Mostrar mensagens com a etiqueta POETAS PORTUGUESES. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta POETAS PORTUGUESES. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

____REEDIÇÕES____ *

 

Foto Minha


COM AS GAIVOTAS



Contente de me dar como as gaivotas

bebo o Outono e a tarde arrefecida.


Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor

por mais que digam é perfeito como a vida.


Tenho tristezas como toda a gente.

E como toda a gente quero alegria.


Mas hoje sou de um céu que tem gaivotas,

leve o diabo esta morte dia a dia.


 Eugénio de Andrade in “Os Amantes Sem Dinheiro”


As próximas publicações deste espaço, não sei em que dias nem durante quanto tempo, conforme o determinar a minha vontade e estado de espírito, serão dedicadas a reeditar os momentos que foram importantes para mim. Quer tenham sido pelas memórias trazidas pelas fotos ou por outro motivo qualquer. 





--------------------------------------------------------


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Via Sacra.





Tantas formas revestes, e nenhuma 
me satisfaz! 
Vens às vezes no amor, e quase te acredito. 
Mas todo o amor é um grito 
desesperado 
que apenas ouve o eco... 



Peco 
Por absurdo humano: 
Quero não sei que cálice profano 
cheio de um vinho herético e sagrado.  




  Esperança – Poema de Miguel Torga,  in “Poemas do Purgatório”




=================================


sábado, 11 de agosto de 2018

MUITO QUE VER E OUVIR.


Foto minha -  tarde de verão, no Minho - 





No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa…

Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria…

Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão …
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida

E nem repararmos para que há sentidos …
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos…

…E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir. . .


"No Entardecer" – Poema de Alberto Caeiro –
(como toda a gente sabe: heterónimo de Pessoa)








quinta-feira, 26 de julho de 2018

"Com As Gaivotas"


Jardins do Palácio de Cristal - Porto





Contente de me dar como as gaivotas
bebo o Outono e a tarde arrefecida.

Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.


Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.

Mas hoje sou de um céu que tem gaivotas,
leve o diabo esta morte dia a dia.





 Eugénio de Andrade in “Os Amantes Sem Dinheiro”




===============================================

====================================

=====================


segunda-feira, 2 de julho de 2018

CHÃO.


Deambulando por ruas da zona antiga de Serpa.



CALA-TE

Cala-te, voz que duvida
e me adormece
a dizer-me que a vida
nunca vale o sonho que se esquece.
Cala-te, voz que assevera
e insinua
que a Primavera,
a pintar-se de lua
nos telhados,
só é bela
quando se inventa
de olhos fechados
nas noites de chuva e de tormenta.
Cala-te, sedução
desta voz que me diz
que as flores são imaginação
sem raiz.
Cala-te, voz maldita
que me grita
que o sol, a luz e o vento
são apenas o meu pensamento
enlouquecido…

( E sem a minha sombra
o chão tem lá sentido?! )




Poema de José Gomes Ferreira
***************************************************
******************************

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

E TUDO ERA POSSÍVEL.




Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido


Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido


E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível, era só querer.

Ruy Belo

 Homem de Palavra(s)
Lisboa, Editorial Presença, 1999 


( A fotografia é minha, o poema DAQUI )





*** ~~~ ***

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O POETA DOS POETAS.


Poeta de um livro só, dado que a sua curta existência não lhe deu tempo para mais, Cesário Verde, nasceu no mesmo dia e mês em que eu nasci.  Talvez seja essa afinidade, que me leva a identificar-me tanto com a sua poesia...:)
Este meu livro é de uma edição bastante antiga das Publicações Europa América, da colecção 'livros de bolso' desta editora. O Prefácio a cargo do crítico literário e seu grande amigo, Silva Pinto, daria tema para um outro livro. Contudo, por razões que desconheço, este poema que agora publico, não o encontro aqui, talvez por pertencer a uma edição posterior, pelo que fiz copy paste da net. Quem fala a verdade...



Eu e Ela

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros
Formando unicamente um coração. 

