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sexta-feira, 7 de abril de 2023

A IMAGEM DA ALMA PERDIDA. III

 🔆 🔆 🔆

Na ausência de uma imagem, escolhi este pormenor da
Catedral de Salisbury no Reino Unido.

Continuação:


     As pessoas que moravam em casa do bedel* repararam num passarito castanho que esvoaçava pelo recinto da Catedral e cujo canto acharam admirável.

   _Mas é uma pena- diziam - que todo aquele chilreio se perca e desperdice longe do alcance do ouvido, sobre o parapeito.

     Eram pobres mas conheciam os princípios de economia política. Assim, apanharam o pássaro e meteram-no numa gaiolinha de verga que penduraram do lado de fora da porta.

     Nessa noite o pequenino cantor não apareceu no seu refúgio habitual e a torva imagem sentiu-se mais triste e abandonada do que nunca. Talvez que o seu amiguinho tivesse sido apanhado por algum gato vadio ou ferido por uma pedrada. Talvez... talvez tivesse voado para outro poiso. Mas quando a manhã rompeu chegou-lhe aos ouvidos, acima do rumor e do tropel da Catedral desperta, uma débil e dilacerante mensagem do prisioneiro da gaiola de verga, lá muito em baixo. 

     E todos os dias, no pino da tarde, quando os pombos empanturrados pelo almoço se mantinham numa silenciosa modorra e os pardais se banhavam nos charcos das ruas, o cântico do passarito elevava-se até aos parapeitos - um cântico de insatisfação, saudade e desespero, um apelo que jamais poderia ser atendido.

     Os pombos notavam, nos intervalos entre as horas das refeições, que a torva figura se inclinava cada vez mais para fora da vertical.

     Um dia não chegou nenhum som da gaiola de verga. Foi no dia mais frio desse Inverno, e os pombos e os pardais do telhado da Catedral olhavam ansiosamente para todos os lados, procurando as migalhas de comida de que dependiam para sobreviver no inclemente Inverno.

  _ A gente da casa do bedel não atirou nada para o monturo? - perguntou um pombo para outro  que espreitava por cima da aresta do parapeito setentrional.

 _ Apenas um passarito morto - foi a resposta.

Nessa noite ouviu-se um som de coisa que se racha no telhado da Catedral, seguido de um estrondo como o de um grande pedregulho que cai. O corvo do campanário disse que a geada esta a afectar o edifício e, como ele conhecera muitas geadas, deve ter sido isso. De manhã descobriram que a figura da Alma Perdida caíra da sua cornija e jazia agora numa massa desfeita de caliça diante da porta da residência do bedel.

  _ É melhor assim - arrulharam os anafados pombos, depois de terem reflectido durante alguns minutos sobre o assunto - Agora vão com certeza colocar no seu lugar um bonito anjo. Temos a certeza de que vão lá pôr um anjo.


  - Depois d'alegria... a  do-o-or-r-r-r... - dobrava o sino grande.


 FIM.

* Penso que bedel seja a designação da pessoa responsável pela catedral.

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A TODOS OS VISITANTES E AMIGOS DESEJO 

UMA SANTA E FELIZ PÁSCOA.

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quinta-feira, 6 de abril de 2023

A IMAGEM DA ALMA PERDIDA. II

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O autor: H.H Munro - SAKI


Continuação:


     Somente a efígie da Alma Perdida lhe deu um lugar de refúgio. Os pombos não consideravam seguro empoleirarem-se num relevo que se inclava tanto para fora da vertical e que, além disso, se encontrava num local demasiado sombrio. A figura não tinha as mãos na postura piedosa dos outros dignitários de pedra; estava com os braços cruzados como que numa titude de desafio, e a cava que formavam proporcionava ao passarito um confortável poiso onde descansar.

