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sábado, 22 de abril de 2017

TERRA...O PLANETA AZUL.

Celebra-se, hoje, o DIA MUNDIAL DA TERRA.

É chegada a hora ( esperando não ser demasiado tarde) de todos nos debruçarmos sobre aquilo que cada um de nós poderá fazer, individualmente, para a preservação da Natureza.

Fica um vídeo com algumas sugestões sobre o que há a fazer em prol da vida das gerações vindouras e, de onde provém a raiz do mal...

                                          
E, como não podia deixar de estar presente; um poema de
Miguel Torga.

Regresso


Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! Minha serra, minha dura infância!
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado, na distância!


Cantava cada fonte à sua porta:
O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.


Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos

Aos deuses do meu velho paraíso.



Nota: Ao final do dia voltarei, para responder aos comentários do post anterior  que, desde já, agradeço.

A TODOS DESEJO UM BOM DIA.


*_*

terça-feira, 31 de maio de 2016

AMOR.



Conto retirado do meu livro "Contos da Montanha"
 de Miguel Torga.
( Páginas 35 a 41)


AMOR

Nasceu aquela flor em Covelinhas, dum castanheiro velho, o Lourenço Abel, e duma urze mirrada, a Joana Benta. Nasceu e cresceu tão linda, tão airosa, que o povo em peso punha os olhos nela. Só tinha um defeito...
 - Verduras da mocidade! - pretextava a Cláudia, quando o homem, ao lume, censurava os namoros da rapariga.
- Ultrapassa as marcas! Dá trela a quantos há na freguesia...
- Ainda hão-de ser mais as vozes do que as nozes.

- É, é! No dia das inspecções lá se viu... A Cláudia calou-se. Na comprida crónica da montanha não havia página mais negra do que essa a que o homem fazia alusão. Acabadinhos de sair das garras da junta, onde nus em pêlo pareciam cordeiros tosquiados, três de Paços, dois de Fermentões, um de Vilela e outro de S. Martinho armaram tamanha guerra na Sainça, que só faltou tocar os sinos a rebate.
O de Vilela, aqui-del-rei que a rapariga era dele; o de S. Martinho que o varava logo ali se continuasse com as gabarolices; o mais possante dos de Paços que não consentia trigo do seu forno na boca de cães... Um inferno. Segue-se que daí a nada ia tal polvorosa pelos montes, que Deus nos acudisse. Não morreu ninguém, felizmente, mas chegou para afligir.


Imagem recolhida na Net. Se alguém reclamar a sua autoria, retira-la-ei, de imediato.


- A Lídia é que não queria saber de desgraças. Muito bem-feita, muito corada, com aqueles dois olhos de veludo que ameigavam tojos, depois de cada sarrafusca a que dava azo, passava pela rua acima em direcção às hortas como se nada fosse. E o povo inteiro rendia-se-lhe aos pés, num sorriso de perdão, de complacência e de carinho.

- Tu a quantos atendes? - Perguntava-lhe em confidência a Mariana, já com cinquenta e dois e ainda de olhinho a reluzir.
 - A nenhum. Ninguém me quer, tia Mariana! E dava uma gargalhada das dela, muito clara, muito pura, pondo à mostra uns dentes que cegavam a gente.
- Raios te partam, rapariga! Trazes um regimento à corda, e a dizer que ninguém te quer!
- À consciência!...

E toda ela se dava e se recusava num requebro enigmático, com os seios a enfunarem-lhe a blusa de chita.
- Olha; fazes tu muito bem! Enquanto dura, é doçura...

E a doçura era naquele inverno gelado, noites a fio, o Pedro Verdeal comido de ciúmes a guardar o Lúcio, e o Lúcio, comido de ciúmes, a guardar o Verdeal.

- Que cegueira! Perdidinhos de todo! Um sincelo de meter medo e nenhum arreda pé! Ao menos tem pena deles, cachopa. Manda pôr uma braseira debaixo do negrilho e outra no cruzeiro...

- Eles não têm frio. Quanto mais, deixe falar, tia Cláudia! Se andam de noite, lá andam à sua vida. Cá comigo não há nada. Querem coisa mais alta.
E continuava a receber cartas do Lúcio, do Verdeal, do Vitorino, e até recados do Teodoro, um homem já viúvo! A Violante do correio entregava-lhe essas letras de amor às escondidas de toda gente, mas ia dizendo:
 - Eu não sei como tu podes com tal cainçada atrás de ti!...

