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sábado, 7 de fevereiro de 2026

__QUEM CONTA UM CONTO...

 


O ERMITÃO


Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou retirar-se para uma gruta solitária para se dedicar inteiramente à salvação da sua alma. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca da ideia de Deus. Depois de viver assim durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que já tinha merecido um lugar glorioso no Paraíso e podia ser contado entre os santos mais notáveis.

Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe e disse-lhe:

Há no mundo um pobre músico, que anda de porta em porta, tocando viola e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.

O ermitão, atónito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no seu bordão, foi em busca do músico e mal o encontrou disse-lhe:

- Irmão, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e penitências e tornaste agradável a Deus.

- Ora, respondeu-lhe o músico, baixando a cabeça: santo padre, não zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, pobre de mim, que sou um pecador. O que faço é andar de casa em casa a divertir os outros.

  O austero ermitão continuou a insistir:

- Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda, praticaste algum acto de virtude.

- Em verdade não poderia citar nem um só.

- Mas então, como chegaste a este estado de pobreza?  Tens vivido loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente o teu património e o produto do teu ofício?



- Não: mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e filhos tinham sido condenados à escravidão para pagar uma dívida.

Essa mulher era nova e bela e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa, protegi-a de todos os perigos, dei-lhe tudo o que possuía para resgatar a sua família, e levei-a à cidade onde ela devia encontrar-se com o seu marido e seus filhos.  Mas quem não teria feito outro tanto?


  A estas palavras o ermitão pôs-se a chorar e exclamou:

 - Nos meus setenta anos de solidão nunca pratiquei uma obra tão meritória, e, apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu não passas de um pobre músico ambulante.


  ** **

Nota: Como todas as histórias e fábulas, também esta encerra uma moral. Cabe, a quem a ler, retirar a sua ilação.
Só me dispus a escolher e transcrever este conto, pela época egoísta e vil que a Humanidade atravessa.

O autor é Guerra Junqueiro e, naturalmente, é mais um Conto, que consta no mesmo livro que o anterior.

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sábado, 27 de março de 2021

O VELHO QUE SABIA DEMAIS. 3ª e Útima Parte.

 "História do Sábio Fechado na sua Biblioteca" 

de Manuel António Pina

Ilustração de Guilherme Castro 





 “Deve ser isto a alegria. Que estranho sentimento! De repente, fiquei de bem comigo mesmo, como se estivesse zangado e tivesse feito as pazes comigo.” - E recordou-se então de quando era criança, e a mãe, à noite, antes de adormecer, lhe aconchegava os lençóis e se debruçava sobre ele para lhe dar um beijo. “Há quanto tempo não me lembrava de minha mãe!”, murmurou. E, sem saber porquê (que bem que se sentia por não saber finalmente qualquer coisa!), tudo à sua volta, o mundo, a vida, ele próprio, lhe pareceu então fazer sentido, um sentido claro e misterioso que ele, que sabia tudo, não conseguia entender, mas sentia dentro de si como se tivesse encontrado uma coisa que há muito perdera e de que já se esquecera.
 Por um momento, pensou em desistir de continuar o seu caminho ao encontro do Reino das Sombras. Mas a ideia de regressar à Biblioteca era-lhe agora mais insuportável que nunca e logo retomou a viagem.
 Continuou a andar durante muitos dias e muitas noites até que, fatigado, se sentou numa pedra à beira da estrada e adormeceu de cansaço. 
             Então, em sonhos, apareceu-lhe de novo a Rapariga. 

                           (A Rapariga agora não é uma máscara, é uma personagem real) 


– Lembras-te de mim?
– Lembro, meu amor. E tu, lembras-te de mim?
 – Como te podia esquecer? Lembras-te de quando passeávamos de mãos dadas junto ao rio? 
 – Fugíamos à escola e íamos nadar. Lembras-te daquele dia em que saltei o muro de um pomar e roubei uma romã para ti?
– Oh, já foi há tanto tempo! Sabes que ainda guardo essa romã?
Está seca e mirrada, tenho-a guardada na gaveta da mesinha de cabeceira e, às vezes, à noite, quando estou triste ou quando acordo cheia de medo, pego nela e fico durante horas a olhá-la.

