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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

HÁ QUE BULIR, PARA MOSTRAR QUE ESTAMOS VIVOS.

CRÓNICA DE NATAL

Todos os anos, por esta altura, quando me pedem que escreva alguma coisa sobre o Natal, reajo de mau modo. «Outra vez, uma história de Natal! Que chatice!» — digo. As pessoas ficam muito chocadas quando eu falo assim. Acham que abuso dos direitos que me são conferidos. Os meus direitos são falar bem, assim como para outros não falar mal.
Uma vez, em Paris, um chauffeur de táxi, desses que se fazem castiços e dizem palavrões para corresponder à fama que têm, aborreceu-me tanto que lhe respondi com palavrões. Ditos em francês, a mim não me impressionavam, mas ele levou muito a mal e ficou amuado. Como se eu pisasse um terreno que não era o meu e cometesse um abuso. Ele era malcriado mas eu - eu era injusta. Cada situação tem a sua justiça própria, e isto é duma complexidade que o código civil não alcança. 

Mas dizia eu: «Outra vez o Natal, e toda essa boa vontade de encomenda!» Ponho-me a percorrer as imagens que são de praxe, anjos trombeteiros, pastores com capotes de burel e meninos pobres do tempo da Revolução Industrial inglesa. Pobres e explorados, mas, entretanto, não excluídos do trato social através dos seus conflitos próprios, como se pode observar nos livros de Dickens. Actualmente as crianças estão mais isoladas dum processo de libertação adequada à sua normalidade. Não há qualquer lógica entre o pensamento que elas sugerem e a acção que lhes é imposta. Mas isto são considerações de Natal? Confessem que preferem uma história, uma coisa leve, talvez um pouco insensata e graciosa. Pois bem, falemos de pastores. 


Um amigo meu passou uns dias na serra da Estrela para se curar duma depressão, uma dessas doenças que são produzidas pela sociedade burocrática onde todos se destroem em boa paz. Cuidou ele que a solidão e a vida rude o haviam de transformar. Mas o sofrimento, que não é disciplina nem necessidade, torna-se em crítica mesquinha. Ele andava pelos montes, com ar de censura e escândalo, perguntando às pessoas como podiam viver sem ir ao teatro e sem comer costelas panadas. Alumiando-se com azeite e deitando-se ao sol-pôr para não o gastar. Sobressaltava-o muito aquela imobilidade da serra com os rebanhos que pareciam pedras e os pastores com o cão de pêlo assanhado. Sentava-se ao lado deles e travava conversa. 
— Olhe lá: você nunca sai daqui? — perguntava. E o pastor respondia: 
— Eu, não senhor. 
— E então, não se aborrece? 
— Eu, não senhor — tornava o homem. 
— Mas não se aborrece mesmo, sempre sozinho, a ver só ovelhas, aqui no cimo da serra? — insistia o meu amigo. 
Então o pastor, apertado naquele inquérito, fez um esforço para compreender a desordem que provocava no espírito do homem da cidade, e disse, apontando, com um ligeiro movimento do queixo, as ovelhas: 
— Ah! Elas às vezes bolem... 
Queria desculpar-se, se o conseguiu ou não, não sei. O meu amigo não andou muito tempo por lá. Deu um jeito a um tornozelo e tiveram que o levar de padiola até à localidade, onde arranjou melhor transporte para o hospital. Disse daquilo cobras e lagartos. Também é preciso ver que não era homem para grandes descobertas. Até acha que as descobertas foram um erro histórico. Mas que tem o Natal a ver com isto? – direis. Descubram. 


Agustina Bessa-Luís, in “Crónica da Manhã”-  Dez 1978 -





quarta-feira, 29 de junho de 2016

«A Complicada Arte de Ver» *

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca".
Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura.

 "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! 
Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Acto banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto.
Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objecto a ser comido, transformou-se em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementares", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e disse-lhe: 

"Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

 (...)

*  Crónica escrita por Rubem Alves  (Excerto)

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"Ode à Cebola"

Cebola
Luminosa redoma
pétala a pétala
cresceu a tua formosura
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra escura
se foi arredondando o teu ventre de orvalho.
Sob a terra
foi o milagre
e quando apareceu
o teu rude caule verde
e nasceram as tuas folhas como espadas na horta,
a terra acumulou o seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar remoto
duplicou a magnólia
levantando os seus seios.
A terra assim te fez
cebola
clara como um planeta
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água,
sobre a mesa das gentes pobres.
Generosa
desfazes
o teu globo de frescura
na consumação
fervente da frigideira
e os estilhaços de cristal
no calor inflamado do azeite
transformam-se em frisadas plumas de ouro.
Também recordarei como fecunda
a tua influência, o amor, na salada
e parece que o céu contribui
dando-te fina forma de granizo
a celebrar a tua claridade picada
sobre os hemisférios de um tomate.
Mas ao alcance das mãos do povo
regada com azeite
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no seu duro caminho.
Estrela dos pobres,
fada madrinha
envolvida em delicado
papel, sais do chão
eterna, intacta, pura
como semente de um astro
e ao cortar-te
a faca na cozinha
sobe a única
lágrima sem pena.
Fizeste-nos chorar sem nos afligir.
Eu tudo o que existe celebrei, cebola
Mas para mim és
mais formosa que uma ave
de penas radiosas
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina
baile imóvel
de nívea anémona
E vive a fragrância da Terra
na tua natureza cristalina.
(Pablo Neruda)

