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terça-feira, 21 de junho de 2022

PRIMEIRA PESSOA - ENTRE AS PRIMEIRAS.

 Quando sintonizei a RTP1 com o intuito de ver um dos meus programas de cultura geral predilectos, nem me lembrei que dia era hoje, ou melhor, ontem segunda-feira. Ao invés de ver o Vasco Palmeirim, olhei para o senhor "velhinho" e magro, que me aparecia no ecrã e, senti um baque pois tive a nítida impressão de que aquela cara não me era estranha...Pois não. Não era mesmo. Tratava-se do escritor J. Rentes de Carvalho, também autor do Blog "TEMPO CONTADO"...mas como estava magrinho e frágil...


...enquanto preparava o smartphone para tentar fazer o vídeo da minha vida, eis que o stupidphone me troca as voltas e só me pareceram estas fotos, vergonhosamente  tremidas. 



O que eu gosto da jornalista Fátima Campos Ferreira!
Alegre e risonha, é uma profissinal a sério.

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Depois do final do dito programa, tive a brilhante ideia de pesquisar pelo "Primeira Pessoa" e penso ter sido bem sucedida. Para os fãs do escritor e da Fátima, tal como eu sou, creio que vão considerar bastante proveitosos estes trinta e tal minutos a ouvir Rentes de Carvalho. 

Para isso, basta-vos clicar AQUI.

Irei fazer o mesmo, uma vez que não vi o programa na íntegra.

Desfrutem e tenham uma muito Feliz Semana.

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domingo, 7 de fevereiro de 2021

Um Soneto Por Semana. # 14

 



Ruínas


E é triste ver assim ir desfolhando,

Vê-las levadas na amplidão do ar,

As ilusões que andámos levantando

Sobre o peito das mães, o eterno altar.


Nem sabe a gente já como, nem quando,

Há-de a nossa alma um dia descansar!

Que as almas vão perdidas, vão boiando

Nesta corrente eléctrica do mar!…


Ó ciência, minha amante, ó sonho belo!

És fria como a folha dum cutelo…

Nunca o teu lábio conheceu piedade!


Mas caia embora o velho paraíso,

Caia a fé, caia Deus! sendo preciso,

Em nome do Direito e da Verdade.


Soneto de Guerra Junqueiro.

Fotos minhas




ADENDA: A propósito do comentário da Teresa do blog «ematejoca azul» e, porque penso ser a este tipo de "ataques" que ela se refere, ou seja, às acusações de que foi alvo o escritor, acusando-o de heresia e ateísmo, fotografei do livro "A Velhice do Padre Eterno", o excerto de um estudo, feito defesa, de outro escritor de nomeada: Camilo Castelo Branco.



Como Camilo aqui refere, as ventanias tempestuosas da opinião pública, já vêm de há muito...não são apenas dos nossos dias!

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

ESSA É QUE É...EÇA.


Estátua de Eça de Queirós no Largo Barão de Quintela - Lisboa


Ondas de Solidão


Se possuísse uma canoa e um papagaio,
podia considerar-me realmente como um
Robinson Crusoé, desamparado na sua ilha.
Há, é verdade, em roda de mim 
uns quatro ou cinco milhões de seres humanos.
Mas, que é isso?

As pessoas que não nos interessam
 e que se não interessam por nós,
são apenas uma outra forma da paisagem,
um mero arvoredo um pouco mais agitado.
São, verdadeiramente como as ondas do mar,
que crescem e morrem,
sem que se tornem diferenciáveis
umas das outras,
sem que nenhuma atraia mais particularmente
a nossa simpatia enquanto rola,
sem que nenhuma, ao desaparecer, nos deixe uma mais 
especial recordação.
Ora estas ondas, com o seu tumulto,
não faltavam decerto em torno do rochedo de
Robinson - e ele continua a ser, nos colégios e conventos, 
o modelo lamentável e clássico da solidão.

[Eça de Queirós]






terça-feira, 13 de março de 2018

Despedidas.



Carta a F.



Na hora em que parti meu coração deixei-o
Na urna divinal desse divino seio
E o teu sinto-o eu aqui a bater de mansinho
Dentro em meu peito como uma rola em seu ninho.


Quem terá sido esta F.  para quem Guerra Junqueiro escreveu estes versos há cento e trinta e cinco anos? Se alguém souber, diga. Eu ainda não sei quem é.

Só sei que para mim, não foi...ou será que foi?


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

É Preciso Acreditar!...


                          (...)

E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.

Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes.

Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas.

 Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido.

Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.

Imagens da Net
 
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo.                                           

 E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.

Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

 
 

Miguel Sousa Tavares - “Não te deixarei morrer, David Crockett”

 
 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Astro Rei ( o desejado)

 
Imagens da Net
 

Era uma vez um rei chamado Sol. Todos o conhecem. Todos o estimam.
Poderosos, os seus raios são espadas. Majestosos, os seus raios são de ouro e mais do que todo o ouro valem. Generosos, os seus raios são fios de vida.
Poderoso, majestoso e generoso era este rei, mas tinha um grande desgosto – os seus quatro filhos davam-se muito mal uns com os outros.
Chamavam-se os quatro irmãos, por ordem de idade, a começar pelo mais novo: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Bulhavam constantemente, porque todos queriam, à uma, governar a Terra. Ora isto não podia ser.
Assim pensando, o rei Sol decidiu que cada um deles governasse por sua vez, durante um certo tempo. As ordens de um pai, para mais rei, e ainda por cima Sol, têm de se cumprir.
O Outono não gostava desta partilha. Queixava-se de que lhe não davam tempo... Ainda estava ele a arrumar e a alindar a casa, pintando tudo da cor púrpura, em tons e meios-tons amarelos doirados, e já o Inverno lhe batia à porta. Então o Outono tinha uma birra e arrancava as folhas das árvores, algumas ainda por pintar...
Saía o Outono com lágrimas nos olhos e entrava o Inverno.
— Em que desordem isto está — exclamava ele, irritado. E punha-se a varrer. Varria com tanta força que fazia vento. Depois lavava, em grandes bátegas, caídas do céu... As sementes e os grãozinhos, que o Outono deitara à terra, assustavam-se:
— Iremos nós também na cheia? — Perguntavam uns para os outros.
O Inverno ouvia-os e dizia-lhes:
— Sosseguem! Durmam descansados. Vai tudo dormir um longo sono. Assim tem de ser.
E tão carinhoso ele era que cobria os lugares mais desprotegidos da terra com um manto branco de neve.
Lá fora, a Primavera impacientava-se. Não tinha feitio para suportar os vagares do irmão. Às vezes, não se continha que não perguntasse pela frincha da porta:
— Já posso?
                                          


Ainda era cedo, mas só de lhe ouvirem a voz, as primeiras flores rompiam a terra.
Então, quando ela chegava, era uma festa. Corria a Primavera de lés- a- lés e não havia ervinha, folha, haste, flor que não quisesse dançar com ela. Era uma enorme roda de alegria.
Mas a folgança não podia continuar sempre. Cansada do bailarico, a Primavera dava de bom grado o seu lugar ao Verão.
— Vamos trabalhar — dizia ele, assim que chegava.
E trabalhava-se, pois então! Os grãos e os frutos amadureciam. As flores arrecadavam tesouros. Nas tocas, nos ninhos, nos cortiços e por toda a parte, as palavras de ordem eram: trabalhar, colher, guardar.
Enquanto, nas praias, uns gozavam as férias, outros, no campo, não tinham descanso.
— O essencial fica feito. Deixo os retoques ao cuidado do meu irmão Outono — dizia o Verão, à despedida.
Lá vinha o Outono, com pincel e tintas apurar as cores. Achava sempre que merecia mais tempo. São tantas as tonalidades, do verde-escuro ao castanho, do laranja ao vermelho... Não se pode fazer obra asseada quando se sente os passos do Inverno a aproximarem-se. Que nervos!
Sorrindo no seu trono, o Sol acompanhava a obra dos seus quatro filhos. Descansa. Eles estão a dar muito boa conta de si.
E o Sol, risonho, ainda mais resplandece!...
 
António Torrado, "As Quatro Estações"
 
GOSTARAM??
 
BOA SEMANA!
:))
 
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domingo, 20 de novembro de 2011

EXPECTATIVAS.

Nenhum escritor soube descrever  com tanta precisão e realismo, a vida árdua e  os genuinos sentimentos das gentes transmontanas, como Miguel Torga o fez. 
Nem todos os seus contos terminam com um final feliz, daí o seu realismo, mas todos  são de uma riqueza humana tão grande, que sempre me enterneceram e fascinaram. Aliás, toda a obra deste homem admirável e internacionalmente reconhecido é fascinante.
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Quando, há poucas horas, - o tempo de transcrever o conto para o meu blog  e elaborar o post -  decidi publicar mais um conto de sua autoria, sorri com a lembrança de algo que muito me divertiu há uns meses atrás.
Foi uma crítica que li num blog, entretanto desaparecido, e que entendi ser-me dirigida.  Ou então, para além de outras manias também terei a da perseguição! Mas não. Seria demasiada coincidência. Tanto mais que tinhamos um contencioso e eu tinha publicado, nessa altura, algo de um famoso escritor que muito agradou a todos os meus leitores e amigos. A prova disso foram os numerosos e amáveis comentários que  recebi. Pois, essa crítica, dizia que para se ter um blog não era preciso saber escrever. Bastava transcrever histórias conhecidas de autores conhecidos e, passo a citar:
 " Receber montes de comentários de gente culta e até de "Dótores".
Esta introdução tem como finalidade, embora sabendo que o dito blog entregou a alma ao Criador, mas tendo eu esperança que o seu dono continue de boa saúde e com outro blog, dizer a esse ilustre desconhecido ( andando e borrifando-se para tudo e para todos - tradução livre do nome do finado blog- ) que este meu post lhe é dedicado, com um grande e amigável sorriso.

