Se
costuma rir e fazer rir então tem vantagens na sua vida profissional e social
bem como no seu bem-estar em geral. Há estudos que indicam que quem aprecia o
“non-sense”, o humor desconcertante…tem mais 30% de probabilidades de ser feliz
do que o comum dos mortais.
Geralmente
rimos acompanhados. O riso torna-nos mais abertos e mais dispostos a partilhar
informação e emoções, refere um estudo da University College de Londres.
Rimo-nos
porque achamos graça, para afastar a tensão, para afastar situações
embaraçosas. Rimo-nos porque os outros se estão a rir. Não é intuitivo, mas a
origem do riso é alimentação. Sentimo-nos bem quando rimos e sentimo-nos bem
quando comemos.
Rir
é sentir-se bem. Por isso, o riso é uma estratégia comunicacional eficaz para
aligeirar o ambiente, para aproximar as pessoas. Rindo, o mundo torna-se mais
amigável, menos ameaçador, mais interessante.
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Os parágrafos atrás, são pequenos excertos
de uma crónica escrita pelo professor universitário Fernando Ilharco, no
suplemento do Correio da Manhã de Domingo passado. Como sou uma grande adepta
do riso, sou até uma das poucas pessoas à face da terra que sabe rir de si
mesma, resolvi partilhar convosco um dos meus momentos de riso familiar…Apesar de não ter ficado
nada favorecida. :))
Meus Amigos, riam. Riam muito. Esqueçam azedumes, ódios
políticos ou pessoais, fracassos sentimentais. Riam para os outros e não dos
outros. Riam saudavelmente. Escolham ser FELIZES…porque, ao contrário do que se
diz para aí…rir não faz rugas, não senhoras/es!!!...
DAQUI Completamente diferente da imagem que ilustra a Crónica citada.
Escreve Afonso Cruz*, na sua Crónica Ilustrada com o título:
“Cantar como se rezasse”, na revista Notícias Magazine de domingo passado:
Na revista Ilustração
Portuguesa, de janeiro de 1931, podemos ler a seguinte declaração de Alfredo
Marceneiro:
«O meu maior desgosto em 1930 é um desgosto profissional…O
gramofone veio industrializar o fado. Que vergonha! O fado não se deve nem se
devia vender. Eu canto o fado como se rezasse. Mas veio o senhor Menano e a
Maria Alice, começaram a ganhar dinheiro, e o fado tornou-se mercadoria. Que
vergonha! Eu canto porque a minha alma mo ordena. E o que mais ambicionava para
1931 é que fossem proibidas as especulações. “É que eu sou um fadista trágico!»
Evidentemente, a tecnologia, a gravação,
permitiu mais facilmente comercializar o fado, mas não retirou a nenhum fadista
a possibilidade de cantar porque a alma lho ordena. E uns, sem prejuízo para
alma, podem até ganhar dinheiro com isso, não com o objetivo do lucro, mas como
consequência, enquanto outros, pelo contrário, podem pensar no fado como uma
profissão ou mera ferramenta para ganhar dinheiro. São opções que não afetam o
fado de Marceneiro. O dinheiro que uns recebem não altera a autenticidade dos
outros, assim como um escritor comercial não diminui nenhuma das obras de
Dostoiévski (que, por sinal, chegou a escrever apenas para ganhar dinheiro,
para sobreviver).
Cremos muitas vezes que o mundo perde
significado com a tecnologia, com a globalização (com razão, em alguns casos).
Mas ouço muitas vezes o discurso de que já nada tem valor: a viagem perdeu o
interesse porque as pessoas levantam voo e pousam do outro lado do mundo, os
ilustradores agora fazem tudo em computador, etc. O raciocínio é, além de
demasiado conservador, estranho. É como desejar acender um cigarro com pedras
de sílex. Nesse tempo é que era.
(…)**
Ninguém nos impede de sermos mais ou menos
medievais no nosso comportamento. A tecnologia não nos retirou essas possibilidades,
apenas nos deu mais liberdade – (de
escolha, acrescentaria eu) - . Agora podemos decidir se queremos viajar de
burro ou de avião.
