Como te chamas?- perguntou-lhe o camponês»
      «Padre – Nosso – Que – Estais – No  - Céu, respondeu o pobre.
      «E o teu apelido?»
      »Seja – Santificado – O – Vosso – Nome. »
E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
Ao outro dia chega outro pobre.
       «Como te chamas?»
       «Venha – A – Nós – O – Vosso – Reino.»
        «E o apelido?»
        «Seja – Feita – A – Vossa – Vontade.»
 E partiu com o seu alqueire de trigo.
Veio terceiro pobre.
         «Como te chamas?»
         «Assim – Na – Terra – Como – No – Céu.»
         «E o teu apelido?»
         «Dai - Nos – Hoje – O – Pão – Nosso – De – Cada – Dia.»
E levou o seu alqueire.
Vieram ainda mais dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma forma até chegar ao Amén.
Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão
           – Então já sabes o Padre – Nosso?
         – Não, senhor cura, sei só os nomes e apelidos dos pobres a quem emprestei o meu trigo.
             – Quais são? Tornou o padre.
E o aldeão enumerou-lhos a seguir, e pela ordem em que cada um se tinha apresentado.

          – Já vês, disse o confessor, que não era muito difícil aprender o Padre- Nosso, porque já o sabes perfeitamente.  


Nota:
Há aprendizagens que só se conseguem adquirir a custo das próprias vivências e necessidades. Essas, são as que nunca se esquecem...ficam para toda a vida.

Do livro de Guerra Junqueiro: "Contos para a Infância".
( porque é de pequenino que se torce o pepino)

Pág. 57 - 58 - 59.






terça-feira, 6 de outubro de 2015

Qualquer Semelhança com a Realidade...


...É pura coincidência!!




E a qualidade das fotos também não abona muito a favor da publicação...Mas foi o que pude arranjar!!

…E os Dois Ficaram Sujos.

Um moleiro
E um carvoeiro
Travaram-se de razões;
Era um da cor da neve;
Outro da cor dos carvões.

Cada qual deles teimava
Que o outro mais sujo estava;
Tinham ambos a mão leve,
Choveram os bofetões.

E qual foi o resultado?
Um ao outro se sujou;
Pois ficou,
O carvoeiro,
Empoado;
E o moleiro,
Enfarruscado.

Assim fazem as comadres,
Se começam a ralhar;
Assim fazem os compadres,
Se a política os separa:

Cada qual sem se limpar,
Consegue o outro sujar;

Nem é isso coisa rara.


Henrique O’Neill   ( 1821--1889 )



Fábula transcrita de uma cópia do meu livro de Leitura do 4º ano do Ensino Primário.

Que é como diz: antiga 4ª Classe!

Que feliz fiquei quando um dia o encontrei - à venda - numa Estação dos CTT...

O vosso era igual a este? :)


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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

"Os Ciganos"



Quem melhor do que o seu neto, Pedro Sousa Tavares, filho primogénito de Miguel S. Tavares, que completou o livro que a Avó deixou inacabado, para  homenagear esta grande figura da Literatura Portuguesa?
Completaria, hoje, noventa e cinco anos de idade!

Obrigada, pelo imenso e maravilhoso espólio que nos deixaste, Sophia!




                                                                              

 
 
 


sexta-feira, 6 de maio de 2011

DESAFIOS.





"Vicente"


Naquela tarde, à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro, Vicente abriu as asas negras e partiu. Quarenta dias eram já decorridos desde que, integrado na leva dos escolhidos, dera entrada na Arca. Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz.
Calado e carrancudo, andava de cá para lá numa agitação contínua, como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje à criação.
Em semelhante balbúrdia – lobos e cordeiros irmanados no mesmo destino – apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus.
Numa indignação silenciosa, perguntava: - a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel? Que tinham que ver os bichos com a fornicação dos homens, que o Criador queria punir? Justos ou injustos, os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo, de irreprimível repulsa. E, quanto mais inexorável se mostrava a prepotência, mais crescia a revolta de Vicente.
Quarenta dias, porém, a carne fraca o prendeu ali. Nem mesmo ele poderia dizer como descera do Líbano para o cais de embarque e, depois, na Arca, por tanto tempo recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana. Mas pudera vencer-se. Conseguira, enfim, superar o instinto da própria conservação, e abrir as asas de encontro à imensidão terrível do mar.





