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domingo, 16 de dezembro de 2018

Porque É Tempo De Perdão, Tolerância E Compreensão......


Piloto 


Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, e o infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da quinta.
Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã Joaninha.
Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações: partia então como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.

Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da quinta.
Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.
Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade enquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.
Era como se dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu dono?»
O ladrão quis pôr então outra vez o saco donde o tinha tirado; Piloto não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não desonrar.
Mas o homem ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até à margem do ribeiro.
Atou uma grande pedra à outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o à água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço, caiu também.
Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes e trazido para terra o seu mortal inimigo.
Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.
Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse dia, esforçou-se a si mesmo e combateu as suas más inclinações.
O exemplo do cão corrigiu o homem.




* * * * * 


Nota: Dedico este postal a todos aqueles que gostam e zelam pelo bem-estar dos animais  -  de uma maneira geral e do cão em especial -  nomeadamente ao meu amigo Daniel, acérrimo defensor dos direitos dos animais. 
(sem pieguices nem exageros.)

+++

Dedico ainda este postal, por bem-vinda sugestão do Amigo Rogério:

"A todos os homens que, tendo errado, 
se envergonharam do erro
e enveredaram pelo caminho certo"

Pronto...está dedicado...!! 





terça-feira, 30 de outubro de 2018

NADA É ETERNO.


Foto minha.



Nesta minha relação tripartida de pasmo/desconcerto/incredulidade, que nutro pelo "raio do livro", vou partilhar convosco mais este conto para, depois, arrumá-lo para o fundo da prateleira mais alta, desta estante, que é a mais alta que tenho, e esquecê-lo definitivamente. Na verdade, e para minha satisfação pessoal, não poderia dar descanso a esta personagem donjuanesca, sem antes a colocar e ter entendido - dentro da sua própria narrativa – no lugar de seduzido, ao invés de sedutor. Papel que desempenhou em todas as narrativas feitas na primeira pessoa…
…E esta hein, Mário de Carvalho? Finalmente o entendi!...

Ora, vamos lá ver se têm paciência para chegar ao fim...


Audácia

      Tinha acabado de arrumar o carro no parque, e ainda vinha com as chaves na mão a tilintar, quando ouvi o estrondo. Uma intuição traquina preveniu-me logo, disposta a desfeitear-me o dia: é contigo! E era.