(A Rapariga pega nas mãos do Sábio)
 - Também as tuas mãos estão agora secas e mirradas como a romã que um dia me deste.
(O Sábio aperta com força as mãos da Rapariga)
– As tuas não, as tuas continuam aveludadas e suaves. (Acariciandolhe o rosto:) E o teu rosto é ainda belo como era. E os teus olhos doces. E o teu cabelo liso e macio.
– Não, meu amor. Também eu envelheci. Passaram muitos anos, casei, tive filhos e netos, e agora, lembrando-me de mim e de nós, também eu me sinto como se fosse uma recordação guardada numa gaveta.
– Procurei-te durante tanto tempo!
– E eu a ti. E só te encontrava nos meus sonhos – 
Sabes que há muitos anos que eu não sonhava? Na verdade, nem sequer dormia, fechava os olhos mas tinha medo do sono e de tudo o que se esconde atrás das suas portas. Sobretudo dos sonhos. Temia sonhar contigo e acordar e tu não estares ao meu lado.
 – Mas agora estou aqui e nunca mais te deixarei. Não acordes, não acordes…
– Não, não quero acordar.
(Dando-lhe a mão) – Anda, vem comigo. Vamos de novo passear à beira-rio. Agora nada nem ninguém poderá separar-nos.

Partem ambos, de mãos dadas, e desaparecem no Reino das Sombras. 

– O Sábio abriu os olhos e verificou então, surpreendido, que estava no meio da sua Biblioteca, sentado, como sempre, à sua mesa de trabalho.
Como era muito sábio, depressa concluiu que tinha morrido. Tinha morrido precisamente no momento em que soube a última coisa de todas as coisas que havia para saber e, desde aí, não mais vivera. Apenas sonhara, sem saber que tinha morrido. Até a sua viagem ao Reino das Sombras tinha sido, também ela, um sonho.
Sem saber que tinha morrido… Afinal sempre tinha morrido sem saber que morria como estava escrito no Livro onde estão escritas, diz-se, todas as coisas da Vida e da Morte. 

FIM

Esta é a história escrita por Manuel António Pina.
Quanto à moral nela contida, cada um deve entendê-la de acordo com as suas próprias experiências e vivências.
Pela minha parte, limitei-me a elaborar a sua publicação.

Muito obrigada pela atenção dispensada e pela vossa sempre grata companhia.






sexta-feira, 26 de março de 2021

O VELHO QUE SABIA DEMAIS. 2ª Parte

 


Rapariga – Também eu, durante todos estes anos não te esqueci. Por isso venho agora buscar-te para te levar comigo e sermos felizes para sempre.

Sábio – Não, Morte. Eu sei tudo e sei que, sob essa máscara, se esconde o rosto da Morte. Vens buscar-me porque queres levar-me contigo para o Reino das Sombras. E eu irei contigo de bom grado porque já aprendi tudo o que há para aprender e a vida, para mim, já não tem interesse algum.

Rapariga (Tristemente) – Vejo que te esqueceste de mim. E que estás tão velho que confundes o Amor e a Morte.

– A Morte ficou muito contrariada por ter sido de novo descoberta e, por isso, não poder levar consigo o Sábio. Mas, como tem muito tempo, continuou durante muitos e muitos anos a tentar apanhá-lo desprevenido. Ele, porém, reconhecia-a sempre, apesar de a Morte ser muito imaginosa e de usar muitos disfarces.

 Ora, ao fim de tantos anos de vida, a verdade é que o Sábio estava cansado de viver. Ainda por cima uma vida tão triste e tão aborrecida, sem nada dela que não soubesse, fechado na Biblioteca rodeado de livros que já lera mil vezes. Como sabia tudo, sabia que só poderia morrer se não reconhecesse a Morte quando ela chegasse, mas sabia também que a reconheceria de todas as vezes que ela lhe batesse à porta. 

– Ai de mim! Estou tão velho e tão cansado! Li todos os livros do Mundo, aprendi todas as coisas que é possível aprender, conheço todos os mistérios da vida e da morte. Mas tudo o que sei é inútil e silencioso, sem amigos e sem ninguém com quem conversar, porque as pessoas têm medo de mim e não se aproximam, temendo que eu conheça os seus segredos e não podem suportar isso. Até morrer me está vedado, porque nem mesmo a Morte, com os seus mil disfarces, me pode surpreender!

Ai de mim, ao fim de tantos anos e de tantos livros, que posso ainda desejar se não a Morte? Oh, quanto gostaria de a conhecer por fim! Mas vivo enclausurado, sou prisioneiro do que sei e do que aprendi. O meu corpo está seco e gasto como um velho pergaminho, o meu coração não se alvoroça nem bate mais depressa com coisas inesperadas e novas, porque para mim nada é novo e tudo se repete. Cada um dos meus dias é igual ao outro dia, cada hora igual à hora anterior. Como eu gostaria de sair da minha Biblioteca, mas, para isso, teria que sair de mim, porque eu próprio sou a Biblioteca. Como ela, não estou vivo nem estou morto, estou fechado dentro de mim como num labirinto ou como se fosse um livro antigo escrito numa língua desconhecida, que ninguém, nem mesmo a Morte, é capaz de ler.