A insólita partida foi presenciada por grandes e pequenos num respeito calado e contido. Pasmados e deslumbrados, viram-no, temerário, de peito aberto, atravessar o primeiro muro de fogo com que Deus lhe quis impedir a fuga, sumir-se ao longe nos confins do espaço. Mas ninguém disse nada. O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação. A consciência em protesto activo contra o arbítrio que dividia os seres em eleitos e condenados.
Mas ainda no íntimo de todos aquele sabor de resgate, e já do alto, larga como um trovão, penetrante como um raio, terrível, a voz de Deus:
- Noé, onde está o meu servo Vicente?
Bípedes e quadrúpedes ficaram petrificados. Sobre o tombadilho, desceu pesada, uma mortalha de silêncio.
Noé, porém, era homem. E, como tal, aprestou as armas de defesa.
- Deve andar por aí…Vicente! Vicente! Que é do Vicente?!...
Nada.
- Vicente!...Ninguém o viu? Procurem-no!
Nem uma resposta. A criação inteira parecia muda.
Até que alguém, compadecido da mísera pequenez daquela natureza, pôs fim à comédia.






- Vicente fugiu…
- Fugiu?!  Fugiu como?
- Fugiu…Voou…
Bagadas de suor frio alagaram as têmporas do desgraçado. De repente, bambearam-lhe as pernas e caiu redondo no chão.
Na luz pardacenta do céu houve um eclipse momentâneo. Mas a divina autoridade não podia continuar assim, indecisa, titubeante, à mercê da primeira subversão. O momento de perplexidade durou apenas um instante. Porque logo a voz de Deus ribombou de novo pelo céu imenso.
- Noé, onde está o meu servo Vicente?
Acordado do desmaio poltrão, trémulo e confuso, Noé tentou justificar-se.
- Senhor o teu servo Vicente evadiu-se. Ninguém o maltratou aqui. Foi a sua pura insubmissão que o levou…Mas perdoa-lhe, e perdoa-me também a mim…
- Noé!...Noé!...
Depois seguiu-se um silêncio terrível. E, no vácuo em que tudo pareça mergulhado, ouvia-se infantil, o choro desesperado do Patriarca, que tinha então seiscentos anos de idade.




Na consciência de todos a mesma angústia e a mesma interrogação. A que represálias recorreria agora o Senhor? Qual seria o fim daquela rebelião.
Teria Vicente resistido à fúria do vendaval, à escuridão da noite e ao dilúvio sem fim? E, se vencera tudo, a que paragens arribara?
Subitamente, um lince de visão mais penetrante viu terra. Toda aquela fauna desiludida e humilhada subiu acima, ao convés, no alvoroço grato e alentador de haver anda chão firme neste pobre universo.
Terra! Apenas a crista de um cerro a emergir das vagas. Mas bastava.
Terra!...Sim , existia ainda o ventre quente da mãe. Mas Vicente, o legítimo fruto daquele seio?
Vicente, porém, vivia. À medida que a barca se aproximava, foi-se clarificando na lonjura a sua presença esguia, que era ao mesmo tempo um perfil de vontade.
Chegara!... Conseguira vencer! E todos sentiram na alma a paz da humilhação vingada.
Ah, mas estavam «rotas as fontes do grande abismo e abertas as cataratas do céu»!
Ninguém podia lutar contra a determinação de Deus.





Transida, a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Como um espectador impessoal, seguia a Arca que vinha subindo com a maré. Escolhera a liberdade e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção.
Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação.
Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.
Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, a Arca estremeceu de terror, dependente do coração resoluto de Vicente. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu…
Que nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre…




Conto de Miguel Torga

Imagens recolhidas da Net

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segunda-feira, 28 de março de 2011

EM LITÉM....ERA ASSIM...!



