Mostrar mensagens com a etiqueta ALMA E POESIA .. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ALMA E POESIA .. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Pequena Elegia a Setembro Com Céus (ainda) de Agosto

 

Aquele candeeiro veio estragar tudo



Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
Dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.





As palavras são de Eugénio de Andrade in "Antologia Poética".

Os Céus, claro, são meus.


************************************************

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Para Mitigar A Saudade.





Nas minhas frequentes deambulações pelo CR (Crónicas do Rochedo) vou percorrendo os caminhos já muitas vezes percorridos. Desta vez detive-me demoradamente nos postais incluídos na etiqueta:
«Há Poesia no Rochedo» 
Gostei tanto deste poema, que pensei estar a lê-lo pela primeira vez.
Só depois, ao ler os comentários, verifiquei que o conhecia desde que o li, naquela publicação, vai para mais de sete anos.
Hoje, partilho-o também convosco, porque o acho muito, muito bonito.


"Poema melancólico não sei a que mulher"


Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...

( Miguel Torga)

Obrigada, CBO.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Como O Cravo E Como O Vento....


...Eu, inconformista, me confesso.

A quem possa interessar informo: este cravo não é uma flor natural.



Espiral 


Como o cravo no seu talo,
Como o cravo, eis o foguete,
Que é um cravo de disparo.
É foguete o torvelinho:
Sobe ao céu e se despluma,
Canto de ave no pinho.
Como o cravo e como o vento
o caracol é foguete:
Empedrado movimento.
E a espiral em cada coisa
seu vibrar difunde em giros:
Um mover que não repousa.
O caracol foi corola,
eco de eco, luz, vento,
onda que se encaracola.

Poema de Octávio Paz
Poeta mexicano [31-03-1914 — 19-04-1998]
Nobel da Literatura em 1990

“Foi um pensador avesso a estereótipos, que questionou todas as formas de conformismo” :  Afirmou dele, Mário Vargas Llosa.


Fotos Minhas - Flor-de-laranjeira, em botão.

=====================================================

================================

quinta-feira, 26 de julho de 2018

"Com As Gaivotas"


Jardins do Palácio de Cristal - Porto





Contente de me dar como as gaivotas
bebo o Outono e a tarde arrefecida.

Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.


Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.

Mas hoje sou de um céu que tem gaivotas,
leve o diabo esta morte dia a dia.





 Eugénio de Andrade in “Os Amantes Sem Dinheiro”




===============================================

====================================

=====================


sábado, 14 de julho de 2018

ADAGIO.




Chove...

Mas isso que importa,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.


Poema de José Gomes Ferreira - fotografia minha.





                                                                   





**** --- ****


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

"AS PALAVRAS"











As fotografias são minhas, obtidas com a devida aquiescência dos proprietários da Barber Shop, cuja montra fotografei. Sem nenhuma qualidade, sei, mas com o sol a incidir na montra, foi o que se pode arranjar!...





São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
Barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?



 Poema de Eugénio de Andrade
in “Até Amanhã”


Nota: Dedico este post ao Remus, administrador do blog de fotografia, 

A propósito de uma conversa que tivemos sobre o significado  das  palavras. :)

===============================

domingo, 29 de maio de 2016

PÉ-ANTE-PÉ...COM TERNURA.

                                       Bocage e as Ninfas -  Pintura de Fernando Santos (1929)

                                                                    Placa de  Homenagem ao Pintor, na casa onde nasceu 
                                                                                                        em Setúbal




Amar dentro do peito...

Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.




Manuel Maria Barbosa du Bocage:
Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas.






E VOTOS DE EXCELENTE SEMANA!

domingo, 8 de maio de 2016

CRESCENDO NO SILÊNCIO...

...INVENTEI A ALEGRIA.

                                                          
Alexander Sulimov (2010)  DAQUI



Teu Corpo Principia

Dou-te
um nome de água
para que cresças no silêncio.
Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.
Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)
Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.
Silêncio e sol – verdade,
respiração apenas.
Amor, eu sei que vives
num breve país.
Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
 tão delgada.
Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.
Ó maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.
Ó vida perfumada
cantando devagar.
Enleio-me na clara
dança do teu andar.
Por uma água tão pura
vale a pena viver.
Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

António Ramos Rosa, in Estou Vivo e Escrevo Sol (1966)

Reparem no olhar de A.R.R.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Por Delicadeza...


