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quarta-feira, 30 de março de 2022

BOA MÚSICA 🎼 COM BOLA VERMELHA.

 






🎸  🎺  🎻   🎼


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quinta-feira, 1 de julho de 2021

BRAÇOS QUE ENLAÇAM __ TARDES DE JULHO. [ Com Adenda ]

 


Foi n'uma tarde de Julho.

Conversávamos a medo,

_ Receios de traição

Um tristissimo segredo.


Sim, duvidávamos ambos:

Ele não sabia bem

Que o amava loucamente

Como nunca amei ninguém.

E eu não acreditava

Que era por mim que o seu olhar

De lágrimas se toldava...


Mas, a duvida perdeu-se;

Falou alto o coração!

_ E as nossas taças

Foram erguidas

Com infinita perturbação.


Os nossos braços

Formaram laços.


E, aos beijos, ébrios, tombámos;

_ Cheios d'amor e de vinho!


(Uma suplica soava:)


«Agora... morre comigo,

Meu amor, meu amor... devagarinho!...»


António Botto, in "Canções"
Fotos minhas

ADENDA: Volto para explicar aos meus Caros Leitores para não confundirem as pérolas que vos deixo com as pedrinhas que encontramos no caminho. O belo poema de António Botto é um bónus. Pois se assim  não fosse o que estariam aqui a fazer a hortelã e a melancia? Hummm?  Cocktails de Verão não vos diz nada? 
Obrigada!

                                                             

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Amargos Desejos.

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Pão Nosso de Cada Dia.


Viviam juntas mãe e filha. Uma encantava pela modéstia; outra irritava pela toleima – apesar de ser bonita. Certa noite, a mãe, não podendo adormecer, preocupada a pensar no destino de sua filha, ajoelhou-se e pediu a Deus que modificasse o feitio de Sília, fazendo-a bondosa e discreta.

Na manhã seguinte, perguntou-lhe:

— Que sonho era aquele, filha, quando esta noite cantavas?

— Ai, sonhava, minha mãe, que um senhor descia de uma carruagem de cobre e me oferecia um anel com uma jóia tão preciosa e brilhante que não haverá no céu estrela de maior brilho.

— Foi um sonho de vaidade! — responde a mãe.

E nisto batem à porta. Sília corre e vai abrir: entra um rico lavrador. Oferece-lhe terras de lavoura, montados, hortas, pomares, uma infinita riqueza!

— Mesmo que viesses em carro de cobre e me desses uma jóia mais fulgurante e mais bela do que uma estrela do céu, não casaria contigo.

O lavrador, desiludido, foi-se embora, e, nessa noite, Sília voltou a sonhar.

— Com quem estás tu a sonhar? — perguntou a mãe, acordando-a.

— Ai, sonhava, minha mãe, que um senhor descia de uma carruagem de prata e punha nos meus cabelos valiosíssimo diadema de oiro!

— Que pecado, minha filha! Vai rezar para abrandar esse teu grande egoísmo!

Na tarde do dia seguinte, um moço esbelto, sadio, apareceu a oferecer-lhe a sua vida, a sua fortuna, o seu amor.

— Nem que viesses em carro de prata e pusesses nos meus cabelos formosíssimo diadema de oiro eu casaria contigo!

E o moço partiu tristemente.

— O teu orgulho há-de perder-te! — dizia a mãe para a filha.

Outra noite, Sília voltou aos seus sonhos de perdição e, ao ser interrogada pela mãe, contentíssima, exclamou:

— Ai, sonhava que um fidalgo descia de um carro de oiro e, pedindo-me em casamento, oferecia-me um vestido de rubis e diamantes.

— Não te emendas, minha filha, mas hás-de pagar bem caro essa fome de grandezas.

Momentos depois, três carros paravam à porta onde residiam ambas. Um de bronze, outro de platina e outro de cristal. O primeiro puxado a doze cavalos; o segundo, a vinte cavalos; e o terceiro, a quarenta! Dos carros de bronze e platina desceram pajens vestidos de seda verde e azul. Do carro de cristal saiu um lindo rapaz coberto de pedraria. Entrou em casa de Sília e, de joelhos e humilde, beijou-lhe as mãos num sorriso.

— Finalmente, sou feliz! O meu sonho transformou-se na mais bela realidade.

E, orgulhosa, foi vestir o vestido de noivado. Partiram para a Igreja. Os cavalos galopavam num frémito de alegria.

— Vou dar a minha mulher os meus presentes! — dizia ele ao regressar, e entrando na sala suave do seu palácio de turquesa:

— Tudo isto é para ti.

Sília sorriu e a sorrir foi-lhe dizendo:

— Sabes que já tenho fome?

— Ponham a mesa e sirvam-nos o banquete! — gritou ele aos seus vassalos.

Saladas de topázio, assados de ametistas e doce de pérolas; todos comiam e repetiam. Só ela não podia comer. A medo pediu um bocadinho de pão.

— É a única coisa que não te posso dar! — respondeu ele.

E desatou às gargalhadas, gargalhadas metálicas, cantantes, porque o seu coração também era de metal.

Ela chorou!

— Chorar para quê? Não desejavas tudo isto? Não tens agora o que sempre ambicionaste?

Rodeada de riquezas, saía do palácio, à noite, e andava de porta em porta disfarçada e muito triste, a pedir cheia de fome um bocadinho de pão.

 

D'Os Contos de António Botto


No café Martinho da Arcada:
Um desconhecido, Raul Leal (de barba),
António Botto (ao lado), Augusto Ferreira Gomes (de pé) e Fernando Pessoa.
Daqui


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Este conto, em que o seu autor talvez se tenha inspirado na Lenda do Rei Midas, terá, como todos os contos, um propósito moralizante. Cada leitor fará a sua leitura e, concluirá, de acordo com a moral que mais lhe disser ou aprouver.  




sábado, 5 de dezembro de 2020

Um Soneto Por Semana. # 8

 




Querer-te mal, porquê? – Foste quem eras:
Um corpo gentilíssimo, perfeito,
Que se moldava ao meu e a qualquer jeito
No pântano de todas as quimeras!

Que culpa tinhas tu se ainda esperas
O lugar prometido aqui no peito
E sais da minha vida e do meu leito
Com a simplicidade que trouxeras?

A culpa tenho-a eu que fui um triste
A desejar no alto do meu sonho
Beijar a perfeição que não existe.

Fui esta coisa inútil, complicada
- Não me encontrando aonde me suponho
E encontrando-me aonde não há nada.



Soneto de António Botto
 17 de Agosto de 1897 - 16 de Março de 1959

Tela - [sobejamente conhecida ]
de Renée Magritte
Pintor surrealista francês (1898-1967)

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Nota de rodapé: Dada a condição, orientação, opção - escolham o que melhor se enquadrar nas vossas crenças/opiniões - da sexualidade do autor do Soneto, e em virtude ainda, dos tempos que atravessamos, achei por bem a escolha desta tela, já que nada neste postal é de minha autoria...a não ser o pensamento!    😚


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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

LAIVOS DE EROTISMO, AMOR E BELEZA...!...


Ouve, meu anjo

Pintura de Hélio Lima
Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí,
A carne do assassino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar…
E eu, lentamente morria
Como um perfume no ar!



António Botto



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