domingo, 11 de abril de 2021

A TALHE DE FOICE.

 




Agora, digo eu, armada em parva, 

porque me deu na telha, com pena de Poeta não ser.


Ah, se estes poetas de agora

Poetassem como este Aleixo valente

Em vez de escreverem chachadas

Denunciavam sem medo

As coisas que o povo sente.


E só as nega quem mente...

...ou está com o rabo trilhado!


Faltas cá tu ó Aleixo

Tu Ary, ou Tu Bocage.

Agora assobiam prós lados

fingindo-se muito interessados

nas coisas que a gente sente...



E só as nega quem mente...

...ou está com o rabo trilhado!


😕

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sexta-feira, 9 de abril de 2021

O Batel e o Pequeno Girassol.

 

Foto minha.


Sonhei ser um pequeno batel

perdido no mar-alto 

da vida.

Viajando sozinha.

Sem tecto, sem companhia, 

sem ter vela nem remos. 

Longe de um porto de abrigo, 

as sabor das marés 

sem ter guarida.


Assustada,  a meio da noite acordei.


Readormeci. 

Pela manhã

Ainda de olhos fechados

Tacteei o meu lençol azul

Aquele que tem um pequeno 

girassol bordado.


Sonhei? Foi realidade?


Ainda hoje não sei

Se morri nessa noite

  ou se renasci. Quando te vi

sorrindo a meu lado...




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quinta-feira, 8 de abril de 2021

QUEM ESCREVEU? # 7 [ Reedição]

 Finalmente é chegada hora de dar a conhecer a Todos quantos por aqui passaram e por este passatempo se interessaram, ainda que sem participar ou dar a cara, qual foi o livro que desta vez vos trouxe. Ei-lo:



Para aqueles que o não leram, deixo uns pequenos apontamentos, já que o principal móbil destes Desafios é desafiar a vontade e o apetite pela leitura, dos leitores mais preguiçosos. :)

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Em Setembro de 1985 dá-se um choque frontal de comboios em Alcafache. Algumas das vítimas mortais, presas nas carruagens a arder, nunca chegam a ser identificadas.

No dia seguinte, a mãe de Marta recebe um inesperado telefonema informando que a mochila da filha - estudante de Belas Artes - apareceu entre os destroços.

Partindo dos cadernos de desenho de Marta, o narrador deste romance tenta recriar os passos da irmã nos tempos que antecederam o acidente. E, enquanto o faz, um leque de figuras absolutamente inesquecíveis....

E, mais não direi, para não retirar o suspense e vontade de o ler, saboreando-o palavra a palavra.

****

Lamento informar os apreciadores do Pódio que, desta vez, por impossiblidade minha, de conseguir a precisão na hora de chegada dos três primeiros participantes, com as duas respostas certas, ficarão os «Treze Magníficos»  em pé de igualdade.

Eis, então, o nome dos vencedores:


Teresa (Ematejoca)

 Catarina

 Elvira Carvalho

 UmaMaria (Sem blogue)

 Gábi

 Rosa dos Ventos

 Pedro Coimbra

António

José (500)

 Cidália Ferreira

 Manu

Ricardo Santos

JR  (Sem blogue)

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Estiveram Presentes:
 
Daniel
(Zé da Trouxa)

Miguel
(Porventura Escrevo)

Lis
(Simplesmentelis)

Dolores Garrido
(Mariana)

Kok
(Rir é Bem Melhor)

Maria
(Orações de Maria)

Megy Maia
(Coração de Borboleta)

Manuel Veiga
(Herético)

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A TODOS os participantes  e presentes
 o meu sincero agradecimento. 

Cá vos aguardo no próximo
 Desafio.


💙💙💙

    🙏    


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terça-feira, 6 de abril de 2021

QUEM ESCREVEU? # 7

 



Passada a quadra pascal, é chegada a hora de retomar o  Passatempo/Desafio que, espero, ainda continue a agradar-vos.

