
Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso da Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena
ao griso da Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena
Vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo a voz de mando
do director fatal que lhes ordena
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo a voz de mando
do director fatal que lhes ordena
Essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena
Mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena!
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena!
Soneto de Fernando Assis Pacheco
Nota:
Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco (Coimbra, 1 de Fevereiro de 1937 — Lisboa, 30 de Novembro de 1995) foi um jornalista, crítico, tradutor e escritor português.
Licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, viveu nesta cidade até iniciar o serviço militar, em 1961. Filho de pai médico e de mãe doméstica, era seu avô materno galego (e casado com uma lavradeira da Bairrada) e seu avô paterno roceiro em São Tomé.
Enquanto jovem, foi actor de teatro (TEUC e CITAC) e redactor da revista Vértice, o que lhe permitiu privar de perto com o poeta neo-realista Joaquim Namorado e com poetas da sua geração, como Manuel Alegre e José Carlos de Vasconcelos.
Fonte: Wikipédia