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domingo, 27 de abril de 2025

AH!...QUE SAUDADES DO SIM.

 

Não é o cravo e a rosa. É a camélia e o jarro! 😍


Dia Não

De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas

Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco, seja rude
Como pedras calcinadas

Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah! Que saudades do sim
Nestas quadras desoladas!


José Saramago ('in' "Os Poemas Possíveis"




Nota: Já bastas vezes aqui o disse, talvez por culpa minha em não ter insistido, não gosto de Saramago enquanto escritor/dramaturgo, mas adoro a sua poesia. A prova do que digo está AQUI. 


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quarta-feira, 13 de julho de 2022

"De Memória nos Fazemos"... *

 

...diz, Violante Reis Saramago Matos.



Quando me apercebi da entrevista já esta ia adiantada. Ainda assim, consegui gravar pouco mais de sete minutos de uma conversa deliciosamente lúcida, desassombrada e de uma dignidade e tranparência que me desvaneceu. 

Gravei para poder rever mais tarde, mas agora, quando estava a fazê-lo, decidi partilhar com os meus leitores e amigos. Sobretudo, para os que não vêem TV  a esta hora. Também não tenho por hábito, contudo, ainda bem que liguei o aparelho e me sentei a descansar. Conhecer o Nobel português da Literatura, através dos olhos e do coração da sua única filha, valeu por quaisquer crónicas que sejam escritas por quem quer que seja.  Falo por mim e pela boa impressão que esta grande senhora me causou, óbvio.




* Título do livro de Violante Saramago que desejo ler, e recomendo.


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segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

DE VELUDO NEGRO É FEITO O CÉU.

 



"Faz muito frio. Visto daqui, o céu parece estar feito de veludo negro. E há as estrelas. Duras, nítidas, implacáveis, quase ferozes. A Criança levanta os olhos. Lá estão elas a brilhar. Olhadas através das lágrimas, as estrelas são diferentes. Mundo estranho, estranho mundo, este. Sob os passos da criança, o chão duro e gelado range, E, em frente, as árvores negras, misteriosas, onde à noite os grandes medos se vão esconder, tomam o ar confidencial de quem conhece todos os segredos futuros, a hora e o lugar onde acontecerá o terceiro nascimento e o quarto, e o quinto, todos os aqueles que ainda esperam a esta Criança, até mesmo quando de havê-lo sido já não lhe restar memória."



Curto excerto de um conto de José Saramago:

"História de um Muro Branco e de uma Neve Preta"

O porquê desta publicação?

Simples...nestes últimos dias sinto-me essa Criança, que vê as estrelas, a lua e o céu, negro, qual veludo feito de breu,  por entre um olhar de lágrimas...

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Árvore de Natal - Fundação José Saramago


❤  ❤  ❤  



domingo, 28 de novembro de 2021

DAS VOLTAS PRODIGIOSAS DA VIDA.

De volta ao escritor e poeta José Saramago, trago-vos a derradeira parte da sua autobiografia. Se algo mais sair a público, e eu creio que sairá, será escrito por alguém que não o Nobel da Literatura. Talvez a sua viúva, Pilar-del-Rio. Talvez...

Uma imagem que exprime a plena Felicidade de ambos.
Há, no olhar do escritor, uma ternura imensa.



AQUI - AQUI - e AQUI

Poderá o leitor ler, ou reler, aquilo já anteriormente publicado neste espaço.

***
«Autobiografia de José Saramago»

[4ª e última parte]

(...)
Sem emprego uma vez mais e, ponderadas as circunstâncias da situação política que então se vivia, sem a menor possibilidade de o encontrar, tomei a decisão de me dedicar inteiramente à literatura: já era hora de saber o que poderia realmente valer como escritor.
No princípio de 1976 instalei-me por algumas semanas em Lavre, uma povoação rural da província do Alentejo. Foi esse período de estudo, observação e registo de informações que veio a dar origem, em 1980, ao romance "Levantado do Chão", em que nasce o modo de narrar que caracteriza a minha ficção novelesca.
Entretanto, em 1978, havia publicado uma colectânea de contos, Objecto Quase, em 1979 a peça de teatro A Noite, a que se seguiu, poucos meses antes da publicação de "Levantado do Chão", nova obra teatral, Que Farei com este Livro?. Com excepção de uma outra peça de teatro, intitulada "A Segunda Vida de Francisco de Assis" e publicada em 1987, a década de 80 foi inteiramente dedicada ao romance: "Memorial do Convento", 1982, "O Ano da Morte de Ricardo Reis", 1984, "A Jangada de Pedra", 1986, "História do Cerco de Lisboa, 1989.
Em 1986 conheci a jornalista espanhola Pilar del Río. Casámo-nos em 1988.