Este conto foi transcrito do livro "Contos da Montanha," de Miguel Torga.


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"A PAGA"



Continuação.


Entrou Abril, passou Maio, principiou Junho, e o mesmo fado corrido.


- Estou varado! – desabafava o Rodrigo.- Palavra que estou varado!


Mas, em Agosto, no dia de S. Domingos, quando o Arlindo estava nas suas sete quintas


– ó Arlindo, toca lá isto, ó Arlindo toca lá aquilo! - chega-se o Rodrigo ao pé dele e segreda-lhe: - Os Justos de Litém estão aí. O pai e os filhos…


Os dedos do meliante até se pegaram às teclas da sanfona.


- E ela?


- Ela veio cá o ano passado, e bem lhe chegou…


Já tinha saído a procissão e quem rodeava a estúrdia enchia os ouvidos de som para o regresso a casa. E, como a música esmoreceu, foram debandando e descendo a serra. Agora a festa era para os que tivessem contas velhas a ajustar.Começou então no adro um drama surdo, só interior. Os dois companheiros do Arlindo, o Rodrigo e o Gaspar, embora estroinas também, não estavam dispostos a arriscar um cabelo naquele sarilho.


- Quem as faz que as desfaça – dizia o Rodrigo, sempre que lhe falavam no caso.


E o Arlindo, há medida que a roda ia diminuindo, tinha a estranha sensação de que todos fugiam dele e o deixavam sozinho no mundo.


Na ânsia de os reter, mudava de música. Pior. A instabilidade das melodias pegava-se à assistência. Os Justos, sentados no fundo da escadaria, como a impedir-lhe a retirada, não mexiam um dedo. E a rarefacção do povo era ainda mais opressiva.


Começava a cair a noite dos lados de Constantim. As últimas vendedeiras tinham partido já. A pipa de vinho, que o Pé-Tolo tivera à sombra do sobreiro, descia o monte vazia, aos solavancos no carro.


Ao fim de duas horas de suores frios, durante as quais o Arlindo puxara pelo harmónio como um galeriano, os Justos ergueram-se e deixaram a passagem livre. - Bem, vamos andando… - disse o Arlindo, exausto. – Os homens não querem nada…


- Parece que não…


Meteram-se os três a caminho, aliviados duma carga que pesava a vida do Arlindo. Só no fundo do monte, quando o Rodrigo olhou para trás, é que viu que os Justos vinham em cima deles, calados.


- Isto dá grande desgraça, eu seja cego – avisou o Gaspar, transido. – E se fosse por outra coisa, tinhas-me aqui. Assim, não. Lá te avém…


Iam já nas matas do Infantado, quando os perseguidores cortaram por um atalho e se chegaram.

- Queremos uma palavrinha em particular aqui ao senhor Arlindo… O Rodrigo, numa irresistível solidariedade humana que se tem com qualquer condenado no momento da expiação, ainda arranjou coragem para refilar:


- Três para dizerem uma palavra a um homem só?!

Mas, sem mais rodeios, um dos Justos deitou as mãos às abas do casaco do Arlindo, enquanto os outros dois, de pistola na mão, insistiam numa palavrinha muito em particular àquele cavalheiro.

O Rodrigo e o Gaspar, à vista de tais argumentos, foram andando.


E, no dia seguinte, de manhã, o Arlindo entrou em Vale de Mendiz, embrulhado numa manta e…capado!


FIM

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sábado, 26 de março de 2011

TORGA .... URZE BRANCA.


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Conto de Miguel Torga

"A PAGA"



As falas doces com que com o Arlindo levava a água ao seu moinho não lhas ensinara o pai, não, que era um santo. Famílias boas, sãs, dão às vezes cada filho que até se fica maluco.

Sem maus exemplos em casa, nado e criado numa terra limpa como Vale de Mendiz e Deus nos livrasse de semelhante boldrego! Rapariga em que pusesse o sentido, pronto. Tanto fazia saltar como correr: tinha que ser dele.

