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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

---QUEM CONTA UM CONTO...

 


Iam um dia três pequenos para a escola, e disseram uns aos outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: "Vamos para o bosque que encontremos lá toda a espécie de lindos animais, que não fazem outra coisa senão brincar, e nós brincaremos com eles.

Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar, disse-lhes:

— Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a outra já não está segura.

— Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o Inverno.

— Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu ninho.

— Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a minha toilette.

E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo a saltar e a tagarelar, também não queres brincar connosco?

— Estes pequenos são tolos, disse o regato. Ora essa! Vocês então imaginam que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanso nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, às colinas, aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incêndios, tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias, etc. Nem hoje acabaria, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.

Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um pintassilgo, em cima de um ramo.

— Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar connosco?

— Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintassilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além disso que tomar parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operário com o meu chilreio, e tenho que adormecer as crianças com uma outra cantiga, que à noite e de madrugada celebra a bondade do Criador. Ide-vos, preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incomodar os habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.

Os pequenos aproveitaram a lição, e compreenderam que o prazer só é legitimo, quando é a recompensa do trabalho.


Transcrito do livro "Contos Para a Infância" de Guerra Junqueiro

😊

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quarta-feira, 9 de março de 2022

Tenórios Há Muitos.

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 (...)

A manhã vinha a romper e, com a luz do dia, a casa movimentou-se. 
Às tantas, a velha começou a afiar a faca no alguidar.
        Quê? Seria possível?! O raio da mulher teria alma de o degolar?
        Mas ele ainda a pôr o caso em teoria, e já ela a deitar-lhe as mãos.
         __ Cá-que-rá-cá!...
O filho, outra vez.  Aquele maldito filho, que a dona não depenara juntamente com os outros irmãos.

*** 

[ E lá foi o Tenório, substituído pelo frango, agora galo e, quiçá, menos vaidoso e respeitador das leis que regem os direitos individuais e colectivos, de todas as capoeiras.]

Fotos minhas

 

Como toda a gente já percebeu este galo da imagem não tem a beleza nem o mesmo brilho das penas do Tenório, o galo convencido, cheio de si, da sua importância, e extremamente vaidoso, do Conto com o mesmo nome, do livro Bichos de Miguel Torga.  Galo esse que acabaria na panela, que é onde, mais cedo ou mais tarde, acabam todos os galos, doidos, vaidosos e prepotentes. 


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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

"A Senhora do Retrato."

Os retratos a óleo fascinam-me. E ao mesmo tempo assustam-me. Sempre tive medo que as pessoas saíssem das molduras e começassem a passear pela casa. Para falar verdade, estou convencido que isso aconteceu algumas vezes. Em certas noites, quando eu era pequeno, ouvia passos abafados e tinha a sensação de que a casa ficava subitamente cheia de presenças. Ainda hoje não gosto de atravessar os longos corredores das velhas casas com grandes retratos pendurados nas paredes. Há olhos que nos seguem do alto e nunca se sabe o que de repente pode acontecer.


Havia na casa da tia Hermengarda um quadro deslumbrante. Ficava ao cimo das escadas, à entrada do corredor que dava para os quartos de dormir. Mesmo assim, rodeado de sombras, irradiava uma luz que só podia vir de dentro da dama do retrato. Não sei se da blusa muito branca, se dos olhos, às vezes verdes, às vezes cinzentos. Não sei se do sorriso, às vezes alegre, às vezes triste. Eu parava muitas vezes em frente do retrato. Era talvez o único que não me assustava. Creio até que dele se desprendia uma luz benfazeja, que de certo modo me protegia.