    Todas as noites se insinuava confiantemente no seu canto contra o peito de pedra da imagem cujos olhos sombrios pareciam velar sobre as suas sonecas. A avezita solitária acabou por sentir um profundo afecto pelo seu protector igualmente solitário e, durante o dia sucedia-lhe pousar sobre uma goteira ou em qualquer botaréu trinando as suas mais doces melodias em homenagem  à efígie que todas as noites o abrigava. E, ou fosse obra do vento ou desgaste do tempo, ou ainda consequência de outra influência qualquer, o certo é que a face tensa e agressiva da estátua parecia perder gradualmente parte da sua expressão dura e infeliz.

    Dia após dia, enquanto decorriam as longas e monótonas horas que precedem a noite, chegavam aos ouvidos de pedra, fragmentos do cântico do seu pequenino protegido e, quando a tarde caía e o sino tocava as vésperas e os grandes morcegos cinzentos deixavam as traves do telhado da torre sineira, o passarito de olhar vivo regressava, assobiava meia dúzia de notas sonolentas e ia aconchegar-se entre os braços que esperavam por ele.

Esses foram dias felizes para a imagem triste. Somente o grande sino da Catedral troava diariamente a sua mensagem escarninha:

    «Depois d'alegria...a do-o-o-or-r-r-r...»

Continua.




terça-feira, 4 de abril de 2023

A IMAGEM DA ALMA PERDIDA. (*)

🔆 🔆 🔆



 

Havia certo número de figuras de pedra esculpida, dispostas a intervalos ao longo dos parapeitos da velha Catedral; algumas dessas estátuas representavam anjos, outras reis e bispos, e quase todas exibiam atitude de piedosa exaltação e compostura.

Mas uma figura, perdida no fundo da gélida ala setentrional do edifício, não ostentava coroa, nem  mitra, nem auréola, e a sua face era dura, amarga e abatida; deve ser um demónio, declaravam os gordos pombos azuis que se empoleiravam todo o santo dia a apanhar o sol nos rebordos do parapeito; mas o velho corvo do campanário, que era uma autoridade em arquitectura eclesiástica, afirmara que era uma alma perdida. E a coisa ficou por aqui.

Num dia de Outono voou para o telhado da Catedral um passarito de voz doce que fugira das campinas nuas e das sebes sem folhas, procurando um poleiro abrigado onde passar o Inverno. Tentou pousar as patinhas fatigadas debaixo da sombra da grande asa de um Anjo ou aninhar-se nas dobras esculpidas de um manto real, mas os anafados pombos expulsaram-no de todos os poisos onde assentava, e os barulhentos pardais repeliram-no dos parapeitos. 
Nenhum pássaro respeitável cantava com tanto sentimento, piavam uns para os outros, e o vagabundo teve de afastar-se.

Continua.

(*) Este conto foi escrito em 1891. ( Nota da edição americana de "The Short Stories of SAKI" )

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Nota da autora do blogue: SAKI, é o pseudónimo do escritor britânico Hector Hugh Munro (1870-1916), que os meus estimados leitores já conhecem desde que publiquei o Conto "O Santo e o Duende". Lembram-se?
Os contos, além de satíricos e, por vezes, macabros, trazem assuntos variados, mas sempre com final surpreendente. 




terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

O SANTO E O DUENDE. III

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O Conto que hoje termina, é um dos vários Contos de Saki que constam neste 
livro de Contos Escolhidos. Escolhidos pela editora, em 1969 e, este:
 "O Santo e o Duende", particularmente eleito por mim.
As decisões que tomamos, por muito nobres e bem intencionadas que sejam, 
e ainda que obedeçam a um acto de pura bondade, podem ser reconsideradas.
Porém,  até os Santos, estão sujeitos ao reverso de qualquer moeda...E aqui vos deixo, logo de início, a ilação que tomei desta história:
Nem sempre os santos são caridosos nem aos supostamente maldosos
está vedado o contrário daquilo para que a sua Natureza os dotou.