E então não se contentava com qualquer! Só lhe apetecia o melhor. Mesmo no povo, desgraçou a Arminda, uma cachopa tão dada, tão bonita, que cortava o coração vê-la depois, desprezada de toda a gente e comidinha dos males que lhe pegou.

Em Guiães, foi a filha do Bernardino, pelos modos a coisinha mais jeitosa que lá havia. Em Abaças escolheu a Olímpia, uns dezanove anos que nem uma princesa.

Mas nenhuma como a Matilde, o ai-jesus de Litém. Descobriu-a na festa de S. Domingos e já não a largou. O Rodrigo o melhor amigo dele bem o avisou: - Olha que ali tudo o que não seja nó de altar… Não quis saber. Rapou do harmónio e abriu-o numa gargalhada. - Borga, rapaziada! Haja alegria! O poviléu, que não quer senão pândega, claro, a rodeá-lo embasbacado.


Ora, isto de mulheres é o que se sabe. A tola, só por ver um fadista daqueles a derreter-se por ela, já pensava que tinha ali o rei de Portugal!

A tia, a do Rito, no caminho, ainda lhe perguntou se não sabia que menino ele era. Sabia, e que ninguém se afligisse por via dela.

E logo no domingo seguinte, à tarde, toda desempenada a dar-lhe treta na fonte. Moveu-se o povo. Tivesse tento na bola! O mundo nunca parira rês de tão má qualidade. Ou já se não lembrava do que acontecera às outras? Nada. Não ouvia ninguém. O rapaz assentara, falava-lhe com todo o respeito, e, tão certo como dois e dois serem quatro, recebia-a. O manhosão, por sua vez, que também não havia dúvidas. Mal arranjasse a vida, casamento. O pior é que ninguém lhe via arranjar essa tal vida. Litém, pela boca do prior, chamou a rapariga à pedra. Pensasse no que andava a fazer. Desse uma cabeçada e depois se queixasse. Mas a Matilde andava viradinha do miolo. Jurava sobre as falas do Arlindo como sobre os Evangelhos. Assim tivesse tão certa a salvação como ele nunca tentara pôr-lhe um dedo e só lhe falava em bem.

Com semelhante conversa, Litém resolveu aguardar. Não há como dar tempo ao tempo e deixar cada um aprender à sua custa. E viu-se o resultado. Um dia à noite, a Matilde prega-se em casa da Lúcia, põe-se a chorar, a chorar, e acaba por contar tudo: o ladrão tinha-lho feito.

Tantas loas lhe cantara, tantas juras, tantas promessas, que caíra como uma papalva. Mas com quem o Arlindo se foi meter! Com os de Litém, gente capaz de limpar uma nódoa com as nódoas de Cristo!

Fiava-se talvez em que o pai da rapariga ter idade e os dois irmãos, o Cândido e o Albino, estarem no Rio de Janeiro.

O Justo, no desejo de compor aquilo, ainda o procurou, a saber que destino queria dar à filha. Meteu os pés pelas mãos, que não podia casar agora, que a vida estava muito má, e mais aldrabices.

Olha lá que o velho lhe dissesse nada! Calou-se muito calado, virou-lhe as costas e, nesse mesmo dia, carta para o Brasil. Entretanto, a nova fora-se espalhando pelas redondezas. E ao cabo de algum tempo o nome da Matilde simbolizava apenas a façanha mais atrevida e gloriosa do farçola de vale de Mendiz. - Não as deita em cesto roto! Isso é que ele pode ter a certeza! – garantiu o Brás, que sempre acreditara numa justiça imanente. – Tantas há-de fazer… - Já fez… - respondeu-lhe o Rodrigo, que embora amigo e companheiro do Arlindo, não engolia aquela de se ter enganado. – Com os de Litém ninguém brinca…

