Mostrar mensagens com a etiqueta PALAVRAS DOS OUTROS SENTIDAS POR MIM. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta PALAVRAS DOS OUTROS SENTIDAS POR MIM. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 27 de junho de 2024

_________LI ALGURES E GOSTEI. #1

 


Cem Anos de Solidão.

Título de minha autoria, cuja origem todos conhecem, não carecendo explicar porquê.
(o título do autor da frase era outro)

"Pelas contas dele, nem cem anos seriam suficientes para a dimensão do tempo de que precisava para estar com ela."
_______

Lindo! 
Como tudo o que saía desta pena...
que da blogosfera
partiu,
para minha grande pena.

---------------
Nota: O desenho retirei-o da Net, mas não é do autor da frase.


Ah, mas esta linda foto fui eu que a captei, de uma ilha no Mar Mediterrâneo. 💝


😀😀😀😀😀😀


E, para que não digam 
 
 
que isto é inventado,

aqui fica a prova...





Sim, sou eu. Toda desgrenhada
e mal enjorcada, mas
sou eu.


Que se vá 
o aprumo e a vaidade
mas que tudo seja 
em prol da verdade!

😏😒😓😔😕😢😤😩

sábado, 20 de abril de 2024

AS PESSOAS NÃO DEBATEM CONTEÚDOS...APENAS OS RÓTULOS.

⏳ ⏳ ⏳ ⏳ ⏳ 



Contei a minha idade  e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Tenho mais passado do que futuro…

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente… mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades…
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com os invejosos que tentam destruir quem eles admiram, cobiçando os seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis…
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas.

As pessoas não debatem conteúdos… apenas os rótulos.
O meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos...
quero a essência… a minha alma tem pressa.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que saiba rir de seus tropeços,
que não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora,
não foge de sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
O essencial faz a vida valer a pena,
e a mim, basta-me o essencial…

"O Tempo e as Jabuticabas."
Texto de Rubem Alves


⏳⏳⏳⏳⏳⏳⏳⏳⏳⏳⏳⏳⏳⏳


quinta-feira, 30 de março de 2023

PALAVRAS DE ALGUÉM. # 7 _ "Inadjectivável"

 

Os ponteiros por vezes encravam e param, mas a palavra, essa,
está sempre em franco movimento.

(...)

"Inadjectivável". Eis a palavra para o que não há palavras, a palavra que o povo ainda não conseguiu encontrar para quando não tem palavra. Pragmaticamente, haverá diferença entre o popular "Não há palavras" e o erudito "Inadjectivável"? 

Há. Como numa viagem de comboio entre o Porto e o Entroncamento, indo uns em 2ª classe e outros em 1ª, mas saindo depois no mesmo destino."

   ---------------
( E esta, heim? Tão simples quanto isto. A fina ironia no seu melhor.)

Palavras de José Ricardo Costa, Professor, Filósofo, Cronista e autor de um blog  (clique)- do meu blogobairro,  a quem a palavra certa no momento exacto nunca falta. 

As coisas que eu tenho aprendido com este grande senhor da palavra, torrejano de alma e coração - se também de nascimento é que já não sei - não têm conta nem medida.
Apesar de JRC nem ter conhecimento da minha existência, agradeço-lhe pelo muito que me tem ensinado.





quarta-feira, 15 de março de 2023

PALAVRAS DE ALGUÉM. # 6

 =======================

Foto obtida por mim - sem sair do recesso do meu lar - 


Muitas Razões

 

A sós, nos grãos da terra, digo sim à luz aberta dos seus poros

e, ao tumulto da ebulição, digo não. E digo sim ao futuro

com medo de quando ele chegar não me encontre.

E digo sim à pulsação serena da escrita,

pão nosso de cada dia,

águas que não se cansam de brotar de fonte escondida.

E digo sim ao perfume da memória,

e digo sim ao bulício do devaneio,

e digo sim à chama do ócio.

E desleio qualquer outro sopro a não ser o da vida

porque tenho de vivê-la atento a qualquer gesto distraído

que possa desviar-me do caminho. 

* * * 

 Texto poético de   José Carlos Sant Anna  [Clique ]




========================

==========

domingo, 29 de janeiro de 2023

PALAVRAS DE ALGUÉM. # 5 __ VERGONHA INFINITA!