 – Então o Sábio, como a Morte não podia alcançá-lo, e porque estava cansado de viver e de saber tudo, decidiu ir ele à procura do Reino das Sombras.


 Durante meses e meses fez cálculos matemáticos, estudou mapas, traçou rotas. Até que acabou por descobrir o lugar exacto onde era o tal Reino das Sombras. E, um dia, depois de ter posto as suas melhores vestes, para lá partiu.  Viajou durante muito, muito tempo. Cruzou rios e florestas, subiu montanhas, atravessou desertos. E, quando passava nas aldeias, as pessoas curvavam-se respeitosamente diante dele e afastavam-se logo, murmurando:

“É o Sábio. Diz-se que conhece o passado, o presente e o futuro…"

 Até que um dia, numa vereda, se lhe dirigiu um velho coberto de andrajos. 

– Tenho fome. Dá-me, por Deus, alguma coisa de comer.

O Sábio estremeceu. Nos seus livros, fechado na sua Biblioteca, tinha muitas vezes lido coisas sobre a fome. Mas nunca tinha tido fome. E agora, de repente, tudo o que aprendera nos livros parecia-lhe pouco. Meteu a mão na bolsa procurando algo que dar ao Mendigo, mas na bolsa trazia apenas livros e tratados.

– Desculpa, bom homem, mas comigo só trago livros. 

– Aceito os teus livros. Talvez alguém me dê qualquer coisa por eles e eu possa comprar que comer.

– O Sábio tirou da sua bolsa todos os livros que levava e entregou-os ao Mendigo. Sentou-se numa pedra à beira da estrada. Sentia-se fraco, as pernas pareciam não ser capazes de suportar o peso do seu corpo, e o Sábio lembrou-se então de que não comia há muitos dias.

O Mendigo aproximou-se dele e disse:

– Vejo que também tens fome. Vou à aldeia vender os teus livros e voltarei com alguma coisa para comermos ambos.

- O Mendigo partiu em direcção à aldeia e o Sábio ficou a pensar:

 – É então isto a fome… Que coisa estranha, não é nada parecido com o que vem nos livros…

– O Sábio sentiu uma estranha alegria apossar-se dele e, quando o Mendigo regressou com alguns bocados de pão, comeram ambos sofregamente. No fim, o Sábio levantou-se, abraçou o Mendigo e disse:

 – Obrigado, bom homem. Ensinaste-me hoje algo que não se aprende em livro nenhum.

– O Sábio prosseguiu a sua longa viagem em direcção ao Reino das Sombras, feliz por saber que, afinal, havia alguma coisa que não sabia.

Embora, na verdade, naquela altura tivesse ficado também a sabê-la…

 Mais adiante encontrou, deitado sob uma árvore, um homem que gritava cheio de dores.

O Sábio aproximou-se e perguntou:

– Porque gritas? 

 – Porque estou doente. Não vês como sofro?

– O Sábio pegou-lhe na mão. A mão estava húmida e febril e o Sábio sentiu-se subitamente inquieto. Nunca antes tinha tocado a mão de outro homem. A mão do homem apertou a mão do Sábio com toda a força, e o Sábio sentiu uma impressão estranha no coração, como se o seu coração tivesse ficado de repente mais pequeno. 

E então recordou que lera há muito tempo, num velho livro, algo sobre um sentimento confuso e angustiante, chamado compaixão, e percebeu que o seu coração estava cheio de compaixão. Apertou também ele a mão do homem e disse-lhe:

– Tem coragem. Conheço todos os segredos da Medicina e tentarei minorar o teu sofrimento.

– O Sábio colheu umas ervas e fez com elas um chá que deu a beber ao doente e este sentiu-se logo melhor. O doente beijou então as mãos do Sábio, dizendo:

– Obrigado, obrigado. Agora já não tenho dores. Que posso fazer para te agradecer?

– O Sábio sentiu uma felicidade que nunca tinha sentido. Ajudou o Doente a levantar-se e respondeu:

– Não tens que fazer nada para me agradecer. Eu é que te estou muito agradecido porque me fizeste aprender uma coisa que nenhum livro antes me ensinara.

– O Sábio despediu-se do doente, abraçando-o, e partiu de novo. Sentia-se misteriosamente leve e tranquilo como se, em vez de andar, flutuasse. O sangue corria-lhe nas veias com força e o dia parecia-lhe mais transparente e luminoso, os sons da floresta mais nítidos, o céu mais alto e mais limpo. 

Encheu os pulmões de ar fresco e pensou:


Continua....


"História do Sábio Fechado na sua Biblioteca" 

de Manuel António Pina

Ilustração de Guilherme Castro 





quinta-feira, 25 de março de 2021

O VELHO QUE SABIA DEMAIS.

