À minha Alma inquieta e melancólica fez-lhe muito bem ter passado a manhã, do dia de São João, a respirar o ar do mar e sentir o cheiro fresco da maresia.
Não posso dizer que fui desabafar com o confidente de tanta e tanta gente. Não, não tenho o hábito de lhe falar. Fui para lhe admirar a grandiosidade, para meditar nesta minha sensação de dúvida e desagrado que desde há um tempo se instalou em mim, e, para me molhar nas suas águas salgadas como que para me purificar. Se regressei mais pura e de mente limpa de ressentimentos, ainda não sei, mas sem dúvida que voltei mais leve e fresca.
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Como já habituei os meus leitores e eu própria não passo sem Ela, a Poesia, pedi este belo poema emprestado ao homem da terra agreste. Lembra-nos o Mar da Era dos Descobrimentos, tal como eu tento descobrir-me a mim.
Foto que elaborei a partir de um Bilhete-Postal, para participar num passatempo do blog "Crónicas do Rochedo", justamente com o título: Bilhetes-Postais Ilustrados. Infelizmente, não é possível encaminhamento, pois o dito blog já partiu, bem como o seu Autor.
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Como o dia estivesse muito quente
as mulheres saíram de casa e foram à sua vida
com blusas sem mangas.
A carne dos seus braços
erguidos ao alto para alcançarem as argolas do autocarro
eram veios de luz voluptuosa e cálida.
Apelo de escultor
que esculpe trauteando melodias.
Iam todas afogueadas de calor,
de calor feminino,
e por isso eram largas as cavas das suas blusas
e delas emergiam os braços levantados
para alcançarem no alto as argolas do autocarro.
Era com aqueles braços nus,
desprendidos das argolas do autocarro,
que aquelas mulheres na hora permitida,
cingiam e apertavam
os corpos horizontais dos seus companheiros.
Mas não era nisso que elas iam a pensar.
Elas iam a pensar no seu trabalho quotidiano,
no ir e vir,
no andar a correr,
no cozinhar,
nas compras,
no emprego,
no dinheiro que não chega,
e pensavam, com os olhos parados e distantes,
enquanto se agarravam às argolas do autocarro, noutra vida melhor,
sem ir e vir,
sem andar a correr,
sem horas para isto e para aquilo,
livres,
livres,
livres e independentes,
para então cingirem e apertarem nos seus braços nus
Mia Couto é o pseudónimo de António Emílio Leite Couto, um apaixonado por gatos que nasceu no dia 05 de Julho de 1955, na cidade da Beira - Moçambique.
Além da prosa, poesia e jornalismo, também a Biologia está entre as paixões de Mia Couto. Ainda hoje concilia a direcção de uma empresa de consultoria ambiental com a literatura, afirmando que, assim como a escrita, a Biologia não é uma profissão, mas sim uma paixão.
A ESPERA
Aguardo-te
Como o barro espera a mão.
Com a mesma saudade
que a semente sente do chão.
O tempo perde a fonte
e a manhã
nasce tão exausta
que a luz chega apenas pela noite.
O relógio tomba
E o ponteiro crava-se
No centro do meu peito
Fui morto pelo tempo
No dia em que te esperei.
Mia Couto in "Poemas Escolhidos"
💙💛
Já Vinícius de Moraes, falava assim d'A Espera, neste soneto:
Aguardando-te, amor, revejo os dias
Da minha infância já distante, quando
Eu ficava, como hoje, te esperando
Mas sem saber ao certo se virias.
E é bom ficar assim, quieto, lembrando
Ao longo de milhares de poesias
Que te estás sempre e sempre renovando
Para me dar maiores alegrias.
Dentro em pouco entrarás, ardente e loura
Como uma jovem chama precursora
Do fogo a se atear entre nós dois
E da cama, onde em ti me dessedento
Tu te erguerás como o pressentimento
De uma mulher morena a vir depois.
Rio de Janeiro, Abril de 1963
💙💛
D'A Espera, a sua, também Adalgisa Nery, poetisa modernista e jornalista brasileira falou, e bem, como se poderá ler. AQUI.
💙💛
Neste momento de incertezas, de angústia e desassossego, em que o mundo mergulhou, eis chegada a minha vez de perguntar aos meus estimados leitores:
Quem, de nós, não vive à espera que aconteça algo que fortaleça a nossa Esperança, melhore a nossa Fé, deseje no mais fundo do seu ser que aconteça o Milagre que devolva a Paz ao Mundo?
Aguardemos. Talvez que, nesta quadra de Amor e Piedade, de Injustiça e Sofrimento, de Fé e Redenção, o milagre aconteça.
Quando chegar essa hora, que seja feita justiça aos Povos e às gentes injustiçadas.
“Um monge descabelado me disse no caminho: Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: Digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”.
E o monge calou-se descabelado”.
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Poema de Manoel de Barros.
Poeta brasileiro. Nasceu a 19 de Dezembro de 1916,
em Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. Faleceu a 13 de Novembro de 2014,
em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil.
Estas casas não são ruínas que o tempo e o abandono degradaram.
São casa destruídas por militares russos durante um
bombardeamento em Mariupol, na Ucrânia.
Não sei se algum dia poderá nascer entre os seus escombros,
Recebi este vídeo recentemente. Achei-o tão verdadeiro, tão profundamente belo, que não resisto a partilhá-lo com os amigos e visitantes destes cantinho. A Vida é tudo isto! Saibamos dar-lhe a importância que ela tem, valorizando o que temos e desfrutando-a, - porque ela é breve - com Saúde e Amor no coração.
Não pude deixar de lhe associar, o igualmente belo poema de João de Deus, do qual transcrevo a última parte.
(...)
"A vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave.
A vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares
uma após outra lançou.
A vida__ pena caída
da asa de ave ferida __
de vale em vale impelida,
a vida o vento a levou..."
***
A Todos quantos, generosamente, me oferecem a sua companhia