 

=============================

Decidi retomar esta rúbrica em que dou a conhecer as palavras que me calaram fundo, de pessoas que admiro. Sejam bloggers escritores, poetas, cronistas ou quaisquer outras formas de expressão literária.
Para que se possam situar irei levar-vos aos primórdios desta curta aventura, mas que agora me proponho  dar continuidade. 
Foi AQUI, com o blogger mais enigmático e misterioso de toda a blogosfera, que iniciei esta série de homenagens.
Como disse então, esta iniciativa tomei-a sem prévia autorização dos escribas, pelo que os textos seriam de imediato retirados, caso manifestassem o seu desagrado. Decisão que mantenho apesar de já serem passados uns anitos largos.
Seguidamente como podem verificar, temos a querida Miss Smile ( que entretanto encostou as portas, mas não encerrou o blog)  AQUI - seguindo-se  AQUI  o Atravessado, Cigano Maltês, Mau-Tempo, um jovem sonhador que amo de paixão - como dizem os nossos irmãos de além-mar - e, por fim, porém não menos importante,  AQUI   a Mãe Preocupada.
Feitas as apresentações anteriores, vou então  trazer-vos hoje um grande Poeta da vizinha Espanha, que me honrou com a sua amizade.  Deste livro de poemas, gentil oferta do Poeta Juan Francisco, que se pode ver a encimar este post, escolhi  este poema, tão actual como se tivesse sido escrito nos dias de hoje. Porque as guerras mudam de nomes, mas os ódios são os mesmos...
*****







Como a publicação já vai longa, não farei a tradução, também porque sei ser-vos fácil a leitura deste magnífico e comovente poema.
Grata a todos os leitores que tenham tempo e a predisposição para o ler. Vale muito a pena!!


❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤


domingo, 9 de outubro de 2022

ALEGRIA EM TEMPOS DE CÓLERA.

 



"GUERRA DA RUA, GUERRA DA ALMA."


     Persigo a voz inimiga que me ditou a ordem de estar triste. Às vezes, dá-me para sentir que a alegria é um delito de alta traição, e que sou culpado do privilégio de continuar vivo e livre.

    Nessa altura, faz-me bem recordar o que disse o cacique Huillca, no Peru, ao discursar diante das ruínas: «Aqui chegaram. Até as pedras partiram. Queriam fazer-nos desaparecer. Mas não conseguiram porque estamos vivos e isso é o principal.»  E penso que Huillca tinha razão. Estarmos vivos: uma pequena vitória. Estarmos vivos, ou seja, capazes de alegria, apesar dos adeuses e dos crimes, para que o desterro seja o testemunho de outro país possível.

    À Pátria, tarefa por fazer, não a vamos erigir com tijolos de merda. Serviríamos para alguma coisa, na hora do regresso, se voltássemos quebrados?

    A alegria requer mais coragem do que a mágoa. À mágoa, ao fim e ao cabo, estamos habituados.


Autor: Eduardo Galeano


=====================================

sábado, 28 de maio de 2022

QUANDO GOSTO...APLAUDO E PUBLICITO.

 *******************

Esta será a segunda Crónica que a que dou destaque aqui no meu espaço. A primeira, foi aquando o caso de Marega ter sido alvo de insultos racistas em pleno campo e, brilhantemente escrita pelo jornalista Ferreira Fernandes como poderão reler AQUI.

Desta feita, li e gostei tanto que vou reproduzir na íntegra, um tema que anda na berlinda, por incrível que pareça.


José Milhazes atingiu esta semana o ponto mais alto da sua longa carreira de jornalista e comunicador.
Não estou a brincar ou a ironizar.
E ainda menos a desvalorizar o seu percurso - gostando ou não, ele conseguiu marcar o seu próprio caminho e não deixa ninguém indiferente.
Há quem lhe compre os livros como se fossem um mantra. Há nas redes sociais quem lhe bata e o odeie militantemente.
Há quem leve à letra o que diz, mas também existem os que o diabolizam como se fosse um agente reacionário de um qualquer interesse capitalista.


Gosto do José Milhazes.
Mesmo quando me irrita.
Gosto das pessoas que são diferentes, que têm uma luz própria e são inimitáveis - apesar do Herman José o ter imitado como ninguém ontem no "Só Entre Nós", aqui na TSF.
Não gosto dos sonsos.
Dos que são uma coisa num dia e outra noutro.
Dos que se acomodam e são cobardes.
Milhazes, gostando-se ou odiando-se, não é nada disso.

