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terça-feira, 18 de novembro de 2025

A PLENITUDE DA ROSA.

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Se eu fosse

rosa-dos-ventos

a vacilar na descida


Ou rosa a subir

no tempo

pela sombra até ser vista.


Se eu fosse rosa

na ânsia de ser

carmim do negrume


do meu vestido 

de linho


ou pressa de rosa

acesa

prisioneira do teu  lume.

*

"ROSA ACESA"

de

[Maria Teresa Horta]







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quarta-feira, 8 de março de 2023

DA NASCENTE ATÉ À FOZ.

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Foto minha...obtida a partir do recesso do meu lar...


Águas de prata de rios murmurantes

Brotam da nascente, com fúria, com dor

Correm dos meus olhos lágrimas pujantes

Pela dor que sinto,  por ti, meu amor.


Já foste corrente, forte e indomável

Hoje és só restos, 

sobras de um festim...


Quem me dera voltar à saudável nascente. 

Somos hoje a Foz

 onde  jazem os despojos 

- de ti e de mim.





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terça-feira, 5 de abril de 2022

PALAVRAS DOS OUTROS SENTIDAS POR MIM.

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"A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim..."

 



Palavras de Mário Quintana
Foto minha


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quarta-feira, 14 de julho de 2021

Simplicidade.

 



Não é muito o que peço...

...uma flor, um olhar terno
um gesto de carinho. 
E junto ao meu peito
A tua voz... 
...sussurrando, docemente, as palavras que nunca me disseram. 
 
     

*  *  *  *  *  *  *  *  *  *  *  *  *  * 

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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

DO VOO SUSPENSO.

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Do que sou

ao que penso

paira um voo

suspenso…


Mas tão subtil

que nem ata

o pântano vil

à nuvem de prata.


(Homem: não tenhas vergonha


de ser pântano como eu.


O pântano é que sonha


a nuvem do céu).



Poema de José Gomes Ferreira

[1900- 1985]


Fotografia minha.


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terça-feira, 18 de agosto de 2020

Das Formigas.

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As coisas devem ser grandes 

Pra formiga pequenina 

A rosa, um lindo palácio 

E o espinho, uma espada fina 


A gota d'água, um manso lago 

O pingo de chuva, um mar 

Onde um pauzinho boiando 

É navio a navegar 


O bico de pão, o corcovado 

O grilo, um rinoceronte 

Uns grãos de sal derramados, 

Ovelhinhas pelo monte


[ Disse-o Vinícius de Moraes ]

 



Imagem DAQUI


Já eu, digo:

Sinto-me tão pequenina
tão sem força e alquebrada
que até uma formiga rabiga
é mais forte do que eu
perto dela não sou nada

 
Com todo o entusiasmo
tudo grande lhe parece
pois eu que sou bem maior
não saio deste marasmo
nada me aquece ou arrefece

 

Queixo-me quando o sol queima
mas se chove o mesmo faço
só estou bem onde não estou
não sei o que  hei-de fazer
minha vida é um nó laço.

 

Já nem chego a ser cigarra
porque até o cantar me aborrece...
 

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sábado, 15 de agosto de 2020

Cartas...

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És tu quem me conduz, és tu quem me alumia

Para mim não desponta a aurora, não é dia

Se não vejo os dois sóis azuis do teu olhar

Deixei-te há pouco mais dum mês - mês secular,

E nessa noite imensa, ah, digo-te a verdade,

Iluminou-me sempre o luar da saudade.

E nesses montes nus por onde eu tenho andado

Trágicos vagalhões de um mar petrificado

Sempre diante de mim, dentre a aridez selvagem

Vi como um lírio branco erguer-se a tua imagem.

Nunca te abandonei! Nunca me abandonaste!

És o sol e eu a sombra. És a flor e eu a haste.


Na hora em que parti meu coração deixei-o

Na urna virginal desse divino seio,

E o teu sinto-o eu aqui a bater de mansinho

dentro do meu peito, como uma rola em seu ninho!


Carta a F.

Trás-os- Montes, 1883.

* * * 

Transcrito do livro "Poesias Dispersas"

de Guerra Junqueiro.


 [Escritor em  cujos escritos me refugio, nas horas em que a alma me fica à deriva e necessita encontrar um porto de abrigo.]



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segunda-feira, 20 de julho de 2020

CATIVEIRO.



Tela da autoria do artista plástico Eduardo Lima
trazida DAQUI
































Sofridos  são os gritos silenciosos
que guardo cativeiros em mi'nhalma
queria poder soltá-los, poderosos,
como não posso, amordaço-os...


