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Não é o cravo e a rosa. É a camélia e o jarro! 😍 |
Dia Não
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Não é o cravo e a rosa. É a camélia e o jarro! 😍 |
Dia Não
...diz, Violante Reis Saramago Matos.
Quando me apercebi da entrevista já esta ia adiantada. Ainda assim, consegui gravar pouco mais de sete minutos de uma conversa deliciosamente lúcida, desassombrada e de uma dignidade e tranparência que me desvaneceu.
Gravei para poder rever mais tarde, mas agora, quando estava a fazê-lo, decidi partilhar com os meus leitores e amigos. Sobretudo, para os que não vêem TV a esta hora. Também não tenho por hábito, contudo, ainda bem que liguei o aparelho e me sentei a descansar. Conhecer o Nobel português da Literatura, através dos olhos e do coração da sua única filha, valeu por quaisquer crónicas que sejam escritas por quem quer que seja. Falo por mim e pela boa impressão que esta grande senhora me causou, óbvio.
* Título do livro de Violante Saramago que desejo ler, e recomendo.
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"Faz muito frio. Visto daqui, o céu parece estar feito de veludo negro. E há as estrelas. Duras, nítidas, implacáveis, quase ferozes. A Criança levanta os olhos. Lá estão elas a brilhar. Olhadas através das lágrimas, as estrelas são diferentes. Mundo estranho, estranho mundo, este. Sob os passos da criança, o chão duro e gelado range, E, em frente, as árvores negras, misteriosas, onde à noite os grandes medos se vão esconder, tomam o ar confidencial de quem conhece todos os segredos futuros, a hora e o lugar onde acontecerá o terceiro nascimento e o quarto, e o quinto, todos os aqueles que ainda esperam a esta Criança, até mesmo quando de havê-lo sido já não lhe restar memória."
Curto excerto de um conto de José Saramago:
"História de um Muro Branco e de uma Neve Preta"
O porquê desta publicação?
Simples...nestes últimos dias sinto-me essa Criança, que vê as estrelas, a lua e o céu, negro, qual veludo feito de breu, por entre um olhar de lágrimas...
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Árvore de Natal - Fundação José Saramago
De volta ao escritor e poeta José Saramago, trago-vos a derradeira parte da sua autobiografia. Se algo mais sair a público, e eu creio que sairá, será escrito por alguém que não o Nobel da Literatura. Talvez a sua viúva, Pilar-del-Rio. Talvez...
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Uma imagem que exprime a plena Felicidade de ambos. Há, no olhar do escritor, uma ternura imensa. |
Dando continuação ao meu simples contributo nas celebrações do centenário do escritor e Nobel da Literatura José Saramago, trago mais um dos seus belíssimos poemas.
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De volta ao escritor José Saramago, trago-vos mais um belo poema, também este, sob o signo das palavras.
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
José Saramago, em “Os Poemas Possíveis”.
( O título do poema é o mesmo que titula esta publicação.)
* * *
«Autobiografia de José Saramago»
Continuação DAQUI
(...)
"Embora tivesse vindo ao mundo no dia 16 de Novembro de 1922, os meus documentos oficiais referem que nasci dois dias depois, a 18: foi graças a esta pequena fraude que a família escapou ao pagamento da multa por falta de declaração do nascimento no prazo legal.
Talvez por ter participado na Grande Guerra, em França, como soldado de artilharia, e conhecido outros ambientes, diferentes do viver da aldeia, meu pai decidiu, em 1924, deixar o trabalho do campo e trasladar-se com a família para Lisboa, onde começou a exercer a profissão de polícia de segurança pública, para a qual não se exigiam mais “habilitações literárias” (expressão comum então…) que ler, escrever e contar. Poucos meses depois de nos termos instalado na capital, morreria meu irmão Francisco, que era dois anos mais velho do que eu. Embora as condições em que vivíamos tivessem melhorado um pouco com a mudança, nunca viríamos a conhecer verdadeiro desafogo económico. Já eu tinha 13 ou 14 anos quando passámos, enfim, a viver numa casa (pequeníssima) só para nós: até aí sempre tínhamos habitado em partes de casa, com outras famílias. Durante todo este tempo, e até à maioridade, foram muitos, e frequentemente prolongados, os períodos em que vivi na aldeia com os meus avós maternos, Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha.
Fui bom aluno na escola primária: na segunda classe já escrevia sem erros de ortografia, e a terceira e quarta classes foram feitas em um só ano. Transitei depois para o liceu, onde permaneci dois anos, com notas excelentes no primeiro, bastante menos boas no segundo, mas estimado por colegas e professores, ao ponto de ser eleito (tinha então 12 anos…) tesoureiro da associação académica… Entretanto, meus pais haviam chegado à conclusão de que, por falta de meios, não poderiam continuar a manter-me no liceu. A única alternativa que se apresentava seria entrar para uma escola de ensino profissional, e assim se fez: durante cinco anos aprendi o ofício de serralheiro mecânico. O mais surpreendente era que o plano de estudos da escola, naquele tempo, embora obviamente orientado para formações profissionais técnicas, incluía, além do Francês, uma disciplina de Literatura.
Como não tinha livros em casa (livros meus, comprados por mim, ainda que com dinheiro emprestado por um amigo, só os pude ter aos 19 anos), foram os livros escolares de Português, pelo seu carácter “antológico”, que me abriram as portas para a fruição literária: ainda hoje posso recitar poesias aprendidas naquela época distante. Terminado o curso, trabalhei durante cerca de dois anos como serralheiro mecânico numa oficina de reparação de automóveis. Também por essas alturas tinha começado a frequentar, nos períodos nocturnos de funcionamento, uma biblioteca pública de Lisboa. E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou."
Continuarei com esta série de publicações,
até terminar a autobiografia do
Nobel da Literatura Portuguesa.
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Breve Nota: Quem me conhece, sabe da minha impossibilidade mental em conseguir ler um romance de José Saramago de príncipio ao fim. Criei esta fobia há largos anos quando intentei, e tentei, ler o nosso Nobel da Literatura - que na altura ainda o não era -, e desisti muito antes de chegar a meio do livro. Contudo, quem disto souber, também sabe da minha enorme admiração pela sua poesia. É esse o motivo que me leva a dar início a uma série de poemas de sua autoria, que irei intercalando com outros temas.
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Foto Observer daqui. |
Palavras de Amor
Esqueçamos as palavras, as palavras:
As ternas, caprichosas, violentas,
As suaves de mel, as obscenas,
As de febre, as famintas e sedentas.
Deixemos que o silêncio dê sentido
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:
Que palavra ou discurso poderia
Dizer amor na língua da semente?
José Saramago, 'in' "Provavelmente alegria".
Editorial Caminho, Lisboa - 1985.
«Autobiografia de José Saramago»
"Nasci numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa. Meus pais chamavam-se José de Sousa e Maria da Piedade. José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registo Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago. (Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres). Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago… Não foi este, porém, o único problema de identidade com que fui fadado no berço."
(...)
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Boca de alguém que não eu, mas minha. |