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terça-feira, 30 de abril de 2024

TERÇAS-FEIRAS MUSICAIS.

 


Chico Buarque de Holanda
Geny e o Zepelim





De tudo que é nego torto
Do mangue, do cais, do porto
Ela já foi namorada

O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada

Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato

É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato

E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir

Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir.

Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim

Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim

A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia

Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: Mudei de idéia

Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniquidade
Resolvi tudo explodir

Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir

Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de facto, logo ela
Tão coitada, tão singela
Cativara o forasteiro

O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela prisioneiro

Acontece que a donzela
E isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos

E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos

Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão

O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco

Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco

Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado.

E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado

Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir

Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir

Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni...




sábado, 29 de setembro de 2018

"FALAM ESTÁTUAS DE HERÓIS:"


Ó raça triste, ó raça espúria
De miseráveis sem valor
Sob o azorrague e sob a injúria
É de comédia a vossa fúria
É de entremez a vossa dor.

Que admira que uma pantera
De garras d’aço e olhar sombrio
Coma, num bom jantar de fera,
Um povo podre, que tolera
Os dentes maus dum cão vadio?!

Pois esse povo agonizante
Quando revive para a História
E vai, frenético e radiante,
Saudar a estátua do gigante
Cantor da sua eterna glória.

E ousais falar, bocas impuras
Em glória, em honra, em Pátria, em Deus!
E ousais erguer das sepulturas
Nossas hercúleas armaduras
Chatins! Chatins! Pigmeus! Pigmeus!

(…)

Vede lá, pois, corvos funéreos
Que orgia opípara de rei!
Goelas sinistras de Tibérios
Roucos glutões de cemitérios
Comei! Comei! Comei! Comei!

O garfo e a faca, o dente e a presa
Cravai, cravai nesse festim
Comei, limpai de todo a mesa
Que nem suspeita d’impureza
Dessas carcaças reste, enfim!

 E por padrões assinalados
De tantas glórias imortais,
Basta que o ferro dos arados
Encontre um dia entre os silvados
Blocos dos nossos pedestais!

***

Excerto de um poema, que transcrevi do livro:
"Horas de Luta", de Guerra Junqueiro.

Edição  LELLO & IRMÃO - Editores -  Porto - 1973.

Pág. 61 à 65