Amor sem fruto, amor sem esperançaÉ mais nobre, mais puro,Que o que, domando a ríspida esquivança,Jaz dos agrados nas prisões seguro.
Meu leal coração, constante e forte,
Vendo a teu lado acesos,
Flérida ingrata, os ódios, os desprezos,
O rigor, a tristeza, a raiva, a morte.
Forjando contra mim, por ordem tua
Mil setas venenosas,
Em prémio destas lágrimas saudosas,
Inda assim continua
A abrasar-se em teus olhos... Vis amantes,
Corações inconstantes,
De sórdidas paixões envenenados,
Vós, a cujos ardores,
A cujos desbocados
Infames apetites
A Virtude, a Razão não põe limites,
Suspirai por ilícitos favores,
Cevai-vos em torpíssimos desejos.
Tratai, tratai de louco um amor casto,
Que eu nos grilhões que arrasto;Tão limpos como o Sol, darei mil beijos.Peçonhenta aliança,Vergonhoso prazer, de vós não curoDe ti, sim, porque és puro,Amor sem fruto, amor sem esperança.
Manuel Maria Barbosa du Bocage, in "Excerto de Flérida - Idílio Pastoral"