E graças ao gramofone que, segundo
Marceneiro, industrializou o fado, é-nos possível hoje em dia ouvi-lo cantar
como se rezasse.
* Escritor
** Permiti-me omitir alguns parágrafos que, não alterando nem
diminuindo a ideia daquilo que foi escrito, encurta consideravelmente o texto,
evitando uma leitura, quiçá, mais cansativa para quem por aqui passar e se dispuser
a ler.
Gostaria
de saber a vossa opinião. Acham que o avanço da tecnologia alterou desfavoravelmente
a vida das pessoas ou há hoje o livre arbítrio de cada um viver consoante lhe aprouver:
Desfrutando dos benefícios e recusando o que lhe parecer negativo…Será que é
assim tão fácil a opção?
“Quando vou a escolas as crianças fazem
muitas perguntas, mas, por vezes, com uma audiência adulta, ninguém quer intervir.
Perguntar é uma exibição de ignorância e há alguma vergonha em fazê-lo, uma
espécie de pudor, porque as dúvidas despem-nos: de repente estamos publicamente
a mostrar a nossa nudez intelectual.
Mas nem todos crescem assim. Temos bons
exemplos ao longo da História: Sócrates fazia das perguntas o esteio dos seus
diálogos, e, claro, não temia confessar a sua ignorância.
Os japoneses têm um ditado curioso a esse
respeito: “Perguntar pode envergonhar-nos durante um momento, mas ficar calado,
num silêncio ignorante, é uma vida inteira de vergonha”.
Da próxima vez que usarmos a palavra “didáctico”
no “mau sentido”, talvez seja altura de olhar para dentro e tentar perceber
onde é que enterrámos a criança que já fomos.”
Quando, hoje, li esta crónica do escritor Afonso Cruz, colaborador na Revista NM do JN, da qual transcrevo este curto excerto, abri um sorriso rasgado de orelha a orelha. Até pensei cá com os meus botões: isto veio cair como sopa no mel. E senti dentro do peito um secreto regozijo.
Ah...aquele lado mauzinho que guardamos em nós - todos os que ainda não enterrámos a criança que um dia fomos. :)
Eu explico melhor: - há dias comentei aí num conceituado blog, usando uma palavra repetida referindo-a no plural, mas com apóstrofe. Como todo o comentário era escrito em tom de brincadeira, nem sequer me perguntei se estaria certa ou errada, no que ao escrever em bom português concerne.
De pronto se levantou a sábia voz de um assíduo comentador daquele espaço que, assobiando para o lado, me (?) fez saber que o plural era manifestamente inadequado.
Ao invés de ignorar a resposta - coisa própria de gente crescida - retorqui com uma pergunta à qual respondeu um outro comentador. Que não, não era no plural que estava o erro havia sido nessa apóstrofe, não no plural em si... Qual criança que não se inibe em manifestar a sua ignorância lá voltei à carga perguntando ao outro: então diga-me lá como deveria expressar-me, s.f.f. A resposta veio pronta, inequívoca e prazerosa, porém, a reboque, veio a prova provada de quem tem sempre razão e nunca se engana...Foi uma pena, ah...que pena tive! Ninguém percebeu nada? Então...não perguntem! Não irei responder. :))) Isto é coisa minha, um desabafo, por assim dizer... Gostaria muito, isso sim, que me dessem a vossa opinião a respeito do tema tratado pelo cronista, ou seja, porque razão as pessoas sentem tanto constrangimento em fazer publicamente perguntas acerca de temas em que gostariam, e poderiam, ver as suas dúvidas esclarecidas e o não fazem por vergonha. Sobranceria? Medo de desnudar a sua intelectualidade ou a falta dela? Muito Obrigada. :) Em tempo: A crónica tem por título: "Crianças Perdidas"
Não é uso comum, mas peço já desculpa. Apesar da aparência lírica esta
crónica vai chafurdar na bosta e pronunciar algumas palavras feias. Inclui
também uma dose generosa de poesia. A mistura de versos com a actividade
bancária, parecerá um pouco ordinária, mas a culpa não é minha. Devo o
desarranjo a uma responsável espanhola do Bankinter
que há pouco tempo disse que um banqueiro é alguém que « financia os sonhos
das pessoas».