Mais uma página de um livro onde encontrarão indícios suficientes para vos lembrar de que autor e obra se trata. Para os que se não lembrarem ou não o leram, não faltam elementos- chave para a pesquisa.

Trata-se, portanto, de mais um Desafio simples e fácil.

Como já é habitual nestas brincadeiras, peço a quem souber a(s) resposta(s) que as envie para o meu e-mail (fgmncf@gmail.com) e/ou, use, aqui, de  uma forma subtil e minimamente engenhosa, de modo a fornecer pistas que possam ajudar os outros participantes a chegar à solução.

Como já frisei anteriormente estes são Desafios simples, apenas  e só um entretenimento sem intuitos didácticos.  




Pergunto, então, como anteriormente:

1ª - Qual o nome do autor deste livro?

2ª - Qual é o seu título?


Dicas:

. Escritor português, já agraciado com o Prémio LeYa. 
(queriam saber o ano, não era?)

. Romance avassalador que se debruça sobre quão ténue é a fronteira que separa a loucura da sanidade, e, os laços perturbadores que tantas vezes unem a Vida à Arte.




Boa Sorte!  😊

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segunda-feira, 5 de abril de 2021

SOLITUDE.

 


                                                                             



Medo, tristeza, solidão.

Sempre que falo convosco

 é medo, inquietação

que vos vejo no olhar____

____  tudo o que eu posso fazer

[aqui tão longe]

é ter Fé, Esperança e... Rezar!



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sábado, 3 de abril de 2021

SONHO VS PESADELO.

 

Foto minha


Longa e sinuosa 

é a estrada

que me transporta 

à terra dos meus Sonhos.

Lá, cantam rouxinóis e

brilha intensamente uma Lua branca...

mas, pelo meio, há uma longa noite de espera.


Talvez seja esta noite, 

logo à noite,

 que te encontre. 

Juntos,

percorreremos essa longa, longa estrada.

Por terra ou mar, 

tanto me faz.


Queres?




V O T O S    D E 

P Á S C O A    F E L I Z.


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sexta-feira, 2 de abril de 2021

PÁSCOA.

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Houve em tempos um Homem

De seu nome Jesus Cristo

Que neste mundo habitou,

Foi pequenino e cresceu

Já com a cruz do destino

A pesar-lhe como um fardo

Que carregou sem um queixume

Segundo já estava previsto.


Dizem que por nós morreu

Penso que Ele não escolheu

Morrer crucificado.

Nem por nós nem p'la 

Crença que defendia.

Foi o medo, a cobardia

A triste escolha do povo

Que salvou um criminoso

(O malvado Barrabás)

Condenando um inocente

Cujo crime foi somente

Pregar a sua verdade__

__A verdade que sabia.


 Se Ele morreu por nós___

___Fomos nós que o matámos!

* * * 

Mas enquanto no Mundo houver Gente,

Haverá sempre Esperança na

Ressurreição!





P Á S C O A    F E L I Z


Esta fotografia é da Páscoa 2020.
O Noah actualmente está assim:

                                    


                                   

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quinta-feira, 1 de abril de 2021

VAMOS CONTAR MENTIRAS?

 Mentir por diversão - 

O desejo de Jacob Hall de ser um super-herói inspirou uma história que lhe valeu a conquista do Prémio de Melhor Mentiroso do estado da Virgínia Ocidental. “As minhas histórias seriam muito aborrecidas sem logros”, - diz este homem que tenciona inventar mentiras - “durante o resto da minha vida, se alguém conseguir acreditar nisso”.



Mentir para fins de auto-engrandecimento - 

Mark Landis, que afirma ter sido um fracasso como artista comercial, passou quase três décadas a imitar obras de pintores famosos, incluindo esta, inspirada no estilo de William Matthew Prior. Fazendo-se passar por filantropo ou padre jesuíta, doou-as a museus de arte e divertiu-se ao vê-las tratadas com respeito cerimonioso. “Eu nunca sentira isto antes e quis continuar a senti-lo”, afirma. “Não sinto remorsos por ter praticado este acto. Quando fui descoberto e tive de parar, fiquei muito triste.”


