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sábado, 10 de setembro de 2022

CRIANCICES OU FASES DA VIDA DE TODOS NÓS.

 💜 💛 💚 💙


Texto da página 20


O UNIVERSO VISTO PELO BURACO DA FECHADURA (I)


 Valéria pede ao Pai que vire o disco. Explica-lhe que Arroz con leche* vive no outro lado.

   Diego conversa com o seu companheiro interior, que se chama Andrés e é o seu esqueleto.

   Fanny conta que hoje mergulhou com a sua amiga no rio da escola, que é muito fundo, e que lá embaixo era tudo transparente e viam os pés das pessoas grandes, as solas dos sapatos.

   O Cláudio agarra num dedo de Alejandra e diz «empresta-me o dedo» e mergulha-o na caçarola de leite que está ao lume, porque quer saber se não está muito quente.

   Do quarto, a Florência chama-me e pergunta se sou capaz de tocar no nariz com o lábio de baixo.

   Sebastián propõe que fujamos num avião, mas avisa-me de que é preciso ter cuidado com os serámofos e com a hécile.

   Mariana, no terraço, empurra a parede, que é o seu modo de ajudar a Terra a girar.

   Patrício segura um fósforo aceso entre os dedos e sopra a chamazinha que nunca se apagará.

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* Canção tradicional infantil. (N.T.)




Nota da administradora do espaço:
Caros Amigos, visitantes e leitores que me acompanham nesta jornada blogueira. Como podem constatar recuei no número das páginas do livro que ando a ler e pensei partilhar convosco alguns textos, não todo o conteúdo do livro, obviamente. E recuei porquê?
Pois para vos mostrar que este é um livro especial, feito de textos e narrativas escritas pelo seu autor, durante o exílio. Não aquilo que alguns de vós pensasteis quando leram a Adenda que introduzi na primeira publicação acerca desta obra. O que une estes textos aparentemente dispersos, é a vontade do autor: Eduardo Galeano, cristalizar os dias intermináveis e as noites passadas em claro, onde entre a censura e o cadafalso escolheu Amar e Lutar.
Por favor, não deixem de exprimir as vossas opiniões de acordo com os textos que forem sendo apresentados.
Muito Obrigada pelo vosso tempo e atenção. 

 💜 💛 💚 💙

sábado, 29 de junho de 2019

A PORTA DA VERDADE.


A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.




Fotografia minha


Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava

só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade resplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.




  “Verdade


[ Carlos Drummomd de Andrade ]

*  *  *  *

Creio que, neste texto poético, o objectivo do Poeta foi comprovar que não há uma verdade universal, já que o que constitui uma verdade para uns, pode não constituir para outros.


Gostaria de saber a vossa opinião, se a isso estiverem dispostos. Concordam com esta teoria, ou, pelo contrário, acreditam que a verdade é a verdade, e não pode haver duas verdades?


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domingo, 27 de novembro de 2016

"DEUS LHE PAGUE".

PRIMEIRO  ACTO  (parte)
CENÁRIO
Porta principal de uma velha igreja. A acção começa um pouco antes de ser iluminada a cidade, mas no interior da igreja há a luz morta dos templos.
Sentado nas escadas um mendigo aparentando cerca de 50 anos, barbas e cabelos compridos, olhar sereno, expressões messiânicas, em suma, uma cabeça que despertaria a atenção de pintores retratistas.

Ao avistar um rapaz que entra em sentido contrário, simula, instantaneamente e com muita prática, um grande abatimento, uma expressão de angustioso sofrimento. Ao passar por ele o rapaz atira, maquinalmente, sem olhar, uma moeda que o mendigo apanha com o chapéu, tão habilmente como um pelotário apanharia uma bola na cesta…O rapaz entra na igreja enquanto o mendigo diz, sem dar grande importância ao esmoler:


MENDIGO

         Deus lhe pague… (Em seguida entra OUTRO mendigo; mesma idade, mas de aparência pior. É mesmo esquálido e faminto. O MENDIGO, distraidamente à passagem do OUTRO, estende-lhe o chapéu. )  Ah!  (Risonho.)
Desculpe…Não tinha reparado que o senhor é colega…


OUTRO
           Ainda não fiz nada hoje, velhinho.  Tenho cigarros. Aceita um?

MENDIGO
            São bons?

OUTRO
          Hoje, até as pontas que consegui apanhar são de cigarros ordinários!
( Tira do bolso uma latinha cheia de pontas de cigarros, abre-a e oferece. )

MENDIGO
           Muito obrigado.  Não fumo cigarros ordinários. Quer um charuto? ( Tira-o do bolso )

OUTRO
         ( Aceitando espantado. )  Olá!

MENDIGO
           É havana!  Tenho muitos! Custam 10$000 cada um.

OUTRO
          Aceito, porque nunca tive jeito para roubar…

MENDIGO
           Nem eu.

OUTRO
          Não foram roubados?

MENDIGO
           Foram comprados.  Ainda não sou ladrão.

OUTRO
          Desculpe.  É que…

MENDIGO
           Não é preciso pedir desculpas.  Não sou ladrão, mas podia sê-lo.  É um direito que me assiste.

OUTRO
          ( Sentando-se na escada. )  Acha?

MENDIGO
           Acho, mas sempre preferi trabalhar.  Como trabalhar nem sempre é possível, resolvi pedir esmola, antes que fosse obrigado a roubar.  Pedir dá menos trabalho.