SOPHIA DE MELLO BREYNER


 
Por Delicadeza    

Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi

«Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida»

Sophia de Mello Breyner Andersen
 
  
 ***************************************************************************



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O Fidalgo e a Camponesa.


Hoje deixo-vos uma história em verso, de raízes antigas e tradicionais, vinda do tempo dos trovadores, que poderia servir a uma análise bastante profunda, quiçá, ( o que eu gosto desta palavra) a um estudo de comportamento, no aspecto moderno da emancipação da mulher. J


( Diz o Fidalgo)
Gentil pastora, ouve um estranho,
deixa o rebanho, vem me escutar
pois que perdido há mais de uma hora
vago pastora neste lugar.
(Responde a Pastora)
Senhor bons dias, bem-vindo seja
tranquilo esteja que a vila é perto.
Siga essa estrada bem direitinho
não há caminho mais curto e certo.
( Fidalgo, e assim por diante... :) )
Extensas léguas hei caminhado,
estou prostrado não tenho ar.
Vê se me indicas qualquer um pouso
onde o repouso possa encontrar.

 Senhor bem vejo que vós sois nobre
meu lar é pobre vede-o acolá.
Se aos vossos brios não há perigo
meu triste abrigo não longe está.

Muito obrigado gentil morena
mas, ó que pena, não posso ir.
Tu meiga e bela, de encantos cheia,
cá desta aldeia deves fugir.

Ah! Não que eu tenho vida folgada
sou muito amada de coração.
Meu nome adeja aos sons cadentes
dos versos quentes de uma canção.

Isto que vale, bela serrana,
se uma choupana só tens por lar?
Deixa este sítio na soledade
vem à cidade viver, gozar.

 Ai, morreria lá na cidade
só de saudade da gente nossa.
A viver rica mas esquecida
prefiro a vida na minha choça.

Mas se eu te trair nada tu sofres,
dou-te os meus cofres, juro por Deus.
Habite eu pobre numa choupana,
tu, soberana nos Paços meus.

Ah, não aceito que é vil desdouro
guarde o tesouro meu bom senhor.
Para tornar-se rica princesa
a camponesa não vende amor

És muito pobre pra amor tamanho
segue o rebanho mulher grosseira
Ah, como és tola, como eu te iludo
não passa tudo de brincadeira.

Se em vossas pompas, a vós senhores,
vendem amores as cortesãs,
essa fraqueza das damas nobres
não mancha as pobres das aldeãs!
Como já adivinharam, a autoria é de Almeida Garrett!
 
 
 
Esta camponesa é mais moderna, mas também não vai na conversa do Fidalgo!
 
Quanto à sua beleza, deixo-a à imaginação dos meus amigos...

 
----------------------------------------------------------------------------
----------------------------------

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Poemas São Sonhos Que Voam.



Imagem da Net
 

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
Alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
No maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

(Mário Quintana)



...assim como sem livros, sonhos ou poemas...sem ti, não sou nada!

================================
=====================

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Vamos Supor...

 

PAIXÃO

Supõe que de uma praia, rocha ou monte,
Com essa vista embaciada e turva
Que dá aos olhos entranhável dor,
Tinhas podido ver transpor a curva
Pouco a pouco do líquido horizonte
A barca saudosa que levasse
Aquele a quem primeiro uniste a face
                E o teu primeiro amor!

Depois, que toda mágoa e saudade,
Da mesma rocha ou alcantil deserto,
Olhando avidamente para o mar...
Vias na solitária imensidade
Vagas ficções de um pensamento incerto
Surgir das ondas, desfazer-se em espuma,
Não alvejando nunca vela alguma...
                E sempre a suspirar!

Até que à luz de uma intuição sublime
De alma arrancavas o gemido extremo
De saudade, desespero e dor!...
Pois é assim que eu sofro, assim que eu gemo,
Que nuvem negra o coração me oprime,
Nuvem de mágoa, nuvem de ciúme,
Em te não vendo à hora do costume...
                Meu anjo e meu amor!

João de Deus - in "Campo de Flores"
 
                                                         

 
Poesia e música são intemporais...
 
*********************************************************
*******************************