Mentir para obter ganhos pessoais - 

Frank Abagnale, Jr. é hoje um respeitado consultor de segurança, mas as mentiras descaradas que inventou quando era novo inspiraram o filme “Apanha-me se Puderes”, de 2002. Leonardo DiCaprio interpretou Abagnale, que fugiu de casa aos 16 anos e aprendeu a sobreviver utilizando a sua astúcia, tornando-se falsificador de cheques, charlatão e impostor. “Tinha de ser criativo para sobreviver”, diz. “Estou e vou continuar arrependido para o resto da minha vida.” Frank fez-se passar por piloto, pediatra e advogado com uma licenciatura em direito obtida em Harvard.
[Quem não se lembra deste filme? Eu, vi-o imensas vezes, tenho o DVD]

Mentir para contar histórias - 

Alguns dos vídeos e fotografias mais virais da Internet foram encenados por um artista conhecido como Zardulu, que raramente revela as suas invenções. “Como todos os mitos, os meus são criados para gerar uma ideia de encantamento pelo mundo, para contrabalançar a percepção de domínio e compreensão que temos dele”, diz. Zardulu aparece com uma cabeça de carneiro, simbolizando uma viagem à mente inconsciente, enquanto o hierofante, intérprete de mistérios, representa a sombra pessoal.


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E, finalmente, cheguei onde queria chegar:

Qual foi a vossa maior, e melhor, mentira em que toda a gente acreditou?
Hummm... não digam que nunca brincaram neste Dia das Mentiras?!

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quarta-feira, 31 de março de 2021

ASSIM SENDO...

 

.....Continuemos pois adiante, fazendo o nosso caminho, Amigos Caminhantes da blogosfera! 😊


                                                     


         

 Golpe a golpe, verso a verso... 


    ...seguirei em frente. 

   


Foto minha.


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terça-feira, 30 de março de 2021

AFINAL, O QUE ME ESTÁ A MATAR... É COZINHAR. [ADENDA COM TINTOL]

 



Se a minha intenção, ao escrever o texto do postal anterior, tivesse sido auscultar a opinião dos leitores e amigos que têm a bondade de me visitar, acerca da minha eventual saída da blogosfera, - que um dia terá de acontecer uma vez que nada nem ninguém é eterno - não teria sido coroada de maior êxito. 

Desde o primeiro ao último comentário, todas as mensagens foram de encorajamento, de carinho, de apreço e de ternura. 

Não me restam agora dúvidas de que a blogosfera, o nosso blogobairro,  é como o nosso bairro e a nossa rua na vida real. Se há moradores e vizinhos que não gostam de nós, nos censuram e criticam, abertamente ou pelas nossas costas, inclusive os que apenas nos conhecem só de nos ver passar, outros há que nos querem bem, se afeiçoaram a nós, nos compreendem e estimam.


Foi muito gratificante  ouvir o grito de  protesto da UmaMaria: ameaçando "fazer uma petição":

"QUEREMOS A JANITA!"


Ouvir a Elvira Carvalho, garantir que a assinaria.


A Gábi dizer que  sem mim, "A blogosfera não seria a mesma!"


Comover-me com a quadra do Joaquim Rosário:

"O melhor para si amiga

é deixar de cozinhar

melhor barriga vazia

que deixar de blogar"


Ouvir o grito ameçador do meu Amigo José (500)

"LIVRE-SE!"


Deliciar-me com a quintilha da Maria Dolores Garrido:

"Continue a cozinhar,

Pratos simples ou de nome,

mas não deixe de blogar

Senão sobra-lhe a comida

E ficamos nós com fome!"


A cantoria sempre amigavelmente cantada ( passe o pleonasmo) do meu Amigo Kok:

(...)

"Os teus amigos não dispensam

a tua presença constante.

Se isso acontecesse

"orfãos" ficaríamos

no mesmo instante!"


