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sexta-feira, 14 de julho de 2017

O Nascimento Vibrante das Palavras.




Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira
com os contornos duros das consoantes
com a clara música das vogais.


Por isso devemos lê-lo ao nível dos seus sons
e apreendê-lo para além do seu sentido
como se ele fosse um fluente felino verde
 ou com a cor do fogo.


O que de vislumbre em vislumbre iremos compreendendo
será a ágil indolência de sucessivas aberturas
em que veremos as labaredas de um outro sentido
tão selvagem e tão preciosamente puro que anulará o sentido das palavras.


É assim que lemos não as palavras já formadas 
mas o seu nascimento vibrante que nas sílabas circula
ao nível físico do seu fluir oceânico.






*  *  *

domingo, 8 de maio de 2016

CRESCENDO NO SILÊNCIO...

...INVENTEI A ALEGRIA.

                                                          
Alexander Sulimov (2010)  DAQUI



Teu Corpo Principia

Dou-te
um nome de água
para que cresças no silêncio.
Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.
Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)
Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.
Silêncio e sol – verdade,
respiração apenas.
Amor, eu sei que vives
num breve país.
Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
 tão delgada.
Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.
Ó maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.
Ó vida perfumada
cantando devagar.
Enleio-me na clara
dança do teu andar.
Por uma água tão pura
vale a pena viver.
Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

António Ramos Rosa, in Estou Vivo e Escrevo Sol (1966)

Reparem no olhar de A.R.R.