      Aurora apareceu-me, de mão na boca, numa atarantação. Ora olhava para os automóveis, ora para mim, numa gesticulação desordenada.
      --  Eu pago tudo, eu pago tudo…
      -- Minha senhora – era eu –,   por favor desligue o motor do carro e sossegue.
      No café mais próximo, ajudei-a a preencher a declaração do seguro. Mostrava-se tão enervada que dois chás de camomila não conseguiram orientá-la. O documento, em nome do marido, conformou-se à letra galgante e rasurada. Comprometi-me a enviá-lo, aproveitando o estafeta da empresa, e combinámos encontrar-nos ao fim da tarde, para tratar de miuçalhas burocráticas.
      E assim tramou o destino o meu fortuito e prazenteiro conúbio com Aurora. Ela sabia estar, gostava de rir e tinha leituras. Negociámos o hotel caso a caso, firma a firma e deu-me de saber muito mais do assunto do que eu. Era estranho, tratando-se da cidade em que, segundo garantia, sempre viveu.
      Nenhum foi aprovado. Tudo choldras. Mencionei-lhe a garçonnière, a medo, mas ela riu por achar a ideia muito engraçada.
      -- Parece coisa de adolescentes. Também, você é bastante jovem.
      Era lisonja de Aurora. Hábitos sociais. Mas sabe sempre bem ouvir.
      Eu já a tinha prevenido de que não era de esperar nenhum palácio, nem lustres, nem pianos, nem biombos Namban. Mas, mal deu dois passos na cave, Aurora sentou-se na cadeira, aliás perigosamente, porque nada lhe garantia a respectiva solidez, e quis afogar-me num vagalhão de gargalhadas.
      Depois, ficou de súbito muito séria e, com dois dedos, fez-me sinal para que me sentasse na cama.
      -- Não, caríssimo, adoro o propósito, a clandestinidade da coisa, mas isto sem um bocado de romantismo não vai lá.
      Lá vinha o tal «romantismo», consabida fixação feminil. O padrão é muito vulgar, mas não contava vir a reconhecê-lo numa balzaquiana tão directa e despachada.
      E ela agora a sorrir-me como se tivesse pena de mim.
      - Caríssimo, lamento, nesta espelunca não dá. Positivamente, não dá.
      O dia estava estragado. Cheguei a pensar em rumar com ela a um hotel da Linha, mas não cheguei a propor. Sabia lá se a minha renitente amante não consideraria o local inapropriado à sua avidez de alma. Há mais marés que marinheiros, e era melhor esperar que passasse a ocasião nefasta. Deixasse fazer a Deus, que é santo velho, como descobriu o povo, já que estamos em foco de provérbios.
      Não passou muito tempo antes que Aurora me contactasse de novo, no emprego. Surgiu na minha frente, muito bem penteada e maquilhada. Nada fora do normal. Ninguém notou.
      -- Por favor, sente-se.
      -- Nem pensar. Venha daí. Arranje uma desculpa. 
      E daí a pouco, no automóvel dela, ainda com o porta-bagagens amolgado, rodávamos para as bandas da Venda do Pinheiro, ao som de Singing the Blues. Disse-me que o destino era uma surpresa, mas depois de um telefonema em alta voz, algo ruidoso, era fácil de perceber. Aurora falava com o caseiro:
      - Sebastião, ponha-me as chaves debaixo da pedra do costume. Não, o senhor doutor desta vez não pode ir.
      E acrescentou ordens e pormenores domésticos, rematando, para meu sossego:
      - Não, não, é melhor que não apareça, prefiro estar sozinha. Tenho muito trabalho. Vá lá, vá lá…
      Era a casa de campo dela. Retirou um molho de chaves de um pedregulho em que estava enrolada uma mangueira e, enquanto se debatia com a fechadura, prevenia-me:
      - Se vier alguém, digo que é o meu decorador. Não ouse desmentir.
      Era uma vivenda bem-apessoada, com escadório apainelado ao fundo do salão. O caseiro tinha ateado umas brasas na lareira e aberto algumas janelas.
      - Vai um copo?
      - Eu talvez preferisse subir… - respondi, a medo.
      -- Dentro em pouco, alvoroçávamos a cama, lá em cima. Se aquilo era romantismo, estamos conversados. Mas a vida ensinou-me que não há que discutir convicções íntimas. Nem doutrinações.
      No desafogado leito de torcidos e tremidos, Aurora revelou-se dinâmica e empreendedora. Dominava superiormente as técnicas e os tempos, obtinha tudo o que queria, e sabia querer.
      Uma das multifacetadas peculiaridades de Aurora era a repetição em série destas devastadoras demonstrações de êxtase, nunca tendo eu percebido – macho limitado e apendicular que sou – se as deflagrações se sucediam em crescendo, em mantença, ou em descendo.
      Outra particularidade era a de avisar, futurando com voz trémula, gritada e urgente, o que estava prestes a acontecer e confirmar depois essa declaração, em termos soluçantes, já no presente, enquanto o milagre espasmódico nos estava a avassalar.
      -- E o seu marido? – indaguei eu, enfim, na fase de encolha dialogante em que os cansaços filosofam.
      -- O meu marido o quê?
      -- Se ele descobre…Não tem ciúmes? Ao fim e ao cabo esta é também a casa dele.
      -- Sabe o que é que o meu marido disse de outras vezes? Foi: «Lá estás tu com essas coisas…»
      -- E a sua mulher, como é? – Agora era ela.
      -- As legítimas? Ora, aonde isso já vai…
      Muita coisa me confidenciou Aurora, porque múltipla, volúvel e bem vivida tinha sido aquela existência.
      Aurora e eu vimo-nos mais vezes, num hotel escolhido por ela – e que até nem era grande coisa, apesar dos dourados – e em casa duma amiga. O vento vai e o vento vem, nos seus eternos circuitos. Não há amores eternos. Já basta que não sejam infelizes.
      Ambos sabíamos isso e nem foi preciso despedirmo-nos.
     
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 Aqui para nós, diverti-me imenso ao transcrever isto. Houve alturas em que gargalhei com vontade. Agora é tempo de encerrar esta minha relação conflituosa, que mantinha há mais de um ano, com a personagem, e partir para leituras mais sérias. Do mesmo autor, se possível.

Como os leitores já devem ter percebido, este é mais um conto da autoria do laureado escritor: Mário de Carvalho. 