KOK... já não precisas ir a casa beber o tintol. Olha o que eu arranjei... Este até me fez ver borboletas. 😋

                                                       



A descrição sempre rimada, de mais uma página extraída do quotidiano do Rogério Pereira que, não dizendo sim nem sopas, compareceu:

"Eu por mim, até me consigo dispersar

Comecei por pôr a roupa a lavar

e de seguida

estendi-a

depois tratei da cozinha

passei com a esfregona

e abri a janela de par-a-par

para rapidamente enxugar"


O Manuel Veiga e a sua pertinente sugestão:

"porque não se entrega â Poesia?

a poesia não salva, mas por vezes é gratificante ..."


O meu Amigo António desmotivando em mim a ideia de aposentadoria:

"A aposentação/reforma está cada vez mais difícil. Motivo mais que suficiente para desistires da ideia."


Vinda expressamente do Algarve, a  minha Amiga Ângela lembra-me algo importante:

"...será que tens anos suficientes de blogueira para te aposentares? olha que só são considerados os vinte e cinco melhores anos :)"


Até a SARA atravessou o Atlântico, para me garantir que:

"Aposentar nada disso Deus é grande e logo vai tudo ficar bem"


A minha querida Amiga Manu, toda ela um doce de pessoa, não só me ameaçou como exemplificou as  próprias adversidades consequentes deste vício de blogar:

"Tu livra-te de te aposentares, precisamos de ti.

Confesso que já pensei desistir, mas isto já é um vício.

Os tachos queimam, a casa precisa de uma limpeza geral, faço tudo aos bocadinhos e a casa nunca brilha, mas quero lá saber, felizmente ninguém me cobra nada :)"


Até o Carlos - Menino Beija-Flor, veio solícito animar-me:

"E não se envergonhe, eu também já andei queimando uns tachos rs rs."


A sensata Rosa dos Ventos, aventou que isto passa:

" Não te deves aposentar, essa canseira vem às vezes mas passa!"


A querida Lis, recém regressada de uma pausa, fez-me sorrir falando com sabedoria:

"Eu sempre preciso dar uma paradinha, mas nunca é para cozinhar rsrs"


Já Mar Arável, o poeta das belas metáforas, desta vez foi sabiamente pragmático:

"A vida é feita de pequenos nadas que nos estimulam"


A Luísa que sabe destas coisas, riu e desvalorizou a coisa:

"Hehehe... A trabalheira que um blogue dá. :)"


O Miguel, que Porventura Escreve, sorri e seguiu-lhe as pisadas:

"Tudo dá uma trabalheira bem vistas as coisas "


Vem lá de Macau o Pedro Coimbra e dá força à opinião da Lis:

"Aposentar da cozinha, obviamente."


Veio dos Algarves a Sandra Martins e, sem papas na língua, decreta... ....mas, da cozinha não me tira!!

"Aposentar? Nem pensar! Tem a minha amiga que continuar a blogar para nos ensinar e animar!

Porque não deixar o jantar feito ao almoço?"


E pronto! Cheguei à conclusão que posso pausar, mas NUNCA a blogosfera abandonar. Abandonar, sim...a cozinha!!

Um grande Abraço a TODOS e o meu muito Obrigada!


Ah...São servidos?









 

💙     💚    💛    💜    💝




💙     💚    💛    💜    💝




💙     💚    💛    💜    💝


domingo, 28 de março de 2021

ESTA VIDA DE BLOGUEIRA ESTÁ A DAR CABO DE MIM

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Imagem da Net



Eu, Mulher moderna

Nascida no século XX

Vivendo plenamente

Neste século XXI

Arranjei um trinta e um

Quando criei um blog.

Pois não há quem

Me convença

Que isto não é pertença

Não vale a perda de tempo

Os tachos que

 já queimei

Os sarilhos que arranjei

Sem tempo para cozinhar

Correndo para o take away

Comendo comida a peso

Oh, que desassossego

Esta vida sem ar puro respirar

Eu já nem faço jantar

Vejo os blogs de petiscos

Encho os olhos de miragens

Com tão saborosas imagens

 E, por fim ___

___ fico sozinha 

A salivar.

