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domingo, 17 de novembro de 2019

São das Pequenas Coisas Que Se Constrói Uma Vida.


"Título sugestivo. Mas pela experiência que as minha leituras
de G.G. Marquez, já me conferiram,
 este será 'mais' um bom e delirante livro

de pequenas situações, porque afinal,
são das pequenas coisas

que se faz uma vida."




Escreveu esta dedicatória num livro do autor referido acima, e me foi oferecido num Natal já distante, o meu filho, então estudante  na Universidade do Minho.

Foi sendo a sua vida construída aos poucos, feita de pequenos/grandes sucessos e algumas frustrações, mas, mercê da sua força de vontade, persistência e determinação - a tal resiliência, hoje tão em voga - conseguiu alcançar  os seus objectivos pessoais e profissionais. Não foi fácil, sofreu reveses, mas a luta tornou-o mais forte.

Quando eu, hoje, ao tentar colocar alguma ordem na desordem em que convivem livros já lidos e relidos, com outros meio-lidos ou ainda por ler, encontrei esta preciosidade, já de folhas amarelecidas pelo tempo. 
Comovi-me com a lembrança desse Natal distante, em que as esperanças dos meus filhos em alcançar os seus objectivos, eram as minhas esperanças, e a sua luta era a minha luta.

Comovi-me também com a desventura da pobre e jovem Cândida Erêndira - que continuou a correr, com o colete de ouro, mais além dos ventos áridos do deserto e dos entardeceres de nunca acabar. Jamais se voltou a ter a menor notícia dela nem se encontrou o vestígio mais ínfimo da sua desgraça. 

Tampouco por aqui se encontrará. Talvez, um dia, quando os meus descendentes forem remexer nas caixas empoeiradas, cheias de velhos livros, no sótão, encontrem, feita em pó, cinza e nada, a Velha e Desalmada Avó, que deu origem à Incrível e Triste História
escrita pelo autor de «Cem Anos de Solidão.».




quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Com Sabor e Aroma de Goiaba.



(…)

 " -- O amarelo é para ti uma cor de sorte?
  -- O amarelo sim, mas não o ouro, nem a cor do ouro. Para mim o ouro identifica-se com a merda. No meu caso, é uma repulsa à merda, segundo me disse um psicanalista. Desde criança.
  -- Em “Cem Anos de Solidão”, uma personagem compara o ouro com a caca de cão.
  -- Sim, quando José Arcadio Buendía descobre a fórmula para transmutar os metais em ouro e mostra ao filho o resultado da sua experiência, este diz: «Parece merda de cão».
  -- De maneira que nunca usas ouro.
  -- Nunca. Nem pulseira, nem cordão, nem relógio, nem anel de ouro. Também não verás em minha casa nenhum objecto que tenha ouro.
-- Tu e eu aprendemos na Venezuela uma coisa que nos serviu de muito na vida: a relação que existe entre o mau-gosto e a má-sorte. A «pava», como chamam os venezuelanos a este efeito maléfico que podem ter certos objectos, atitudes ou pessoas de gosto rebuscado.
  -- É uma extraordinária defesa que o bom sentido popular levantou na Venezuela contra a explosão de mau-gosto dos novos ricos.
  -- Fizeste, creio, uma lista completa de objectos e coisas que têm «pava». Lembras-te agora de algumas?
  -- Bem, há as óbvias, as elementares. Os caracóis atrás da porta…
  -- Os aquários dentro das casas…
  -- As flores de plástico, os perus reais, as mantilhas de Manila…a lista é muito grande."

    (…)



Nota: Este é um pequeno excerto de uma longa conversa entre o escritor e jornalista Plinio Apuleyo Mendoza e o seu velho amigo Gabo. Daí, nasceu este livro cheio de surpresas e encantos, escrito a quatro mãos, por assim dizer, onde Gabriel García Marquez, através de uma conversa informal, desfia com vivacidade as suas lembranças, opiniões e convicções. "O Aroma da Goiaba", está comigo há bastante tempo mas, hoje, sem contar, saltou de novo para as minhas mãos e, claro, trago-o, aqui, para compartilhar convosco um pouco da sua riqueza e, quem sabe, aguçar-lhes o apetite. Para quem ainda o não leu, não deve ser  difícil encontrá-lo, por aí, numa livraria perto de si! :)





Em Barcelona, com o escritor  Mário Vargas Llosa, Julio Cortázar e Carlos Barral, em 1970





Mesmo para aqueles que não apreciam doce de goiaba, recomendo vivamente a leitura deste livro recheado de interessantes fotos em momentos vividos pelo escritor colombiano, agraciado com o Prémio Nobel da Literatura em 1982.