A Lídia, porém, era aquele coração aberto a quantos lhe batiam à porta. Como uma terra de semeadura em pousio, dizia a todas as sementes que deixassem apenas chegar a primavera...
Não havia maldade nem cálculo nas promessas que fazia. Diante de cada solicitação masculina, sentia-se como que chamada a dar contas da sua íntima natureza de mulher. 
E todos podiam pedir-lhas com igual autoridade, justamente porque não amara ainda nenhum a valer. Limpo, o seu corpo estava destinado a pertencer a um daqueles pobres obcecados, que andavam à sua volta como lobos à volta de uma ovelha. A um deles teria de se entregar, mais dia, menos dia. Mas a qual?

- Tu é que sabes. Se fosse comigo, escolhia o mais jeitoso e mandava os outros à tábua. Sarilhos desses é que não! - Repetia a Violante, apavorada com tanta carta e tanto enredo. - Vê lá!

- Deixe correr, que ainda bota, ti Violante. Uma carta custa apenas o selo e o papel.
- Parece-te! Pode custar muita lágrima. Não estiques a corda demais...

Boas palavras, realmente. Pena é que não tivessem eco nos ouvidos da Lídia. Por mais que quisesse, não conseguia decidir-se por nenhum. Os homens eram como os ramos de rebuçados na mesa da doceira: pareciam-lhe todos iguais.

- Não são, não. Repara bem, que verás... - respondia-lhe a Cláudia, cheia de paciência.

Reparava e via o mesmo desejo a arder nos Olhos de cada um. As palavras, os gestos, os amuos significavam em todos a mesma coisa. P’ra a virgindade que lhe pediam, quer o dissessem, quer não. E continuava, conciliante, a prometer-lha e a negar-lha.

- Qualquer dia estoira para aí tamanho sarrabulho, que vai ser uma vergonha... - ia insistindo o Leopoldino, agoirento.
- Olha não estoires tu do miolo! - Repontava a mulher, a fazer de valente.
- Deu com o pai já comido da terra, e com a lambaças da mãe, que é uma pobre de Cristo. Fosse minha filha e eu te diria. Era com uma soga por aquele lombo...
- A mãe que há-de fazer? Proibi-la de se divertir ?!

A Cláudia estava farta de saber que o homem tinha carradas de razão. Quantas e quantas vezes falara já com a Joana Benta sobre a filha. Valia de bem! A coitada ouvia, concordava, gemia, apagava-se rasteira na escuridão da cozinha. noite é que lá se atrevia a dizer uma palavra à rapariga.

- Tu não terás juízo, mulher! Coisa assim!
- Não se aflija, que não me dá o lampo. Palavras leva-as o vento...

Mas com palavras tinha ela posto a cabeça do Verdeal e do Lúcio a andar à roda. A mangar, a mangar, jurava a cada um que não queria mais ninguém e que os outros lhe rondavam a casa por palermice. Que não era culpada de quantos homens havia no concelho lhe andarem a cheirar o rasto...

Na véspera do S. Miguel, a Olívia, que era sua amiga do coração, ao vir da missa pôs-lhe os pontos nos ii.

- Tu tem lá mão na manta, que isto não acaba bem. Dá o sim-ou-sopas a um e emponta o resto. Muitos burros à nora não é negócio; escoicinham-se uns aos outros... O Verdeal anda sobre o Lúcio como um cão. Se o agarra a jeito, esfandega-o.

- Oh! E aconteceu o que tinha de acontecer. Nessa mesma noite, depois da ceia, o Verdeal, ao voltar a esquina da eira, viu um vulto à porta do quinteiro da moça. Disfarçou-se na sombra e chegou-se perto. Era o Lúcio a falar com ela. Avançou até junto deles. No calor da conversa, nem o viram.
- Então, muito boas noites... - cumprimentou., já de mão na pistola.
- Boas noites - responderam ambos, ela com a mesma cara, e o Lúcio cego de raiva.
- Pode-se saber quando é a boda?
- Pode... 

Mediram-se os dois de cima abaixo. 
- É capaz de ser, no dia de juízo...
- Conforme... 
- É que a bocada às vezes parece que está quase na boca e não está...
Alheia, numa volúpia de irresponsabilidade, a Lídia assistia àquela disputa de que era a causa, divertida como uma criança. Quase que nem ouviu o simultâneo deflagrar das armas.
- Canalha! Seguiram-se mais dois estalidos secos.

- Cabrão! Os insultos como que eram apenas um comentário desdenhoso à margem dos tiros rápidos e sucessivos.
- Excomungada! A inesperada maldição entrou na alma da Lídia como um punhal de quem vinha? Da boca do Lúcio, ou da boca do Verdeal?