 [do livro: Ronda das Mil Belas em Frol ]


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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Até Os Aracnídeos Sonham!...

Tela de  Nicoletta Ceccoli


A aranha, aquela aranha, era única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo, um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs.
E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem nem finalidade. Todo bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatias funções: lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem, menos a nossa aranhinha, em suas distraiçoeiras funções.
Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a devida aplicação? Mas a jovem aranhiça não fazia ouvidos. E alfaiatava, alfinetava, cegava os nós. Tecia e retecia o fio, entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.
– Não faço teias por instinto.
– Então, fazes porquê?
– Faço por arte.
Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e recantos deixava a sua marca, o engenho da sua seda. Os pais, após concertação,  mandaram-na chamar. A mãe:
– Minha filha, quando é que assentas as patas na parede?
E o pai:
– Já eu me vejo em palpos de mim…
Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos muitos olhos enquanto disse:
– Estamos recebendo queixas do aranhal.
– O que é que dizem, mãe?
– Dizem que isso só pode ser doença apanhada de outras criaturas.
Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um machito. E organizaram um amoroso encontro.
– Vai ver que custa menos que engolir mosca – disse a mãe.
E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o singelo namorador, a aranha namorou e ficou enamorada. Os dois deram-se os apêndices e dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a teia que fabricava a brisa?
A aranhiça levou o namorado a visitar sua coleção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova do seu amor.
A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime. Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?
– Faço arte.
– Arte?
E os humanos entreolharam-se, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais-velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos – chamados de obras de arte – tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.

“A Infinita Fiandeira” 

conto de Mia Couto    in “Fio de Missangas”






sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A PROPÓSITO...


BAQUE


   Parece que tenho o dever de decifrar e não mereço, por meu lado, ser entendido. Ninguém é obrigado a compreender-me a mim. Arrasto o encargo da indagação. Não é extinguível, nem comunicável, nem transmissível.
      No Luxemburgo, eu ia penando num estágio qualquer, e o marido de Madalena, emigrante de sucesso e negociante de vinhos, fartava-se de viajar, em boa hora, por Franças e Araganças.
      A recordação que me ficou mais viva, e ainda ressoa, foi aquele sobressalto, seguido de safanão: «Tire daí os dedos!». Atropelo, rudeza, pua de ferrugem a farpear em leito de rosas. Livra! Mas, então? Elucidou que sentia as minhas meiguices de mão, o meu dedilhar curioso, como a incomodidade bruta de um corpo estranho entre as pernas. Um corpo estranho? Ora! Deixasse-se disso. E seguiu-se um monumental desajeito de gestos e de posições. Se a dialéctica dos corpos, até então, não era perfeita, muito pior passou a ser. As frases e os protestos mútuos também não acertaram em termos satisfatórios.
      Orgulhava-se Madalena dos vistosos cabelos pretos, uma lisura espessa, longa, toque sedoso, a contrastar com a pele sardenta e áspera. Jazia comigo, numa imobilidade de preguiça, os redondos olhos negros parados no infinito, uma docilidade feita de inacção, espera e paciência. Como se os dedos – os dela; não vi, mas adivinhei – lhe tamborilassem no lençol, enquanto eu demorava a desunir-me. Parecia-lhe, porventura, que eu me demorava no tempo, que empatava.
      Noutra tentativa, num dos dias seguintes, quase não parou de conversar. E eu tolerei que ela tivesse sempre a boca desimpedida. O ponto era consabido: que, apesar «daquilo» não pensasse eu que…
   Alguma ingenuidade de mulher madura permitia-lhe aceitar todas as tranquilizações e garantias que eu outorgasse, enquanto procurava – mal- empregado – dar-lhe o melhor do meu esforço.
      Ela tinha assuntos do marido a tratar. Aturei filas de espera molengas, preenchimentos de formulários, leituras de regulamentos em bancos nevoentos de parques públicos, porque a minha amiga Madalena entendia que um relacionamento amoroso implicava contrapartidas de solidariedade burocrática. Padecer em conjunto. Desdenhar do mundo, ombro com ombro, coxa com coxa. E papéis debaixo do braço.
      A parte mais amena do empreendimento implicava sessões de cinema, de chatíssima e inábeis coisadas, extravagâncias a simular profundeza, com ressoos de Nouvelle Vague. A minha mão procurava a dela, por desfastio, relembrando as praxes de adolescente: «Esteja quieto», sussurrava-me. «Deixe-me ver o filme».

