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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

ORGIAS...

...DE CORES - sem importar mês nem dia.



O Beijo - A obra mais famosa do pintor austríaco: Gustav Klimt


Soneto

Encontrei-te. Era o mês... Que importa o mês? Agosto, 
Setembro, Outubro, Maio, Abril, Janeiro ou Março,
Brilhasse o luar que importa? ou fosse o sol já posto, 
No teu olhar todo o meu sonho andava esparso.

Que saudades de amor na aurora do teu rosto!
Que horizonte de fé, no olhar tranquilo e garço!
Nunca mais me lembrei se era no mês de Agosto,
Setembro, Outubro, Abril, Maio, Janeiro, ou Março.

Encontrei-te. Depois... depois tudo se some
Desfaz-se o teu olhar em nuvens de ouro e poeira.
Era o dia... Que importa o dia, um simples nome?

Ou Sábado sem luz, Domingo sem conforto, 
Segunda, terça ou quarta, ou quinta ou sexta-feira, 
Brilhasse o sol que importa? ou fosse o luar já morto?


Alphonsus de Guimaraens, poeta brasileiro.
Pseudónimo de Afonso Henrique da Costa Guimarães.
 (24 de Julho de 1870 – 15 de Julho de 1921)
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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Coração Tem Razões...


Camilo Castelo Branco abraçado a Ana Plácido.
Obra do escultor Francisco Simões, situada em frente à antiga Cadeia da Relação do Porto,
no Campo Mártires da Pátria, rebaptizado como Largo Amor de Perdição
em homenagem ao escritor.
    
( Imagem da Net)
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Vai sempre avante a paixão
Buscando seu doce fim
Os amantes são assim:
    Todos fogem à razão.
 
 Manuel Maria Barbosa du Bocage
 
( Desbocado, sarcástico, obsceno? Nada disso...ou não só e apenas isso! Barbosa du Bocage também possuía a sua faceta romântica e sensível! Nunca se deixem enganar pelas aparências! ) :)     

 
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sábado, 8 de fevereiro de 2014

SONHO DE ARTISTA.


António era um pequenino doente que estava sempre deitado na sua cama, ou sentado, de olhos tristes, na sua cadeirinha verde.
Sabia que no mundo existiam muitas outras crianças que podiam brincar, correr pelos campos, jogar o eixo, saltar a corda; e quando lhe diziam que um desses meninos se aborrecia de estudar as lições ou chorava por qualquer insignificância, dizia, sorrindo, em voz baixa:
— Se eu pudesse andar livremente, correr e saltar como eles, estaria sempre feliz!
E a pobre mãe apoquentava-se por ver aquela pálida carita consumida e aqueles olhos expressivos sempre molhados de lágrimas.
E todos os dias pensava num divertimento, num brinquedo que ajudasse a passar as horas amargas ao seu adorado filho. Certa manhã, ocorreu-lhe comprar uma caixa de tintas.
António recebeu o presente com alegria e em seguida pôs-se a pintar.
Depois voltou-se para a mãe e disse:
— Gostava de pintar as pétalas de uma flor!
— Não é possível, meu filho, as flores têm já as suas cores naturais.
— Mas eu quero pintar uma flor!




E tanto pediu, tanto insistiu, que a mãe foi ao jardim e perguntou timidamente, se haveria alguma flor que quisesse renunciar à sua cor, mudar de tonalidade ou de expressão e compadecer-se do seu pequeno doente.
As rosas nem responderam, na sua altivez serena, tão absurda lhes pareceu aquela doida proposta.
Os lírios, erguidos na sua elegância frágil, declararam que a sua pureza tinha de ser intangível.
E as glicínias, e os cravos, e as tulipas, disseram, diplomaticamente que não era possível imitar o tom caprichoso e belo das suas variadas corolas.
A pobre mãe, ia voltar a casa, desiludida e mais triste, quando ouviu uma voz débil dizer-lhe quase em surdina:
— As minhas flores
não são belas mas, se o teu filho se contenta, leva-as contigo, não hesites…
A planta que assim falava tinha grandes folhas verdes e pequeninas floritas de um branco doentio amarelado…
A mãe colheu então um ramo dessas flores e levou-as ao seu filho. Imediatamente, começou a colorir as suas petalazinhas. Era na verdade, um artista.
As tonalidades mais finas mais delicadas e subtis, um cor-de-rosa esmaecido, um azul diáfano, suave, um amarelo vibrante, e muitos outros tons de novidade que nenhuma flor possuía, ele os dava, com singular simplicidade.
Quando acabou, chamou a mãe para lhe pedir que levasse de novo as flores ao jardim
A mãe obedeceu.
Na manhã seguinte, acordou e disse:
— Minha mãe, quero ver se o orvalho da noite manchou aquelas florinhas.
O sol faiscava nos arvoredos e nas plantas. Apenas chegou encheu-se de contentamento, os largos molhos de hortênsias estavam cobertos de formosíssimos tons rosados, roxos, vermelhos, amarelos e azuis.
E por entre aqueles ramalhetes cintilantes de vida, António passou alguns momentos de felicidade, porque só ele instintivamente criara essa beleza renovada, eterna e frágil, discreta e decorativa.

António Botto in O Livro das Crianças
Imagens da Net