 


Se isto 

continuar assim ___

___ acho 

que me vou aposentar.




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sábado, 27 de março de 2021

O VELHO QUE SABIA DEMAIS. 3ª e Útima Parte.

 "História do Sábio Fechado na sua Biblioteca" 

de Manuel António Pina

Ilustração de Guilherme Castro 





 “Deve ser isto a alegria. Que estranho sentimento! De repente, fiquei de bem comigo mesmo, como se estivesse zangado e tivesse feito as pazes comigo.” - E recordou-se então de quando era criança, e a mãe, à noite, antes de adormecer, lhe aconchegava os lençóis e se debruçava sobre ele para lhe dar um beijo. “Há quanto tempo não me lembrava de minha mãe!”, murmurou. E, sem saber porquê (que bem que se sentia por não saber finalmente qualquer coisa!), tudo à sua volta, o mundo, a vida, ele próprio, lhe pareceu então fazer sentido, um sentido claro e misterioso que ele, que sabia tudo, não conseguia entender, mas sentia dentro de si como se tivesse encontrado uma coisa que há muito perdera e de que já se esquecera.
 Por um momento, pensou em desistir de continuar o seu caminho ao encontro do Reino das Sombras. Mas a ideia de regressar à Biblioteca era-lhe agora mais insuportável que nunca e logo retomou a viagem.
 Continuou a andar durante muitos dias e muitas noites até que, fatigado, se sentou numa pedra à beira da estrada e adormeceu de cansaço. 
             Então, em sonhos, apareceu-lhe de novo a Rapariga. 

                           (A Rapariga agora não é uma máscara, é uma personagem real) 


– Lembras-te de mim?
– Lembro, meu amor. E tu, lembras-te de mim?
 – Como te podia esquecer? Lembras-te de quando passeávamos de mãos dadas junto ao rio? 
 – Fugíamos à escola e íamos nadar. Lembras-te daquele dia em que saltei o muro de um pomar e roubei uma romã para ti?
– Oh, já foi há tanto tempo! Sabes que ainda guardo essa romã?
Está seca e mirrada, tenho-a guardada na gaveta da mesinha de cabeceira e, às vezes, à noite, quando estou triste ou quando acordo cheia de medo, pego nela e fico durante horas a olhá-la.

(A Rapariga pega nas mãos do Sábio)
 - Também as tuas mãos estão agora secas e mirradas como a romã que um dia me deste.
(O Sábio aperta com força as mãos da Rapariga)
– As tuas não, as tuas continuam aveludadas e suaves. (Acariciandolhe o rosto:) E o teu rosto é ainda belo como era. E os teus olhos doces. E o teu cabelo liso e macio.
– Não, meu amor. Também eu envelheci. Passaram muitos anos, casei, tive filhos e netos, e agora, lembrando-me de mim e de nós, também eu me sinto como se fosse uma recordação guardada numa gaveta.
– Procurei-te durante tanto tempo!
– E eu a ti. E só te encontrava nos meus sonhos – 
Sabes que há muitos anos que eu não sonhava? Na verdade, nem sequer dormia, fechava os olhos mas tinha medo do sono e de tudo o que se esconde atrás das suas portas. Sobretudo dos sonhos. Temia sonhar contigo e acordar e tu não estares ao meu lado.
 – Mas agora estou aqui e nunca mais te deixarei. Não acordes, não acordes…
– Não, não quero acordar.
(Dando-lhe a mão) – Anda, vem comigo. Vamos de novo passear à beira-rio. Agora nada nem ninguém poderá separar-nos.

Partem ambos, de mãos dadas, e desaparecem no Reino das Sombras. 