      Não há duas sem três, nem três sem quatro. Por duas vezes, encontrando-se ela em Lisboa, tentei reincidir para alterar. Ainda estou para saber como é que me deixei embrulhar em tanta complicação miudinha. No hotel não podia ser, que a reserva estava em nome do marido. Mesmo que não se soubesse, havia sempre aquele sentimento de traição, de se estar a aproveitar de uma assinatura, duma conta, que não a deixava à vontade.
       Telefonando, eu tinha acesso à garçonnière de um amigo. A minha própria casa pululava de presenças, três idosos e enfermeiras, de forma que muito agradecia aquele derivativo. Era um pequeno estúdio, numa cave, com um desengonço de cama e trastes em quinta mão, onde sobremaneira importava garantir a horizontalidade, não obstante rangessem e estalassem madeirames e fechos.
      Saiu Madalena do carro, intrigada, no jardim. Desceu um lance de escadas de malgrado, a olhar-me, desconfiada. Examinou-me, sobranceira, à porta, cirandou os olhos em volta do quarto e acabou por se sentar na única cadeira que ali sobrevivia, desarticulada, destinada a roupas atiradas. Ora pernas cruzadas, ora joelhos unidos, mãos sobre eles, em pose defendente, como se alguém pretendesse arrostar, o que era o caso.
      «Não!» Negativa breve e peremptória. O que eu conheço de todas as letras, todas as redondezas, todos os ínfimos recônditos desta maldita imprecação. Mas sou, desafortunadamente, compilador compulsivo e repleto.
      Afundava-me, sentado na borda da cama, e ia desistindo de justificar a indigência de tudo aquilo, as chitas ou lá o que era, os quadros de meio tostão ainda encostados à parede ( menino lacrimoso, pesca portuguesa, ou coisas assim ), a janela de vidros foscos, que parecia dar para um saguão.
      Ela explicava-me vivamente, muito digna, com os recônditos bem defendidos e segurança de voz, a transcendência dos relacionamentos. Que poderia eu fazer se não abdicar? Não sou de violações. Nem sei.
      Fui depô-la na portaria do hotel. Se calhar até pedi desculpa. Andor. Até sempre.
     
  
NOTA: Como já deu para perceber, este é mais um conto da autoria de Mário de Carvalho. Não vos inquieteis com a extensão do texto. Se não tiverem tempo para o ler, de uma assentada, vão lendo aos poucos...Depois, digam-me o que  acharam desta personagem feminina.  

  Obrigada a TODOS com votos de:

Feliz Fim-de-Semana


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domingo, 18 de janeiro de 2015

Há Males Que Vêm Para Bem! Atenção, Meninos, Digam aos Pais e Avós Que Este Post é para Vós!

 
 
"Por Bem"
 
Uma galinha, um pato, um cão e um burro iam a fugir por uma estrada fora. Corta-lhes a correria um polícia:
- Alto lá, seus fugitivos. Para
irem com essa pressa, alguma maroteira fizeram.
Eles protestaram que não, mas o polícia, desconfiado, quis saber pormenores. Então, a galinha explicou:
- Eu ia a fugir, porque ontem ouvi que iam fazer canja, lá em casa.
Ao que o pato acrescentou:
- E depois da canja, pato com arroz...
O cão explicou:
- O meu dono ia mandar-me para o canil.
- E o meu dizia que eu estava velho e ia mandar-me abater - disse o burro.
- Mas comigo ainda podes - disse o polícia, saltando-lhe para os costados.
Presa a cada mão, trazia o pato e a galinha. Salvara-se o cão, que o polícia não teve maneira de prender.
- Toca a andar para a esquadra - comandou o polícia. - Vai tudo preso.
O burro, habituado a obedecer, obedeceu. Mas o cão, que se safara, é que não se conformou. Deu uma valente mordidela numa das patas do burro, que escoiceou. O polícia caiu ao chão e largou a galinha mais o pato.
Correram os bichos. Mal refeito da queda, o polícia não teve forças para persegui-los.
- Desculpa a dentada - disse o cão ao burro, quando se viram a salvo. - Mas foi por bem.
- Não tem importância - respondeu o burro, a mostrar os grandes dentes, num riso de felicidade. - Há coisas que ardem, mas curam.