Grã-Duquesa Marie Nikolaevna da Rússia, em 1914  ( * )





Mas havia um mistério. Ninguém me dizia quem era a senhora do retrato. Arminda, a criada velha, benzia-se quando passava diante do quadro. Às vezes fazia figas e estranhos sinais de esconjuração. A prima Luísa passava sem olhar.
- Essa pergunta não se faz - disse-me um dia em que lhe perguntei quem era aquela senhora.
Percebi que não gostava dela e que era um assunto proibido. Até a minha mãe me ralhou e me pediu para nunca mais fazer tal pergunta. Mas eu não resistia. Por vezes descaía-me e dava comigo a perguntar quem era a senhora dos olhos verdes, quase cinzentos, que me sorria de dentro do retrato.
Com a minha tia-avó, eu tinha uma relação especial. Ela lia-me histórias e poemas inquietantes. Creio que troçava das convenções, talvez das próprias pessoas. Por vezes era difícil saber quando estava a sério ou a brincar. Apesar de já ser muito velha, tinha um sentido agudo do ridículo. Foi a primeira pessoa verdadeiramente subversiva que conheci. Era óbvio que tinha um fraco por mim. Pelo menos era o único membro da família a quem ela tratava como um igual. Dormia no andar de baixo e nunca subia as escadas. Talvez por isso eu nunca lhe tinha perguntado quem era a senhora do retrato.

Um dia, farto já de tanto mistério e ralhete e, sobretudo, das gaifonas da Arminda e do ar empertigado da prima Luísa, não me contive e perguntei-lhe. A minha tia sorriu. Depois levantou-se, pegou no molho de chaves que trazia preso à cintura, abriu uma gaveta da escrevaninha e tirou um álbum muito antigo. Voltou a sentar-se e lentamente começou a mostrar-me as fotografias. Eram quase todas da senhora do retrato e do meu primo Bernardo, que há muito tinha partido para a África do Sul.
Apareciam juntos a cavalo e de bicicleta. E também de fato de banho, na praia da Costa Nova. Havia alguns em que o meu primo estava de smoking e ela de vestido de noite. Via-se também a tia Hermengarda, mais nova, por vezes os meus pais, gente que eu não conhecia. Até que chegámos à senhora do retrato já de branco vestido.
- Natacha - murmurou a minha tia, com uma névoa nos olhos.
E depois de um silêncio:
- Ela chama-se Natália, mas eu gosto mais de Natacha, sempre a tratei assim.
É preciso dizer que a tia Hermengarda tinha vivido em Moscovo no início da carreira diplomática do marido e era uma apaixonada dos autores russos, Pushkine, Dostoievski, principalmente Tolstoi, que visitou algumas vezes em Isnaia Poliana. Identificava-se com as personagens de Guerra e Paz. Creio que amava secretamente o príncipe André e gostava de ter sido Natacha. Falava muito da alma russa.
 Era uma propensão do seu espírito. 
- Tu também tens alma russa - dizia-me. E era como se me tivesse armado cavaleiro. 

Manuel Alegre, in “O Homem do País Azul,”  

 Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1989.


(*) A imagem foi escolha minha, retirei-a do Pinterest, mas não me foi possível trazer o link. Retirá-la-ei se alguém se intitular seu autor e for proibida a sua publicação. Obrigada.



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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

A Alegria E O Canto Da Cigarra....

É um direito adquirido. :) Não um erro nem um defeito.



Cega-Rega


É difícil.  Isto de começar num montouro, e só parar na crista dum castanheiro, tem que se lhe diga. É preciso percorrer um longo caminho. Embrião, larva, crisálida...
Todas as estações do íngreme calvário da organização. Animada pelo sopro da vida, a matéria necessita do calor dum ventre. Antes dessa íntima comunhão, desse limbo purificador, não poderá ter forma definitiva. Custa. Mas a lei natural é inexorável.
Exige consciência de cosmos antes da consciência de ser. O calor dá no ovo. Aquece-o e amadurece-o. A casca quebra. Depois... Ah, depois é essa descida ao húmus, essa existência amorfa, nem germe, nem bicho, nem coisa configurada.

IMAGEM  DAQUI

Largos dias assim. Até que finalmente em cada esperança de perna nasce uma perna, e cada ânsia de claridade é premiada com dois olhos iluminados. Cresce também uma boca onde a fome a reclama, e surgem as asas que o sonho deseja...
É difícil, mas vai. Desde que haja coragem dentro de nós, tudo se consegue. Até fazer parte do coro universal.

(…)


   -  Muita alegria tem tal bicho!