– O Sábio abriu os olhos e verificou então, surpreendido, que estava no meio da sua Biblioteca, sentado, como sempre, à sua mesa de trabalho.
Como era muito sábio, depressa concluiu que tinha morrido. Tinha morrido precisamente no momento em que soube a última coisa de todas as coisas que havia para saber e, desde aí, não mais vivera. Apenas sonhara, sem saber que tinha morrido. Até a sua viagem ao Reino das Sombras tinha sido, também ela, um sonho.
Sem saber que tinha morrido… Afinal sempre tinha morrido sem saber que morria como estava escrito no Livro onde estão escritas, diz-se, todas as coisas da Vida e da Morte. 

FIM

Esta é a história escrita por Manuel António Pina.
Quanto à moral nela contida, cada um deve entendê-la de acordo com as suas próprias experiências e vivências.
Pela minha parte, limitei-me a elaborar a sua publicação.

Muito obrigada pela atenção dispensada e pela vossa sempre grata companhia.






sexta-feira, 26 de março de 2021

O VELHO QUE SABIA DEMAIS. 2ª Parte

 


Rapariga – Também eu, durante todos estes anos não te esqueci. Por isso venho agora buscar-te para te levar comigo e sermos felizes para sempre.

Sábio – Não, Morte. Eu sei tudo e sei que, sob essa máscara, se esconde o rosto da Morte. Vens buscar-me porque queres levar-me contigo para o Reino das Sombras. E eu irei contigo de bom grado porque já aprendi tudo o que há para aprender e a vida, para mim, já não tem interesse algum.

Rapariga (Tristemente) – Vejo que te esqueceste de mim. E que estás tão velho que confundes o Amor e a Morte.

– A Morte ficou muito contrariada por ter sido de novo descoberta e, por isso, não poder levar consigo o Sábio. Mas, como tem muito tempo, continuou durante muitos e muitos anos a tentar apanhá-lo desprevenido. Ele, porém, reconhecia-a sempre, apesar de a Morte ser muito imaginosa e de usar muitos disfarces.

 Ora, ao fim de tantos anos de vida, a verdade é que o Sábio estava cansado de viver. Ainda por cima uma vida tão triste e tão aborrecida, sem nada dela que não soubesse, fechado na Biblioteca rodeado de livros que já lera mil vezes. Como sabia tudo, sabia que só poderia morrer se não reconhecesse a Morte quando ela chegasse, mas sabia também que a reconheceria de todas as vezes que ela lhe batesse à porta. 

– Ai de mim! Estou tão velho e tão cansado! Li todos os livros do Mundo, aprendi todas as coisas que é possível aprender, conheço todos os mistérios da vida e da morte. Mas tudo o que sei é inútil e silencioso, sem amigos e sem ninguém com quem conversar, porque as pessoas têm medo de mim e não se aproximam, temendo que eu conheça os seus segredos e não podem suportar isso. Até morrer me está vedado, porque nem mesmo a Morte, com os seus mil disfarces, me pode surpreender!

Ai de mim, ao fim de tantos anos e de tantos livros, que posso ainda desejar se não a Morte? Oh, quanto gostaria de a conhecer por fim! Mas vivo enclausurado, sou prisioneiro do que sei e do que aprendi. O meu corpo está seco e gasto como um velho pergaminho, o meu coração não se alvoroça nem bate mais depressa com coisas inesperadas e novas, porque para mim nada é novo e tudo se repete. Cada um dos meus dias é igual ao outro dia, cada hora igual à hora anterior. Como eu gostaria de sair da minha Biblioteca, mas, para isso, teria que sair de mim, porque eu próprio sou a Biblioteca. Como ela, não estou vivo nem estou morto, estou fechado dentro de mim como num labirinto ou como se fosse um livro antigo escrito numa língua desconhecida, que ninguém, nem mesmo a Morte, é capaz de ler.

 – Então o Sábio, como a Morte não podia alcançá-lo, e porque estava cansado de viver e de saber tudo, decidiu ir ele à procura do Reino das Sombras.


