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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A Cantadeira.

 
 
 

A Cantadeira

 Acabei a minha sessão de canto, estou triste, flor depois das pétalas. Reponho sobre meu corpo suado o vestido de que me tinha libertado. Canto sempre assim, despida. Os homens, se calhar, só me vêm ver por causa disso: sempre me dispo quando canto.
Estranha-se? Eu pergunto: a gente não se despe para amar? Porque não ficar nua para outros amores? A canção é só isso: um amor que se consome em chama entre o instante da voz e a eternidade do silêncio.
Outros cantadores, quando actuam em público, se
 trajam de enfeites e reluzências. Mas, no meu caso,
 cantar é coisa tão maior que me entrego assim
pequenitinha, destamanhada. Dessa maneira, menos
 que mínima, me torno sombra, desenhável segundo
 tonalidades da música.
Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida. Dizem mas, para mim, a voz serve-me para outras finalidades: cantando eu convoco um certo homem.

Era um apanhador de pérolas, um vasculhador de maresias. Esse homem acendeu a minha vida e ainda hoje eu sigo por iluminação desse sentimento.
 O amor, agora sei, é a terra e o mar se inundando mutuamente.

Amei esse peroleiro tanto até dele perder memória. Lembro apenas de quanto estive viva. Minha vida se tornava tão densa que o tempo sofria enfarte, coagulando de felicidade. Só esse homem servia para meu litoral, todas as vivências que eu tivera eram ondas que nele desmaiavam. Contudo, estou fadada apenas para instantes.

Nunca provei felicidade que não fosse uma taça que, logo após o lábio, se estilhaça.

Sempre aspirei ser árvore.

 Da árvore serei apenas  luar, a breve crença de claridade.

Excerto do conto de Mia Couto, 
 Na Berma de Nenhuma Estrada