Em consequência da censura exercida pelo Governo português sobre o romance "O Evangelho segundo Jesus Cristo" (1991), vetando a sua apresentação ao Prémio Literário Europeu sob pretexto de que o livro era ofensivo para os católicos, transferimos, minha mulher e eu, em Fevereiro de 1993, a nossa residência para a ilha de Lanzarote, no arquipélago de Canárias. No princípio desse ano publiquei a peça "In Nomine Dei", ainda escrita em Lisboa, de que seria extraído o libreto da ópera "Divara", com música do compositor italiano Azio Corghi, estreada em Münster (Alemanha), em 1993. 
Não foi esta a minha primeira colaboração com Corghi: também é dele a música da ópera "Blimunda", sobre o romance "Memorial do Convento", estreada em Milão (Itália), em 1990. Em 1993 iniciei a escrita de um diário, Cadernos de Lanzarote, de que estão publicados cinco volumes. Em 1995 publiquei o romance Ensaio sobre a Cegueira e em 1997 Todos os Nomes e O "Conto da Ilha Desconhecida". Em 1995 foi-me atribuído o Prémio Camões, e em 1998 o Prémio Nobel de Literatura.

O Encontro de duas Almas Desassossegadas?!


Em consequência da atribuição do Prémio Nobel a minha actividade pública viu-se incrementada. Viajei pelos cinco continentes, oferecendo conferências, recebendo graus académicos, participando em reuniões e congressos, tanto de carácter literário como social e político, mas, sobretudo, participei em acções reivindicativas da dignificação dos seres humanos e do cumprimento da Declaração dos Direitos Humanos pela consecução de uma sociedade mais justa, onde a pessoa seja prioridade absoluta, e não o comércio ou as lutas por um poder hegemónico, sempre destrutivas.
Creio ter trabalhado bastante durante estes últimos anos. Desde 1998, publiquei Folhas Políticas (1976-1998) (1999), "A Caverna" (2000), "A Maior Flor do Mundo" (2001), "O Homem Duplicado" (2002), "Ensaio sobre a Lucidez" (2004), "Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido" (2005), "As Intermitências da Morte" (2005) e "As Pequenas Memórias" (2006). Agora, neste Outono de 2008, aparecerá um novo livro: "A Viagem do Elefante", um conto, uma narrativa, uma fábula.
No ano de 2007 decidiu criar-se em Lisboa uma Fundação com o meu nome, a qual assume, entre os seus objectivos principais, a defesa e a divulgação da literatura contemporânea, a defesa e a exigência de cumprimento da Carta dos Direitos Humanos, além da atenção que devemos, como cidadãos responsáveis, ao cuidado do meio ambiente. Em Julho de 2008 foi assinado um protocolo de cedência da Casa dos Bicos, em Lisboa, para sede da Fundação José Saramago, onde esta continuará a intensificar e consolidar os objectivos a que se propôs na sua Declaração de Princípios, abrindo portas a projectos vivos de agitação cultural e propostas transformadoras da sociedade.

[Fonte: Fundação José Saramago/Autobiografia de José Saramago.]

Nota: Depois de "A Viagem do Elefante", José Saramago escreveu "Caim ",  "O Caderno I" e "O Caderno II", livros que não chegou a acrescentar à sua Autobiografia. Como todos sabemos, José Saramago faleceu em 18 de Junho de 2010.

Alegria

Já ouço gritos ao longe 
Já diz a voz do amor 
A alegria do corpo 
O esquecimento da dor 

Já os ventos recolheram 
Já o verão se nos oferece 
Quantos frutos quantas fontes 
Mais o sol que nos aquece 

Já colho jasmins e nardos 
Já tenho colares de rosas 
E danço no meio da estrada 
As danças prodigiosas 

Já os sorrisos se dão 
Já se dão as voltas todas 
Ó certeza das certezas 
Ó alegria das bodas 

José Saramago, in "Provavelmente Alegria". 
Lisboa: Editorial Caminho, 1985.

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Uma vez mais quero deixar expresso o meu profundo agradecimento, a todos os leitores, visitantes e amigos
 que me têm acompanhado nesta
 homenagem ao nosso 
escritor/poeta José Saramago, Nobel da Literatura. 
Muito Obrigada!