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domingo, 13 de março de 2016

" Morte Constante Para Além do Amor ".

Tela de  Serge Marshennikov


Ao senador Onésimo Sánchez faltavam-lhe seis meses e onze dias para morrer quando encontrou a mulher da sua vida.
Conheceu-a no Rosal del Virrey, uma povoaçãozinha ilusória, que de noite era um abrigo furtivo para os navios de longo curso dos contrabandistas. Até o seu nome parecia uma zombaria, pois a única rosa que se viu naquela povoação levou-a o próprio senador, na mesma tarde em que conheceu Laura Farina.

Desde que conheceu o senador Onésimo Sánchez, na primeira campanha eleitoral, Nelson Farina tinha suplicado a sua ajuda para obter um falso bilhete que o pusesse a salvo da justiça. O senador, amável mas firme, tinha-lho negado.
Nelson Farina não desistiu durante vários anos, e cada vez que se lhe proporcionava uma ocasião repetia a diligência com uma petição diferente. Mas recebeu sempre a mesma resposta. De maneira que daquela vez deixou-se ficar na rede, condenado a deixar-se apodrecer vivo naquela ardente guarida de corsários. Cuspiu o seu rancor:

   - Merde – disse -   c’est le Blacaman de la politique.

   Depois do discurso, como de costume, o senador deu um passeio pelas ruas da povoação. Uma mulher encarrapitada no telhado de uma casa, entre os seus seis filhos menores, conseguiu fazer-se ouvir por cima do alvoroço.

   - Eu não peço muito, senador – disse – a não ser um burro para trazer água do Poço do Enforcado.
   O senador observou as seis crianças esquálidas.
    - Que é que aconteceu ao teu marido? – perguntou.
    - Foi procurar destino na ilha de Aruba – respondeu a mulher, bem-disposta – e o que encontrou foi uma forasteira daquelas que põem diamantes nos dentes.
    A resposta provocou um estrondo de gargalhadas.
   - Está bem – decidiu o senador – terás o teu burro.
   Pouco depois, um ajudante levou a casa da mulher um burro de carga, nas costas do qual tinham escrito com pintura eterna um manifesto eleitoral, para que ninguém se esquecesse de que era uma dádiva do senador.

  Na última esquina, por entre as estacas do pátio, viu Nelson Farina na rede e pareceu-lhe cinzento e murcho, mas cumprimentou-o sem afecto:
   - Como está?
   Nelson Farina virou-se na rede e deixou-o ensopado no âmbar triste do seu olhar.
   -  Moi, vous savez – disse.
   A sua filha apareceu no pátio ao ouvir a troca de palavras. Trazia vestida uma bata cubana vulgar e usada e tinha a cabeça enfeitada com laços de fitas. Mesmo naquele estado de negligência era possível imaginar que não havia outra mais bela no mundo. O senador ficou sem alento.
   - Porra – suspirou assombrado – as tolices que Deus se lembra!

   Nessa noite Nelson Farina vestiu a filha com as suas melhores roupas e mandou-a ao senador. Dois guardas armados de rifles, que cabeceavam de calor na casa emprestada, mandaram-na esperar na única cadeira do vestíbulo.
   O senador estava no quarto contíguo, reunido com os principais do Rosal del Virrey. Tinha a camisa ensopada de suor e tentava secá-la sobre o corpo com a brisa quente do ventilador eléctrico, que zumbia como um moscardo na modorra do quarto.
     Enquanto falava, o senador tinha arrancado um cromo do calendário e tinha feito com as mãos uma borboleta de papel. Pô-la na corrente do ventilador, sem nenhuma intenção, e a borboleta revoluteou dentro do quarto e depois saiu pela porta entreaberta.

   Laura Farina viu sair a borboleta de papel. Depois de ter dado várias voltas, a enorme borboleta litografada desdobrou-se completamente, esborrachou-se contra a parede e ali ficou pegada. Laura tentou arrancá-la com as unhas e um dos guardas reparou na sua tentativa inútil.
   -- Não se pode arrancar – disse entre sonhos – está pintada na parede!

     Laura voltou a sentar-se quando começaram a sair os homens da reunião.
O senador permaneceu na porta do quarto com a mão na aldraba e só reparou em Laura quando o vestíbulo ficou desocupado.

   - Que fazes aqui?
   - C’est de la part de mon père – disse ela.