 


Era uma vez um velho Sábio que tinha lido todos os livros e sabia tudo. Nada do que existia, e mesmo do que não existia, tinha para si segredos. 

Sabia quantas estrelas há no céu e quantos dias tem o mundo.

Conversava com os animais e com as plantas e conhecia o passado, o presente e o futuro. Até sabia que um dia, hoje, a esta hora… eu estaria aqui a contar-vos esta história.

Como sabia todas as coisas e não tinha nada de novo para saber e conhecer, a sua vida era muito triste e desinteressante. Era uma vida sem espanto, onde nada de novo e surpreendente acontecia e todos os dias eram iguais a todos os dias. Mesmo coisas tão estranhas e misteriosas, como, por exemplo, os cortinados do quarto agitando-se, à noite, ou os móveis rangendo como se falassem uns com os outros, não tinham para ele qualquer mistério.

Às vezes apetecia ao Sábio não saber qualquer coisa, poder perguntar a alguém qualquer coisa que não soubesse. Por exemplo, poder perguntar as horas; ou “Que dia é hoje?”; ou “Tem passado bem?” a alguém. Mas vivia fechado na sua Biblioteca e não tinha ninguém a quem perguntar nada. E, mesmo se tivesse, mal acabava de pensar numa pergunta, já sabia a resposta antes que lhe respondessem.

Até que, um dia, bateu à porta da Biblioteca um Estrangeiro. O Sábio abriu-lhe a porta e o Estrangeiro disse: 

– Venho buscar-te.

– Eu sei. És a Morte.

– Não sou nada a Morte, sou um Estrangeiro.

– Eu sei tudo, e sei que és a Morte.

– Enganas-te. Venho da parte do Imperador que quer falar contigo porque está a morrer e ouviu dizer que só tu sabes como são os lugares para onde se vai quando se morre.

– Não me iludes, Morte. Vieste buscar-me para me  me levar ao Reino das Sombras e não ao Palácio do Imperador.

– Se não acreditas em mim, vou-me embora.

 A Morte ficou zangadíssima por ter sido reconhecida, pois tinha tido um trabalhão a disfarçar-se de Estrangeiro. Mas, como a Morte é muito teimosa, passados alguns dias, disfarçou-se de novo,  coloca uma máscara de Palhaço e bate à porta da Biblioteca. 

 – Venho buscar-te.

 – Eu sei. És outra vez a Morte.

– Estás enganado, venho buscar-te para te levar a uma festa. A cidade tem muito orgulho em ter um homem tão sábio e tão ilustre entre os seus habitantes e o Governador decidiu organizar uma grande festa em tua honra.

– Não, Morte, não me enganas eu sei que vieste buscar-me para me levar ao Reino das Sombras e não à Festa do Governador. 

 – A Morte estava cada vez mais zangada, porque estava escrito algures (no sítio onde essas coisas estão escritas) que o Sábio deveria morrer sem reconhecer a Morte e sem saber que morria.

Por isso, alguns meses depois, voltou a aparecer-lhe, desta vez disfarçada de uma linda Rapariga.

A Morte põe a máscara de Rapariga e bate à porta da Biblioteca. 

– Venho pedir-te em casamento. Vem comigo, os convidados já chegaram, a boda já está servida…

– Aceito o teu noivado, Morte, e irei contigo.

 – Enganas-te. Eu não sou a Morte, sou aquela que há muitos anos amaste, lembras-te?

 – Sim. Como poderia esquecer-me de ti? Há quanto tempo te esperava.


Continua...


"História do Sábio Fechado na sua Biblioteca" 
       de Manuel António Pina
Ilustração de Guilherme Castro 

 


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Amargos Desejos.

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Pão Nosso de Cada Dia.


Viviam juntas mãe e filha. Uma encantava pela modéstia; outra irritava pela toleima – apesar de ser bonita. Certa noite, a mãe, não podendo adormecer, preocupada a pensar no destino de sua filha, ajoelhou-se e pediu a Deus que modificasse o feitio de Sília, fazendo-a bondosa e discreta.

Na manhã seguinte, perguntou-lhe:

— Que sonho era aquele, filha, quando esta noite cantavas?

— Ai, sonhava, minha mãe, que um senhor descia de uma carruagem de cobre e me oferecia um anel com uma jóia tão preciosa e brilhante que não haverá no céu estrela de maior brilho.

— Foi um sonho de vaidade! — responde a mãe.

E nisto batem à porta. Sília corre e vai abrir: entra um rico lavrador. Oferece-lhe terras de lavoura, montados, hortas, pomares, uma infinita riqueza!

— Mesmo que viesses em carro de cobre e me desses uma jóia mais fulgurante e mais bela do que uma estrela do céu, não casaria contigo.

O lavrador, desiludido, foi-se embora, e, nessa noite, Sília voltou a sonhar.