***

    

   Muitas vezes desejara, por mera questão de salvaguardar as aparências, que acendessem de vez em quando uma vela no seu nicho; mas como tinham esquecido de há muito quem ele fora, as pessoas não achavam que valesse a pena investir o dinheiro duma vela para lhe prestarem uma homenagem de rendimento muito aleatório.
    __ As velas são mais ortodoxas - disse o Duende.
    __ Certamente que sim - concordou o Santo - e os ratos podem comer os cotos; os cotos das velas são muito nutritivos.
    O Duende era demasiado bem educado para piscar o olho; além disso, sendo um duende de pedra, isso estava para além das suas possibilidades.

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   __Ora, aí está ela, não há dúvida !__disse a mulher da limpeza na manhã seguinte. Retirou a moeda rutilante do gélido nicho e revolveu-a  várias vezes entre as suas mãos enegrecidas. Depois levou-a à boca e mordeu-a.
    « Não vai com certeza comê-la» __pensou o Santo, e fixou nela o seu mais granítico olhar.
    __ Ora esta ! __exclamou a mulher, num tom ligeiramente mais agudo. __ Quem havia de dizer ! E ainda por cima um santo!
    Depois proferiu um palavrão que não se pode repetir. Caçou do fundo do bolso um pedaço de nastro, atou-o de través, com uma grande laçada em torno do táler, e pendurou-o ao pescoço do pequeno Santo.
    Depois foi-se embora.
    __ A única explicação possível - disse o Duende - é que a moeda é falsa.

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 __ Que condecoração é aquela que puseram ao seu vizinho? __ perguntou um dragão alado talhado no capitel de um pilar adjacente.
    O santo sentia-se prestes a chorar de mortificação, só o não fazendo por ser de pedra.
    __ É uma moeda de...hum!...de um valor fabuloso - respondeu o Duende cheio de tacto.
    E por toda a Catedral correu a notícia de que o nicho do pequeno Santo de pedra fora enriquecido por uma dádiva inestimável.
    __ Afinal de contas, sempre serve de alguma coisa ter uma consciência de Duende __ disse o Santo com os seus botões.
     E os ratos de igreja continuaram tão pobres como sempre. Mas isso fazia parte da sua natureza.

FIM.
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Nota: Há um ditado popular que nos diz: "Nem tudo o que luz é ouro". Verdade, porém, nem tudo o que é valioso tem o brilho enganador do (falso) ouro.




Se entre os meus estimados visitantes, amigos e leitores, houver quem queira opinar acerca da moral - se é que ela existe - desta história, esteja à vontade.
Obrigada a Todos.








domingo, 5 de fevereiro de 2023

O SANTO E O DUENDE II

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Foto minha


II

    Enquanto reflectia no caso foi surpreendido por qualquer coisa que lhe caiu entre os pés, produzindo um duro tinido de metal. Tratava-se de um táler* novinho em folha; um dos corvos da Catedral que coleccionava objectos diversos, voava com a moeda para uma cornija de pedra que ficava mesmo por cima do nicho do Santo quando o bater da porta da sacristia o sobressaltou fazendo-o soltar a presa. Desde a invenção da pólvora de caça, os nervos do corvo já não eram o que tinham sido noutros tempos.

    __ Que é isso que caiu aí?  - perguntou o Duende. 

    __ Um táler de prata - disse o Santo - Realmente é uma grande sorte; agora já posso fazer qualquer coisa pelos ratos de igreja.

    __ Como o conseguirá? - perguntou o Duende.

    O Santo reflectiu.

    __ Aparecerei numa visão à empregada que varre a igreja. Dir-lhe-ei que há-de encontrar um táler de prata entre os meus pés e que deve ir com ele comprar farinha e deixá-la no meu nicho. Quando ela encontrar a moeda, compreenderá que o sonho era verdadeiro e apressar-se-á a cumprir as minhas instruções. Assim os ratos terão comida para todo o Inverno.

    __ Claro que o você pode fazer isso - observou o Duende - quanto a mim, só consigo aparecer em sonhos às pessoas depois de elas cearem tarde uma grande pratada de coisas indigestas. As minhas oportunidades com a mulher da limpeza são portanto muito limitadas. Afinal de contas ser santo também tem as suas vantagens.

