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quarta-feira, 4 de março de 2020

TRAÇANDO PERFIS IMAGINÁRIOS. [1]



Aquele homem ainda jovem, de aparência algo descuidada, mas limpa, que amiúde via sentado num banco do Largo do Jardim, e eu observava através da larga janela da farmácia enquanto aguardava a minha vez, foi-me povoando a mente de conjecturas, durante as longas noites de insónia, naquele Inverno não muito distante. 

Quem seria? De onde teria vindo? Que motivos o teriam levado a alhear-se de tudo o que o rodeava, murmurando palavras sem som que apenas ele ouvia, ou talvez nem isso?

Um dia, talvez movido pela força do meu insistente olhar, o homem levantou a cabeça e cruzou o seu olhar com o meu. Durante segundos, que me pareceram uma eternidade, fiquei como que hipnotizada pelo magnetismo que emanava daqueles olhos escuros, tão negros e misteriosos como uma noite de breu.

Fonte deste esboço de um retrato de Da Vinci.
 

Nessa mesma noite, vi-me sentada a seu lado. Sem me olhar nos olhos, ouvi o murmúrio da sua voz num tom doce, onde não se vislumbrava a mais leve sombra de mágoa nem revolta, e senti um impacto forte, de algo que tenho a certeza ter ouvido.

A prova, está registada nestas palavras manuscritas, quase sobrepostas umas nas outras, que li, estupefacta, nessa manhã ao acordar. Ali, naquele caderno que tenho na mesa-de-cabeceira, há meses, com o objectivo de que o sono não me viesse roubar a lembrança do sonho, estava escrito:

“Sinto-me derrotado, mas nada nem ninguém me venceu. Fui eu que desisti de lutar contra o vazio.”


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