❤   ❤   ❤   ❤   ❤ 
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domingo, 14 de novembro de 2021

É NO SILÊNCIO QUE OUVIMOS O PULSAR DA VIDA.

 Dando continuação ao meu simples contributo nas celebrações do centenário do escritor e Nobel da Literatura José Saramago, trago mais um dos seus belíssimos poemas.


É Tão Fundo O Silêncio…

É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
Nem o canto das aves milagrosas.
Mas lá, entre as estrelas, onde somos
Um astro recriado, é que se ouve
O íntimo rumor que abre as rosas.

 José Saramago, in “Provavelmente Alegria”.

* * * * 

«Autobiografia de José Saramago»

Continuação DAQUI e DAQUI 


(...)

"Quando casei, em 1944, já tinha mudado de actividade, passara a trabalhar num organismo de Segurança Social como empregado administrativo. Minha mulher, Ilda Reis, então dactilógrafa nos Caminhos de Ferro, viria a ser, muitos anos mais tarde, um dos mais importantes gravadores portugueses. Faleceria em 1998. 

Em 1947, ano do nascimento da minha única filha, Violante, publiquei o primeiro livro, um romance que intitulei "A Viúva", mas que por conveniências editoriais viria a sair com o nome de "Terra do Pecado." Escrevi ainda outro romance, "Clarabóia", que permanece inédito até hoje, e principiei um outro, que não passou das primeiras páginas: chamar-se-ia O Mel e o Fel ou talvez Luís, filho de Tadeu… A questão ficou resolvida quando abandonei o projecto: começava a tornar-se claro para mim que não tinha para dizer algo que valesse a pena.

Durante 19 anos, até 1966, quando publicaria "Os Poemas Possíveis" , estive ausente do mundo literário português, onde devem ter sido pouquíssimas as pessoas que deram pela minha falta.

Por motivos políticos fiquei desempregado em 1949, mas, graças à boa vontade de um meu antigo professor do tempo da escola técnica, pude encontrar ocupação na empresa metalúrgia de que ele era administrador. No final dos anos 50 passei a trabalhar numa editora, Estúdios Cor, como responsável pela produção, regressando assim, mas não como autor, ao mundo das letras que tinha deixado anos antes. Essa nova actividade saramago_antiga permitiu-me conhecer e criar relações de amizade com alguns dos mais importantes escritores portugueses de então. 

Para melhorar o orçamento familiar, mas também por gosto, comecei, a partir de 1955, a dedicar uma parte do tempo livre a trabalhos de tradução, actividade que se prolongaria até 1981: Colette, Pär Lagerkvist, Jean Cassou, Maupassant, André Bonnard, Tolstoi, Baudelaire, Étienne Balibar, Nikos Poulantzas, Henri Focillon, Jacques Roumain, Hegel, Raymond Bayer foram alguns dos autores que traduzi. 
Outra ocupação paralela, entre Maio de 1967 e Novembro de 1968, foi a de crítico literário. Entretanto, em 1966, publicara «Os Poemas Possíveis», uma colectânea poética que marcou o meu regresso à literatura. A esse livro seguiu-se, em 1970, outra colectânea de poemas, «Provavelmente Alegria», e logo, em 1971 e 1973 respectivamente, sob os títulos Deste Mundo e do Outro e A Bagagem do Viajante, duas recolhas de crónicas publicadas na imprensa, que a crítica tem considerado essenciais à completa compreensão do meu trabalho posterior. Tendo-me divorciado em 1970, iniciei uma relação de convivência, que duraria até 1986, com a escritora portuguesa Isabel da Nóbrega.

Deixei a editora no final de 1971, trabalhei durante os dois anos seguintes no vespertino Diário de Lisboa como coordenador de um suplemento cultural e como editorialista. Publicados em 1974 sob o título As Opiniões que o DL teve, esses textos representam uma “leitura” bastante precisa dos últimos tempos da ditadura que viria a ser derrubada em Abril daquele ano. Em Abril de 1975 passei a exercer as funções de director-adjunto do matutino Diário de Notícias, cargo que desempenhei até Novembro desse ano e de que fui demitido na sequência das mudanças ocasionadas pelo golpe político-militar de 25  daquele mês, que travou o processo revolucionário. Dois livros assinalam esta época: O Ano de 1993, um poema longo publicado em 1975, que alguns críticos consideram já anunciador das obras de ficção que dois anos depois se iniciariam com o romance Manual de Pintura e Caligrafia, e, sob o título Os Apontamentos , os artigos de teor político que publiquei no jornal de que havia sido director."




