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sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Setembro... Melancólico, Setembro.

 




Sorrateiro 
Chuvoso, 
também soalheiro
Chegou Setembro e partiste tu.

Fosse som de trovão ou clarão de relâmpago
Fosse estalido de porta a fechar-se ou algo em mim a quebrar-se
Qualquer coisa em mim despertou.

Rolaram a meus  pés
Como gotas de água, 
Lágrimas de despedida.

Abruptamente
Secaram as folhas
Daquela árvore frondosa
Que apenas deu fruto no meu pensamento
E agora, 
sem tempo nem hora... secou.





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terça-feira, 10 de agosto de 2021

Sem Princípio Nem Fim.

 



É dentro da noite cerrada 

que eu procuro um farol, uma luz.

Teço sombras, crio asas, adentro no sonho feroz.

 Porém...

 ...Desperto no pesadelo feito de sombras,

carregando a minha sempiterna e pesada cruz.


🕁


terça-feira, 10 de setembro de 2019

Gotas de Orvalho.


Foto Minha - Serpa - Baixo Alentejo

Horário do fim


Morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

Morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento.





Mia Couto  in  "Raiz de Orvalho e outros Poemas"



* * * * * * * * * * * * * * * * * 


quarta-feira, 3 de julho de 2019

ABSOLVIÇÃO.




Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma. 


[Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXI" ]







A quem disse no postal anterior preferir flores, estas flores, de hoje, são-lhe dedicadas,
 com Amizade!

 :)

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sábado, 11 de agosto de 2018

MUITO QUE VER E OUVIR.


Foto minha -  tarde de verão, no Minho - 





No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa…

Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria…

Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão …
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida

E nem repararmos para que há sentidos …
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos…

…E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir. . .


"No Entardecer" – Poema de Alberto Caeiro –
(como toda a gente sabe: heterónimo de Pessoa)








segunda-feira, 9 de abril de 2018

INQUIETAÇÕES DE UM HOMEM COMUM


Poeminha da Negação da Afirmação



Sou um homem bem comum
sem nenhuma aspiração.
Não quero ser general
e muito menos sultão.

Sou moderado de gastos,
de ambição reduzida,
não sonho ser big-shot
estou contente da vida.


Nunca invejei o próximo
nem lhe cobiço a mulher
pego o meu lugar na fila
e seja o que Deus quiser.
Não sou mau pai, nem mau esposo,
Grosseiro nem invejoso
– só um pouco mentiroso.


                                          Saudação Aos Que Vão Ficar 
 

Como será o Brasil
no ano dois mil?
As crianças de hoje,

já velhinhas então,
lembrarão com saudade
deste antigo país,
desta velha cidade?
Que emoção, que saudade,
terá a juventude,
acabada a gravidade?
Respeitarão os papais
cheios de mocidade?




Que diferença haverá
entre o avô e o neto?
Que novas relações e enganos
inventarão entre si
os seres desumanos?
Que lei impedirá,
libertada a molécula
que o homem, cheio de ardor,
atravesse paredes,
buscando seu amor?


Que lei de tráfego impedirá um inquilino
– ante o lugar que vence –
de voar para lugar distante
na casa que não lhe pertence?
Haverá mais lágrimas
ou mais sorrisos?
Mais loucura ou mais juízo?


E o que será loucura?
E o que será juízo?
A propriedade, será um roubo?
O roubo, o que será?
Poderemos crescer todos bonitos?
E o belo não passará então a ser feiura?

Haverá entre os povos uma proibição
de criar pessoas com mais de um metro e oitenta?
Mas a Rússia (vá lá, os Estados Unidos)
não farão às ocultas, homens especiais
que, de repente,
possam duplicar o próprio tamanho?
Quem morará no Brasil,
no ano dois mil?
Que pensará o imbecil
no ano dois mil?

Haverá imbecis?
Militares ou civis?
Que restará a sonhar
para o ano três mil
ao ano dois mil?


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A 28 de Março de 2012, a morte de Millôr Fernandes, escritor/ poeta/humorista e cartoonista, de renome, apanhou o Brasil de surpresa.
Ficou conhecido como o Grande Millôr.
Pouco antes havia falecido outro grande humorista; Chico Anísio,
de quem espero poder trazer aqui alguns dos seus incríveis momentos de humor.
Se a vontade me não esmorecer, espero homenagear, tal como fiz
com o post anterior, alguns dos maiores representantes da vida
 cultural, humorística, musical e  intelectual do país irmão.

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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

E TUDO ERA POSSÍVEL.




Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido


Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido


E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível, era só querer.

Ruy Belo

 Homem de Palavra(s)
Lisboa, Editorial Presença, 1999 


( A fotografia é minha, o poema DAQUI )





*** ~~~ ***

domingo, 10 de setembro de 2017

DAS ESPERANÇAS VÃS.


Foto Minha



V I V E R

Mas era apenas isso, 
era isso, mais nada? 
Era só a batida 
numa porta fechada? 


E ninguém respondendo, 
nenhum gesto de abrir: 
era, sem fechadura, 
uma chave perdida? 



Isso, ou menos que isso 
uma noção de porta, 
o projecto de abri-la 
sem haver outro lado? 



O projecto de escuta 
à procura de som? 
O responder que oferta 
o dom de uma recusa? 



Como viver o mundo 
em termos de esperança? 
E que palavra é essa 
que a vida não alcança? 






Carlos Drummond de Andrade, in "As Impurezas do Branco"




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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O POETA DOS POETAS.


Poeta de um livro só, dado que a sua curta existência não lhe deu tempo para mais, Cesário Verde, nasceu no mesmo dia e mês em que eu nasci.  Talvez seja essa afinidade, que me leva a identificar-me tanto com a sua poesia...:)
Este meu livro é de uma edição bastante antiga das Publicações Europa América, da colecção 'livros de bolso' desta editora. O Prefácio a cargo do crítico literário e seu grande amigo, Silva Pinto, daria tema para um outro livro. Contudo, por razões que desconheço, este poema que agora publico, não o encontro aqui, talvez por pertencer a uma edição posterior, pelo que fiz copy paste da net. Quem fala a verdade...



Eu e Ela

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros
Formando unicamente um coração. 

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