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domingo, 8 de outubro de 2023

HÁ FOGO SOB E SOBRE A TERRA.

 


Infelizmente, sobre a Terra, há uma minoria para alegrar-se com os que se alegram. Cada vez mais são os que choram e nos levam a acompanhar-lhes o pranto...Ninguém quer perder, ninguém quer ficar atrás. A lei do olho por olho dente por dente, está  viva, palpitante e destruidora....

É chegada a hora de inverter as palavras divinas:  
"Não vos inquieteis pelo dia de amanhã" 
Inquietei-vos, e muito, pelo dia de amanhã.

(...)
Há fogo sob a terra,
E fogo é pureza.

Há fogo sob a terra
E pedra que não pesa.

Há um fluxo sob a terra,
Que em nós não retesa.

Há um fluxo sob a terra,
e nos ossos, leveza.

Vem aí um grande fogo,
vem aí um fluxo sobre a terra.

Testemunhas seremos, certeza.
(...) 

 

Excerto do poema "Canções de uma Ilha" da filósofa, poeta e dramaturga austríaca Ingeborg Bachmann.

( 1926 - 1973 )


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segunda-feira, 5 de abril de 2021

SOLITUDE.

 


                                                                             



Medo, tristeza, solidão.

Sempre que falo convosco

 é medo, inquietação

que vos vejo no olhar____

____  tudo o que eu posso fazer

[aqui tão longe]

é ter Fé, Esperança e... Rezar!



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domingo, 23 de outubro de 2016

CHUVA DE OUTONO.

Tela de Paul Cezanne - Outono -



Outono instável, ora ameno ora encrespado
Qual mar inquieto, insatisfeito, bravio

Sem chamar por mim
Sem saber se a quero
A chuva caiu encharcou o jardim
Primeiro suave logo copiosa.
Fico desolada preciso aconchego
Onde? me pergunto e fico furiosa.
Procuro-o nos frutos e no seu odor
A doce romã faz-me companhia
Suave, muito suavemente
Deixo-me envolver no seu sabor

Um tranquilo sossego um instante ameno
e tudo me parece mais belo, calmo, suave e,
de novo, sereno!...






terça-feira, 27 de setembro de 2011

DÚVIDAS.


Quando a realidade nos  mostra algo que tentávamos, a todo o custo, não olhar de frente,  sentimos o desejo de nos refugiar em qualquer coisa que apazigúe o nosso desencanto. Talvez fosse esse o motivo que me fez lembrar do meu encontro com Fernando Pessoa e deste seu poema inédito.




“Por Quem Foi Que Me Trocaram”


Por quem foi que me trocaram
Quando estava a olhar para ti?
Pousa a tua mão na minha
E, sem me olhares, sorri.

Sorri do teu pensamento
Porque eu só quero pensar
Que é de mim que ele está feito
E que tens para mo dar.

Depois aperta-me a mão
E vira os olhos a mim…
Por quem foi que me trocaram
Quando estás a olhar-me assim?


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sexta-feira, 15 de julho de 2011

PAIXÕES.



Para além de termos nascido ambas no Alentejo e ela ter vivido no norte do país, há uma afinidade entre mim e Florbela Espanca.
Não é o permanente sentimento de angústia e insatisfação com que ela sempre se debateu, mas o imenso amor pelas vastas planícies alentejanas.
Não sendo ela a minha poetisa preferida, há em muitos dos seus poemas um grito desgarrado de dor que me entristece e ao mesmo tempo me fascina.
Este soneto, sinto-o como se meu fosse.




Árvores do Alentejo

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte.

E quando, manhã alta, o sol pesponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte.

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão, remédio para tanta mágoa.

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
               Também eu ando a gritar, morta de sede
Pedindo a Deus…a minha gota de água!



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