Não decerto por mera
coincidência, os cartões de débito e crédito da igualmente sentimental Caixa
Geral de Depósitos são decorados com rabiscos que procuram representar Fernando
Pessoa. Alguns exemplares incluem o verso «Tenho em mim todos os sonhos do mundo»
(ou, na modalidade de crédito «Tudo vale a pena se alma não é pequena»). Como
não pode defender-se das pulhices, o poeta padeceu ainda do enxovalho de ser
citado na defesa de Ricardo Salgado. Não ocorreu ao sonso banqueiro, porém, o Poema em Linha Recta de Álvaro de Campos
(«Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar»),
preferindo o mais cagarola «Pedir desculpa é pior do que não ter razão».
Como ainda sou do tempo em
que o BES também prometia realizar sonhos (e não apenas os da família Salgado,
do Cristiano Ronaldo e da Dona Inércia) suspeito que de tanto arroubo poético, tanta
filantropia, procuram esconder o essencial da actividade criada pelos agiotas.
A saber: fazem o favor de guardar o nosso dinheiro, que emprestam a terceiros
cobrando juros, taxas, spreads e o
mais de que forem capazes de se lembrar. Parece um negócio fácil e lucrativo,
mas, ainda assim, várias instituições bancárias idóneas e insuspeitas
conseguiram fazer evaporar milhares de milhões de euros.
O fenómeno teria o seu quê
de mistério e evanescência se o dinheiro não tivesse, afinal, transferido para
paraísos offshore, passando pelo
bolso de uma manada de consultores, administradores, conselheiros, jornalistas,
manobradores de influências, comentadores e comissionistas. Um cita a Nau
Catrinetado Garrett. Aquele faz como o poeta e finge que não se lembra. Este
engana com a novilíngua das imparidades. O outro assume o fardo da
«responsabilidade política» sem consequências. Aqueloutra diz que assinou de
cruz (e, mesmo assim, não baixa a crista) . E o contribuinte paga a conta (13
mil milhões!) enquanto espera pela novela da noite.
* O autor desta crónica escreve ao abrigo do NAO, ao transcrevê-la não o apliquei.
Como podem ver acima, (dará para ver?) foi publicada no suplemento NM do JN de 16-04-17.
Gostei tanto do tom acutilante e certeiro, veio tão ao encontro daquilo que penso, (e, claro, da realidade) que a partilho com quem costuma passar pelo meu espaço. Se o desejarem deixem a vossa opinião.
Quando Saint-Exupéry escreveu que, ao matar um
jardineiro, matamo-lo uma vez, mas quando destruímos o seu jardim matamo-lo
duas vezes, percebemos que se refere a obras e paixões humanas, à entrega,
àquilo que construímos durante a vida. É claro que a paternidade se adequa na
perfeição à frase de Saint-Exupéry. Matarem uma pessoa é matarem-na uma vez,
mas se matarem os seus filhos, matam-na de um modo difícil de contabilizar.
Neste caso teremos de ser benevolentes com a matemática. A ideia de paternidade
é um prolongamento óbvio da vida individual, que retira os progenitores do
centro e os coloca na periferia.
Quando
partimos um pão ao meio ficamos com duas metades. Com o amor pudemos fazer o
milagre de amar cada um dos nossos filhos de modo absoluto, sem dividir esse
mesmo amor em duas metades. As paixões abominam a matemática. Nestas coisas,
podemos partir o pão ao meio e ficar com dois pães inteiros. Amar é um milagre
bíblico.
Os afectos não se gastam quando são partilhados, como aconteceria com
qualquer riqueza material. Esse fenómeno, ainda que vulgar, não deixa de ser
estranho, e em certa medida miraculoso.
Uma paixão
pode ser infinita, eterna, absoluta. Sentimo-la assim muitas vezes.
Racionalmente, não conseguimos apreender o infinito senão com signos, metáforas
e analogias.
Por causa
desta condição absoluta, muitas vezes sentimos que criar alguém implica uma
responsabilidade total, mais importante do que a vida individual.
