MARIA LIONÇA
Com o filho sempre agarrado às saias, como um permanente sinal de que já pagara à vida o seu tributo de mulher, mourejava de sol a sol para manter as courelas fofas e gordas. Depositária do pobre património do casal, queria mantê-lo intacto e grangeado. Se o outro parceiro desertara, mais uma razão para se manter firme e corajosa ao leme do pequeno barco.
- Nada, Maria? - O prior já nem se atrevia a alargar a pergunta.
- Nada.
Respondia sem revolta ou renúncia na voz. Objectivava a situação, lealmente. O que sentia por dentro, era o segredo da sua serenidade.
Até que um dia o Ruivo deu finalmente notícias. Regressava. E Galafura, solidária com a grandeza humana da Maria Lionça, dispôs-se a esquecer todas as ofensas e a receber festivamente a ovelha desgarrada.
Quem representava esse perdão colectivo e essa saúde da alma da terra era o Pedro, o filho, que ao lado da mãe, na estação de Gouvinhas, deixava a imaginação correr desenfreada pela linha fora até se perder nos últimos degraus da escada fugidia feita de aço.
Infelizmente, o comboio que surgiu ao longe, avançou e passou junto dele a travar o passo, trazia dentro uma desilusão. O pai pareceu-lhe uma sombra esbatida da imagem recortada que sonhara.
- Seu moço está mesmo um homem!
A voz rouca e dolente foi apenas a confirmação duma ruína que se lhe estampava no rosto esquelético, cor de palha. O Ruivo que ficara em Galafura, na caução de um retrato em corpo inteiro, era a saúde personificada. E o Ruivo que, escanchado sobre a cavalgadura que o conduzia, respirava à sobreposse, só abstractamente se identificava com o original. Talvez para justificar essa desfiguração, culpado diante da mulher, do filho e dos montes eternamente arejados e limpos da Mantelinha, o renegado confessou tudo. Vinha doente e desenganado. Males ruins... Já lhe custava engolir. E aquela abafação a apertar, a apertar... Mas nada de aflições. Voltava só para morrer.
No hospital da Vila os doutores ainda lhe fizeram um furo no pescoço para o aliviar do garrote.. Mais uns contos de réis, mas paciência. Galafura, na pessoa da Maria Lionça, se não podia apertar nos braços generosos um corpo comido dos vícios do mundo, queria que ele respirasse ao menos livremente o seu ar puro.
Um mês depois estava estendido sobre a cama onde noivara, imóvel, muito amarelo, muito seco, já com a alma a dar contas a Deus. E no dia seguinte, pela manhã, a boca do cemitério de Galafura tragava-lhe os ossos descarnados.
Do rescaldo dessa mortalha singular, saiu mais viva ainda a figura de Maria Lionça. Não o chorou fora dos limites do seu amor atraiçoado, nem se carregou de um luto para além da melancólica negrura que lhe apertava o coração. Manteve-se na justa expressão do sentir de Galafura. Enojada e apiedada ao mesmo tempo. Enterrou-o e começou a pagar os juros da operação.
O filho, o Pedro, é que não resistiu ao desencanto. Envergonhado de um pai que lhe passara pelos lhos como um fantasma de podridão e sem poder abarcar a grandeza daquela mãe, abalou para Lisboa. E nova via-sacra começou na loja do correio.
- Não tens nada, Maria.
Velha, branca, igual, a Lionça voltava pelo mesmo caminho e sentava-se ao lume a fiar. Galafura saudava respeitosamente nela uma permanência que resgatava a traição do marido e a fraqueza do filho. Como à fonte incansável do largo, assim a viam, segura e repousante no seu posto.
Movediço como a insensatez da sua idade, o filho fizera-se marinheiro. E Galafura, enraizada no dorso da serra, olhava esse rebento mergulhado em água, como um proscrito. Antes o degredo do pai no Brasil, ao menos aproado a um chão que fazia parte da cosmogonia de Galafura. Quando, inesperamente chegou um telegrama da capitania de Leixões e ela partiu é que viram todos como fora capaz, sozinha, de manter indelével a realidade do ausente. Se se metia a caminho, se enfrentava de rosto calmo a primeira viagem distante e o pavor da Cidade, lá teria as suas razões, que eram necessariamente razões de Galafura.
Tal e qual. No dia seguinte a Aldeia viu com espanto e comoção que trouxera nos braços de sessenta anos o filho morto. Deram-lho no hospital, a exalar o últimos suspiro. Meteu-se então com ele ao colo, já a arrefecer, embrulhado numa manta, a pedir licença a todos, que levava ali uma pessoa muito doente. Arredavam-se logo. E assim conseguiu sentá-lo e sentar-se a seu lado.
Galafura quase não compreendia como pudera com ele, embora fosse meão e magro. O que é certo é que pudera e sem lágrimas nos olhos lhe falava ternamente mal o revisor aparecia no compartimento.
- Dói-te, filho? Dói-te muito? Pois dói...dói...
Encostava-o ao ombro, enrolava-lhe a manta nas pernas hirtas e mostrava os bilhetes.
Em Gouvinhas apeou-se. À porta da estação, o guarda arregalou muito os olhos, mas deixou passar. Daí a pouco, no macho do Preguiças, o Pedro subia a serra para dormir o derradeiro sono em Galafura, que era ao mesmo tempo a terra onde nascera e o regaço eterno de sua mãe.
FIM.


