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domingo, 14 de abril de 2013

No Vale de Vermont...

 
 
 

O ano é o de 1950, o mês o de Setembro, e o dia o vigésimo quinto.

Em que lugar? No vale das montanhas de Vermont, onde nasci e passei a minha infância. Atravessei os mares, fiz minha a pátria do meu amado. Depois veio a guerra, passei a ser estrangeira a despeito do meu amor, e assim regressei ao vale.

Há cerca de meia hora descia eu o caminho sob a rubra e áurea abóbada dos áceres, ao encontro do carteiro. O homem vem só três vezes por semana a este sítio remoto das montanhas de Vermont, e em três manhãs na semana eu acordo cedo e inquieta.

Há sempre a possibilidade de ele trazer uma carta de Pequim, uma carta de Gerald. Têm decorrido tantos meses sem que ela chegue!

Esta manhã, porém, recebi uma carta. O carteiro exibiu-a logo e entregou-ma:

- Aqui está aquilo por que espera.

Não a abri antes de o ver partir. Então, sozinha na azinhaga, debaixo da arcada de áceres, que resplandeciam ao fulgor outonal, resolvi rasgar o sobrescrito. Lendo-a, compreendi que já esperava o seu conteúdo; ou melhor, tinha a certeza de que não ia ficar admirada. Não me surpreende nada do que possa fazer Gerald; não me escandaliza, não me fere. Amei-o, amo-o e amá-lo-ei sempre.

    Li a carta  uma, duas vezes. Na atmosfera silenciosa deste Outono, o vento não bulia com as folhas cintilantes das árvores. Quase ouvia a voz de Gerald proferindo as palavras que escrevera:

 

                                Minha querida Eve:

 

      Antes de começar, deixa-me dizer-te que só a ti eu amo. Seja o que for que eu faça agora, lembra-te de que és tu o meu único amor. Se não te chegar às mãos mais nenhuma carta minha, acredita que no meu íntimo te escrevo diariamente.

 

Eis as palavras de abertura; li-as e soube logo o que ia seguir-se. Li até ao fim e depois, com a voz de Gerald a ecoar-me nos ouvidos, retrocedi para casa.

A casa permanece deserta quando Rennie vai ao colégio. Bem-digo esta solidão. Fechei a carta na gaveta de segredo da papeleira. Esquecê-la-ei. Pelo menos, tratarei de a esquecer até que este torpor me abandone. E escrevo, para me consolar: escrevo tudo o que sinto, desde que não há ninguém com quem possa desabafar…               

(…) No entanto aqui estou, nesta aldeia de Vermont chamada Raleigh, numa quinta isolada, em companhia do nosso filho, de dezassete anos de idade. É filho único. A nossa filha morreu repentinamente ainda muito nova: de manhã estivera a rir e, à noite, já não existia. A saudade faz parte do preço por que paguei o amor de Gerald e a minha ida com ele para a China.

Creio que ele jamais deixou de lamentar a perda da pequenita. Mal dormia nos meses que se seguiram, e alimentava-se tão pouco que a sua figura, delgada de natureza, se tornou esquelética.

- Devia ter ficado no teu país – dizia ele – Se vivêssemos na América, a nossa filha não teria morrido. Privei-te da felicidade.

Eu apoiei-lhe a minha cabeça no peito.

­ - Para onde fores, irei também. Nada me compensaria da tua ausência.

Gerald fitou-me de maneira estranha.

- Há grande diferença entre as mulheres americanas a as chinesas. Tu és mais esposa do que mãe. 

- Quando estou contigo sou inteiramente tua mulher. Além disso, nunca serias feliz na América.

Não, nunca seria feliz aqui. Bem o sabia então e mais o sei agora. Apesar de em Pequim sentir saudades da pureza e frescura destes montes de Vermont, a verdade é que fui feliz ali.

Cidade formosa como uma gema, doirada pelo tempo e pela História, com um povo cortês e alegre - e eu via a existência alongar-se à minha frente bela e pacífica! Aí, supunha, seria enterrada ao lado de Gerald, ambos velhos, carregados de anos…

 
A continuação - embora abreviada -  ficará democraticamente ao critério dos leitores.
 
« O Leitor Decide»
 

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