— Com quem estás tu a sonhar? — perguntou a mãe, acordando-a.

— Ai, sonhava, minha mãe, que um senhor descia de uma carruagem de prata e punha nos meus cabelos valiosíssimo diadema de oiro!

— Que pecado, minha filha! Vai rezar para abrandar esse teu grande egoísmo!

Na tarde do dia seguinte, um moço esbelto, sadio, apareceu a oferecer-lhe a sua vida, a sua fortuna, o seu amor.

— Nem que viesses em carro de prata e pusesses nos meus cabelos formosíssimo diadema de oiro eu casaria contigo!

E o moço partiu tristemente.

— O teu orgulho há-de perder-te! — dizia a mãe para a filha.

Outra noite, Sília voltou aos seus sonhos de perdição e, ao ser interrogada pela mãe, contentíssima, exclamou:

— Ai, sonhava que um fidalgo descia de um carro de oiro e, pedindo-me em casamento, oferecia-me um vestido de rubis e diamantes.

— Não te emendas, minha filha, mas hás-de pagar bem caro essa fome de grandezas.

Momentos depois, três carros paravam à porta onde residiam ambas. Um de bronze, outro de platina e outro de cristal. O primeiro puxado a doze cavalos; o segundo, a vinte cavalos; e o terceiro, a quarenta! Dos carros de bronze e platina desceram pajens vestidos de seda verde e azul. Do carro de cristal saiu um lindo rapaz coberto de pedraria. Entrou em casa de Sília e, de joelhos e humilde, beijou-lhe as mãos num sorriso.

— Finalmente, sou feliz! O meu sonho transformou-se na mais bela realidade.

E, orgulhosa, foi vestir o vestido de noivado. Partiram para a Igreja. Os cavalos galopavam num frémito de alegria.

— Vou dar a minha mulher os meus presentes! — dizia ele ao regressar, e entrando na sala suave do seu palácio de turquesa:

— Tudo isto é para ti.

Sília sorriu e a sorrir foi-lhe dizendo:

— Sabes que já tenho fome?

— Ponham a mesa e sirvam-nos o banquete! — gritou ele aos seus vassalos.

Saladas de topázio, assados de ametistas e doce de pérolas; todos comiam e repetiam. Só ela não podia comer. A medo pediu um bocadinho de pão.

— É a única coisa que não te posso dar! — respondeu ele.

E desatou às gargalhadas, gargalhadas metálicas, cantantes, porque o seu coração também era de metal.

Ela chorou!

— Chorar para quê? Não desejavas tudo isto? Não tens agora o que sempre ambicionaste?

Rodeada de riquezas, saía do palácio, à noite, e andava de porta em porta disfarçada e muito triste, a pedir cheia de fome um bocadinho de pão.

 

D'Os Contos de António Botto


No café Martinho da Arcada:
Um desconhecido, Raul Leal (de barba),
António Botto (ao lado), Augusto Ferreira Gomes (de pé) e Fernando Pessoa.
Daqui


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Este conto, em que o seu autor talvez se tenha inspirado na Lenda do Rei Midas, terá, como todos os contos, um propósito moralizante. Cada leitor fará a sua leitura e, concluirá, de acordo com a moral que mais lhe disser ou aprouver.  




domingo, 16 de dezembro de 2018

Porque É Tempo De Perdão, Tolerância E Compreensão......


Piloto 


Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, e o infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da quinta.
Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã Joaninha.
Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações: partia então como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.

Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da quinta.
Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.
Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade enquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.
Era como se dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu dono?»
O ladrão quis pôr então outra vez o saco donde o tinha tirado; Piloto não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não desonrar.
Mas o homem ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até à margem do ribeiro.
Atou uma grande pedra à outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o à água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço, caiu também.
Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes e trazido para terra o seu mortal inimigo.
Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.
Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse dia, esforçou-se a si mesmo e combateu as suas más inclinações.
O exemplo do cão corrigiu o homem.




* * * * * 


Nota: Dedico este postal a todos aqueles que gostam e zelam pelo bem-estar dos animais  -  de uma maneira geral e do cão em especial -  nomeadamente ao meu amigo Daniel, acérrimo defensor dos direitos dos animais. 
(sem pieguices nem exageros.)

+++

Dedico ainda este postal, por bem-vinda sugestão do Amigo Rogério:

"A todos os homens que, tendo errado, 
se envergonharam do erro
e enveredaram pelo caminho certo"

Pronto...está dedicado...!! 





terça-feira, 30 de outubro de 2018

NADA É ETERNO.


Foto minha.