Conto de António Torrado
 
(Moral da história - digo eu - para alertar os meninos: Por vezes é preciso beliscar pessoas que, cheias de boa-vontade, são manipuladas por outras, que são desmioladas! :)  )

                                                                       
Viu, Vovô?....

                                               
Como este ano vamos ter eleições, fica também este vídeo dos
                             BICHOS CANTORES!
 
:))))
 
Tenham uma boa semana!
 
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A Voz do Mar.




O Artur sentiu sobre a orelha uma coisa muito fria, com um som...
- O que é, mãe?
- Não ouves?
Sim, ouvia. Era um som pesado lá ao longe e que depois vinha, vinha e subia, e que depois se tornava mais brandinho, para logo voltar a vir de longe. Parecia música, mas não era bem música. E talvez fosse. Bom, não seria bem música.
- O que é, mãe? - Voltou a perguntar. - Que barulho é este?
- É o mar... É a voz do mar...
- A voz do mar?!
- O mar fica longe, mas a voz meteu-se aí dentro. Isto é um búzio.
- E onde nascem os búzios?
- No mar.
-Então é por isso que se ouve...
- Pois é. As ondas fazem um barulho assim quando se ouvem ao longe. E a gente está longe. Não ouves a voz que lá vem?
- Oiço.
- E depois quebra-se assim como as ondas na areia.
- Então isto é o mar? O mar é o oceano. No mapa chamam-lhe oceano. Parece que há vários... Eu já ouvi aos que andam no quarto ano: é o Oceano Atlântico, o Oceano Índico...
- Não achas que mar é mais bonito?
- Pois é, mar é muito mais bonito.
De repente, fechou os olhos e juntou as duas mãos sobre o búzio, apertando-o contra o ouvido.
- Agora deve ser um navio que lá vem. É mesmo, é, é um navio...
A mãe aproximou o ouvido, desviando o lenço.
- Não ouves?
Não, a mãe não ouvia. Mas o importante para ele era ter o mar apertado entre as mãos. Lá vinha uma onda...e outra.

Alves Redol, Histórias Afluentes
E um arzinho da minha graça, neste pequeno acróstico
que dedico a uma pessoa muito especial.
 



M ais do que a minha própria vida

A r que respiro e me dá alento

R aio de luz, meu olhar atento.

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Cátia Vanessa...


Farta de receber ordens.
 
Era uma vez uma menina que estava farta de estar em casa. Farta, farta, farta que a mandassem para a escola; farta, farta, farta que se zangassem com ela para comer; farta, farta, farta que a obrigassem a vestir o que não queria e farta, farta, farta de não mandar nada em ninguém e toda a gente mandar nela!
Além disso, a menina estava amuada desde que tinha nascido, por lhe terem chamado Cátia Vanessa, quando preferia mil vezes que a tivessem baptizado como Penélope.
Um dia queixou-se à mãe:
— Mãe estou farta, farta, farta! Quero outra vida, quero mandar muito!
E a mãe desatou-se a rir (os adultos às vezes riem nas alturas mais estúpidas) e respondeu:

