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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Do Peso do Passado À Dimensão do Futuro.


Vivemos Presos ao Nosso Passado e ao Nosso Futuro


A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos quase todo o nosso tempo livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a deixá-los subir e descer na balança.

O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em peso, e no fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo andamos.

Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence enquanto nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez que seja, por distracção, por esquecimento, por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o perdemos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz metido na corrente do tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes actuais, e estamos perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, mas todos nos tratam de acordo com isso. 

Franz Kafka, in “Diário (1910)


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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Sem Preceito Nem Preconceito.






    Certa vez fui vítima de assalto. Um velho amigo sugeriu-me que consultasse os serviços de uma famosa curandeira no bairro da Polana Caniço.
Num instante ela faria surgir o rosto do ladrão na superfície de uma tina de água. Não é que fizesse fé nesse mágico scanner sem imagem original. Estava criado o pretexto para dar o gosto à alma e visitar um universo onde perdemos certezas.
    No momento seguinte encontrava-me tirando os sapatos à porta da Dona Mariana, em solicitação de poderes. Acreditava no que estava vivendo? Com o tempo, aprendi que por vezes a resposta é errada simplesmente porque a pergunta é incorrecta. Não se tratava de saber se era ou não verdade. Certas coisas são verdade numa dada relação, num dado momento.
    Nenhum rosto compareceu à tona de água. Mas a curandeira falou de mim, da minha vida passada e presente. Sem incursão no futuro. Nem tudo terá sido verdade. O que foi verdade é que conversámos, ela falando sem preceito, eu escutando sem preconceito.
    Dona Mariana deu-me uns pós para espalhar em água de banho. Tomasse banhos enquanto chorava, em audível lamento: «Ai, o meu televisor! Ai, o meu leitor de vídeo!»  Nunca chorei. Talvez por isso  –  insuficiência de fé  –  nunca tenha recuperado os bens roubados. Regressando mais tarde a casa de Dona Mariana continuei trocando fios de prosa que me compensaram a perda dos aparelhos.


[A partir de uma narrativa de Mia Couto: O Feitiço Dentro de Nós” ]





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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Cair e Levantar, Partir e Regressar, Dizer Adeus e Voltar.

            ...e um dia, sem honra nem glória, não conseguimos levantar-nos sem ajuda, que pode nunca chegar!
 
 
Encontro
 Felicidade,  agarrei-te
 
Como um cão, pelo cachaço!
 
E, contigo, em mar de azeite
Afoguei-me, passo a passo...

Dei à minha alma a preguiça
Que o meu corpo não tivera.
E foi, assim, que, submissa,
Vi chegar a Primavera...

Quem a colher que a arrecade
(Há, nela, um segredo lento...)
Ó frágil felicidade!
- Palavra que leva o vento.

E, depois, como se a ideia
De, nos dedos, a ter tido
Bastasse, por fim, larguei-a,
Sem ficar arrependido...
Pedro Homem de Mello, in "Eu Hei-de Voltar um Dia"
 
 

domingo, 13 de novembro de 2011

LIVRE ARBÍTRIO...OU FATALIDADE?

Muitas vezes me interrogo até que ponto serão as nossas decisões responsáveis pelo nosso infortúnio ou felicidade. Se, ao decidirmos enveredar por um caminho e não por outro, quando nos encontramos numa encruzilhada da vida, indecisos, por não termos a certeza de qual deles será o melhor para nós, a nossa opção não terá sido ditada por aquilo que já nos estava traçado pelo Destino.
Somos nós que fazemos o nosso Destino ou, façamos  nós o que fizermos, o Destino nos conduzirá fatalmente ao que já nos está predestinado? 



A Fatalidade do Não
“A palavra de que eu mais gosto é não. Chega sempre um momento na nossa vida em que é necessário dizer não. O não é a única coisa efectivamente transformadora, que nega o status quo. Aquilo que é, tende sempre a instalar-se, a beneficiar injustamente de um estatuto de autoridade. É o momento em que é necessário dizer não. A fatalidade do não - ou a nossa própria fatalidade - é que não há nenhum não que não se converta em sim. Ele é absorvido e temos que viver mais um tempo com o sim.”

José Saramago, in 'Folha de S. Paulo” (1991)
Imagem da Net

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