   - A alegria passa-lhe... É deixar vir o Inverno...
A pressurosa formiga! A coitada! Como se trabalhar fosse um destino!

   - E temo-lo aí, não tarda muito.

Evidentemente. Mas que lhe importava? A escolha estava feita. Que as folhas do calendário, como as das árvores, fossem caindo, e que os ceifeiros lançassem as gadanhas ao trigo maduro, numa condenação de galerianos. Que nas tulhas se acumulassem toneladas de grão. Ao lado dos celeiros atestados, ficaria um celeiro vazio. Um símbolo de inquebrantável confiança.
  - Mas em quê? - Perguntava um pardal suspicaz.
Outro que não compreendia. Outro que só concebia a existência a saltar de migalha em migalha.

  - Chega-lhe, Cega-Rega!

O Poeta!…Louvado seja Deus!  Até que enfim lhe aparecia um irmão!... Um irmão que sabia também que cantar era acreditar na vida e vencer a morte…

A morte que a espreitava já, com os olhos frios do Inverno...




Da página 85 à 89.

(Excerto do conto «Cega-Rega» de Miguel Torga)

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Liberdade

— Liberdade, que estais no céu…
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
— Liberdade, que estais na terra…
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga

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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

"BEL - PRAZER"


    Como Antonieta era festiva…Ainda que por circunstâncias de horário eu tivesse de lhe tocar à campainha muito cedo, num daqueles prédios do Lumiar, em que tanto dá um como outro, nunca encontrei má vontade. Abria-me a porta, em roupão, com um sorriso ainda ensonado, e deixava-se beijar.
     Tinha vários homens, sabia-se disso no emprego, e, não obstante, jamais me mostrou o menor sinal de enfado. «O amor livre?», dizia. «Eu encarno o amor livre.» Não havia negar-lhe razão.
     Observava-a de soslaio, cirandando para além dos vidros, fingindo eu que examinava ozalides num estirador ou seguia um gráfico no ecrã. Porta sim, porta não, no gabinete deste ou daquele, se é que se pode chamar gabinetes àquelas monótonas cisternas entrevidradas, Antonieta deixava papéis, memorandos e simpatia.
     Quando nos cruzámos, um rápido sorriso profissional de hospedeira de bordo não me encorajava muito. Mas houvesse calma. Como quem diz: a pressa nos desejos é tardança.
     Oportunidade de trabalho, verificação de listas («listagens», como dizem nas empresas, em estilo tecno-pífio), palavra atrás de palavra, sorrisos e meios sorrisos, um café algures, ditos de espírito, um convite para casa, para ver, estudar não sei o quê. Nada de directo. Só alusões. As mulheres impõem o consabido preceito das divindades: deixam-nos o encargo de adivinhar os enigmas e sempre o ónus de errar.
     Na hora da verdade, a experimentada, ávida e estrondosa Antonieta não queria outra coisa. Algo ela me ensinou. Regia os tempos. Escusava pressas, mas, inesperada, também precipitava delongas. Ditava e mandava, disfarçando o todo em lânguida doçura.
     Cabeça revolta a dar a dar, um apego em crescendo, com torção do corpo e um arranque abismal, bradado na surpresa dum rompante ao modo popular, exigindo mais alguma coisa ou asseverando que algo estava a acontecer. Vocabulário crú, em barda. Expressões que não me eram lembradas desde a pornografia adolescente.

     Era morena, robusta, musculada, descontraída e, em absoluto, destituída de pudor. Abria-se em concha, os braços encurvados, levantados ao ar, mãos solícitas, os joelhos afastados, bem ao alto, a boca voraz, numa face expectante.
     Quem socialmente a ouvisse exprimir-se, no seu jeito humílimo de estar em público, não imaginaria que o alcance de Antonieta ia muito para além do calhambeque amarelo que conduzia, sem vagares, em derrapagens controladas.