Em horário nobre, perante a incredulidade de Clara de Sousa, mas mantendo uma expressão deliciosamente neutra, José Milhazes traduziu em direto o que milhares de jovens num concerto punk estavam a gritar.
Foi um momento extraordinário.
Por ter provado da forma menos subtil o quanto estamos formatados a uma comunicação sem rasgo.
Todos nós dizemos a mesma coisa.
Todos nós alinhamos os mesmos alinhamentos.
Todos nós escolhemos as mesmas palavras, a mesma retórica, a mesma estratégia de comunicação, o mesmo modo de chegar a quem nos lê, ouve ou vê.
O "caralho" dito por José Milhazes em direto na SIC foi, por tudo isso, um momento revelador.
E isso é importante que seja dito.
Também eu me ri muito.
Também eu revi o momento mais de dez vezes.
Também eu mostrei a amigos e aos filhos mais velhos.
Também eu partilhei.
Também eu vi os memes, os bordados de ponto cruz, as canecas, as t-shirts.
Também eu vi a inconfundível cara do Milhazes plasmada um pouco por todo o lado.

Foi como se uma panela de pressão tivesse esgotado a sua capacidade de aguentar mais. O país descomprimiu da guerra e da pressão de carregarmos todos os dias o mundo às costas, os portugueses respiraram fundo e abraçaram a autenticidade e a rutura com o que todos os dias nos entra por um ouvido e nos sai por outro.
Ouvimos, mas deixámos de ouvir.
Olhamos, mas não vemos.
Banalizámos as imagens.
Não tropeçamos no que nos dizem porque as palavras são uma música com uma batida igual todos os dias.
Foi um momento alto da carreira de José Milhazes por nos ter provado o que já sabíamos, mas não conseguíamos explicar.
Queremos comunicadores que nos desinquietem os sentidos, que nos abanem, que nos virem do avesso e nos retirem da zona de conforto.
Ao dizer um palavrão em prime time percebemos o quanto estávamos precisados de ser despertos.
Que a metáfora seja o princípio para algumas mudanças.
Que se inventem novas palavras que nos expliquem o mundo.
Que surjam pessoas com a capacidade de não dizerem o óbvio, de não soletrarem o abecedário das cartilhas que nos adormecem.

E que este "caralho" revelador possa transformar-se no futuro em novos modos de comunicar que não precisem de usar asneiras para nos despertarem os sentidos.
Esse será o desafio.
Novas palavras.
Novos protagonistas.
Novos modos de comunicar, de pensar, de contar sobre o mundo.
Se isso for conseguido o país ficará mais desperto para o que se diz e para o modo como se diz.
Se tal for conseguido até eu comprarei uma t-shirt do Milhazes, o homem que nos provou que precisamos de parar para pensar. O jornalista que nos mostrou o quanto estamos contaminados com uma água choca e pachorrenta.

 Retirado DAQUI

E agora, reveja-se o momento polémico. 


Informação adicional: Para quem gosta de ouvir e saber da vida de José Milhazes, poderá ouvir na primeira pessoa, o jornalista falar de si, no programa "Alta Definição", a ser transmitido  na SIC, às 14h05.


********************************
💙💛

*************************

segunda-feira, 26 de abril de 2021

ROSA VERMELHA.

 



      Trago uma rosa vermelha

     Aberta dentro do peito

     E já não sei se é comigo

     Se é contigo que me deito.


     A minha rosa vermelha

     Mais parece uma romã

     Pois quando aberta de noite

     Não se fecha de manhã.


     Trago uma rosa vermelha

     Na minha boca encarnada

     Quem me dera ser abelha

     De tua boca fechada.


     Trago uma rosa vermelha

     não preciso de mais nada.


As palavras são de Carlos Ary dos Santos

A roseira e a fotografia são minhas.





_____________***************_____________

----------------------------------

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

ATÉ EU QUE NÃO VOU EM FUTEBÓIS...

...Gostei de ler e passo a palavra!