Em Março, quando Vale de Mendiz se cobriu de camélias e mimosas, o Alfredo à frente do macho carregado de sacas, deu a grande notícia: os filhos do Justo tinham chegado do Brasil. - Os dois? – perguntaram todos. – Os dois de uma vez?! - Olarila! - Então o Arlindo que se acautele. Mas nada parecia bulir naquele princípio de Primavera. A Matilde há muito que calara as lamúrias; o pai, a todos que lhe falavam no caso, respondia secamente que a filha dele não era melhor do que as demais; e os irmãos encheram a irmã de prendas, tratavam-na como uma rainha, e nem por sombras falavam no sucedido. - A mim até a alma se me apertava com tal sossego - dizia de vez em quando o Rodrigo. – os de Litém engolirem uma pastilha assim! - Que pastilha?! Eu quis a rapariga quis, quem tem lá com isso? Farroncas. No fundo, também ele, Arlindo, andava de coração como a noite. Bem sabia que não se vem de repente do Brasil sem uma razão qualquer, e que se quisessem resolver o caso a bem já o teriam procurado. Entrou Abril, passou Maio, principiou Junho, e o mesmo fado corrido...


Continua...



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sábado, 29 de janeiro de 2011

O MILAGRE DA MATERNIDADE....


"INIMIGAS"
Continuação

"....Tal e qual, não tardou muito, nove meses contados, mais coisa menos coisa, tudo se compôs a contento de Faiões.
Certas como relógios, o Abril a cair, e cada uma com o seu menino.
Mas a Sofia esteve tão mal, tão doente, custou-lhe tanto o dela, que ninguém o julgava. Febres, acidentes, albuminas, que foi preciso vir o médico e mesmo assim esteve desenganada. Leite para o filho, viste-o. Sequinha como as palhas! O infeliz chupava um pano molhado em água açucarada, que a Rosa lhe chegava à boca, engolia uma pinga de leite de cabra, cortado, e era tudo! Mirradinho de todo.
A Cacilda soube do caso ainda antes do tempo de resguardo. Nas terras pequenas, as boas e as más notícias entram pelas frinchas da parede. E já com outra humanidade na alma, mãe de todos os pimpolhos do mundo e solidária com todas as mães amigas ou inimigas, mandou chamar a Rosa e pôs-lhe as fontes do peito à disposição.
Com uma condição apenas: que a Sofia não soubesse de nada. À laia de passear o menino, lho levasse lá e ela havia de ver como o pequeno arribava, que tinha leite naqueles seios que chegava para um regimento. Até lhe doíam.
Assim foi. A Sofia, a poder de remédios e mais remédios, ia tendo mão na vida. E enquanto ela dormia, desmaiava, ou estava para ali amodorrada, a Rosa era como o vento: agarrava no garoto e corria para casa da Cacilda a fartá-lo.
Até que a Sofia arribou. Levantou-se muito fraca, muito amarela e quis dar de mamar ao filho. Já podia.
Mas, quando foi abrir a blusa e pôs à mostra os dois seios secos, nem o catraio as quis, nem a Rosa consentiu que lhas metesse na boca.
- Guarda lá isso, mulher, que até o podes envenenar! Eu lhe darei de comer. Olha que à fome não morre.
Humilhada, a Sofia começou a chorar. E ainda mais desespero sentiu, pouco depois, ao ver a criança espernear nos braços da Rosa, recusar a chupeta e começar num berreiro de atroar os céus. O seu rico filho estava doente. Nem comer queria!
A Rosa é que não atribuiu grande importância à birra, como lhe chamou. A criança precisava de sair um migalho, de apanhar sol…Ia passeá-la.
A Sofia ficou só, cheia da sua mágoa. Nunca fora fortalhaça, como a Cacilda, mas sempre esperara poder criar um filho, se Deus lho desse. Afinal…E por via disso o menino tinha de beber à sobreposse leite de cabra, que se calhar lhe fazia mal.
Valha a verdade que não estava magro…Contudo, sempre era criado como os enjeitados. Que alegria para a Cacilda!
Malucava nisto, quando a Rosa entrou com o rapaz, calado e sonolento.
- Vamos experimentar outra vez?
A Rosa respondeu que sim, que ia encher a mamadeira…E nunca mais voltou.
Como o menino não chorava e se lhe ferrou a dormir no colo, a babar-se, a Sofia desconfiou. Ali andava segredo.
No meio da tarde, cansada, a doente foi-se deitar e pegou no sono. A criança lá estava no berço, rosada como um anjo.
Apesar de adormecida, a Sofia continuava na sua grande labuta. A maternidade incompleta doía-lhe na raiz do instinto. E via em sonho o pequeno mirrar-se de fome, vítima inocente de uma mãe que o não era. Ofegante, tentava libertar-se do pesadelo. Não conseguia. Cada vez mais sumido, esquelético, o infeliz acusava-a com os seus grandes olhos negros, que cintilavam da escuridão de umas órbitas fundas como poços.
Num grito de terror, acordou e deu pela falta do filho.
- Tia Rosa, o menino? - Perguntou, aflita.
Respondeu-lhe o marido, da cozinha.
- Tenho-o aqui ao colo…Vê se dormes. Cresceu-lhe a desconfiança.
E no dia seguinte, pé ante pé, ainda a cair de fraqueza, quando a Rosa foi dar um dos tais passeios ao garoto, seguiu-a. Da esquina da rua viu-a chegar à eira e entregar o miúdo à Cacilda, que estava sentada ao sol.
Aproximou-se. O pequeno parecia um bacorinho ao peito da inimiga.
E, quando as outras deram conta, estava ela de pé, maravilhada, a dizer:
- Olha lá se me engasgas o rapaz, ó Cacilda!....

