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sábado, 6 de dezembro de 2025

__ CITAÇÕES__ # 9

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"Não me sinto bem em parte nenhuma e ando cheio de ansiedade de coisas que não posso nem sei realizar."

[Cesário Verde]

(Foi ele e sou eu)




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quarta-feira, 6 de março de 2024

MEIA VOLTA, VOLTA E MEIA, LÁ VOLTO EU ÀS PIEGUICES DO CESÁRIO...

 

FLORES VELHAS

Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um voo.

Em tudo cintilava o límpido poema
Com ósculos rimado às luzes dos planetas:
A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.



Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrigais;
E as vibrações, o rio, os astros, a paisagem,
Traziam-me à memória idílios imortais.

E nosso bom romance escrito num desterro,
Com beijos sem ruído em noites sem luar,
Fizeram-mo reler, mais tristes que um enterro,
Os goivos, a baunilha e as rosas-de-toucar.



Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu não te beijarei, às horas sonolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados...

Eu, por não ter sabido amar os movimentos
Da estrofe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decepções e os grandes desalentos
E tenho um riso meu como o sorrir de Judas.

(...)

Mas quero só fugir das coisas e dos seres,
Só quero abandonar a vida triste e má
Na véspera do dia em que também morreres,
Morreres de pesar, por eu não viver já!

E não virás, chorosa, aos rústicos tapetes,
Com lágrimas regar as plantações ruins;
E esperarão por ti, naqueles alegretes,
As dálias a chorar nos braços dos jasmins!

Cesário Verde 
_______________

Gostaria de colocar as dálias a chorar
nos braços, não dos jasmins que os não tenho, 
mas nos braços da hortelã, e nem sequer consigo colocar as duas imagens a par. 
Alguém faz o favor de me explicar como devo fazer?
Agradecida.


Em tempos fiz isso, mas creio Mr. Google me trocou as voltas.

🧐  😥  🥺  

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Para Quem Ama Poesia... e Gosta de Saborear, Lentamente, o Sabor de Cada Palavra.

 




Lembras-te tu do sábado passado,
Do passeio que demos, devagar,
Entre um saudoso gás amarelado
E as carícias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruazinhas,
Que ambos percorremos de mãos dadas:
Às janelas palravam as vizinhas;
Tinham lívidas luzes as fachadas.

Não me esqueço das cousas que disseste
Ante um pesado tempo com recortes;
E os cemitérios ricos, e o cipreste
Que vive de gorduras e de mortes.

Nós saíramos próximo ao sol-posto,
Mas seguíamos cheios de demoras;
Não me esqueceu ainda o meu desgosto
Nem o sino rachado que deu horas. 

Tenho ainda gravado no sentido,
Porque tu caminhavas com prazer,
Cara rapada, gordo e presumido,
O padre que parou para te ver.

A Lua dava trémulas brancuras,
Eu ia cada vez mais magoado;
Vi um jardim com árvores escuras,
Como uma jaula todo gradeado! 

Eu sinto ainda a flor da tua pele,
Tua luva, teu véu, o que tu és! 
Não sei que tentação é que te impele
Os pequeninos e cansados pés.

Sei que em tudo atentavas, tudo vias!
Eu por mim tinha pena dos marçanos,
Como ratos, nas gordas mercearias,
Encafurnados por imensos anos.


Tu sorrias de tudo: os carvoeiros,
Que aparecem ao fundo dumas minas,
E à crua luz os pálidos barbeiros
Com óleos e maneiras femininas! 

E enquanto ela falava ao seu namoro,
Que morava num prédio de azulejo,
Nos nossos lábios retiniu sonoro
Um vigoroso e formidável beijo!

E assim ao meu capricho abandonada,
Erramos por travessas, por vielas,
E passamos por pé duma tapada
E um palácio real com sentinelas.

E eu que busco a moderna e fina arte,
Sobre a umbrosa calçada sepulcral,
Tive a rude intenção de violentar-te
Imbecilmente, como um animal.

Mas ao rumor dos ramos e da aragem,
Como longínquos bosques muito ermos,
Tu querias no meio da folhagem
Um ninho enorme para nós vivermos. 

E ali começaria o meu desterro...
Lodoso o rio, e glacial, corria;
Sentamo-nos, os dois, num novo aterro
Na muralha dos cais de cantaria.

Nunca mais amarei, já que não amas,
E é preciso, decerto, que me deixes!
Toda a maré luzia como escamas,
Como alguidar de prateados peixes. 

E como é necessário que eu me afoite
A perder-me de ti por quem existo,
Eu fui passar ao campo aquela noite
E andei léguas a pé, pensando nisto.

E tu que não serás somente minha,
Às carícias leitosas do luar,
Recolheste-te, pálida e sozinha,
À gaiola do teu terceiro andar.

"Noite Fechada" - d'O Livro de Cesário Verde.

***___***

Música Intemporal.
Para ouvir e degustar o doce sabor de cada nota.



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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Um Soneto Por Semana. # 12


 "PRÓ PUDOR"


Todas as noites ela me cingia

Nos braços, com brandura gasalhosa

Todas as noites eu adormecia,

Sentindo-a desleixada e langorosa.


Todas as noites uma fantasia

Lhe emanava da fronte imaginosa

Todas as noites tinha uma mania,

Aquela concepção vertiginosa.


Agora, há quase um mês, modernamente,

Ela tinha um furor dos mais soturnos,

Furor original, impertinente...


Todas as noites ela, ah! sordidez!

Descalçava-me as botas, os coturnos,

E fazia-me cócegas nos pés...


Cesário Verde.

1855 - 1886

 


😊  😉  😂

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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O POETA DOS POETAS.


Poeta de um livro só, dado que a sua curta existência não lhe deu tempo para mais, Cesário Verde, nasceu no mesmo dia e mês em que eu nasci.  Talvez seja essa afinidade, que me leva a identificar-me tanto com a sua poesia...:)
Este meu livro é de uma edição bastante antiga das Publicações Europa América, da colecção 'livros de bolso' desta editora. O Prefácio a cargo do crítico literário e seu grande amigo, Silva Pinto, daria tema para um outro livro. Contudo, por razões que desconheço, este poema que agora publico, não o encontro aqui, talvez por pertencer a uma edição posterior, pelo que fiz copy paste da net. Quem fala a verdade...



Eu e Ela

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros
Formando unicamente um coração. 

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