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"O Cavaquinho"



O Ronda era o homem mais pobre de Vilela. Mas teve uma tal alegria quando o filho, o Júlio, fez o primeiro exame com óptimo, que prometeu pela sua salvação que lhe havia de dar uma prenda no Natal. O rapaz ouviu-lhe a jura desconfiado.
Apesar dos dez anos, já conhecia a vida. Uma prenda, se nem dinheiro havia para a broa! Em todo o caso, pelo sim, pelo não, foi pondo de vez em quando uma acha na lembrança do pai, e em Dezembro, na véspera da feira dos 23, avivou a chama:
- Então sempre vai à Vila?
- Pois vou.
- E traz-me a prenda?
- Trago.
Fez-se silêncio. A ceia tinha sido caldo de couves e castanhas cozidas. Mais nada. A noite estava de invernia. Sobre o telhado caíam bátegas rijas de chuva. Mas a murra da castanha a arder e aquela firmeza com que o Ronda garantiu a promessa, doiravam tudo de fartura e aconchego.
- E o que é que me vai dar?
- Isso agora…
Foi preciso a mãe arrumar o assunto com as rezas e a cama.
- Infinitas graças vos sejam dadas. Meu Deus e meu Senhor…
As palavras saíam-lhe da boca, límpidas, quentes, solenes. E o pequeno, que já ouvira aquela lengalenga milhentas vezes, pôs-se muito espevitado, a tentar compreender o sentido íntimo de cada invocação.
- S. Bartolomeu nos livre das tentações do demónio, dos maus vizinhos à porta, das más horas…
Pai e filho respondiam à uma:
- Padre-nosso que estais no céu…
Contudo, a atenção do garoto não tardou a cansar-se. No terceiro mistério a sua voz cambaleava. E na salve-rainha, abóbada do solene ritual, parecia que levara com uma moca na cabeça.
Já ia a tombar, quando o amém definitivo o fez voltar à vida e lá conseguiu fitar o pai numa derradeira pergunta:
- Certo, certo, que traz?
- Tu parece que andas parvo, rapaz!
A mãe não podia compreender o que significava para ele receber uma prenda – estender a mão e ver nela, não a malga do caldo habitual, mas qualquer coisa de inesperado e gratuito, que fosse a irrealidade da riqueza na realidade duma pobreza conhecida de lés a lés. Por isso se arreliou tanto quando o viu, ao almoço, virar a cara aos carolos e ao meio-dia comer apenas o rabo de uma sardinha.
Coitada, via-se bem que gostava dele…E é tão fácil de perceber!
Quando a noite veio caindo, cansado de guardar o caminho velho por onde desde que o mundo é mundo se regressa da Vila, pediu à mãe que o deixasse ir esperar o pai. Só até à Castanheira…
Que não. Que tivesse juizinho. Olhou-a mais demoradamente. Tão sua amiga, tão boa, e não ser capaz de o entender!
Resignou-se. Ficaria ali até o pai apontar ao fundo da Silveirinha. E logo que o descortinasse, ó pernas!
Mas que seria a prenda? Que seria?
Da porta já não se enxergava nada. Além de que a chuva, o vento e o frio, que se juntaram, naquela hora, enregelavam tudo.
A tremelicar, foi-se chegando à lareira.
- O pai demora-se…
- Não que ir à Vila e voltar tem que se lhe diga…
Via-se bem que também ela estava inquieta. Seria que, como ele, esperasse por uma prenda?
Cerrou-se a escuridão. O aguaceiro agora caía a cântaros. Pelas frinchas da porta o vento ia dando punhaladas traiçoeiras.
- Que noite e aquele homem por lá!
O lamento da mãe acabou por encher a cozinha, já meio testa de fumo.
De súbito à ideia da prenda, que alegre o acompanhara, todo o dia, juntou-se-lhe uma outra, triste, imprecisa, que lhe meteu medo.
- O tio Adriano também foi, pois foi?
- Foi. Vai cear e dormir que são horas.
Embora obrigado, nem o caldo lhe passou pela garganta nem o sono, na cama, lhe fechava os olhos.
De repente sentiu passos no quinteiro. Até que enfim! Era o pai! O que seria a prenda?
A pessoa que vinha bateu ao de leve e chamou baixo:
- Maria…
- Quem é? - Perguntou a mãe.
- Sou eu, o Adriano…
O coração deu-lhe um baque. Então o tio Adriano sozinho?! Pôs-se a ouvir como um bicho aflito.
Daí a nada sabia que o pai fora morto num barulho, e que no sítio onde caíra, lá ficara, ao lado dum cavaquinho que lhe trazia…

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