Repara nesta pulga e aprende bem
Quão pouco é o que me negas com desdém.
Ela sugou-me a mim e a ti depois,
Mesclando assim o sangue de nós dois.
E é certo que ninguém a isto alude
Como pecado ou perda de virtude.
Mas ela goza sem ter cortejado
E incha de um sangue em dois revigorado:
É mais do que teríamos logrado.
Poupa três vidas nesta que é capaz
De nos fazer casados, quase ou mais.
A pulga somos nós e este é o teu
Leito de núpcias. Ela nos prendeu,
Queiras ou não, e os outros contra nós,
Nos muros vivos deste Breu, a sós.
E embora possas dar-me fim, não dês:
É suicídio e sacrilégio, três
Pecados em três mortes de uma vez.
Mas tinge de vermelho, indiferente,
A tua unha em sangue de inocente.
Que falta cometeu a pulga incauta
Salvo a mínima gota que te falta?
E te alegres de dizes que não sentes
Nem a ti nem a mim menos potentes.
Então, tua cautela é desmedida.
Tanta honra hei-de tomar, se concedida,
Quanto a morte da pulga à tua vida.
---------------------------------------------------------
Por incrível que (me) pareça, este poema foi escrito por um dos maiores Poetas da Língua inglesa, desde sempre. John Donne, autor de "Meditações".
"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todo homem é um
pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado
pelo mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse
o solar dos teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui,
porque sou parte do género humano, e por isso não me perguntes por quem os
sinos dobram; eles dobram por ti."
Foi a partir deste trecho, Manifesto 17, que o escritor norte-americano Ernest Hemingway,
encontrou inspiração para o título do seu romance “Por Quem os Sinos Dobram” e dá início ao romance.
Mais um livro, de folhas amarelecidas pelo tempo, que encontrei no meu sótão!
Adenda: Para que não digam que não mostrei o livro (o meu)