— Então faz-te à vida, filha: arranja casa e emprego, e depois mandas em quem quiser obedecer-te.
A Cátia Vanessa, ou Penélope como gostava de se imaginar, foi ter com o pai e repetiu-lhe a pergunta:
— Pai, pai, estou farta, farta, farta desta casa...
O pai, que estava a aparafusar uma estante, olhou para ela lá de cima, e disse-lhe:
— Ó minha amiga, põe a trouxa às costas e faz-te à vida!
Estava tudo doido naquela casa, pensou a Cátia Penélope Vanessa. E, ainda por cima, o pai e a mãe tinham aquela irritante mania de dizerem sempre a mesma coisa, mesmo quando não esta­vam juntos. Se fossem os pais dos seus amigos tinham-se atirado aos pés dos filhos a pedir-lhes para não se irem embora, a prometerem presentes se ficassem... Mas os pais da Cátia Vanessa, tinham dito, mais coisa menos coisa:
— Se não estás bem, muda-te!
Era demais! Agora ia mesmo fugir de casa, e depois é que os pais haviam de ver! Pegou numa mala e atirou as suas coisas mais preciosas lá para dentro: uma camisa de noite, a t-shirt com o golfinho de que mais gostava, uma bolsinha com moedas de ouro que a avó, mãe da mãe, lhe tinha dado em pequenina, e duas escovas de prata, herdadas da avó mãe do pai, que já tinha morrido. Depois, bateu a porta com o maior estrondo que pôde e começou a descer a rua, com um passo rápido. De vez em quando olhava por cima do ombro: de certeza que, com aquela barulheira, os pais tinham percebido que fugira e vinham atrás dela...
Mas, estranhamente, nada. E a Cátia Penélope Vanessa teve de virar a esquina, sabendo que nenhuma pessoa grande estava com ela... Quando se viu naquela rua onde nunca tinha estado sozinha, sentiu-se um bocadinho assustada. Assustada porque se tinha esquecido de pensar para onde ia. Não podia ir para casa de avós, nem de tios, nem de amigas, porque, se não, ligavam logo aos pais a dizer onde ela estava, e assim eles não se assustavam.
Sentou-se num degrau e pensou e pensou... Uma velhinha de lenço preto na cabeça, que ia a passar, parou para lhe falar:
— Perdeste-te, menina? — perguntou a senhora.
A Cátia deu um salto e agarrou-se com mais força à sua mala. Mas, como fora de casa era bem-educada (a maioria das pessoas são mais educadas fora de casa, vá-se lá saber porquê!), respondeu:
— Eu fugi de casa, mas não tenho para onde ir.
E a velhinha, tentando esconder o sorriso, perguntou, curiosa:
— Porque é que fugiste?
Aí a menina ficou um bocado envergonhada:
— Porque queria mandar muito! E porque estava farta de receber ordens de toda a gente... — murmurou baixinho. — E então os meus pais disseram para ir procurar alguém que obedecesse às minhas ordens, porque na casa deles, mandavam eles. É injusto!
A velhinha ficou muito séria. Pensou, pensou e depois respondeu:
— Já sei! Tenho exactamente aquilo de que precisas. Espera aqui um bocadinho que já volto.
E a menina Cátia esperou, porque também não tinha para onde ir. E, minutos depois, a velhinha voltou com um cachorrinho pequenino, de um castanho muito clarinho, orelhas compridas e um focinho com bigodes. E disse:
— É para ti. Assim não vais sentir-te tão sozinha, e podes mandar nele. Mas manda bem, porque os cães sabem muito bem o que é justo e o que não é. E se não for, é natural e bem feito que te dê uma dentada. Mas se for bem mandado, dá-te lambidelas e salta para brincar contigo.


                                                       



A Cátia Penélope Vanessa ficou muito, muito contente. Disse obrigada várias vezes e voltou a subir a rua inclinada até à porta de casa. E agora, como é que ia voltar sem que fizessem troça dela? E se estivessem zangados? Mas, mesmo antes de ter tido tempo de abrir a porta, a porta abriu-se e a mãe agarrou-a ao colo, e apertou-a com muita força:
— Minha pateta, ainda bem que voltaste! Não conseguíamos viver sem ti!
E o pai desceu do escadote, atirou-a ao ar e disse:
— Não voltes a fugir, está bem?
E a Cátia mostrou-lhes o cão pequenino, e a mãe e o pai disseram que sim, que podia ficar com ele, desde que lhe desse de comer, o levasse ao veterinário e a passear à rua, o educasse a não fazer chichi dentro de casa e a não morder, e a obedecer às ordens dos donos. A Cátia olhou espantada:
— Mas isso é o que vocês fazem comigo!
Desataram todos a rir e a Cátia Penélope Vanessa decidiu que pelo menos um erro não ia repetir: não ia baptizar o cão com um nome de que ele não gostasse. Por isso perguntou-lhe como é que ele queria chamar-se. Como ele respondeu «Ão-ão», foi como «Ão-ão» que foi baptizado.

 
Isabel Stilwell
Histórias para contar em 1 minuto e ½

 
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quarta-feira, 4 de abril de 2012

A BONDADE DOS SIMPLES...

IMAGEM DA NET
Este, é mais um conto do escritor, poeta e dramaturgo de que tanto gosto: MIGUEL TORGA.
Como todos os outros que aqui tenho trazido, faz parte do seu livro Contos da Montanha.
Por ser de uma simplicidade enternecedora, é um dos que mais gosto!
Hoje, lembrei-me deste conto...mas não me perguntem porquê... 