" Marega, No País que o Merece"


Sou do país em que, ainda há meses, uma varina, no Lavadouro da Afurada, frente à cidade do Porto, abanava as ancas e o avental, suspirava "ó o Marega...", e gritava: "Coisa mai linda não há!". E eu, sinceramente admirado: o Marega, lindo? A varina rapou do jornal O Jogo e beijou-o todo na fotografia da capa. 

Sou o miúdo que passeava com a mãe pela Avenida dos Aliados, 1958. Cruzou-se connosco um anjo negro vestido como um príncipe, reconheci-o. Empanquei, vidrado: Miguel Arcanjo, o defesa central do clube que nem era o meu, mas o do meu pai, o Porto. Ele pôs-me a mão na cabeça, a minha mãe sorriu-me e sorriu-lhe, eu continuava nas nuvens. Mas ainda disse: "Ele também é de Angola...", a minha mãe não lia o Ídolos do Desporto. E ficaram a falar da nossa terra, eles; eu guardando no cabelo o afago.

Sou do país que foi ensinado pelo mulato Mário Coluna. No campo mandava ele, era ele o senhor de todos, de todos e também dos mais brancos que ele, quando nos estádios de toda a Europa quase não havia jogadores negros e certamente nenhum capitão não branco, só ele. Também ainda assisti ao silêncio religioso que precedia um livre de Eusébio, na Luz, mesmo daqueles de 30 metros, que exigiam a fé que só emprestamos aos nossos heróis. Sou herdeiro do lugar, ainda antes - anos 30 e Nuremberga fazia leis celeradas - Portugal se fez país de futebol, à boleia do duelo entre dois amigos goleadores, o sportinguista Peyroteo, branco africano, e o benfiquista Espírito Santo, negro lisboeta.

Enfim, sou mais um de tanta, tanta gente grata que se confirmou como pai ou irmão, em todo o caso inequívoco eterno admirador de um rapaz de rastas e trapalhão, negro como noite luminosa que surgiu numa tarde chuta caralho. Obrigado, obrigado, Eder para todo o sempre... 

Então, quero dizer que sou desses, das pessoas decentes que, das cores, posso ser minucioso em têxtil, mas sobre pele sou daltónico. Em primeiro lugar, porque sim, e acabou a conversa.
E, em segundo lugar, segue explicação extra porque temos de ser piedosos com os imbecis profundos: a sério, meu, és racista com negros e em Portugal, e é num estádio de futebol que tu o vais proclamar? Vais declarar a inferioridade deles, aqui, neste país tão conhecedor de personagens de lenda, por onde passaram as fintas do Dinis Brinca na Areia, tonitruaram os chutos do Matateu, deslizou a elegância do Jordão e, já agora, o Marega iludiu tanto adversário fingindo-se falso lerdo? Os negros, inferiores! - e vais dizê-lo na ópera onde eles são tenores? Meu, metes as mãos pelos pés e isso em futebol é falta.

Experimenta gritar-lhes que eles nunca irão à Lua - pelo menos, exemplos a desdizê-lo eles, por enquanto, não têm... Mais prudente foste quando, estou a adivinhar-te, cabelo seboso, marreco, a cheirar da boca e com ramela deves ter passado a noite dos Óscares a rosnar para o televisor:  "És feio como o caraças, Brad Pitt!" Ao menos, aí, escolheste o teu quarto solitário para insultar, escapando ao sorriso sarcástico, se te ouvissem, de todas as mulheres com quem já te cruzaste na vida. Mas não, ontem, foste para um estádio de futebol expor a tua lamentável inveja contra um negro.

E no Minho! Onde um clube já há 60 anos tinha três irmãos negros na equipa, João, Jorge e Fernando Mendonça, três senhores. Um deles, o médico Jorge Mendonça, seria fundador do sindicato dos Jogadores de Futebol de Espanha e artista saudoso no Atlético de Madrid e no Barcelona... Passam-se décadas e dobra-se o século, e ontem, em Portugal, um futebolista negro marcou um golo aos 71 minutos, em Guimarães. E contra o maliano Marega houve estes sons: "Macaco!" e "chimpanzé!". Por palavras e também guinchos e sons guturais de símios. Quer dizer, considerando que o futebol foi criado há 157 anos e sabendo-se que o último antepassado comum dos macacos e homens viveu há 28 milhões anos, segundo as claques do Vitória de Guimarães Marega precisa de esperar, façam as contas, 27999847 anos para ele perceber o que é o association football. Antes, levas com cânticos: Ô-ô-ô-chimpanzé... Ô-ô-ô-macaco...