  O senador compreendeu. Observou atentamente Laura Farina, cuja beleza inverosímil era mais imperiosa que a sua dor, e então decidiu que a morte decidisse por ele.
  - Entra – disse-lhe.
  Laura ficou maravilhada na porta do quarto: milhares de notas de banco flutuavam no ar, esvoaçando como a borboleta. Mas o senador apagou o ventilador, e as notas ficaram sem ar, e pousaram-se sobre as coisas do quarto.

   - Já vês – sorriu – até a merda voa.

   O senador sentou-se numa cama de campanha falando de rosas, enquanto desabotoava a camisa. Atirou para o chão a camisa molhada e pediu a Laura que o ajudasse a tirar as botas.
   Ela ajoelhou-se diante do catre. O senador continuou a estudá-la, pensativo, e, enquanto lhe desapertava os atacadores, perguntou-se para qual dos dois seria a má sorte daquele encontro.

   - És uma criança – disse.
   - Não acredite – disse ela – vou completar dezanove em Abril.
   O senador interessou-se.
    - Em que dia?
    - A onze – disse ela.
    O senador sentiu-se melhor.
   - Somos Aries – e acrescentou sorrindo: - É o signo da solidão.

   Laura não lhe prestou atenção, pois não sabia o que fazer com as botas. O senador, por seu lado, não sabia o que fazer com Laura, porque não estava habituado aos amores imprevistos, e, além disso, estava consciente de que aquele tinha origem na indignidade.
   Só para ganhar tempo para pensar, prendeu Laura entre os joelhos, abraçou-a pela cintura e estendeu-se de costas no catre. Então compreendeu que ela estava nua por baixo do vestido, porque o corpo exalou uma fragrância obscura de animal de monte, mas tinha o coração assustado e a pele aturdida por um suor glacial.

   - Ninguém gosta de nós – suspirou ele.

   Deitou-a a seu lado, para a ajudar, apagou a luz e o aposento ficou na penumbra da rosa. Ela abandonou-se à misericórdia do seu destino. O senador acariciou-a lentamente, procurou-a com a mão, mal lhe tocando, mas onde esperava encontrá-la topou com um estorvo de ferro.

   - Que tens aí?
   - Um aloquete – disse ela.
   - Que disparate! – Disse ele, furioso, e perguntou o que sabia de sobra: - Onde está a chave?

  Laura Farina respirou, aliviada.
  - Tem-na o meu pai – respondeu – Disse-me que lhe dissesse a si que a mande buscar por um mensageiro e que lhe mande com ele uma promessa escrita de que lhe vai resolver a situação.
   O senador pôs-se tenso. «Francesote cabrão», murmurou, indignado. Depois cerrou os olhos para relaxar-se e encontrou-se consigo próprio na obscuridade.

Recorda – lembrou – que sejas tu ou outro qualquer, estarás morto dentro de um tempo muito breve e que pouco depois não restará de vós, nem o nome.
Esperou que passasse o calafrio.

   - Diz-me uma coisa – perguntou então – o que ouviste dizer de mim?
   - A verdade, verdadinha?
   - A verdade, verdadinha.
   - Bem – atreveu-se Laura farina – dizem que o senhor é pior do que os outros, porque é diferente.
   O senador não se perturbou. Manteve um silêncio grande, com os olhos fechados, e quando voltou a abri-los parecia regressar dos seus instintos mais recônditos.

   - Que merda! – decidiu – diz ao cabrão do teu pai que lhe vou resolver o assunto.
   - Se quer, vou eu mesma buscar a chave – disse Laura Farina.
   O senador reteve-a.
   - Esquece a chave – disse – e dorme um bocado comigo. É bom estar com alguém quando se está só.

     Então ela deitou-o no seu ombro. O senador abraçou-a pela cintura, escondeu a cara na sua axila de animal de monte e sucumbiu ao terror. 

Seis meses e onze dias depois havia de morrer nessa mesma posição, pervertido e repudiado pelo escândalo público de Laura Farina e chorando com a raiva de morrer sem ela.



Conto de Gabriel García Márquez - transcrito de uma colectânea composta por sete contos, um dos quais já aqui publicado no ano passado.



terça-feira, 8 de setembro de 2015

A IMPORTÂNCIA DE POSSUIR UMA IDENTIDADE ( II )


"O Afogado Mais Formoso do Mundo"