    Enquanto isto se passava, a moeda continuava aos pés do Santo. Estava muito areada e rutilante e exibia numa das faces uma bela estampagem das armas do Eleitor. O Santo começou a reflectir que uma tal oportunidade era demasiado rara para se desperdiçar precipitadamente.  Talvez a caridade  indiscriminada se tornasse nociva para os ratos de igreja. Afinal de contas, era da natureza deles serem pobres, dissera-o o Duende, e  o Duende em geral tinha razão.

    __Tenho estado a pensar - disse por fim para o vizinho - que seria muito melhor se eu mandasse comprar, em vez da farinha, um táler de velas para serem colocadas no meu nicho.

Continua.

   * O táler foi uma moeda de prata usada na Europa por quase quatrocentos anos.




[Exemplos de táleres alemães e austríacos comparados com um quarto de dólar. O seu nome sobreviveu em várias moedas contemporâneas, tais como o dólar ou o tólar esloveno (substituído pelo euro)]


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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

O SANTO E O DUENDE.

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Foto minha

O pequeno Santo de pedra ocupava um nicho escuso numa ala lateral da velha Catedral. Ninguém se lembrava muito bem de quem ele fora, mas tal facto constituia de certo modo uma garantia de respeitabilidade. Pelo menos era isso que o Duende dizia.
O Duende era um belíssimo espécime antigo de pedra cinzelada, e encontrava-se instalado sobre a mísula que ressaía da parede fronteira ao nicho do pequeno Santo. Estava relacionado com alguns dos mais distintos habitantes da Catedral, tais como as esculturinhas bizarras dos bancos do coro e da divisória de madeira que separava o Altar-Mor do resto do templo e até com as gárgulas alcandoradas nas altitudes do telhado. Todos os animais e homúnculos fantásticos que se acachapavam ou empiralavam em madeira ou pedra ou chumbo, lá em cima nas abóbadas, ou ao fundo da cripta, era de certo modo seus parentes; tratava-se, por consequência, de uma pessoa de reconhecida importância no mundo da Catedral.
    O pequeno Santo de pedra e o Duende davam-se muito bem, embora encarassem a maior parte das coisas de pontos de vista diferentes. O Santo, um filantropo do modelo antigo, pensava que o mundo, tal como ele o via, era bom, mas podia ser melhorado. Compadecia-se em particular dos ratos de igreja que eram miseravelmente pobres. O Duende, por outro lado, entendia que o mundo, tal como o conhecia, era mau, mas achava preferível não procurar reformá-lo. Estava na natureza dos ratos de igreja serem pobres.
    __Mesmo assim - dizia o Santo - sinto muita pena deles.
    __Claro que sente - dizia o Duende - ; é da sua natureza sentir pena deles. Se deixassem de ser pobres, o senhor não poderia preencher as suas funções de santo. O seu lugar tornar-se-ia numa sinecura.
     Teve esperança de que o Santo lhe perguntasse o que era uma sinecura, mas o outro refugiou-se num silêncio de pedra. Talvez o Duende tivesse razão, pensava, mas fosse como fosse gostaria de fazer qualquer coisa pelos ratos de igreja antes de chegar o Inverno. Eram tão pobrezinhos!

Continua.

Imagem da Net.

Hector Hugh Munro mais conhecido pelo seu pseudónimo Saki, foi um escritor britânico, cujos contos satíricos e macabros expunham a natureza da sociedade inglesa na primeira década do século XX.

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domingo, 13 de maio de 2018

O Gato E Eu.

Lembram-se de vos falar no gato do meu vizinho? O tal que andou, sorrateiro, pelo muro que divide os dois quintais... a apurar o ouvido para detectar de onde chegavam os piu-pius...aquele, a quem atirei o pau...Pois bem, o caçador de passarinhos, não caçou nada e eles, os meus melrozitos já voaram e vazio ficou o ninho...
...Sinto saudades dos seus chilreios.