     Não se esquecia, por um instante, de que se atribuíra o papel  de seduzir e agradar, iludindo cansaços e desfazendo enfados. Mantinha a conversação, entreactos, num registo segredado de pequenas inconfidências e malícias, enquanto ia adivinhando a recomposição do parceiro. Remava num recomeço gargalhado, a derivar numa busca de prazer concentrada, explorada ao mínimo pormenor, sempre em ascensão, até ao rompimento da deflagração final, que era tudo menos discreta. Tapava a boca com a mão e eu ajudava, num pressentimento vago de que àquela hora, no prédio, existiam ouvidos invejosos do tumulto que remoinhava no quarto de Antonieta.
     - Vou ser transferida, sabe?
     - Para onde?
     - Haia.
     - Já avisou todos?
     Ficou uns momentos em suspenso, um indicador interrogativo entre a boca e a aba do nariz. Depois rompeu a rir, alto, e puxou-me para si.
     Bem que serão felizes tantos holandeses.



Nota: Apesar de me ter zangado com o autor deste livro
em virtude daquele seu deslize, Hoje, deu-me para transcrever o terceiro conto, quiçá, por falta de inspiração para criar algo de minha autoria, passe a redundância. Lá está, isto de ser autora de um blogue é uma grande responsabilidade. É como termos um filho a quem temos o dever de manter e sustentar.
Mas lá que também nos proporciona muitas alegrias, isso é a mais pura verdade!

Espero que gostem. :)


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terça-feira, 7 de março de 2017

A VOZ DO MAR.


O Artur sentiu sobre a orelha uma coisa muito fria, com um som...
- O que é, mãe?
- Não ouves?
Sim, ouvia. Era um som pesado lá ao longe e que depois vinha, vinha e subia, e que depois se tornava mais brandinho, para logo voltar a vir de longe. Parecia música, mas não era bem música. E talvez fosse. Bom, não seria bem música.
- O que é, mãe? - Voltou a perguntar. - Que barulho é este?
- É o mar... É a voz do mar...
- A voz do mar?!
- O mar fica longe, mas a voz meteu-se aí dentro. Isto é um búzio.
- E onde nascem os búzios?
- No mar.
-Então é por isso que se ouve...
- Pois é. As ondas fazem um barulho assim quando se ouvem ao longe. E a gente está longe. Não ouves a voz que lá vem?
- Oiço.
- E depois quebra-se assim como as ondas na areia.
- Então isto é o mar? O mar é o oceano. No mapa chamam-lhe oceano. Parece que há vários... Eu já ouvi aos que andam no quarto ano: é o Oceano Atlântico, o Oceano Índico...
- Não achas que mar é mais bonito?
- Pois é, mar é muito mais bonito.
De repente, fechou os olhos e juntou as duas mãos sobre o búzio, apertando-o contra o ouvido.
- Agora deve ser um navio que lá vem. É mesmo, é, é um navio...
A mãe aproximou o ouvido, desviando o lenço.
- Não ouves?
Não, a mãe não ouvia. Mas o importante para ele era ter o mar apertado entre as mãos. Lá vinha uma onda...e outra...



Alves Redol, Histórias Afluentes 


[ Texto repescado de uma publicação de 2013 ]



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domingo, 13 de março de 2016

" Morte Constante Para Além do Amor ".

Tela de  Serge Marshennikov


Ao senador Onésimo Sánchez faltavam-lhe seis meses e onze dias para morrer quando encontrou a mulher da sua vida.
Conheceu-a no Rosal del Virrey, uma povoaçãozinha ilusória, que de noite era um abrigo furtivo para os navios de longo curso dos contrabandistas. Até o seu nome parecia uma zombaria, pois a única rosa que se viu naquela povoação levou-a o próprio senador, na mesma tarde em que conheceu Laura Farina.

Desde que conheceu o senador Onésimo Sánchez, na primeira campanha eleitoral, Nelson Farina tinha suplicado a sua ajuda para obter um falso bilhete que o pusesse a salvo da justiça. O senador, amável mas firme, tinha-lho negado.
Nelson Farina não desistiu durante vários anos, e cada vez que se lhe proporcionava uma ocasião repetia a diligência com uma petição diferente. Mas recebeu sempre a mesma resposta. De maneira que daquela vez deixou-se ficar na rede, condenado a deixar-se apodrecer vivo naquela ardente guarida de corsários. Cuspiu o seu rancor:

   - Merde – disse -   c’est le Blacaman de la politique.