 Durante meses e meses fez cálculos matemáticos, estudou mapas, traçou rotas. Até que acabou por descobrir o lugar exacto onde era o tal Reino das Sombras. E, um dia, depois de ter posto as suas melhores vestes, para lá partiu.  Viajou durante muito, muito tempo. Cruzou rios e florestas, subiu montanhas, atravessou desertos. E, quando passava nas aldeias, as pessoas curvavam-se respeitosamente diante dele e afastavam-se logo, murmurando:

“É o Sábio. Diz-se que conhece o passado, o presente e o futuro…"

 Até que um dia, numa vereda, se lhe dirigiu um velho coberto de andrajos. 

– Tenho fome. Dá-me, por Deus, alguma coisa de comer.

O Sábio estremeceu. Nos seus livros, fechado na sua Biblioteca, tinha muitas vezes lido coisas sobre a fome. Mas nunca tinha tido fome. E agora, de repente, tudo o que aprendera nos livros parecia-lhe pouco. Meteu a mão na bolsa procurando algo que dar ao Mendigo, mas na bolsa trazia apenas livros e tratados.

– Desculpa, bom homem, mas comigo só trago livros. 

– Aceito os teus livros. Talvez alguém me dê qualquer coisa por eles e eu possa comprar que comer.

– O Sábio tirou da sua bolsa todos os livros que levava e entregou-os ao Mendigo. Sentou-se numa pedra à beira da estrada. Sentia-se fraco, as pernas pareciam não ser capazes de suportar o peso do seu corpo, e o Sábio lembrou-se então de que não comia há muitos dias.

O Mendigo aproximou-se dele e disse:

– Vejo que também tens fome. Vou à aldeia vender os teus livros e voltarei com alguma coisa para comermos ambos.

- O Mendigo partiu em direcção à aldeia e o Sábio ficou a pensar:

 – É então isto a fome… Que coisa estranha, não é nada parecido com o que vem nos livros…

– O Sábio sentiu uma estranha alegria apossar-se dele e, quando o Mendigo regressou com alguns bocados de pão, comeram ambos sofregamente. No fim, o Sábio levantou-se, abraçou o Mendigo e disse:

 – Obrigado, bom homem. Ensinaste-me hoje algo que não se aprende em livro nenhum.

– O Sábio prosseguiu a sua longa viagem em direcção ao Reino das Sombras, feliz por saber que, afinal, havia alguma coisa que não sabia.

Embora, na verdade, naquela altura tivesse ficado também a sabê-la…

 Mais adiante encontrou, deitado sob uma árvore, um homem que gritava cheio de dores.

O Sábio aproximou-se e perguntou:

– Porque gritas? 

 – Porque estou doente. Não vês como sofro?

– O Sábio pegou-lhe na mão. A mão estava húmida e febril e o Sábio sentiu-se subitamente inquieto. Nunca antes tinha tocado a mão de outro homem. A mão do homem apertou a mão do Sábio com toda a força, e o Sábio sentiu uma impressão estranha no coração, como se o seu coração tivesse ficado de repente mais pequeno. 

E então recordou que lera há muito tempo, num velho livro, algo sobre um sentimento confuso e angustiante, chamado compaixão, e percebeu que o seu coração estava cheio de compaixão. Apertou também ele a mão do homem e disse-lhe:

– Tem coragem. Conheço todos os segredos da Medicina e tentarei minorar o teu sofrimento.

– O Sábio colheu umas ervas e fez com elas um chá que deu a beber ao doente e este sentiu-se logo melhor. O doente beijou então as mãos do Sábio, dizendo:

– Obrigado, obrigado. Agora já não tenho dores. Que posso fazer para te agradecer?

– O Sábio sentiu uma felicidade que nunca tinha sentido. Ajudou o Doente a levantar-se e respondeu:

– Não tens que fazer nada para me agradecer. Eu é que te estou muito agradecido porque me fizeste aprender uma coisa que nenhum livro antes me ensinara.

– O Sábio despediu-se do doente, abraçando-o, e partiu de novo. Sentia-se misteriosamente leve e tranquilo como se, em vez de andar, flutuasse. O sangue corria-lhe nas veias com força e o dia parecia-lhe mais transparente e luminoso, os sons da floresta mais nítidos, o céu mais alto e mais limpo. 