Era verdade! À maioria bastou olhá-lo outra vez para compreenderem que não podia ter outro nome.
As mais obstinadas, que eram as mais jovens, mantiveram-se com a ilusão de que, depois de lhe vestirem a roupa, estendido entre flores e com uns sapatos de polimento, poderia chamar-se Lautaro. Mas foi uma ilusão vã.
Depois da meia-noite tornaram-se mais finos os assobios do vento e o mar caiu na modorra da quarta-feira. O silêncio acabou com as últimas dúvidas: Era Esteban!
Mais tarde, quando lhe taparam a cara com um lenço, para que a luz não o incomodasse, viram-no tão morto para sempre, tão parecido com os seus homens, que se lhes abriram as primeiras gretas de lágrimas no coração. Foi uma das mais jovens a que começou a soluçar, As outras, encorajando-se entre si, passaram dos suspiros aos lamentos e quanto mais soluçavam mais desejos sentiam de chorar, porque o afogado se lhes ia tornando cada vez mais Esteban, até que o choraram tanto que foi o homem mais desamparado da Terra, o mais manso e o mais diligente, o pobre Esteban.
De tal maneira que, quando os homens voltaram com a notícia de que o afogado também não era das povoações vizinhas, elas sentiram um espaço de júbilo, entre as lágrimas.

- Bendito seja Deus – suspiraram – É nosso!

Os homens convenceram-se de que aqueles espaventos não passavam de frivolidades de mulher. Mas, quanto mais se apressavam, de mais coisas se lembravam as mulheres para perder o tempo. Andavam como galinhas assustadas, espiolhando amuletos de mar nos arcazes, umas estorvando aqui porque queriam pôr ao afogado os escapulários do bom vento, outras estorvando ali para lhe porem uma pulseira de orientação, e, ao cabo de tanto tira-te daí mulher, põe-te onde não estorves, olha que quase me fazes cais sobre o defunto, aos homens subiram-lhes ao fígado as suspicácias e começaram a resmungar qual seria o objectivo de tanta ferraria de altar-mor para um forasteiro, que por mais caldeirinhas que levasse com ele iam mastigá-lo os tubarões.
Uma das mulheres, mortificada por tanta insensibilidade, tirou então o lenço da cara do cadáver, e também os homens ficaram sem respiração.
Era Esteban!
Não foi preciso repeti-lo para que o reconhecessem. Se lhes tivessem dito Sir Walter Raleigh, porventura, até eles se teriam impressionado com o seu acento de gringo, com o seu papagaio no ombro, com o seu arcabuz de matar canibais, mas Esteban só podia ser um no mundo, e ali estava estendido como um sável, sem botins, com uma unhas cascalhosas que só podiam cortar-se à faca. 

Havia tanta verdade na sua maneira de estar que até os homens mais desconfiados, os que achavam amargas as minuciosas noites no mar, estremeceram até à medula com a sinceridade de Esteban.
Foi por isso que lhe fizeram os funerais mais esplêndidos que podiam conceber-se para um afogado enjeitado.
Largaram-no sem âncora, para que voltasse, se quisesse e quando o quisesse, e todos retiveram a respiração durante a fracção de séculos que demorou a queda do corpo até ao abismo.

Não tiveram necessidade de olhar-se uns aos outros para se aperceberem de que já não estavam completos, nem voltariam a está-lo jamais. Mas também sabiam que tudo seria diferente a partir desse momento, porque eles iam pintar as fachadas das casas com cores alegres e semear flores nos despenhadeiros, para eternizar a memória de Esteban, e que nos amanheceres dos anos vindouros os passageiros dos grandes navios acordassem sufocados por um cheiro de jardins no alto-mar.

O Capitão teria de descer do seu castelo de popa, com o seu astrolábio, a sua estrela polar e a sua fileira de medalhas de guerra, e, apontando para o promontório de flores no horizonte do Caribe, dissesse, em catorze idiomas: -

- Olhem para ali, de onde o vento é agora tão manso que fica a dormir debaixo das camas, ali, onde o Sol brilha tanto que os girassóis não sabem para que lado girar, sim, ali, é a povoação de Esteban!

FIM 

FOTO MINHA


NOTA: A identidade do afogado, desconhecido, ficou completa, quando, para além de lhe darem um nome próprio, deixou de ser apátrida, sem família, sem terra e sem amigos! Digo eu.

Será que esta história é tão inverosímil quanto, no início, nos pareceu? Nos tempos actuais é caso para pensar...

Obrigada a todos/as,  pela  paciência e gentileza de ler e comentar.

Abraço meu!!






