Não
fora este malfadado confinamento que me confinou à tristeza deplorável de ver a
minha aparência ter-se confinado ao aspecto de mulher das cavernas, diria que
pouco, ou quase nada, havia sofrido alteração de maior na minha vida, ao ver-me
confinada às quatro paredes, onde passo a maior parte dos meus dias.
Então, porque raio me lamento e tanto me queixo,
perguntareis vós.
Pois é; se confinada estou, também todo o
país o está, com a devida excepção dos sectores mercantis que têm a
responsabilidade de nos manter vivas. Mas, como nem só de pão vive a
Humanidade, se me olho ao espelho, logo me sinto aterrorizada com a figura que
o espelho me devolve.
O cabelo cresceu, sem ordem nem corte,
eriçado e sem o fascinante brilho de outrora. Readquirido, após muita reflexão
acerca dos benefícios do vinagre de sidra. Pois se foi ele o substituto do álcool
etílico e do gel desinfectante, nos tenebrosos dias de pânico, em que estes desapareceram
do mercado, mercê da desbragada corrida açambarcadora, eliminando ou atenuando,
no mínimo, o medo de tudo quanto é vírus e bactérias, também o seria para me
restituir o antigo vigor e brilho
capilar. E foi!!
Agora, o choque maior e mais doloroso,
sofri-o eu, quando num recente dia de sol, quase veranil, me posto em frente à janela de
espelhinho numa mão e pinça na outra,
pronta para me desfazer dos inestéticos pêlos que me sombreavam o lábio
superior. Aquilo a que vulgarmente, nós,
mulheres, dizemos semanal ou quinzenalmente à cabeleireira sem atentar sequer
no que verdadeiramente se trata:
« Olhe, Dona Clotilde, as unhas ficam para a
próxima semana, hoje é o habitual brushing e, por favor, também o buço.»
Não quis acreditar naquilo que, mais do que
via, sentia, ao tactear, ao de leve, com o dedo indicador…não é que hirtos e
duros, se erguiam uns picos brancos, como espinhos? E, acreditem, caras e caros leitores amigos; foram cardos e
duras prosas o que soltei boca fora.
Eu, se homem tivesse nascido, estaria agora
de barba, ou pera e bigode, quase tão alvos, quanto a neve que
detesto…Aí, fui-me abaixo, desmoronei, sucumbi.
Eis a razão da minha grande melancolia causada
pela maldita pandemia….
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