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Tal como  tenho vindo a afirmar nas publicações anteriores, dedidadas ao nosso Nobel, 
darei por terminada esta série,
quando finalizar a sua autobiografia.

O meu agradecimento a todos os leitores, visitantes e amigos que me têm acompanhado nesta
modesta homenagem ao escritor/poeta José Saramago.






(Fotos do escritor retiradas da Net - a das rosas é minha.)


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domingo, 7 de novembro de 2021

"Poema À Boca Fechada".

 De volta ao escritor José Saramago, trago-vos mais um belo poema, também este,  sob o signo das palavras.

 

Não direi:

Que o silêncio me sufoca e amordaça.

Calado estou, calado ficarei,

Pois que a língua que falo é de outra raça.


Palavras consumidas se acumulam,

Se represam, cisterna de águas mortas,

Ácidas mágoas em limos transformadas,

Vaza de fundo em que há raízes tortas.


Não direi:

Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,

Palavras que não digam quanto sei

Neste retiro em que me não conhecem.


Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,

Nem só animais bóiam, mortos, medos,

Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam

No negro poço de onde sobem dedos.


Só direi,

Crispadamente recolhido e mudo,

Que quem se cala quando me calei

Não poderá morrer sem dizer tudo.


José Saramago, em “Os Poemas Possíveis”

( O título do poema é o mesmo que titula esta publicação.) 

* * *

«Autobiografia de José Saramago»

Continuação DAQUI

(...)

"Embora tivesse vindo ao mundo no dia 16 de Novembro de 1922, os meus documentos oficiais referem que nasci dois dias depois, a 18: foi graças a esta pequena fraude que a família escapou ao pagamento da multa por falta de declaração do nascimento no prazo legal.

Talvez por ter participado na Grande Guerra, em França, como soldado de artilharia, e conhecido outros ambientes, diferentes do viver da aldeia, meu pai decidiu, em 1924, deixar o trabalho do campo e trasladar-se com a família para Lisboa, onde começou a exercer a profissão de polícia de segurança pública, para a qual não se exigiam mais “habilitações literárias” (expressão comum então…) que ler, escrever e contar. Poucos meses depois de nos termos instalado na capital, morreria meu irmão Francisco, que era dois anos mais velho do que eu. Embora as condições em que vivíamos tivessem melhorado um pouco com a mudança, nunca viríamos a conhecer verdadeiro desafogo económico. Já eu tinha 13 ou 14 anos quando passámos, enfim, a viver numa casa (pequeníssima) só para nós: até aí sempre tínhamos habitado em partes de casa, com outras famílias. Durante todo este tempo, e até à maioridade, foram muitos, e frequentemente prolongados, os períodos em que vivi na aldeia com os meus avós maternos, Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha.

Fui bom aluno na escola primária: na segunda classe já escrevia sem erros de ortografia, e a terceira e quarta classes foram feitas em um só ano. Transitei depois para o liceu, onde permaneci dois anos, com notas excelentes no primeiro, bastante menos boas no segundo, mas estimado por colegas e professores, ao ponto de ser eleito (tinha então 12 anos…) tesoureiro da associação académica… Entretanto, meus pais haviam chegado à conclusão de que, por falta de meios, não poderiam continuar a manter-me no liceu. A única alternativa que se apresentava seria entrar para uma escola de ensino profissional, e assim se fez: durante cinco anos aprendi o ofício de serralheiro mecânico. O mais surpreendente era que o plano de estudos da escola, naquele tempo, embora obviamente orientado para formações profissionais técnicas, incluía, além do Francês, uma disciplina de Literatura. 

Como não tinha livros em casa (livros meus, comprados por mim, ainda que com dinheiro emprestado por um amigo, só os pude ter aos 19 anos), foram os livros escolares de Português, pelo seu carácter “antológico”, que me abriram as portas para a fruição literária: ainda hoje posso recitar poesias aprendidas naquela época distante. Terminado o curso, trabalhei durante cerca de dois anos como serralheiro mecânico numa oficina de reparação de automóveis. Também por essas alturas tinha começado a frequentar, nos períodos nocturnos de funcionamento, uma biblioteca pública de Lisboa. E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou."



(Fotos da Net)

    Continuarei com esta série de publicações, 

até terminar a autobiografia do

 Nobel da Literatura Portuguesa.


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terça-feira, 2 de novembro de 2021

DAR VOZ AO SILÊNCIO.