Nesta minha relação tripartida de pasmo/desconcerto/incredulidade, que nutro pelo "raio do livro", vou partilhar convosco mais este conto para, depois, arrumá-lo para o fundo da prateleira mais alta, desta estante, que é a mais alta que tenho, e esquecê-lo definitivamente. Na verdade, e para minha satisfação pessoal, não poderia dar descanso a esta personagem donjuanesca, sem antes a colocar e ter entendido - dentro da sua própria narrativa – no lugar de seduzido, ao invés de sedutor. Papel que desempenhou em todas as narrativas feitas na primeira pessoa…
…E esta hein, Mário de Carvalho? Finalmente o entendi!...

Ora, vamos lá ver se têm paciência para chegar ao fim...


Audácia

      Tinha acabado de arrumar o carro no parque, e ainda vinha com as chaves na mão a tilintar, quando ouvi o estrondo. Uma intuição traquina preveniu-me logo, disposta a desfeitear-me o dia: é contigo! E era.

      Aurora apareceu-me, de mão na boca, numa atarantação. Ora olhava para os automóveis, ora para mim, numa gesticulação desordenada.
      --  Eu pago tudo, eu pago tudo…
      -- Minha senhora – era eu –,   por favor desligue o motor do carro e sossegue.
      No café mais próximo, ajudei-a a preencher a declaração do seguro. Mostrava-se tão enervada que dois chás de camomila não conseguiram orientá-la. O documento, em nome do marido, conformou-se à letra galgante e rasurada. Comprometi-me a enviá-lo, aproveitando o estafeta da empresa, e combinámos encontrar-nos ao fim da tarde, para tratar de miuçalhas burocráticas.
      E assim tramou o destino o meu fortuito e prazenteiro conúbio com Aurora. Ela sabia estar, gostava de rir e tinha leituras. Negociámos o hotel caso a caso, firma a firma e deu-me de saber muito mais do assunto do que eu. Era estranho, tratando-se da cidade em que, segundo garantia, sempre viveu.
      Nenhum foi aprovado. Tudo choldras. Mencionei-lhe a garçonnière, a medo, mas ela riu por achar a ideia muito engraçada.
      -- Parece coisa de adolescentes. Também, você é bastante jovem.
      Era lisonja de Aurora. Hábitos sociais. Mas sabe sempre bem ouvir.
      Eu já a tinha prevenido de que não era de esperar nenhum palácio, nem lustres, nem pianos, nem biombos Namban. Mas, mal deu dois passos na cave, Aurora sentou-se na cadeira, aliás perigosamente, porque nada lhe garantia a respectiva solidez, e quis afogar-me num vagalhão de gargalhadas.
      Depois, ficou de súbito muito séria e, com dois dedos, fez-me sinal para que me sentasse na cama.
      -- Não, caríssimo, adoro o propósito, a clandestinidade da coisa, mas isto sem um bocado de romantismo não vai lá.
      Lá vinha o tal «romantismo», consabida fixação feminil. O padrão é muito vulgar, mas não contava vir a reconhecê-lo numa balzaquiana tão directa e despachada.
      E ela agora a sorrir-me como se tivesse pena de mim.
      - Caríssimo, lamento, nesta espelunca não dá. Positivamente, não dá.
      O dia estava estragado. Cheguei a pensar em rumar com ela a um hotel da Linha, mas não cheguei a propor. Sabia lá se a minha renitente amante não consideraria o local inapropriado à sua avidez de alma. Há mais marés que marinheiros, e era melhor esperar que passasse a ocasião nefasta. Deixasse fazer a Deus, que é santo velho, como descobriu o povo, já que estamos em foco de provérbios.
      Não passou muito tempo antes que Aurora me contactasse de novo, no emprego. Surgiu na minha frente, muito bem penteada e maquilhada. Nada fora do normal. Ninguém notou.
      -- Por favor, sente-se.
      -- Nem pensar. Venha daí. Arranje uma desculpa. 
      E daí a pouco, no automóvel dela, ainda com o porta-bagagens amolgado, rodávamos para as bandas da Venda do Pinheiro, ao som de Singing the Blues. Disse-me que o destino era uma surpresa, mas depois de um telefonema em alta voz, algo ruidoso, era fácil de perceber. Aurora falava com o caseiro:
      - Sebastião, ponha-me as chaves debaixo da pedra do costume. Não, o senhor doutor desta vez não pode ir.
      E acrescentou ordens e pormenores domésticos, rematando, para meu sossego:
      - Não, não, é melhor que não apareça, prefiro estar sozinha. Tenho muito trabalho. Vá lá, vá lá…
      Era a casa de campo dela. Retirou um molho de chaves de um pedregulho em que estava enrolada uma mangueira e, enquanto se debatia com a fechadura, prevenia-me:
      - Se vier alguém, digo que é o meu decorador. Não ouse desmentir.
      Era uma vivenda bem-apessoada, com escadório apainelado ao fundo do salão. O caseiro tinha ateado umas brasas na lareira e aberto algumas janelas.
      - Vai um copo?
      - Eu talvez preferisse subir… - respondi, a medo.
      -- Dentro em pouco, alvoroçávamos a cama, lá em cima. Se aquilo era romantismo, estamos conversados. Mas a vida ensinou-me que não há que discutir convicções íntimas. Nem doutrinações.
      No desafogado leito de torcidos e tremidos, Aurora revelou-se dinâmica e empreendedora. Dominava superiormente as técnicas e os tempos, obtinha tudo o que queria, e sabia querer.
      Uma das multifacetadas peculiaridades de Aurora era a repetição em série destas devastadoras demonstrações de êxtase, nunca tendo eu percebido – macho limitado e apendicular que sou – se as deflagrações se sucediam em crescendo, em mantença, ou em descendo.
      Outra particularidade era a de avisar, futurando com voz trémula, gritada e urgente, o que estava prestes a acontecer e confirmar depois essa declaração, em termos soluçantes, já no presente, enquanto o milagre espasmódico nos estava a avassalar.
      -- E o seu marido? – indaguei eu, enfim, na fase de encolha dialogante em que os cansaços filosofam.
      -- O meu marido o quê?
      -- Se ele descobre…Não tem ciúmes? Ao fim e ao cabo esta é também a casa dele.
      -- Sabe o que é que o meu marido disse de outras vezes? Foi: «Lá estás tu com essas coisas…»
      -- E a sua mulher, como é? – Agora era ela.
      -- As legítimas? Ora, aonde isso já vai…
      Muita coisa me confidenciou Aurora, porque múltipla, volúvel e bem vivida tinha sido aquela existência.
      Aurora e eu vimo-nos mais vezes, num hotel escolhido por ela – e que até nem era grande coisa, apesar dos dourados – e em casa duma amiga. O vento vai e o vento vem, nos seus eternos circuitos. Não há amores eternos. Já basta que não sejam infelizes.
      Ambos sabíamos isso e nem foi preciso despedirmo-nos.
     