=========================================
============================
=================

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O Enamoramento Do Poeta.


Quem te pudesse ver na intimidade
ondulando nas chamas do desejo,
podia ver aquilo que eu só vejo:
um diabo vicioso em liberdade.
E quem te vê, assim, em sociedade,
frágil e doce como é o poejo,
corando simplesmente com um beijo,
não poderá saber qual a verdade:
se és uma, se és outra, se és nenhuma,
se tudo em ti é feito por medida,
se és talhada em basalto ou se és de espuma.
Mas nem que nisso gaste toda a vida,
eu hei-de descobrir-te. Ver-te, em suma,
na minha cama nua e não despida.


«Soneto», in «O Poeta Enamorado» de Joaquim Pessoa

(Os Poemas de Amor)



( Imagens e Poema, recolhidos da Net )



~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

domingo, 11 de dezembro de 2016

O PAPÃO.

Vá-se lá saber porquê - ou melhor, eu sei - quando as ruas começam a ficar profusamente iluminadas, com as luzes ornamentais natalícias, quando as palavras Humanidade e Fraternidade, atingem uma maior dimensão e  tudo e todos à nossa volta nos parecem mais predispostos a esquecer animosidades e o mundo se enche, subitamente, de um espírito de boa-vontade e entreajuda, lembro-me de Guerra Junqueiro e do livro: 
A Velhice Do Padre Eterno.
 Cá por coisas minhas...(*)


As crianças têm medo à noite, às horas mortas,
Do papão que as espera, hediondo, atrás das portas,
Para as levar no bolso ou num capuz dum frade.
Não te rias da infância, ó velha humanidade,
Que tu também tens medo ao bárbaro papão,
Que ruge pela boca enorme do trovão,
Que abençoa os punhais sangrentos dos tiranos,
Um papão que não faz a barba há seis mil anos,
E que mora, segundo os bonzos têm escrito,
Lá em cima, detrás da porta do infinito!





(*)...Que não vou dizer.



domingo, 7 de agosto de 2016

COMIGO AO DOMINGO...[ V ]

«Melancolia», óleo sobre tela - Edvard Munch -



Quatro letras nos matam quatro facas 
que no corpo me gravam o teu nome. 
Quatro facas amor com que me matas 
sem que eu mate esta sede e esta fome. 

Este amor é de guerra. (De arma branca). 
Amando ataco amando contra-atacas 
este amor é de sangue que não estanca. 
Quatro letras nos matam quatro facas. 

Armado estou de amor. E desarmado. 
Morro assaltando morro se me assaltas. 
E em cada assalto sou assassinado. 

Quatro letras amor com que me matas. 
E as facas ferem mais quando me faltas. 
Quatro letras nos matam, quatro facas. 



( “As Facas” Soneto de Manuel Alegre in “Obra Poética” )





                                            





segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

"ODE AO AMOR".

Alexander Sulimov


Tão lentamente, como alheio, o excesso de desejo, 

atento o olhar a outros movimentos, 
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque, 
obscuro sexo à flor da pele sob o entreaberto 
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro 
e vago ainda, e súbito contrai-se, 
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes 
no interior da carne, as pernas se distendem, 
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as mãos, 
dedos esguios escorrendo trémulos 
e um sorriso irónico, violentos gestos, 
amor... 
             Ah tu, senhor da sombra e da ilusão sombria, 
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto, 
imagem sempre morta ao dealbar da aurora 
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida, 
fuga perpétua, demorado espasmo, distracção no auge, 
cansaço e caridade pelo desejo alheio, 
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes, 
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota, 
hesitação, vertigem, pressa arrependida, 
insuportável triturar, deslize amargo, 
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda. 

Distantemente uma alegria foi, 
imensa, já tranquila, apascentando orvalhos, 
de contacto a contacto, ansiosamente serenando, 
obscuro sexo à flor da pele... amor... amor... 
Ah tu senhor da sombra e da ilusão sombria... 
rei destronado, Deus lembrado, homem cumprido. 

Distantemente, irónico, esquecido. 


Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'