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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

NABICE POÉTICA. #1

 



Nabo Poético. 

Sem que me tenha apercebido,

Um pequeno nabo ficou esquecido

na gaveta do armário frio

 onde se guardam os alimentos. *

Quando o encontrei,

com espanto me deparei

com uma coroazinha de pequenos rebentos.


Confinada mas não de ideia estagnada

logo a minha mente fervilhante, 

 para o tempo ocupar

engendrou um esquema 

para vários postais publicar.


Agora é só ir olhando

 o desenvolver da folhagem

e sempre que haja uma significativa

 evolução

o irei fotografando para fazer 

a devida exibição.


Boa?

* Frigorífico

🌱

E agora, façam o favor de admirar o meu abacateiro





🍃

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

PréParada.

 Não foi Dona Albertina que me contactou - tomara ela que eu nem me lembrasse - fui eu que decidi não ser apanhada de novo, desprevenida, igual ao que me aconteceu no primeiro confinamento.


Resolvi dizer adeus ao moderno cabelo encaracolado e amadeixado, e assentei arraiais no salão, disposta e preparada para sair de lá pronta a aguentar-me até à Primavera sem me parecer com a mulher das cavernas em que me tornei vai para um ano. (Até a máscara foi um alívio para se não ver o buço basto e farfalhudo- lembram-se?)


Corte à vontade Dona Joana, - ele volta a crescer. Entrementes, fotografava-me e enviava para a minha mana. Em tempo real - rezavam as legendas.



Ele foi o buço, foi mãos, pés, tudo aparado e preparado. Para  mim, para meu próprio contentamento. Já basta ter de ficar em casa a sós comigo mesma, que ao menos ao olhar-me, olhe e goste do que vejo.

A minha mana diz que fiquei mais nova dez anos...Fiquei?







    😀    😀    😀   😀 

domingo, 3 de maio de 2020

CILADAS DA VIDA.



A monotonia destes meus dias, sempre iguais, começaram a pesar-me como um fardo. Eu vou tentando variar as minhas actividades quotidianas, e até o percurso das minhas caminhadas lhes tenho invertido o sentido de ida e volta.

Alterno a superfície comercial onde efectuo as compras de bens alimentares. Numas ocasiões faço-as no mini mercado a poucos metros de minha casa e, noutras, vou a um de nome sobejamente conhecido e não quero publicitar. Ainda assim, entre ida e vinda não faço mais do que meia-dúzia de kms.

Já semeei salsa, transplantei plantas para vasos maiores,  arranquei ervas daninhas do quintal, as viscôdeas ou lá como  chamam, por aqui, às ervas de folha carnuda e arredondada que mais parecem repolhos, e teimam em encher o relvado.

Já ressuscitei livros que jamais pensei reler. Enfim, tenho feito trinta por uma linha. Canso o corpo para descansar a mente, não obstante o meu esforço, sinto a mente e o corpo a recusarem sossego. Vivo, sem saber porquê, num desassossego permanente. Nada que pense sobre hipotéticas alegrias, me alegra. Nada anseio e nada desejo. Até o sono me abandonou.

Contra todas as expectativas, sobre o voltar a ter liberdade de ir e vir, voltar ao salão de estética, alindar um pouco o que já não dá para alindar, mas sempre seria uma refrescada nesta aparência deprimente, me entusiasma. Será isto o fim? A velhice a tomar conta do espírito, que sempre se recusou  acompanhar a do corpo? –  Não sei. Não sei mesmo.

O que sei é que quando hoje ouvi o arauto proclamar a ligeira abertura do confinamento, concedendo-nos a benesse de voltarmos a ser viventes do século XXI, fiquei impávida e serena. Não tugi nem mugi. Não me aquentou nem arrefentou. Acho que aquela frase já batida de se nadar desesperadamente para acabar vindo morrer na praia, tomou forma em mim.

Que não venha a correr nenhum nadador-salvador, fazer-me respiração boca-a-boca, tentando reanimar-me. O meu corpo recusa ser oxigenado, adaptou-se à apatia amorfa dos dias e anos perdidos e só anseia por dez horas de um bom sono reparador, de preferência sem sonhos. 

Só depois verei, se o mundo mudou ou se fui eu que mudei...






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segunda-feira, 27 de abril de 2020

PANDE_MÓNIO.



Não fora este malfadado confinamento que me confinou à tristeza deplorável de ver a minha aparência ter-se confinado ao aspecto de mulher das cavernas, diria que pouco, ou quase nada, havia sofrido alteração de maior na minha vida, ao ver-me confinada às quatro paredes, onde passo a maior parte dos meus dias.
Então, porque raio me lamento e tanto me queixo, perguntareis vós.

Pois é; se confinada estou, também todo o país o está, com a devida excepção dos sectores mercantis que têm a responsabilidade de nos manter vivas. Mas, como nem só de pão vive a Humanidade, se me olho ao espelho, logo me sinto aterrorizada com a figura que o espelho me devolve.

O cabelo cresceu, sem ordem nem corte, eriçado e sem o fascinante brilho de outrora. Readquirido, após muita reflexão acerca dos benefícios do vinagre de sidra. Pois se foi ele o substituto do álcool etílico e do gel desinfectante, nos tenebrosos dias de pânico, em que estes desapareceram do mercado, mercê da desbragada corrida açambarcadora, eliminando ou atenuando, no mínimo, o medo de tudo quanto é vírus e bactérias, também o seria para me restituir o antigo vigor e  brilho capilar. E foi!!

Agora, o choque maior e mais doloroso, sofri-o eu, quando num recente dia de sol,  quase veranil, me posto em frente à janela de espelhinho numa mão e pinça na outra, pronta para me desfazer dos inestéticos pêlos que me sombreavam o lábio superior.  Aquilo a que vulgarmente, nós, mulheres, dizemos semanal ou quinzenalmente à cabeleireira sem atentar sequer no que verdadeiramente se trata:

 « Olhe, Dona Clotilde, as unhas ficam para a próxima semana, hoje é o habitual brushing e, por favor, também o buço.»

Não quis acreditar naquilo que, mais do que via, sentia, ao tactear, ao de leve, com o dedo indicador…não é que hirtos e duros, se erguiam uns picos brancos, como espinhos? E, acreditem,  caras e caros leitores amigos; foram cardos e duras prosas o que soltei boca fora. 
Eu, se homem tivesse nascido, estaria agora de barba, ou pera e bigode, quase tão alvos, quanto a neve que detesto…Aí, fui-me abaixo, desmoronei, sucumbi.

Eis a razão da minha grande melancolia causada pela maldita pandemia….                                     

                                                             
                                                                         
  

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