O DESAMPARO DE S. FRUTUOSO.


Não tinha nenhuma razão particular para estar grata a Deus ou a qualquer dos membros da sua corte celestial. A não ser que considerasse um favor o simples facto de viver…

Esse privilégio, porém, fora dado a tantos, inclusivamente a toda a casta de bichos e ervas, que francamente! Não desfazia na obra de ninguém, é claro…malucava, apenas.

Zorra, criada aos baldões, sempre arrastada, mal se poderia considerar uma pessoa humana, quanto mais uma pessoa reconhecida ao Criador!

Sabia que S. Frutuoso não metia prego nem estopa nesse capítulo da geração dos mortais. Mas também não sentira ainda que os poderes de que ele dispunha a beneficiassem. Pedira-lhe ajuda numa ocasião em que uma pragana lhe cegara uma vista, e nada! Prometera-lhe uma vela na altura da pneumónica, e foi o que se viu: ia deitando os bofes pela boca. Nascera-lhe não sei quê num seio, rogara-lhe entre o cálice e a hóstia a esmola da cura, e o caroço cada vez crescia mais, de maneira que, a falar franco, não devia favores a ninguém.

Em todo o caso, doera-lhe ver o pobre santo naquele preparo. Que, considerando bem, a chuva caía em cima…e como parece que no céu é que estava o governo do mundo, não custava nada a quem lá morava…além de ser uma obra de caridade para com os que vivam cá neste vale de lágrimas.

Quatro meses de invernia, sem uma aberta, sem uma réstia de sol, nevões, nevões, e agora aquele dilúvio seguido. Um lindo serviço, não haja dúvida!

Como não era de arcas encoiradas, falara ao prior no destempero duma coisa assim.

- E que queres que te faça?

Sabia lá! Mas já que ele representava Cristo na terra, podia, talvez…

- Não há nada que ande tanto à vontade de Deus como o tempo, mulher! Nunca ouviste dizer?

- Eu não senhor!

- Pois é pena.

Pronto! Se era assim…ao menos ficava esclarecida. Em todo o caso punha as suas dúvidas quanto às vantagens, humanas e divinas, de tanto frio, tanto vento e tanta chuva. Chamassem-lhe maluca à vontade. Não concordava, não concordava!

Como havia o desgraçado do S. Frutuoso resistir àquilo? Fiada na caridade humana, fartara-se de pedir providências. Mas quê, ninguém quisera saber. Talvez por não terem visto o que ela vira…Vinha a passar, abrigara-se duma bátega mais valente no alpendre da capela, dera uma olhadela lá para dentro, e até os olhos se lhe arrasaram de lágrimas ao encarar o mísero, alagadinho, encolhido como um pito riço. Sempre era um santo, com mil diabos! Pois chovia-lhe em cima como se estivesse no meio da rua. Metia dó! Os pingos batiam-lhe na cabeça, escorriam-lhe pela cara abaixo, derretiam-lhe a pintura, transformavam-lhe o hábito num borrão esverdeado, e alastravam aquela nojeira pela toalha do altar.

Dera imediatamente o alarme. Valeu bem! Foi o mesmo que nada.

- Se vê que está mal, que se mude. Ou então que componha os astros…-respondera-lhe o Faustino, que não perdoava ao orago o atraso em que tinha as sementeiras.

O abade também nada adiantou. Que torna, que deixa…Ora, se os responsáveis procediam assim, não lhe competia a ela incomodar-se, de mais a mais estonada de fome e sem culpas no cartório. Evidentemente que era crente. Acreditava que há-de haver uma lei que nos governe. Isso, porém, não queria dizer que tivesse de se meter em brios de zeladora.

Mas o coração às vezes também manda. E o dela compadecera-se humanamente da sorte daquele desinfeliz que nem um cortelho vedado tinha para se abrigar.

Apenas por essa razão se tirara de cuidados e dera andamento à ideia de o acautelar de qualquer modo. Tecer a croça, francamente, custara-lhe pouco: até lhe servira de entretém. Agora subir a serra aos empurrões do vento e a furar as bátegas, isso sim, chegara para afligir! Mas acabou-se. Lá vestira o gabinardo ao miserável, e, apesar de encharcada, podia finalmente dormir em paz…

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Meus amigos, a todos desejo uma Páscoa muito Feliz.



Espero que gostem...tanto quanto eu...!