   Depois do discurso, como de costume, o senador deu um passeio pelas ruas da povoação. Uma mulher encarrapitada no telhado de uma casa, entre os seus seis filhos menores, conseguiu fazer-se ouvir por cima do alvoroço.

   - Eu não peço muito, senador – disse – a não ser um burro para trazer água do Poço do Enforcado.
   O senador observou as seis crianças esquálidas.
    - Que é que aconteceu ao teu marido? – perguntou.
    - Foi procurar destino na ilha de Aruba – respondeu a mulher, bem-disposta – e o que encontrou foi uma forasteira daquelas que põem diamantes nos dentes.
    A resposta provocou um estrondo de gargalhadas.
   - Está bem – decidiu o senador – terás o teu burro.
   Pouco depois, um ajudante levou a casa da mulher um burro de carga, nas costas do qual tinham escrito com pintura eterna um manifesto eleitoral, para que ninguém se esquecesse de que era uma dádiva do senador.

  Na última esquina, por entre as estacas do pátio, viu Nelson Farina na rede e pareceu-lhe cinzento e murcho, mas cumprimentou-o sem afecto:
   - Como está?
   Nelson Farina virou-se na rede e deixou-o ensopado no âmbar triste do seu olhar.
   -  Moi, vous savez – disse.
   A sua filha apareceu no pátio ao ouvir a troca de palavras. Trazia vestida uma bata cubana vulgar e usada e tinha a cabeça enfeitada com laços de fitas. Mesmo naquele estado de negligência era possível imaginar que não havia outra mais bela no mundo. O senador ficou sem alento.
   - Porra – suspirou assombrado – as tolices que Deus se lembra!

   Nessa noite Nelson Farina vestiu a filha com as suas melhores roupas e mandou-a ao senador. Dois guardas armados de rifles, que cabeceavam de calor na casa emprestada, mandaram-na esperar na única cadeira do vestíbulo.
   O senador estava no quarto contíguo, reunido com os principais do Rosal del Virrey. Tinha a camisa ensopada de suor e tentava secá-la sobre o corpo com a brisa quente do ventilador eléctrico, que zumbia como um moscardo na modorra do quarto.
     Enquanto falava, o senador tinha arrancado um cromo do calendário e tinha feito com as mãos uma borboleta de papel. Pô-la na corrente do ventilador, sem nenhuma intenção, e a borboleta revoluteou dentro do quarto e depois saiu pela porta entreaberta.

   Laura Farina viu sair a borboleta de papel. Depois de ter dado várias voltas, a enorme borboleta litografada desdobrou-se completamente, esborrachou-se contra a parede e ali ficou pegada. Laura tentou arrancá-la com as unhas e um dos guardas reparou na sua tentativa inútil.
   -- Não se pode arrancar – disse entre sonhos – está pintada na parede!

     Laura voltou a sentar-se quando começaram a sair os homens da reunião.
O senador permaneceu na porta do quarto com a mão na aldraba e só reparou em Laura quando o vestíbulo ficou desocupado.

   - Que fazes aqui?
   - C’est de la part de mon père – disse ela.

  O senador compreendeu. Observou atentamente Laura Farina, cuja beleza inverosímil era mais imperiosa que a sua dor, e então decidiu que a morte decidisse por ele.
  - Entra – disse-lhe.
  Laura ficou maravilhada na porta do quarto: milhares de notas de banco flutuavam no ar, esvoaçando como a borboleta. Mas o senador apagou o ventilador, e as notas ficaram sem ar, e pousaram-se sobre as coisas do quarto.

   - Já vês – sorriu – até a merda voa.

   O senador sentou-se numa cama de campanha falando de rosas, enquanto desabotoava a camisa. Atirou para o chão a camisa molhada e pediu a Laura que o ajudasse a tirar as botas.
   Ela ajoelhou-se diante do catre. O senador continuou a estudá-la, pensativo, e, enquanto lhe desapertava os atacadores, perguntou-se para qual dos dois seria a má sorte daquele encontro.

