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terça-feira, 10 de outubro de 2023

SÓ PORQUE VALE A PENA RELEMBRAR E RECORDÁ-LA NO SEU CENTENÁRIO...

 Não é novidade para ninguém que a Assembleia da República tem sido palco de cenas que, se não fossem cómicas, seriam  trágicas. Desde os corninhos de Manuel Pinto, aos insultos de
André Ventura dirigidos à deputada Ana Gomes, aquando era discutida a obrigatoriedade da vacina contra a Covid 19, de tudo quanto é cena rocambolesca tem por lá passado.  Muitas outras cenas houve, sobre as quais me não debruço pois este post é dedicado à poesia...


Ora, decorria o início da década de oitenta e na AR debatía-se a despenalização do aborto. O então deputado do CDS, João Morgado, argumentou peremptório: "O acto sexual é para ter filhos". 
Oh, Morgado no que te meteste!!
Natália Correia (na altura deputada eleita pelo PPD) subiu à tribuna para responder com um poema no mínimo original... 
Vamos recordá-lo? Ei-lo:

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! - uma vez. 
E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

As gargalhadas obrigaram à interrupção dos trabalhos. 😃



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quinta-feira, 19 de maio de 2022

EM TEMPOS DE GUERRA...FALEMOS DE PAZ.

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Ontem, ao ver na RTP1, um episódio da série "Três Mulheres" que retrata a fase algo conturbada do pós Revolução e dos seus efeitos na vida de Natália Correia, Snu Abecassis e Maria Armanda (Vera Lagoa), lembrei-me de trazer um poema sobre a Paz, escrito pelo furacão feito de fogo e de lava, que foi esta Poetisa. Mulher desempoeirada e sem papas na língua. Falo de Natália Correia, obviamente!

Natália Correia


Ode À Paz


Pela verdade, 

pelo riso, pela luz, pela beleza,

Pelas aves que voam no olhar de uma criança

Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,

Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,

Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,

Pelas flores que esmaltam os campos, 

pelo sossego dos pastos,

Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,

Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,

Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,

Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,

Pelos aromas maduros de suaves outonos,

Pela futura manhã dos grandes transparentes,

Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,

Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas

Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,

Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,

Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,

Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,

Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,

Abre as portas da História,

deixa

passar a Vida!


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💙💛

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quarta-feira, 3 de março de 2021

Poderia Ter Sido Eu....


 ....Mas foi Natália Correia quem escreveu, o texto e o poema.


Acho que a missão da mulher é assombrar, espantar. Se a mulher não espanta... De resto, não é só a mulher, todos os seres humanos têm que deslumbrar os seus semelhantes para serem um acontecimento. 

Temos que ser um acontecimento uns para os outros. Então a pessoa tem que fazer o possível para deslumbrar o seu semelhante, para que a vida seja um motivo de deslumbramento. Chama-se a isso sedução, cumpri aquilo que me era forçoso fazer. 

O meu primeiro contacto com as pessoas é de uma grande afabilidade. Quando as pessoas recusam essa afabilidade, então eu dou-lhes o que elas me pedem: irascibilidade. 

Volto-lhes as costas, irascivelmente, mais nada. 

Se é isso mau génio?...Talvez seja.


Mas eu, suavizo a minha irascibilidade
oferecendo-vos flores.


De amor nada mais resta que um Outubro

e quanto mais amada mais desisto:

Quanto mais tu me despes mais me cubro

e quanto mais me escondo mais me avisto.


E sei que mais te enleio e te deslumbro

porque se mais me ofusco mais existo.

Por dentro me ilumino, sol oculto,

por fora te ajoelho, corpo místico.


Não me acordes. Estou morta na quermesse

dos teus beijos. Etérea, a minha espécie

nem teus zelos amantes a demovem.


Mas quanto mais em nuvem me desfaço

mais de terra e de fogo é o abraço

com que na carne queres reter-me jovem.

* * * 



* * * 

sábado, 12 de dezembro de 2020

Um Soneto Por Semana. # 9

 




Tu pedes-me a noção de ser concreta
Num sorriso num gesto no que abstrai
A minha exactidão em estar repleta
do que mais fica quando de mim vai.

Tu pedes-me uma parcela de certeza
Um desmentido do meu ser virtual
Livre no resultado de pureza
da soma do meu bem e do meu mal.

Deixa-me assim ficar. E tu comigo
sem tempo na viagem de entender
o que persigo quando te persigo.

Deixa-me assim ficar no que consente
a minha alma no gosto de reter-te
essencial. Onde quer que te invente.


Soneto de Natália Correia d'O Livro dos Amantes"
Tela de Alexander Sulimov.



Fotografia minha.

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domingo, 22 de maio de 2016

"Mãos Feridas Na Porta D'um Siilêncio"

Bilhete-postal ilustrado recebido há muito, muito tempo.


Vida que às costas me levas
porque não dás um corpo às tuas trevas?

Porque não dás um som àquela voz
que quer rasgar o teu silêncio em nós?

Porque não dás à pálpebra que pede
aquele olhar que em ti se perde?

Porque não dás vestidos à nudez
que só tu vês?


(Poema de  Natália Correia)



quinta-feira, 17 de abril de 2014

Estranhos Dias Treze.


Imagem da Net.

O NASCIMENTO DO POETA

Ora foi num dia treze
Em seu bíblico lugar de dor
Minha mãe deu por completas
as letras de meu teor

Porque para acabar o mundo
era precisa a minha mão
do azul calafetado
caí nas facas do chão

Machucada de nascida,
da minha sofrida região
pus-me a levantar o mapa
em ponto de exclamação

Assim na câmara escura
de cada privada saliência
meus olhos se revelaram
negativos da ausência

Soube que o tempo é uma luva
antissética que o infinito
calça para joeirar
sem contágio o nosso trigo

daí o amor ser o meio
do homem dividido em dois
e a pior metade é estarmos
à espera de sermos depois

Soube que quando a amargura
nos gasta a pintura aparece
a cor que teriam os olhos
de um deus apócrifo se viesse

não refulgente ou teologal
tampouco suspensa espada
mas ocasional como vestir
uma camisa lavada

porque a vida é a ocupação
do único espaço disponível
para o possível amanhã
da nossa véspera impossível

e o sidéreo, adeus mistério
é um queijo de paciência
para a gulodice da terra
(e não perdi a inocência)

Soube coisas que sabê-las
foi eu ir ficando nua
como no apocalipse uma última
pedra vestida de lua

como no fim do mundo um lírico
verme a recomeçá-lo
a beber estrelas e peixes
pelo seu estreito gargalo

Como eu em amorosa
posição de cana erecta
a pescar no indizível
o sinónimo de poeta
                    Natália Correia, A Mosca Iluminada, 1972


Enquanto saboreiam «O Nascimento do Poeta», ofereço-vos um chocolatinho.
Há-os para todos os gostos. Que ambos vos saibam bem.