Nota: Ornamentei aquela cebola da foto, na minha mesa de cozinha, sobre o tabuleiro - motivo do meu orgulho, já que foi bordado por mim -, o melhor que pude e soube, de acordo com o poema, mas, por mais que olhe para ela, não consigo ver a tal 'Rosa de Água Com  Escamas de Cristal; a Taça de Platina, o Globo Celeste' ...
...Ah, como é difícil e complicada a Arte de Ver  com olhos de Poeta...Apenas consigo sentir, isso sim, a forte fragrância, que me enche os olhos de água...sem dor nem sofrimento!
E vós? O que vêem os vossos olhos? Quiçá, uma magnólia de seios erguidos?  Digam-me, por favor, o que os vosso olhar poético consegue vislumbrar, para além da simples, crua e nua aparência.
Sei, que há grandes poetas pela vizinhança. Aguardo a vossa colaboração!

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sábado, 23 de abril de 2016

Porque Não Há Livros Sem Escritores...


..Neste Dia Mundial Do Livro, escolhi O Poeta / Dramaturgo / Escritor e médico: Miguel Torga, a quem presto a minha homenagem. 

Creio ser do conhecimento de muitos leitores, que por aqui passam e me favorecem com a gentileza da sua presença, o meu apreço pelo escritor transmontano.






"Ter um Destino é não caber no berço
Onde o corpo nasceu,
É transpor as fronteiras
Uma a uma
E morrer sem nenhuma."



Neste vídeo podemos ver / ler e  ficar a conhecer melhor, todo o percurso
 da vida e obra de Adolfo Correia da Rocha.

O Homem e o Escritor.




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domingo, 17 de abril de 2016

Cegueiras...De Olhos Bem Abertos.

Alan Ford – Trabalho de George Redhawk  
“Estava a sorrir da maneira como sorria sempre, um meio sorriso torto que se costuma ver nas crianças. Havia qualquer coisa tão descontraída nele, qualquer coisa tão não-ameaçadora que, por um breve instante, Sara se perguntou se não teria tirado a conclusão errada.

Um rápido olhar à mão dele, fê-la acordar.
Ele segurava uma comprida faca para desossar…”

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Texto  escolhido e transcrito deste livro, que li recentemente.




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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Coração Tem Razões...


Camilo Castelo Branco abraçado a Ana Plácido.
Obra do escultor Francisco Simões, situada em frente à antiga Cadeia da Relação do Porto,
no Campo Mártires da Pátria, rebaptizado como Largo Amor de Perdição
em homenagem ao escritor.
    
( Imagem da Net)
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Vai sempre avante a paixão
Buscando seu doce fim
Os amantes são assim:
    Todos fogem à razão.
 
 Manuel Maria Barbosa du Bocage
 
( Desbocado, sarcástico, obsceno? Nada disso...ou não só e apenas isso! Barbosa du Bocage também possuía a sua faceta romântica e sensível! Nunca se deixem enganar pelas aparências! ) :)     

 
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terça-feira, 2 de setembro de 2014

UM DELEITE...

 
 

Francine, uma jovem delicada e lindíssima, testemunhou o assassinato da mãe quando tinha apenas sete anos e é desde então sufocada por um pai e uma madrasta obsessivamente protectores.

Teddy, cujos pais foram desde sempre indiferentes à sua existência, é agora um adulto com quase nenhumas competências sociais e com uma inclinação sinistra para usar o assassinato como forma de remover os obstáculos que encontra no caminho.

Harriet, em tempos uma beldade e hoje uma mulher rica, entediada e habituada a usar uma série de homens para sua satisfação sexual, é uma predadora insaciável em busca de constantes atenções.

Finalmente há Júlia, uma psiquiatra com um comportamento obsessivo e manipulador.
 
Por um golpe do destino as suas vidas cruzam-se e interagem num universo, onde a salvação é impossível e a morte uma presença constante!...
 
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Esta escritora tem sido distinguida com inúmeros prémios literários – quer como Ruth Rendell, quer como Barbara Vine, pseudónimo com que assina muitos dos seus trabalhos -, a sua obra está traduzida em vinte e cinco línguas.

 

Se gosta deste estilo literário e ainda não leu este livro com um enredo que nos
"enreda", do princípio ao fim, poderá ter agora a oportunidade de o adquirir:
 

 

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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O Lado Menos Belo, Mas Real, da Poesia.

 
 

Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso da Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena
 
Vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo a voz de mando
do director fatal que lhes ordena
 
Essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena
 
Mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena!
 

Soneto de Fernando Assis Pacheco

                                               

Nota:

Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco (Coimbra, 1 de Fevereiro de 1937Lisboa, 30 de Novembro de 1995) foi um jornalista, crítico, tradutor e escritor português.

Licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, viveu nesta cidade até iniciar o serviço militar, em 1961. Filho de pai médico e de mãe doméstica, era seu avô materno galego (e casado com uma lavradeira da Bairrada) e seu avô paterno roceiro em São Tomé.

Enquanto jovem, foi actor de teatro (TEUC e CITAC) e redactor da revista Vértice, o que lhe permitiu privar de perto com o poeta neo-realista Joaquim Namorado e com poetas da sua geração, como Manuel Alegre e José Carlos de Vasconcelos.

Fonte: Wikipédia