Breve Nota: Quem me conhece, sabe da minha impossibilidade mental em conseguir ler um romance de José Saramago de príncipio ao fim. Criei esta fobia há largos anos quando intentei, e tentei,  ler o nosso Nobel da Literatura - que na altura ainda o não era -, e desisti muito antes de chegar a meio do livro. Contudo, quem disto souber, também sabe da minha enorme admiração pela sua poesia. É esse o motivo que me leva a dar início a uma série de poemas de sua autoria, que irei intercalando com outros temas.

Foto Observer daqui.


Palavras de Amor


Esqueçamos as palavras, as palavras:

As ternas, caprichosas, violentas,

As suaves de mel, as obscenas,

As de febre, as famintas e sedentas.


Deixemos que o silêncio dê sentido

Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:

Que palavra ou discurso poderia

Dizer amor na língua da semente?


 José Saramago, 'in' "Provavelmente alegria". 

Editorial Caminho, Lisboa - 1985.


  «Autobiografia de José Saramago»


"Nasci numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa. Meus pais chamavam-se José de Sousa e Maria da Piedade. José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registo Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago. (Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres). Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago… Não foi este, porém, o único problema de identidade com que fui fadado no berço."

(...)

Em outras publicações, de poemas de José Saramago, darei continuidade à sua autobiografia.


Nesta imagem vemos o escritor posando ao lado do busto 
que lhe foi erigido na sua terra natal:
Azinhaga do Ribatejo.
 AQUI poderão ficar a saber como foi que tudo aconteceu!


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sexta-feira, 19 de junho de 2020

Boca Fechada.


Boca de alguém que não eu, mas minha.




Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.



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[É como Poeta, que aprecio e leio o nosso Nobel da Literatura. Como escritor não consegui
 passar de um terço da leitura de um dos seus primeiros livros. 
Não se aceitam argumentos em contrário nem a favor] 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

QUE IMPORTA A MINHA IDADE?




Que cuántos años tengo?
Qué importa eso
Tengo la edad que quiero y siento
La edad en que puedo gritar sin miedo lo que pienso.
Hacer lo que deseo, sin miedo al fracaso o lo desconocido…
Pues tengo la experiencia de los años vividos
y la fuerza de la convicción de mis deseos.
Qué importa cuántos años tengo! ¡No quiero pensar en ello
Pues unos dicen que ya soy viejo
otros “que estoy en el apogeo”.
Pero no es la edad que tengo, ni lo que la gente dice,
sino lo que mi corazón siente y mi cerebro dicte.
Tengo los años necesarios para gritar lo que pienso,
para hacer lo que quiero, para reconocer yerros viejos,
rectificar caminos y atesorar éxitos.
Ahora no tienen por qué decir:
“Estás muy joven, no lo lograrás!…
Estás muy viejo, ya no podrás!”
Tengo la edad en que las cosas se miran con más calma,
pero con el interés de seguir creciendo.
Tengo los años en que los sueños,
se empiezan a acariciar con los dedos,
las ilusiones se convierten en esperanza.
Tengo los años en que el amor,
a veces es una loca llamarada,
ansiosa de consumirse en el fuego de una pasión deseada.
y otras… es un remanso de paz, como el atardecer en la playa..
Qué cuántos años tengo?
No necesito marcarlos con un número,
pues mis anhelos alcanzados,
mis triunfos obtenidos,
las lágrimas que por el camino derramé al ver mis ilusiones truncadas…
Valen mucho más que eso!
Qué importa si cumplo cincuenta, sesenta o más!
Pues lo que importa: es la edad que siento!
Tengo los años que necesito para vivir libre y sin miedos.
Para seguir sin temor por el sendero,
pues llevo conmigo la experiencia adquirida
y la fuerza de mis anhelos
Qué cuántos años tengo?
Eso!… A quién le importa?
Tengo los años necesarios para perder ya el miedo
y hacer lo que quiero y siento!!
Qué importa cuántos años tengo.
o cuántos espero, si con los años que tengo,
aprendí a querer lo necesario y a tomar, sólo lo bueno!




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Eu, que nunca consegui ler um livro Dele, de princípio ao fim, mas que adoro a sua poesia, vinte anos depois do Nobel, homenageio José Saramago,
 com humildade e gratidão!
*
Obrigada, Poeta/Escritor
 por este poema tão belo e que, hoje, tanto me diz!
**
Por favor, não fiquem apenas pela leitura do poema.
Oiçam-no, na bela voz de Miguel Angel Andrín e sintam cada palavra.


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