Encheu os pulmões de ar fresco e pensou:


Continua....


"História do Sábio Fechado na sua Biblioteca" 

de Manuel António Pina

Ilustração de Guilherme Castro 





quinta-feira, 25 de março de 2021

O VELHO QUE SABIA DEMAIS.

 


Era uma vez um velho Sábio que tinha lido todos os livros e sabia tudo. Nada do que existia, e mesmo do que não existia, tinha para si segredos. 

Sabia quantas estrelas há no céu e quantos dias tem o mundo.

Conversava com os animais e com as plantas e conhecia o passado, o presente e o futuro. Até sabia que um dia, hoje, a esta hora… eu estaria aqui a contar-vos esta história.

Como sabia todas as coisas e não tinha nada de novo para saber e conhecer, a sua vida era muito triste e desinteressante. Era uma vida sem espanto, onde nada de novo e surpreendente acontecia e todos os dias eram iguais a todos os dias. Mesmo coisas tão estranhas e misteriosas, como, por exemplo, os cortinados do quarto agitando-se, à noite, ou os móveis rangendo como se falassem uns com os outros, não tinham para ele qualquer mistério.

Às vezes apetecia ao Sábio não saber qualquer coisa, poder perguntar a alguém qualquer coisa que não soubesse. Por exemplo, poder perguntar as horas; ou “Que dia é hoje?”; ou “Tem passado bem?” a alguém. Mas vivia fechado na sua Biblioteca e não tinha ninguém a quem perguntar nada. E, mesmo se tivesse, mal acabava de pensar numa pergunta, já sabia a resposta antes que lhe respondessem.

Até que, um dia, bateu à porta da Biblioteca um Estrangeiro. O Sábio abriu-lhe a porta e o Estrangeiro disse: 

– Venho buscar-te.

– Eu sei. És a Morte.

– Não sou nada a Morte, sou um Estrangeiro.

– Eu sei tudo, e sei que és a Morte.

– Enganas-te. Venho da parte do Imperador que quer falar contigo porque está a morrer e ouviu dizer que só tu sabes como são os lugares para onde se vai quando se morre.

– Não me iludes, Morte. Vieste buscar-me para me  me levar ao Reino das Sombras e não ao Palácio do Imperador.

– Se não acreditas em mim, vou-me embora.

 A Morte ficou zangadíssima por ter sido reconhecida, pois tinha tido um trabalhão a disfarçar-se de Estrangeiro. Mas, como a Morte é muito teimosa, passados alguns dias, disfarçou-se de novo,  coloca uma máscara de Palhaço e bate à porta da Biblioteca. 

 – Venho buscar-te.

 – Eu sei. És outra vez a Morte.

– Estás enganado, venho buscar-te para te levar a uma festa. A cidade tem muito orgulho em ter um homem tão sábio e tão ilustre entre os seus habitantes e o Governador decidiu organizar uma grande festa em tua honra.

– Não, Morte, não me enganas eu sei que vieste buscar-me para me levar ao Reino das Sombras e não à Festa do Governador. 

 – A Morte estava cada vez mais zangada, porque estava escrito algures (no sítio onde essas coisas estão escritas) que o Sábio deveria morrer sem reconhecer a Morte e sem saber que morria.

Por isso, alguns meses depois, voltou a aparecer-lhe, desta vez disfarçada de uma linda Rapariga.

A Morte põe a máscara de Rapariga e bate à porta da Biblioteca. 

– Venho pedir-te em casamento. Vem comigo, os convidados já chegaram, a boda já está servida…

– Aceito o teu noivado, Morte, e irei contigo.

 – Enganas-te. Eu não sou a Morte, sou aquela que há muitos anos amaste, lembras-te?

 – Sim. Como poderia esquecer-me de ti? Há quanto tempo te esperava.


Continua...


"História do Sábio Fechado na sua Biblioteca" 
       de Manuel António Pina
Ilustração de Guilherme Castro