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 Aqui para nós, diverti-me imenso ao transcrever isto. Houve alturas em que gargalhei com vontade. Agora é tempo de encerrar esta minha relação conflituosa, que mantinha há mais de um ano, com a personagem, e partir para leituras mais sérias. Do mesmo autor, se possível.

Como os leitores já devem ter percebido, este é mais um conto da autoria do laureado escritor: Mário de Carvalho. 

 [do livro: Ronda das Mil Belas em Frol ]


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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Até Os Aracnídeos Sonham!...

Tela de  Nicoletta Ceccoli


A aranha, aquela aranha, era única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo, um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs.
E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem nem finalidade. Todo bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatias funções: lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem, menos a nossa aranhinha, em suas distraiçoeiras funções.
Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a devida aplicação? Mas a jovem aranhiça não fazia ouvidos. E alfaiatava, alfinetava, cegava os nós. Tecia e retecia o fio, entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.
– Não faço teias por instinto.
– Então, fazes porquê?
– Faço por arte.
Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e recantos deixava a sua marca, o engenho da sua seda. Os pais, após concertação,  mandaram-na chamar. A mãe:
– Minha filha, quando é que assentas as patas na parede?
E o pai:
– Já eu me vejo em palpos de mim…
Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos muitos olhos enquanto disse:
– Estamos recebendo queixas do aranhal.
– O que é que dizem, mãe?
– Dizem que isso só pode ser doença apanhada de outras criaturas.
Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um machito. E organizaram um amoroso encontro.
– Vai ver que custa menos que engolir mosca – disse a mãe.
E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o singelo namorador, a aranha namorou e ficou enamorada. Os dois deram-se os apêndices e dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a teia que fabricava a brisa?
A aranhiça levou o namorado a visitar sua coleção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova do seu amor.
A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime. Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?
– Faço arte.
– Arte?
E os humanos entreolharam-se, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais-velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos – chamados de obras de arte – tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.

“A Infinita Fiandeira” 

conto de Mia Couto    in “Fio de Missangas”






sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A PROPÓSITO...