Mas não pôde sabê-lo. Ambos jaziam quase a seus pés, cada um no último arranco. E quando a mãe, espavorida, em saiote, abriu a porta, veio encontrá-la ainda alheada junto dos dois mortos, a tentar compreender a violência daquela queixa.





segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Um Galo de Respeito!!



"Esta é a história verdadeira de Tenório, o galo.

Nascido duma ninhada que a senhora Maria Puga deitou amorosamente debaixo das asas chocas da Pedrês, em doze de Janeiro, pelas três da tarde, quando a velhota o viu sair da casca, disse logo:

- É frango.

E realmente. Aquela amostra de crista que trazia do ovo, poucas semanas depois, parecia já uma mitra. E ninguém mais duvidou de que era frango macho. Dos dois irmãos, muito tinhosos, sempre enjeridos, desses é que a incerteza se manteve por largo tempo.

- Que te parece, António?

- Eu sei-te lá, mulher!...

- O da dianteira está-se mesmo a ver. Aquelas três são pitas, com certeza. Agora estes enxalmos...

Frangos também, mas fracos. Mal viam gavião sobre o quintal, metiam nojo:

- Piu... Piu... Piu...

Lá parava a mãe de esgadanhar.

- Piu... Piu... Piu...

Até metidos nos sovacos da progenitora se borravam! Ele, porém, continuava ao ar livre, a desafiar o inimigo, que planava lá no alto.

- Há-de ficar para galo!

E a sujeita tinha palavra. Em Maio, por alturas da Ascensão, ao dar de caras com os irmãos degolados e depenados, ainda lhe tremeu a passarinha…

Olha que brincadeira!

Felizmente que a dona sabia distinguir o trigo do joio, e o deixava para semente... Um futuro bonito, afinal!

É certo que não estava nesse momento em condições de apreciar devidamente a grandeza da sorte que lhe coubera. Muito embora a simples certeza de viver lhe enchesse a alma duma confiança cega no porvir, só daí a algum tempo é que viu claramente o tamanho do seu destino.

Quando tal compreendeu, cuidou que estalava de orgulho.

Foi num certo amanhecer de Outubro... "


A história da vida de Tenório, ainda agora vai no adro, mas como ela é tão velhinha, como velhinho é o livro que vos mostro na foto, acho que todos a conhecem e sabem como acaba.
Lembrei-me de publicar este pequeno excerto, apenas para vos deixar com estas sábias palavras, que o autor deixou escritas no Prefácio do livro, para que todos nós, que o lemos há anos, passemos o testemunho aos nossos descendentes. 


Querido Leitor:
                                             (...)

Ninguém é feliz sozinho, nem mesmo na eternidade. De resto, um conto que te agradou, tem algumas probabilidades de agradar aos teus netos. E, se tal não acontecer, paciência: ficarei um pouco triste, mas sempre junto de ti...
                                            (...)
Teu            Miguel Torga


 

Esta foto está ligada a uma história muito interessante, que ouvi da boca do seu autor, numa entrevista que concedeu à RTP 2:
Eduardo Gageiro!
Um nome que não se pode dissociar da fotografia e do fotojornalismo português. A 'história' tem a ver com a pouca disponibilidade e paciência que o escritor tinha para com os jornalistas e fotógrafos.
Após muita insistência por parte do fotógrafo, Torga lá se dignou  recebê-lo no seu consultório em Coimbra, não sem antes lhe pedir determinada quantia em dinheiro. Eduardo Gageiro, prontificou-se a pagar, mas pediu recibo, que exibiu na dita entrevista!
Como "vingança", fotografou e publicou, Miguel Torga de corpo inteiro...sem sapatos...tal como o escritor o tinha recebido e gostava de andar por casa!

 
 
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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Caminhos Que Percorremos.

Foto captada por mim do interior de uma Unidade Hospitalar.
Caminho que percorri vezes sem conta.

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 Cada vez mais desesperado. Olho, olho, e só vejo negrura à minha volta. Fé? Evidentemente... Enquanto há vida, há esperança — lá diz o outro. Mas, francamente: fé em quê?

Num mundo que almoça valores, janta valores, ceia valores, e os degrada cinicamente, sem qualquer estremecimento da consciência?
 Peçam-me tudo, menos que tape os olhos. Bem basta quando a terra mos cobrir! — Ah! Mas a humanidade acaba por encontrar o seu verdadeiro caminho — dizem-me duas células ingénuas do entendimento. E eu respondo-lhes assim:

Não, o homem não tem caminhos ideais e caminhos de ocasião. O homem tem os caminhos que anda…

(…)
Miguel Torga  

(O Cinismo dos Valores )  

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