Rousseau
abandonou quatro dos seus filhos num orfanato, com a lamentável desculpa de que
não seria um bom pai para eles. Mais tarde escreveu todo um tratado sobre como
educar uma criança.
Em certa medida, este desfasamento entre potência e acto,
mesmo que se apresente em proporções e dramatismos diferentes, é relativamente
comum.
Há pessoas que sabem exactamente como educar um filho, mas na prática
revelam-se péssimos pais; e outras que, não tendo a mínima noção do que estão a
fazer, são excelentes. Eu, a maior parte das vezes, divido-me entre estes dois
tipos de pessoas.
Partir Pães - Crónica
de Afonso Cruz*
(transcrita da revista Notícias Magazine, de hoje)
* Escritor
Nota: Gostaria que, relativamente ao último parágrafo desta crónica, que foi escrita por um pai, mas considero indiferente ser qualquer um dos progenitores, qual a vossa opinião em relação à educação. Saber educar tendo em conta os conhecimentos teóricos de pedagogia, com todos os princípios e técnicas da educação, ou educar guiados pelo instinto e o bem-querer?
Pode parecer uma pergunta sem grande sentido, mas acreditem que não é! :)
Mais
do que o seu valor biológico, os pássaros inspiram histórias exemplares pela
diversidade do seu comportamento natural. Existem espécies cuja conduta pode
ser lida, aos nossos olhos, como muito inspiradora. O caso do tucano é uma bela
história de amor e dedicação que faz inveja aos mais fiéis amantes da casta
humana. A fêmea esconde-se num recanto e nele faz, com a ajuda do macho, um
ninho completamente fechado, construindo uma parede de lama sobre o vão de um
tronco de árvore. Literalmente, a fêmea se empareda. Apenas um pequeno buraco a
ligará, durante semanas, ao resto do mundo. Por esse orifício o seu companheiro
lhe fará chegar alimento e consolo. Ali, naquele canto escuro, a fêmea se
despojará de toda a plumagem e com essas penas arrancadas ao corpo fará um
ninho onde chocará os ovos e assistirá ao nascer dos seus bebés. Se o macho
morrer, nesse intervalo, ela morrerá também. Sem penas, e por isso desprovida
de voo, a tucana estará condenada. Numa anónima cavidade de árvore se sepultará
o seu estóico sacrifício.
Texto transcrito do livro de crónicas de Mia Couto: Pensageiro Frequente.
Todos os anos, por esta altura, quando me pedem que escreva alguma coisa
sobre o Natal, reajo de mau modo. «Outra vez, uma história de Natal! Que
chatice!» — digo. As pessoas ficam muito chocadas quando eu falo assim. Acham
que abuso dos direitos que me são conferidos. Os meus direitos são falar bem,
assim como para outros não falar mal. Uma vez, em Paris, umchauffeurde táxi, desses que se fazem castiços
e dizem palavrões para corresponder à fama que têm, aborreceu-me tanto que lhe
respondi com palavrões. Ditos em francês, a mim não me impressionavam, mas ele
levou muito a mal e ficou amuado. Como se eu pisasse um terreno que não era o
meu e cometesse um abuso. Ele era malcriado mas eu - eu era injusta. Cada
situação tem a sua justiça própria, e isto é duma complexidade que o código
civil não alcança.
Mas dizia eu: «Outra vez o Natal, e toda essa boa vontade de encomenda!»
Ponho-me a percorrer as imagens que são de praxe, anjos trombeteiros, pastores
com capotes de burel e meninos pobres do tempo da Revolução Industrial inglesa.
Pobres e explorados, mas, entretanto, não excluídos do trato social através dos
seus conflitos próprios, como se pode observar nos livros de Dickens.
Actualmente as crianças estão mais isoladas dum processo de libertação adequada
à sua normalidade. Não há qualquer lógica entre o pensamento que elas sugerem e
a acção que lhes é imposta. Mas isto são considerações de Natal? Confessem que
preferem uma história, uma coisa leve, talvez um pouco insensata e graciosa. Pois
bem, falemos de pastores.