BAQUE


   Parece que tenho o dever de decifrar e não mereço, por meu lado, ser entendido. Ninguém é obrigado a compreender-me a mim. Arrasto o encargo da indagação. Não é extinguível, nem comunicável, nem transmissível.
      No Luxemburgo, eu ia penando num estágio qualquer, e o marido de Madalena, emigrante de sucesso e negociante de vinhos, fartava-se de viajar, em boa hora, por Franças e Araganças.
      A recordação que me ficou mais viva, e ainda ressoa, foi aquele sobressalto, seguido de safanão: «Tire daí os dedos!». Atropelo, rudeza, pua de ferrugem a farpear em leito de rosas. Livra! Mas, então? Elucidou que sentia as minhas meiguices de mão, o meu dedilhar curioso, como a incomodidade bruta de um corpo estranho entre as pernas. Um corpo estranho? Ora! Deixasse-se disso. E seguiu-se um monumental desajeito de gestos e de posições. Se a dialéctica dos corpos, até então, não era perfeita, muito pior passou a ser. As frases e os protestos mútuos também não acertaram em termos satisfatórios.
      Orgulhava-se Madalena dos vistosos cabelos pretos, uma lisura espessa, longa, toque sedoso, a contrastar com a pele sardenta e áspera. Jazia comigo, numa imobilidade de preguiça, os redondos olhos negros parados no infinito, uma docilidade feita de inacção, espera e paciência. Como se os dedos – os dela; não vi, mas adivinhei – lhe tamborilassem no lençol, enquanto eu demorava a desunir-me. Parecia-lhe, porventura, que eu me demorava no tempo, que empatava.
      Noutra tentativa, num dos dias seguintes, quase não parou de conversar. E eu tolerei que ela tivesse sempre a boca desimpedida. O ponto era consabido: que, apesar «daquilo» não pensasse eu que…
   Alguma ingenuidade de mulher madura permitia-lhe aceitar todas as tranquilizações e garantias que eu outorgasse, enquanto procurava – mal- empregado – dar-lhe o melhor do meu esforço.
      Ela tinha assuntos do marido a tratar. Aturei filas de espera molengas, preenchimentos de formulários, leituras de regulamentos em bancos nevoentos de parques públicos, porque a minha amiga Madalena entendia que um relacionamento amoroso implicava contrapartidas de solidariedade burocrática. Padecer em conjunto. Desdenhar do mundo, ombro com ombro, coxa com coxa. E papéis debaixo do braço.
      A parte mais amena do empreendimento implicava sessões de cinema, de chatíssima e inábeis coisadas, extravagâncias a simular profundeza, com ressoos de Nouvelle Vague. A minha mão procurava a dela, por desfastio, relembrando as praxes de adolescente: «Esteja quieto», sussurrava-me. «Deixe-me ver o filme».

      Não há duas sem três, nem três sem quatro. Por duas vezes, encontrando-se ela em Lisboa, tentei reincidir para alterar. Ainda estou para saber como é que me deixei embrulhar em tanta complicação miudinha. No hotel não podia ser, que a reserva estava em nome do marido. Mesmo que não se soubesse, havia sempre aquele sentimento de traição, de se estar a aproveitar de uma assinatura, duma conta, que não a deixava à vontade.
       Telefonando, eu tinha acesso à garçonnière de um amigo. A minha própria casa pululava de presenças, três idosos e enfermeiras, de forma que muito agradecia aquele derivativo. Era um pequeno estúdio, numa cave, com um desengonço de cama e trastes em quinta mão, onde sobremaneira importava garantir a horizontalidade, não obstante rangessem e estalassem madeirames e fechos.
      Saiu Madalena do carro, intrigada, no jardim. Desceu um lance de escadas de malgrado, a olhar-me, desconfiada. Examinou-me, sobranceira, à porta, cirandou os olhos em volta do quarto e acabou por se sentar na única cadeira que ali sobrevivia, desarticulada, destinada a roupas atiradas. Ora pernas cruzadas, ora joelhos unidos, mãos sobre eles, em pose defendente, como se alguém pretendesse arrostar, o que era o caso.
      «Não!» Negativa breve e peremptória. O que eu conheço de todas as letras, todas as redondezas, todos os ínfimos recônditos desta maldita imprecação. Mas sou, desafortunadamente, compilador compulsivo e repleto.
      Afundava-me, sentado na borda da cama, e ia desistindo de justificar a indigência de tudo aquilo, as chitas ou lá o que era, os quadros de meio tostão ainda encostados à parede ( menino lacrimoso, pesca portuguesa, ou coisas assim ), a janela de vidros foscos, que parecia dar para um saguão.
      Ela explicava-me vivamente, muito digna, com os recônditos bem defendidos e segurança de voz, a transcendência dos relacionamentos. Que poderia eu fazer se não abdicar? Não sou de violações. Nem sei.
      Fui depô-la na portaria do hotel. Se calhar até pedi desculpa. Andor. Até sempre.
     
  
NOTA: Como já deu para perceber, este é mais um conto da autoria de Mário de Carvalho. Não vos inquieteis com a extensão do texto. Se não tiverem tempo para o ler, de uma assentada, vão lendo aos poucos...Depois, digam-me o que  acharam desta personagem feminina.  

  Obrigada a TODOS com votos de:

Feliz Fim-de-Semana


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