Aquele
homem ainda jovem, de aparência algo descuidada, mas limpa, que amiúde via sentado
num banco do Largo do Jardim, e eu observava através da larga janela da
farmácia enquanto aguardava a minha vez, foi-me povoando a
mente de conjecturas, durante as longas noites de insónia, naquele Inverno não
muito distante.
Quem
seria? De onde teria vindo? Que motivos o teriam levado a alhear-se de tudo o
que o rodeava, murmurando palavras sem som que apenas ele ouvia, ou talvez nem
isso?
Um
dia, talvez movido pela força do meu insistente olhar, o homem levantou a
cabeça e cruzou o seu olhar com o meu. Durante segundos, que me pareceram uma eternidade,
fiquei como que hipnotizada pelo magnetismo que emanava daqueles olhos escuros,
tão negros e misteriosos como uma noite de breu.
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| Fonte deste esboço de um retrato de Da Vinci. |
Nessa
mesma noite, vi-me sentada a seu lado. Sem me olhar nos olhos, ouvi o murmúrio da
sua voz num tom doce, onde não se vislumbrava a mais leve sombra de mágoa nem
revolta, e senti um impacto forte, de algo que tenho a certeza ter ouvido.
A
prova, está registada nestas palavras manuscritas, quase sobrepostas umas nas
outras, que li, estupefacta, nessa manhã ao acordar. Ali, naquele caderno que tenho na mesa-de-cabeceira, há meses, com o objectivo de que o sono não me viesse
roubar a lembrança do sonho, estava escrito:
“Sinto-me derrotado, mas nada nem ninguém
me venceu. Fui eu que desisti de lutar contra o vazio.”
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