   - És uma criança – disse.
   - Não acredite – disse ela – vou completar dezanove em Abril.
   O senador interessou-se.
    - Em que dia?
    - A onze – disse ela.
    O senador sentiu-se melhor.
   - Somos Aries – e acrescentou sorrindo: - É o signo da solidão.

   Laura não lhe prestou atenção, pois não sabia o que fazer com as botas. O senador, por seu lado, não sabia o que fazer com Laura, porque não estava habituado aos amores imprevistos, e, além disso, estava consciente de que aquele tinha origem na indignidade.
   Só para ganhar tempo para pensar, prendeu Laura entre os joelhos, abraçou-a pela cintura e estendeu-se de costas no catre. Então compreendeu que ela estava nua por baixo do vestido, porque o corpo exalou uma fragrância obscura de animal de monte, mas tinha o coração assustado e a pele aturdida por um suor glacial.

   - Ninguém gosta de nós – suspirou ele.

   Deitou-a a seu lado, para a ajudar, apagou a luz e o aposento ficou na penumbra da rosa. Ela abandonou-se à misericórdia do seu destino. O senador acariciou-a lentamente, procurou-a com a mão, mal lhe tocando, mas onde esperava encontrá-la topou com um estorvo de ferro.

   - Que tens aí?
   - Um aloquete – disse ela.
   - Que disparate! – Disse ele, furioso, e perguntou o que sabia de sobra: - Onde está a chave?

  Laura Farina respirou, aliviada.
  - Tem-na o meu pai – respondeu – Disse-me que lhe dissesse a si que a mande buscar por um mensageiro e que lhe mande com ele uma promessa escrita de que lhe vai resolver a situação.
   O senador pôs-se tenso. «Francesote cabrão», murmurou, indignado. Depois cerrou os olhos para relaxar-se e encontrou-se consigo próprio na obscuridade.

Recorda – lembrou – que sejas tu ou outro qualquer, estarás morto dentro de um tempo muito breve e que pouco depois não restará de vós, nem o nome.
Esperou que passasse o calafrio.

   - Diz-me uma coisa – perguntou então – o que ouviste dizer de mim?
   - A verdade, verdadinha?
   - A verdade, verdadinha.
   - Bem – atreveu-se Laura farina – dizem que o senhor é pior do que os outros, porque é diferente.
   O senador não se perturbou. Manteve um silêncio grande, com os olhos fechados, e quando voltou a abri-los parecia regressar dos seus instintos mais recônditos.

   - Que merda! – decidiu – diz ao cabrão do teu pai que lhe vou resolver o assunto.
   - Se quer, vou eu mesma buscar a chave – disse Laura Farina.
   O senador reteve-a.
   - Esquece a chave – disse – e dorme um bocado comigo. É bom estar com alguém quando se está só.

     Então ela deitou-o no seu ombro. O senador abraçou-a pela cintura, escondeu a cara na sua axila de animal de monte e sucumbiu ao terror. 

Seis meses e onze dias depois havia de morrer nessa mesma posição, pervertido e repudiado pelo escândalo público de Laura Farina e chorando com a raiva de morrer sem ela.



Conto de Gabriel García Márquez - transcrito de uma colectânea composta por sete contos, um dos quais já aqui publicado no ano passado.



terça-feira, 8 de setembro de 2015

A IMPORTÂNCIA DE POSSUIR UMA IDENTIDADE ( II )


"O Afogado Mais Formoso do Mundo"