Ficou-me o gato para me servir de modelo fotográfico...Basta-me vir ao fundo do terraço, olhar para baixo e lá está ele a cheirar alguma lagartixa que se escondeu em qualquer buraco do velho muro.
Faço psst-psst, ele levanta a cabeça e o seu olhar fica preso ao meu. E assim se mantém o gatito a olhar-me impávido, com a tranquilidade de quem não cometeu pecado algum...e eu, zás...clico. Ficámos amigos, acho eu. Pelo menos não somos inimigos.


Quando lhe dou autorização para dispersar e ir à vida, :) sem correrias lá vai para o seu lugar preferido: a chapa ondulada que cobre o depósito das garrafas de gás, aquecida pelos raios de sol desta desequilibrada Primavera...A ramagem do limoeiro do quintal do dono, continua a ser o seu esconderijo mesmo agora que já não precisa de se esconder do pau que eu lhe atirava...Ele ronrona e eu penso:- que estranhas formas de vida são as nossas. A do gato, a dos passarinhos que nunca mais vi, a do meu solitário vizinho...e a minha... 


Tu e eu temos de permeio 

a rebeldia que desassossega, 
a matéria compulsiva dos sentidos.

Que ninguém nos dome, 

que ninguém tente 
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza, 
pois nós temos fôlegos largos 
de vento e de névoa 
para de novo nos erguermos 
e, sobre o desconsolo dos escombros, 
formarmos o salto 
que leva à glória ou à morte, 
conforme a harmonia dos astros 
e a regra elementar do destino. 



[ Ode  ao Gato - de José Jorge Letria ]



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sábado, 12 de junho de 2010

CRÓNICA DE UMA VIAGEM ANUNCIADA....



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Esta crónica é o oposto da Crónica do Gabriel Garcia Marquez, porque aí a morte anunciada aconteceu e a minha viagem… não.

Chamo-lhe anunciada, porque de facto comuniquei a alguns amigos mais chegados, a minha intenção de neste fim-de-semana prolongado ir até Lisboa matar saudades do meu filho, do meu neto mais novo, da minha nora…enfim mudar de ares, aproveitar para descansar e sair da rotina que é o meu dia-a-dia.


Como os Santos Populares estavam à porta, e passando lá eu a noite de Santo António, com um pouco de sorte ainda poderia ir dar um pé de dança a um arraial qualquer.
Se não fosse esse o caso faríamos a festa em casa. Sardinha assada, música e bailarico é que não haveria de faltar.

Eu que não sou nada de planear com muita antecedência, seja o que for, desta vez, comecei logo no início da semana, a programar tudo o pretendia levar: a minha mais recente aquisição de livros de poesia para ir lendo, ou melhor, relendo no comboio, o meu PC com todos os apetrechos necessários e comprar no dia anterior à minha ida a passagem, não fosse o diabo tecê-las e eu ainda perder o comboio enquanto esperava na fila das bilheteiras da Estação de Campanhã.

Com o que eu não contava é que as dores de cabeça que já me andavam a apoquentar há uns dias, começassem a piorar no final do dia 09, véspera do meu embarque.
Para resumir e concluir esta triste “crónica” de uma viagem anunciada e não realizada, o que aconteceu foi eu ter de ir parar à urgência do Hospital de S.João, por volta das duas da madrugada com a cabeça a estalar e a visão da vista direita parcialmente perdida, uma vez que só via sombras.

No serviço de oftalmologia, foi-me diagnosticado um glaucoma fechado e aplicado um tratamento a laser. Não vou entrar em pormenores clínicos, senão isto fica a parecer um bocado masoquista.

Ontem tive a sorte de ser consultada pelo “meu” oftalmologista que me vai acompanhar no tratamento. Aquela suave palmadinha que ele deu nas minhas costas, quando vim embora, e as palavras: “Preocupa não, você vai ficar boa” (Ele é brasileiro) são a minha esperança… O que ele não pode saber é que ando a forçar a vista no computador…

Meus amigos D´ont cry for me, porque isso eu já fiz que chegasse …


Como nunca se sabe como vai ser o dia de amanhã, pedi hoje a uma amiga que me tirasse esta foto, assim ficam com uma imagem minha para a posteridade.


Desejo a todos um bom Santo António.


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