O futebolista Marega enxofrou-se e levou com o cartão amarelo do árbitro. Marega pediu para sair do campo. Da bancada da claque: "Macaco!" Marega continuou enxofrado e a querer sair do campo. Daquela bancada da claque: "Chimpanzé!" Volto à minha tese: depois de tanto ano com os negros a demonstrar que são tão bons, tão maus e tão assim-assim quanto os brancos, houve, no estádio de Guimarães, ontem, uns sub-humanos a serem o que são.

Quanto aos homens vi-os de dois tipos. Árbitros de cabeça perdida, dirigentes e treinadores de cabeça perdida, adeptos (dos dois clubes) de cabeça perdida, comentadores televisivos de cabeça perdida, polícias de cabeça perdida e jogadores do Vitória e do FCP de cabeça perdida, isso de um lado. Do outro, vi o Marega, outra vez enganando-nos com as aparências, gesticulando e gritando, e serenamente fazendo o que havia para fazer: assim não jogo.

Ah, se Pinto da Costa se levantasse e se fosse embora da bancada de honra! Ah se o guarda-redes do Guimarães abandonasse o campo agarrado ao companheiro adversário! Ah se o árbitro Luís Godinho rasgasse o cartão amarelo e o vermelho também, e mostrasse a Marega o cartão branco, o de fair-play, como há dias outro árbitro mostrou a um jogador infantil e nobre, que o avisou ser falso um penálti contra o adversário!

 Ah se a multidão saísse do estádio quando o Marega entrou no balneário! Ah se o presidente do Guimarães chorasse! Ah se um radialista relatasse: "Marega saiu e eu calo-me"! Ah se os gestos claros e límpidos de Marega causassem a vaga que mereciam...

Esta noite eu teria sonhado com a mão do Miguel Arcanjo a dizer-me olá, e não sonhei. Mas o Marega que apareça estes dias pela Afurada e haverá uma varina a beijá-lo e a resgatar-nos.



 Crónica de Ferreira Fernandes
17 Fevereiro 2020 
        
Roubada AQUI




 ==============================

domingo, 9 de fevereiro de 2020

TODOS SONHAMOS VOAR, MAS TEMEMOS AS ALTURAS.





Havia um bando de patos selvagens que voavam nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos. Tão lindo! Mas era uma beleza que doía. O cansaço das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando, as espingardas dos caçadores…


Foi assim que um pato selvagem, olhando lá das alturas para essa terra de anões aqui em baixo, viu um bando de patos domésticos. Estavam tranquilamente deitados à sombra de uma árvore, poupados do esforço de voar. E havia comida em abundância.

O pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse adeus aos seus companheiros, desceu e passou a viver a vida que pedira a Deus.


E assim viveu por muitos anos até que de novo chegou o tempo da migração dos patos. Eles apareciam, lá no fundo do azul do céu, formações em “V”, grasnando, um grupo após o outro. Aquela visão dos patos em voo, a memória das alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com algum lugar esquecido dentro do pato domesticado.


Uma saudade, uma nostalgia de belezas, o fascínio do perigo e o vazio que se abria… Até que não foi mais possível aguentar. Resolveu voltar a ser pato selvagem. Abriu as asas e bateu-se para voar, como outrora, mas não voou. Caiu, e esborrachou-se no chão.

Estava gordo demais. E assim passou o resto de sua vida: em segurança, protegido pelas cercas e triste por não poder voar.

* *

Acho que Fernando Pessoa se sentiu um pouco como o pato. Pelo menos é o que sinto ao ler este poema:




Ah, quanta vez, na hora suave
Em que não me esqueço,
Vejo passar o voo de ave
E me entristeço!

Por que é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Por que vai sob o céu aberto
Sem um desvio?

Por que ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?


Sei que me invade
Um horror de me ter
Que cobre como uma cheia
Meu coração,
E entorna sobre Minh’alma alheia
Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder ter
Não sei quê do voo suave
dentro do meu ser.



Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o voo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o voo por gaiolas.

As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.




Rubem Alves
 
Excerto da Introdução do seu livro “Religião e Repressão”

[Texto e imagem da Net] 


Fotografia Minha

=======================================================================