Um
amigo meu passou uns dias na serra da Estrela para se curar duma depressão, uma
dessas doenças que são produzidas pela sociedade burocrática onde todos se
destroem em boa paz. Cuidou ele que a solidão e a vida rude o haviam de
transformar. Mas o sofrimento, que não é disciplina nem necessidade, torna-se
em crítica mesquinha. Ele andava pelos montes, com ar de censura e escândalo,
perguntando às pessoas como podiam viver sem ir ao teatro e sem comer costelas
panadas. Alumiando-se com azeite e deitando-se
ao sol-pôr para não o gastar. Sobressaltava-o muito aquela imobilidade da serra
com os rebanhos que pareciam pedras e os pastores com o cão de pêlo assanhado.
Sentava-se ao lado deles e travava conversa.
— Olhe lá: você nunca sai daqui? — perguntava. E o pastor respondia:
— Eu, não senhor.
— E então, não se aborrece?
— Eu, não senhor — tornava o homem.
— Mas não se aborrece mesmo, sempre sozinho, a ver só ovelhas, aqui no cimo da
serra? — insistia o meu amigo.
Então o pastor, apertado naquele inquérito, fez um esforço para compreender a
desordem que provocava no espírito do homem da cidade, e disse, apontando, com
um ligeiro movimento do queixo, as ovelhas:
— Ah! Elas às vezes bolem...
Queria desculpar-se, se o conseguiu ou não, não sei. O meu amigo não andou
muito tempo por lá. Deu um jeito a um tornozelo e tiveram que o levar de
padiola até à localidade, onde arranjou melhor transporte para o hospital.
Disse daquilo cobras e lagartos. Também é preciso ver que não era homem para
grandes descobertas. Até acha que as descobertas foram um erro histórico. Mas
que tem o Natal a ver com isto? – direis. Descubram.
Agustina Bessa-Luís, in “Crónica da Manhã”-
Dez 1978 -
Uns aprendem a andar. Outros aprendem a cair. Conforme o chão de um é
feito para o futuro e o do outro é rabiscado para sobrevivências. Filipão
pisava ou era pisado pelo chão? O mundo
do velho Filipão já semelhava com o relvado de futebol: ali ele fintava o
tempo, esticando para prolongamento a partida com a vida. Restam-me duas,
sorria ele, ou perder ou ser vencido. E o dente avulso, já de tão solto, abanava
com riso.
Ali, no bar da Munhava, o velho não apenas insistia no riso. O que ele
mais fazia era retorcer a volta ao destino. No meio do cervejeiral, Filipão
vingava-se. A prova era o salto fantástico e o grito que, de quando em quando,
se escutava na rua: « Gooloo!».
O
pulo é o desajeito humano de ensaiar um voo. A alegria de Filipão só podia ser
medida em asas, tanto de céu eram seus brados. Sozinho, no salão do decrépito
bar, o velho celebrava o golo da sua equipa. As pessoas passavam e, pelo vidro,
espreitavam Filipão aos saltos festejando vitórias.
As pessoas sabiam: não havia rádio, não havia televisor. O bar era pobre
e, para além do balcão, não sobrava apetrecho. O que havia na parede era um
desenho de um ecrã rabiscado a carvão. Filipão desenhava o televisor com
detalhe de engenheiro. E ali estavam compostos com perfeição os botões, a
antena, os fios. Pobre não festeja por causa da alegria. A alegria é que se
instala, sem convite, e faz a festa ter causa.
O
reformado chegava manhã cedo, carregava no falso botão e sentava-se na habitual
mesa ao fundo da sala. Pedia a habitual cerveja e sorvia o líquido como se
bebesse pelos olhos lentos. Bebia todo ele, a alma era uma boca. Estalava a
língua no único dente, ruidosamente. Depois rabiscava num velho e seboso papel
uns desenhos: as tácticas do jogo. Filipão organizava, sentenciava as tácticas,
arquitectava a força anímica. Que se estava em pleno Mundial e a distracção é a
morte do guarda-redes. Depois, já deitadas as instruções, o velho vinha à porta
da taberna e gritava para o exterior: «Já
começou!»
E
adentrava-se para assistir a mais um jogo de futebol que só ele testemunhava na
sua imaginação. Até que, um dia, vieram buscá-lo. Eram os filhos que viviam na
cidade. O mais velho disse:
-- Venha pai, não queremos que continue sozinho aqui na vila.