OUTRO
          ( Alarmado )  E é por isso que o senhor pede?

MENDIGO
           Só. O senhor conhece a história do Mundo?

OUTRO
          Não.

MENDIGO
           Antigamente, tudo era de todos. Ninguém era dono da terra e a água não pertencia a ninguém. Hoje, cada pedaço de terra tem um dono e cada nascente de água tem um dono. Quem foi que deu?

OUTRO
          Eu não fui…

MENDIGO
           Não foi ninguém. Os espertalhões, no princípio do Mundo, apropriaram-se das coisas e inventaram a Justiça e a Polícia…

OUTRO
          Para quê?

MENDIGO
           Para prender e processar os que vieram depois. Hoje, quem se apropriar das coisas, é processado pelo crime de apropriação indébita. Porquê?  Porque eles resolveram que as coisas lhes pertencessem…

OUTRO
          Mas quem foi que deu?

MENDIGO
           Ninguém.  Pergunte ao dono de uma faixa de terra na Avenida Atlântica se ele sabe explicar porque razão aquela faixa é dele…

OUTRO
          Ora! É fácil. Ele dirá que comprou do antigo dono.

MENDIGO
           E o antigo dono?

OUTRO
         Comprou de outro.

MENDIGO
           E o outro?

OUTRO
         De outro.  

MENDIGO
            E  estoutro?

OUTRO
         Do primeiro dono.

MENDIGO
           E o primeiro dono comprou de quem?

OUTRO
         De ninguém.  Tomou conta.

MENDIGO
           Com que direito?

OUTRO
Isso é que eu não sei.

MENDIGO
           Sem direito nenhum. Naquele tempo não havia leis. Depois que um pequeno grupo dividiu tudo entre si, é que se fizeram os Códigos. Então, passou a ser crime… para os outros, o que para eles era uma coisa natural…

OUTRO
         Mas os que primeiro tomaram conta das terras eram fortes e podiam garantir a posse contra os fracos.

MENDIGO
           Isso era antigamente. Hoje, os  chamados donos não são fortes e continuam na posse do que não lhes pertence.

OUTRO
         Garantidos pela Polícia, pelas classes armadas…

MENDIGO
           Sim. Garantidos  pelos que  também não são donos de nada, mas que foram convencidos de que devem fazer respeitar uma divisão na qual foram aquinhoados.

OUTRO
         E o senhor pretende reformar o Mundo?

MENDIGO
           Tinha pensado nisso, mas depois compreendi que a Humanidade não precisa do meu sacrifício.

OUTRO
          Porquê?

MENDIGO
           Porque o número de infelizes avoluma-se assustadoramente…

OUTRO
       ( Sorrindo ) E foi por isso que desistiu de reformar o Mundo?

MENDIGO
           Foi. Abandonei a Sociedade e resolvi pedir-lhe o que me pertence. Exigir é impertinência; pedir é um direito universalmente reconhecido. Dá prazer a quem se  pede, não causa inveja.  O senhor já reparou que ninguém é contra o mendigo?  Porque será?  Porque o mendigo é o homem que desistiu de lutar contra os outros.

OUTRO
         Os homens não precisam de nós…

MENDIGO
           Precisam, senhor… Como é o seu nome?

OUTRO
         Barata.

MENDIGO
           Precisam, mas não dependem ; e é por isso que nos olham com ternura.

OUTRO
         Ora!  Quem é que precisa de um mendigo?

MENDIGO
           Todos!  Eles precisam muito mais de nós do que nós deles. O mendigo é, neste momento, uma necessidade social. Quando eles dizem: «Quem dá aos pobres empresta a Deus», confessam que não dão aos pobres, mas emprestam a Deus…Não há generosidade na esmola : há interesse. Os pecadores dão,  para aliviar os seus pecados; os sofredores para merecer as graças de Deus. Além disso,  é com a miséria de um níquel que eles adiam a revolta dos miseráveis…

OUTRO
         Mas quando agradecem a Deus, revelam o sentimento da gratidão.

MENDIGO
           Não há gratidão. Só agradece a Deus quem tem medo de perder a felicidade; se os homens tivessem a certeza de que seriam sempre felizes, Deus deixaria de existir, porque só existe no pensamento dos infelizes e dos temerosos da infelicidade. Quem dá esmola pensa que está comprando a felicidade, e os mendigos, para eles,  são os únicos vendedores desse bem supremo.

OUTRO
         ( Desanimado )  A felicidade é tão barata…

MENDIGO
           Engana-se.  É caríssima. Barata é a ilusão.  Com um tostãozinho compra-se a a melhor ilusão da vida, porque quando a gente diz : «Deus lhe pague…», o esmoler pensa que,  no dia seguinte, vai tirar cem contos na lotaria…Coitados! Não são ingénuos…Se dar uma esmola, um mísero tostão, à saída de um cabaret,  onde se gastaram milhares de tostões em vícios e corrupções, redimisse pecados e comprasse a felicidade, o Mundo seria um paraíso! O sacrifício é que redime. Esmola não é sacrifício! É sobra. É resto. É a alegria de quem dá porque não precisa pedir.




Nota: Dedico este post aos amigos e companheiros, nesta jornada bloguista: Ricardo do blog  PACTO PORTUGUÊS, e Teresa do blog EMATEJOCA AZUL.       Eles sabem porquê!... :)


(Saibam que, transcrever isto, me deu uma grande trabalheira. Espero que todos apreciem. )


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