FIM




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Este poema de Miguel Torga, já antes o publiquei
num post dedicado à Poesia Ibérica, em português.

Hoje, vou apresentá-lo na Língua de Miguel Cervantes, uma vez que o autor mantinha uma forte ligação com o País vizinho e era entusiasta admirador dos três grandes vultos da Literatura Espanhola, que já mencionei no post anterior.


POEMAS IBÉRICOS


"IBERIA"

Tierra.
Cuanto dé la palabra, y nada más.
Sólo así la resume
Quien la contempla desde una alta cumbre
Bien cargada de sol y de pinares.

Tierra-tumor-de-angustia de saber
Si el mar es hondo y al fin deja pasar...
Una antena de Europa que recibe
La voz de lejos que le quiere hablar...

Tierra de pan y vino
(La sed y el hambre ya vendrán después,
Cuando espuma salobre sea el camino
Donde uno anda desdoblado en dos).

Tierra desnuda y anta
Que en ella cupo el Mundo-Viejo y Nuevo...
Que en ella caben Portugal y España
Y la locura alada de su
Pue
blo.
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

FICÇÃO OU REALIDADE?...

Miguel Torga, médico, poeta e dramaturgo, é o meu poeta/escritor de eleição. Desde muito jovem que sinto por este grande vulto da Literatura Portuguesa Contemporânea, uma enorme ternura e admiração, pelo seu amor às gentes rudes e genuínas da região que o viu nascer, cujas vidas difíceis tão bem retratou nesta colectânea de 23 contos, editado em 1941.
A linguagem usada é a típica das aldeias transmontanas naquela época da primeira metade do século passado.
Nascido em São Martinho de Anta, região transmontana, em Agosto de 1907, Adolfo Correia da Rocha adoptou o pseudónimo literário de Miguel Torga em homenagem aos três grandes “Migueis” espanhóis: Cervantes, Molinos e Unamuno e Torga por ser o nome de uma urze que existia em abundância naquela região de Trás-os-Montes.
Miguel Torga faleceu em Coimbra em Janeiro de 1995.


O conto que escolhi não será o mais interessante, mas é o meu preferido. Talvez porque define aquilo que entendo por verdadeira amizade. Mesmo quando parece desfeita, ela vive latente no fundo do coração e emerge no momento crucial...