--
Já todos se riem, pai. – Confirmava
o mais novo.
Filipão ajustou o aparelho auditivo como se não estivesse ouvindo bem.
Não iria nem arrastado. Que ali estava seguindo o Campeonato Mundial. Ele, o
Mister, o senhor sem anéis.
--
Desde quando, pai? Desde quando é que esse Mundial se arrasta?
Os outros fizeram sinal para que não se argumentasse com a realidade.
Seria pior. Deixassem-no crer que nesse imaginário televisor desfilavam
verdadeiros jogos, capazes de fabricar alegrias.
Um dia, o filho mais novo trouxe uma carta. Era um papel sério, com
carimbo e redigido em máquina.
--
O que é isso?
--
Isto é para o senhor, meu pai.
--
Não sabe que eu não leio letras?
O filho ajustou os óculos e leu em voz alta. Era uma convocatória da
Federação Nacional de Futebol. Congratulando-o pelo contributo de sua vida e
pelos galardões alcançados. Chamavam-no para ir para a capital. Para descansar
junto da família.
--
Essa carta é falsa!
--
Como falsa?! Tem carimbo, tem assinatura, tem tudo.
--
Veja esta outra carta!
E o pai estendeu o envelope ao filho. Tinha selo do Brasil e estava
endereçada a Filipão Timóteo, Bar da Munhava. Assim, sem emenda nem gatafunho.
Em baixo, a assinatura bem desenhada: Ronaldinho
Gaúcho.
O moço foi saindo, sem fôlego para palavra, quando a voz do pai o fez
parar:
-- E já agora, meu filho, pode-me trazer, lá da cidade, um pau de giz para
desenhar um televisor novinho?!
Crónica de: Mia
Couto in “Pensageiro Frequente”
(Outubro de 2002)
Nota: O Mia Couto que me perdoe, isto não faz parte da história, mas para o velho Filipão Timóteo que ainda deve andar lá pelo bar da Munhava, delirando, às voltas com as estratégias e as tácticas futebolísticas, ofereço este vídeo para que ele possa apreciar o golo do seu ídolo. No fundo, no fundo, é uma lembrança, também, para os meus amigos e amigas que gostam de futebol...:))
Certa vez fui
vítima de assalto. Um velho amigo sugeriu-me que consultasse os serviços de uma
famosa curandeira no bairro da Polana Caniço.
Num instante ela faria surgir o rosto do ladrão na
superfície de uma tina de água. Não é que fizesse fé nesse mágico scanner sem imagem original. Estava
criado o pretexto para dar o gosto à alma e visitar um universo onde perdemos
certezas.
No momento seguinte
encontrava-me tirando os sapatos à porta da Dona Mariana, em solicitação de
poderes. Acreditava no que estava vivendo? Com o tempo, aprendi que por vezes a
resposta é errada simplesmente porque a pergunta é incorrecta. Não se tratava
de saber se era ou não verdade. Certas coisas são verdade numa dada relação,
num dado momento.
Nenhum rosto
compareceu à tona de água. Mas a curandeira falou de mim, da minha vida passada
e presente. Sem incursão no futuro. Nem tudo terá sido verdade. O que foi verdade
é que conversámos, ela falando sem preceito, eu escutando sem preconceito.
Dona Mariana
deu-me uns pós para espalhar em água de banho. Tomasse banhos enquanto chorava,
em audível lamento: «Ai, o meu televisor!
Ai, o meu leitor de vídeo!» Nunca chorei.
Talvez por isso – insuficiência de fé – nunca
tenha recuperado os bens roubados. Regressando mais tarde a casa de Dona
Mariana continuei trocando fios de prosa que me compensaram a perda dos
aparelhos.
[A partir de uma narrativa de Mia Couto: “O Feitiço Dentro de Nós” ]
“As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos impossíveis.
Têm o ar de quem pertence a si própria. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem
tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança.
Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da
maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um
estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito.
São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres
do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a
fazer.”
Miguel Esteves Cardoso
( Alguém, por aqui, tem coragem de contradizer o que o MEC afirmou? )