...e, ainda assim, amordaçados,
estes gritos me devoram e não se calam.




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segunda-feira, 29 de junho de 2020

CERTEZAS.























DEZ RÉIS DE ESPERANÇA.


Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.

Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.

Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

Poema de António Gedeão


 

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sábado, 7 de setembro de 2019

Setembro.

























Setembro,
quente Setembro.
Suave aroma de fruta madura
Alma cheia, pão-fermento
Onda imensa e lêveda.

De longe,
Chegam sussurros
Com cheiro de maresia
És tu…gotas d’água no olhar
Rosto crispado
Sal na pele

Quedo-me em silêncio
Olhos postos no horizonte
Com ternura faço um leve aceno
 ao Mar que tanto amas.

E regresso, por fim…
…sem um lamento.




C'est en Septembre!


:)
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

DO SILÊNCIO.




Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,
Seca, deserta e nua, à beira d'uma estrada.

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.

Sobre uma folha hostil duma figueira-brava,
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,

A aurora desprendeu, compassiva e divina,
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.

Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la,
De perto era um diamante e de longe uma estrela.

Passa um rei com o seu cortejo de espavento,
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.

 "No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar,
Há safiras sem conta e brilhantes sem par,

"Há rubins orientais, sangrentos e doirados,
Como beijos d'amor, a arder, cristalizados.

"Há pérolas que são gotas de mágoa imensa,
Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.

"Pois, brilhantes, rubins e pérolas de Ofir,
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir

"Nesta c'roa orgulhosa, olímpica, suprema,
Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!"

E a lágrima de leste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.


A Lágrima – Poema de Guerra Junqueiro

[Fotografia é minha]



                                                                         

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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Do Silêncio.


Foto minha.


São tantos
os silêncios da fala
De sede
De saliva
De suor

Silêncios de silex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor
Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor



“Silêncio da Fala” -
 Poema de Maria Teresa Horta


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quinta-feira, 5 de abril de 2018

"Conversa Fiada"



Eu gosto de fazer poemas de um único verso. 

Até mesmo de uma única palavra 
Como quando escrevo o teu nome no meio da página 
E fico pensando mais ou menos em ti
Porque penso, também, em tantas coisas... em ninhos.
Não sei por que vazios no meio de uma estrada 
deserta... 
Penso em súbitos cometas anunciadores de um
 Mundo Novo 
E - imagina! - 
Penso em meus primeiros exercícios de álgebra, 
Eu que tanto, tanto os odiava... 
Eu que naquele tempo vivia dopando-me em cores, flores, amores… 
Nos olhos - flores das menininhas - isso mesmo!

 O mundo era um livro de figuras 

Oh! Os meus paladinos, as minhas princesas prisioneiras 
em suas altas torres, 
Os meus dragões 
Horrendos 
Mas tão coloridos... 
E - já então - o trovoar dos versos de Camões:

"Que o menor mal de todos seja a morte!" 

Ah, prometo àqueles meus professores desiludidos
que na próxima vida eu vou ser um grande matemático 
Porque a matemática é o único pensamento sem dor... 
Prometo, prometo, sim...
 Estou mentindo? Estou! 


Tão bom morrer de amor!... E continuar vivendo...




A saber: "Conversa Fiada" é o título do poema!


:)



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domingo, 14 de janeiro de 2018

DETRÁS DA MINHA JANELA.






Quem olha, de fora, através de uma janela aberta,
não vê jamais tantas coisas quanto quem olha de uma janela fechada.
Não há objecto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais radiante que uma janela iluminada por uma luz difusa.
O que se pode ver à luz do sol é sempre menos interessante que o que se passa atrás de uma vidraça. Neste buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.
Para além do ondular dos telhados, avisto uma mulher madura, já com rugas, sempre debruçada sobre alguma coisa, que nunca sai de casa.
Pelo seu rosto, pela sua roupa, pelos seus gestos, por quase nada refiz a história desta mulher, ou melhor, a sua lenda e, por vezes, conto-a a mim mesmo, chorando.
Tivesse sido um pobre velho, também a teria refeito, facilmente.
E deito-me, feliz, por ter vivido e sofrido pelos outros como se fosse eu mesmo.
Talvez me digam: “Tens a certeza de que esta lenda é verdadeira?”
Que importa o que possa ser a realidade situada
 fora de mim, se me ajuda a viver,
 a sentir que existo e o que sou?


[ Baseado no  poema “As Janelas”
de Charles Beaudelaire ]