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Imagem recolhida na NET
"INIMIGAS"
"Desde o arraial da Senhora da Fraga que a Cacilda e a Sofia se não podiam ver. Até ali muito amigas, sempre agarradas uma à outra, como irmãs. Mas meteu-se a ciumeira entre elas e aquela amizade foi um ar que lhe deu. Fiadas no paleio do Augusto, a prometer um tostão a uma e cinco vinténs a outra, pareciam cadelas ao mesmo osso. Não saberem que quem é homem diverte-se, e que em coisas assim o melhor é fazer das tripas coração e deixar correr! Qual o quê! Puseram-se a dar ouvidos aos vinte anos, e, não é nada, faziam lume mal se encaravam.
Na noite da tal zanga, andavam juntas no adro, felizes da vida, a comer peras e a beber limonada, quando o rapaz se aproximou, se eram servidas de qualquer coisa. Que muito obrigadas, mas que não tinham fome nem sede.
­­- E uma prenda?
Que aceitavam, já que estava tão daimoso.
Ora, o Augusto, na escolha dos ramos de rebuçados, teve tais artes, que só com a quadra que neles vinha encheu as duas da miragem dum amor sem misturas. Umas patetas!
O certo é que, mal o rapaz tirou a Sofia para dançar, a Cacilda ficou como se lhe tivessem dito que o fim do mundo era naquele instante.
Os arraiais da Senhora da Fraga são um bota-fora a noite inteira, com duas músicas a estrondar, uma de cada lado da Capela. Fogo, nem se fala. Até de Sanfins se pode ver o céu de Faiões, sem um minuto de intervalo, aberto de claridade. Coisa rica!
Pipas e pipas de vinho debaixo da carvalhada, e do melhor, que parece que todos capricham nisso. Tascas de fritos, mesas de cavacas e de refrescos, medas de regueifas, carros de melancias, um louvar a Deus. Fartura de tudo! De maneira que quem diz: vou ao arraial da Senhora da Fraga e vai, já se sabe que não arranca de lá antes do alvorecer. Por isso, até a Santa estremeceu no altar quando a Cacilda disse que se ia embora. Perguntava-lhe a Ti Constança, abismada:
- Que mosca te mordeu, rapariga? Tu estás maluca ou quê?
Felizmente que o Augusto valeu àquilo, arredondando a fala e convidando-a também.
Toda babada por dentro, que não, que não dançava. Rogasse outra vez à Sofia. O rapaz insistiu, e o que foste fazer! Agarrou-se a ele e atirou-se à cana-verde que parecia um pé-de-vento! De madrugada, comiam-se uma à outra.
E valia a pena! As palermas a adorá-lo, a quebrar lanças pelo grande adereço, e o ladrão de caçoada! Ainda o cheiro dos foguetes andava pela serra a cabo, já os banhos do casamento dele a correr em Favaios com uma de lá!
Cuidaram todos que, morto o bicho, morta a peçonha. Oh, oh! Nem assim deram o braço a torcer! Engoliram a desfeita e ficaram como dantes, senão pior. E mutuamente a atribuírem-se as culpas do Augusto bater as asas! O grande prejuízo! Que valia ele mais do que os outros? Nada. E a prova disso é que não tardou muito estavam casadas, com dois rapazes bem jeitosos, de resto, o Alberto e o Raimundo. Que queriam mais? Mas meteu-se-lhes aquela vilania no corpo, que mesmo depois de o verem arrumado e de se arrumarem também, continuavam a ferro e fogo.
Na boda de ambas ainda houve quem tentasse fazer as pazes. De nada valeu! Danadas!
Como a Sofia casou primeiro, disse-lhe a Rosa:
- Eu se fosse a ti, convidava a Cacilda…Fostes tão amigas na mocidade!
Que não a queria ver nem pintada numa parede. E logo naquele dia, de mais a mais! Uma falsa, que se lhe atravessara no caminho como uma ladra! Não. Havia ofensas que nem à hora da morte…
E a Cacilda, quando lhe chegou também a vez, mal lhe falaram em convidar a Sofia, credo, mudou de cor e perguntou muito a sério se lhe queriam estragar a festa. A raiva que tinha da outra iria com ela para a sepultura.
Com tal gente, bom dia! É não fazer caso e deixar correr. Dar tempo ao tempo que cura males e embranquece os cabelos…"

Continua...

Lamento, mas estou a transcrever directamente do livro e não tive tempo para passar tudo...

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