Era verdade! À maioria bastou olhá-lo outra vez para compreenderem que não podia ter outro nome.
As mais obstinadas, que eram as mais jovens, mantiveram-se com a ilusão de que, depois de lhe vestirem a roupa, estendido entre flores e com uns sapatos de polimento, poderia chamar-se Lautaro. Mas foi uma ilusão vã.
Depois da meia-noite tornaram-se mais finos os assobios do vento e o mar caiu na modorra da quarta-feira. O silêncio acabou com as últimas dúvidas: Era Esteban!
Mais tarde, quando lhe taparam a cara com um lenço, para que a luz não o incomodasse, viram-no tão morto para sempre, tão parecido com os seus homens, que se lhes abriram as primeiras gretas de lágrimas no coração. Foi uma das mais jovens a que começou a soluçar, As outras, encorajando-se entre si, passaram dos suspiros aos lamentos e quanto mais soluçavam mais desejos sentiam de chorar, porque o afogado se lhes ia tornando cada vez mais Esteban, até que o choraram tanto que foi o homem mais desamparado da Terra, o mais manso e o mais diligente, o pobre Esteban.
De tal maneira que, quando os homens voltaram com a notícia de que o afogado também não era das povoações vizinhas, elas sentiram um espaço de júbilo, entre as lágrimas.

- Bendito seja Deus – suspiraram – É nosso!

Os homens convenceram-se de que aqueles espaventos não passavam de frivolidades de mulher. Mas, quanto mais se apressavam, de mais coisas se lembravam as mulheres para perder o tempo. Andavam como galinhas assustadas, espiolhando amuletos de mar nos arcazes, umas estorvando aqui porque queriam pôr ao afogado os escapulários do bom vento, outras estorvando ali para lhe porem uma pulseira de orientação, e, ao cabo de tanto tira-te daí mulher, põe-te onde não estorves, olha que quase me fazes cais sobre o defunto, aos homens subiram-lhes ao fígado as suspicácias e começaram a resmungar qual seria o objectivo de tanta ferraria de altar-mor para um forasteiro, que por mais caldeirinhas que levasse com ele iam mastigá-lo os tubarões.
Uma das mulheres, mortificada por tanta insensibilidade, tirou então o lenço da cara do cadáver, e também os homens ficaram sem respiração.
Era Esteban!
Não foi preciso repeti-lo para que o reconhecessem. Se lhes tivessem dito Sir Walter Raleigh, porventura, até eles se teriam impressionado com o seu acento de gringo, com o seu papagaio no ombro, com o seu arcabuz de matar canibais, mas Esteban só podia ser um no mundo, e ali estava estendido como um sável, sem botins, com uma unhas cascalhosas que só podiam cortar-se à faca. 

Havia tanta verdade na sua maneira de estar que até os homens mais desconfiados, os que achavam amargas as minuciosas noites no mar, estremeceram até à medula com a sinceridade de Esteban.
Foi por isso que lhe fizeram os funerais mais esplêndidos que podiam conceber-se para um afogado enjeitado.
Largaram-no sem âncora, para que voltasse, se quisesse e quando o quisesse, e todos retiveram a respiração durante a fracção de séculos que demorou a queda do corpo até ao abismo.

Não tiveram necessidade de olhar-se uns aos outros para se aperceberem de que já não estavam completos, nem voltariam a está-lo jamais. Mas também sabiam que tudo seria diferente a partir desse momento, porque eles iam pintar as fachadas das casas com cores alegres e semear flores nos despenhadeiros, para eternizar a memória de Esteban, e que nos amanheceres dos anos vindouros os passageiros dos grandes navios acordassem sufocados por um cheiro de jardins no alto-mar.

O Capitão teria de descer do seu castelo de popa, com o seu astrolábio, a sua estrela polar e a sua fileira de medalhas de guerra, e, apontando para o promontório de flores no horizonte do Caribe, dissesse, em catorze idiomas: -

- Olhem para ali, de onde o vento é agora tão manso que fica a dormir debaixo das camas, ali, onde o Sol brilha tanto que os girassóis não sabem para que lado girar, sim, ali, é a povoação de Esteban!

FIM 

FOTO MINHA


NOTA: A identidade do afogado, desconhecido, ficou completa, quando, para além de lhe darem um nome próprio, deixou de ser apátrida, sem família, sem terra e sem amigos! Digo eu.

Será que esta história é tão inverosímil quanto, no início, nos pareceu? Nos tempos actuais é caso para pensar...

Obrigada a todos/as,  pela  paciência e gentileza de ler e comentar.

Abraço meu!!






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