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domingo, 6 de setembro de 2015

A IMPORTÂNCIA DE POSSUIR UMA IDENTIDADE!... ( I )



"O Afogado Mais Formoso do Mundo"

As primeiras crianças que viram o promontório obscuro e sigiloso que se aproximava pelo mar tiveram a ilusão que era um barco inimigo.
 Depois viram que não levava bandeiras nem mastreação e pensaram que fosse uma baleia. Mas, quando ficou varado na praia, tiraram-lhe os matagais de sargaços, os filamentos de medusas e os restos de cardumes e naufrágios que trazia em cima, e só então descobriram que era um afogado.
Tinham brincado com ele toda a tarde, enterrando-o e desenterrando-o na areia, quando alguém os viu por acaso e deu a voz de alarme na povoação.
Os homens que com ele carregaram até à casa mais próxima notaram que pesava mais que todos os mortos conhecidos, quase tanto como um cavalo, e convenceram-se que talvez tivesse estado demasiado tempo à deriva e a água se lhe tivesse metido dentro dos ossos.

Quando o estenderam no chão viram que tinha sido muito maior que todos os homens, pois mal cabia na casa, mas pensaram que talvez a faculdade de continuar a crescer depois da morte estivesse na natureza de certos afogados.
Tinha o cheiro do mar e só a forma permitia supor que era o cadáver de um ser humano, porque a sua pele estava revestida de uma couraça de rémora e de lodo.
Não precisaram de limpar-lhe a cara para saber que era um morto alheio.
A povoação tinha apenas umas vinte casas de tábuas, com pátios de pedras sem flores, dispersas no extremo de um cabo desértico. A terra era tão escassa que as mães andavam sempre com o temor de que o vento levasse as crianças, e os poucos mortos que lhes iam causando os anos tinham de atirá-los nos despenhadeiros.

Mas o mar era manso e pródigo e todos os homens cabiam em sete botes. Por isso, quando encontraram o afogado, bastou-lhes olharem-se uns aos outros para perceberem que estavam completos.
Naquela noite não saíram para trabalhar no mar. Enquanto os homens averiguavam se não faltava alguém nas povoações vizinhas, as mulheres ficaram a tratar do afogado.
Tiraram-lhe o lodo com tampões de esparto, desenredaram-lhe do cabelo os abrolhos submarinos e rasparam-lhe a rémora com ferros de escamar peixe. À  medida que o faziam, notaram que a sua vegetação era de oceanos remotos e de águas profundas e que as suas roupas estavam em farrapos, como se tivesse navegado por entre labirintos de corais.
Notaram também que suportava a morte com altivez, pois não tinha o aspecto solitário dos outros afogados do mar, nem tão-pouco a catadura sórdida e indigente dos afogados fluviais. Mas só quando acabaram de o limpar tiveram consciência da espécie de homem que era, e então ficaram sem alento.

Não somente era o mais alto, o mais forte, o mais viril e o melhor armado que jamais tinham visto, como ainda, apesar de o estarem a ver, não lhes cabia na imaginação.
Fascinadas pela sua desproporção e formosura, as mulheres decidiram então fazer-lhe umas calças com um bom pedaço de vela carangueja e uma camisa de cambraia de noiva, para que pudesse continuar a sua morte com dignidade. 
Enquanto cosiam, sentadas em círculo, contemplando o cadáver entre dois alinhavos, parecia-lhes que o vento não tinha sido nunca tão tenaz, nem o Caribe tinha estado nunca tão ansioso como naquela noite, e supunham que essas mudanças tinham alguma coisa a ver com o morto.
Pensavam que, se aquele homem magnífico tivesse vivido na povoação, a sua casa teria tido as portas mais largas, o tecto mais alto, o sobrado mais firme e a armação da sua cama teria sido feita de cavernas mestras com pernos de ferro e a sua mulher teria sido a mais feliz.

Compararam-no, em segredo, com os seus próprios homens, pensando que não seriam capazes de fazer em toda uma vida o que aquele era capaz de fazer numa noite, e terminaram por repudia-los no fundo dos seus corações, como os seres mais esquálidos e mesquinhos da Terra.
Andavam extraviadas por esses dédalos de fantasia, quando a mais velha das mulheres, que por ser a mais velha tinha contemplado o afogado com menos paixão do que compaixão, suspirou:

 -  Tem cara de chamar-se Esteban!...

(Continua...)


NOTA: Transcrevi este conto, de Gabriel García Marquez, de uma colectânia de sete, do qual publico a foto da contracapa e a página onde se pode ler o título do referido conto. A capa é de um outro conto, cujo título e foto já aqui referi em tempos.
Não me reconhecendo possuir conhecimentos literários, nem académicos, para fazer uma análise acerca da verosimilhança ou inverosimilhança deste conto, ainda assim, atrevi-me a concluir que o facto de se dar um nome a alguém, desconhecido, o torna mais próximo, mais nosso...mais querido! Daí, o título que dei a este post.
Espero que vos agrade, e, no final, gostaria de saber a vossa opinião, tendo a certeza de que será muito mais abalizada do que a minha!

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