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quinta-feira, 15 de maio de 2025

TAMBEM EU SEI DE UM NINHO.

 



O meu é este, com três passarinhos...



...que já voaram e nunca os vi fazer o pino a voar.
Quem fez o pino fui eu.

Caí do escadote,
 quando os fui
fotografar.

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segunda-feira, 9 de setembro de 2024

PASSEIO PELO RIO DOURO.

 


À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando 
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.




 
Lá não terá socalcos

Nem vinhedos

Na menina dos olhos deslumbrados;

Doiros desaguados

Serão charcos de luz

Envelhecida;

Rasos, todos os montes

Deixarão prolongar os horizontes

Até onde se extinga a cor da vida.




 


Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança

Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

S. Leonardo de Galafura

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[ Fotografias minhas - Poema de Miguel Torga ]


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quinta-feira, 4 de abril de 2024

______________TERRA, MAR E PINHAIS.

 

Praia de Moledo - Caminha
Como seu fiel guardião; o Monte de Santa Tecla - Galiza
(Foto minha)

     Ibéria

Terra.
Quanto a palavra der e nada mais.
Só assim a resume
Quem a contempla do mais alto cume,
Carregada de sol e de pinhais.
 
Terra-tumor-de-angústia de saber
Se o mar é fundo e ao fim deixa passar...
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar...

Terra de pão e vinho
( A fome e a sede só virão depois,
Quando a espuma salgada for caminho
Onde um caminha desdobrado em dois).
 
Terra nua e tamanha
Que nela coube o Velho-Mundo e o Novo...
Que nela cabem Portugal e Espanha
E a loucura com asas do seu Povo.

Miguel Torga 'in' Poemas Ibéricos

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terça-feira, 5 de setembro de 2023

DIGNIDADE E CARÁCTER.

CONTOS DA MONTANHA. 


MARIA LIONÇA

    Com o filho sempre agarrado às saias, como um permanente sinal de que já pagara à vida o seu tributo de mulher, mourejava de sol a sol para manter as courelas fofas e gordas. Depositária do pobre  património do casal, queria mantê-lo intacto e grangeado. Se o outro parceiro desertara, mais uma razão para se manter firme e corajosa ao leme do pequeno barco.

    - Nada,  Maria? - O prior já nem se atrevia a alargar a pergunta.

    - Nada.

    Respondia sem revolta ou renúncia na voz. Objectivava a situação, lealmente. O que sentia por dentro, era o segredo da sua serenidade.

    Até que um dia o Ruivo deu finalmente notícias. Regressava. E Galafura, solidária com a grandeza humana da Maria Lionça, dispôs-se a esquecer todas as ofensas e a receber festivamente a ovelha desgarrada.

    Quem representava esse perdão colectivo e essa saúde da alma da terra era o Pedro, o filho, que ao lado da mãe, na estação de Gouvinhas, deixava a imaginação correr desenfreada pela linha fora até se perder nos últimos degraus da escada fugidia feita de aço.

    Infelizmente, o comboio que surgiu ao longe, avançou e passou junto dele a travar o passo, trazia dentro uma desilusão. O pai pareceu-lhe uma sombra esbatida da imagem recortada que sonhara.

    - Seu moço está mesmo um homem!

    A voz rouca e dolente foi apenas a confirmação duma ruína  que se lhe estampava no rosto esquelético, cor de palha. O Ruivo que ficara em Galafura, na caução de um retrato em corpo inteiro, era a saúde personificada. E o Ruivo que, escanchado sobre a cavalgadura que o conduzia, respirava à sobreposse, só abstractamente se identificava com o original. Talvez para justificar essa desfiguração, culpado diante da mulher, do filho e dos montes eternamente arejados  e limpos da Mantelinha, o renegado confessou tudo. Vinha doente e desenganado. Males ruins... Já lhe custava engolir. E aquela abafação a apertar, a apertar... Mas nada de aflições. Voltava só para morrer.

    No hospital da Vila os doutores ainda lhe fizeram um furo no pescoço para o aliviar do garrote.. Mais uns contos de réis, mas paciência. Galafura, na pessoa da Maria Lionça, se não podia apertar nos braços generosos um corpo comido dos vícios do mundo, queria que ele respirasse ao menos livremente o seu ar puro.

    Um mês depois estava estendido sobre a cama onde noivara, imóvel, muito amarelo, muito seco, já com a alma a dar contas a Deus. E no dia seguinte, pela manhã, a boca do cemitério de Galafura tragava-lhe os ossos descarnados.

    Do rescaldo dessa mortalha singular, saiu mais viva ainda a figura de Maria Lionça. Não o chorou fora dos limites do seu amor atraiçoado, nem se carregou de um luto para além da melancólica negrura que lhe apertava o coração. Manteve-se na justa expressão do sentir de Galafura. Enojada e apiedada ao mesmo tempo. Enterrou-o e começou a pagar os juros da operação.

    O filho, o Pedro, é que não resistiu ao desencanto. Envergonhado de um pai que lhe passara pelos lhos como um fantasma de podridão e sem poder abarcar a grandeza daquela mãe, abalou para Lisboa. E nova via-sacra começou na loja do correio.

    - Não tens nada, Maria.

    Velha, branca, igual, a Lionça voltava pelo mesmo caminho e sentava-se ao lume a fiar. Galafura saudava respeitosamente nela uma permanência que resgatava a traição do marido e a fraqueza do filho. Como à fonte incansável do largo, assim a viam, segura e repousante no seu posto.

    Movediço como a insensatez da sua idade, o filho fizera-se marinheiro. E Galafura, enraizada no dorso da serra, olhava esse rebento mergulhado em água, como um proscrito. Antes o degredo do pai no Brasil, ao menos aproado a um chão que fazia parte da cosmogonia de Galafura. Quando, inesperamente chegou um telegrama da capitania de Leixões e ela partiu é que viram todos como fora capaz, sozinha, de manter indelével a realidade do ausente. Se se metia a caminho, se enfrentava de rosto calmo a primeira viagem distante e o pavor da Cidade, lá teria as suas razões, que eram necessariamente razões de Galafura.

    Tal e qual. No dia seguinte a Aldeia viu com espanto e comoção que trouxera nos braços de sessenta anos o filho morto. Deram-lho no hospital, a exalar o últimos suspiro. Meteu-se então com ele ao colo, já a arrefecer, embrulhado numa manta, a pedir licença a todos, que levava ali uma pessoa muito doente. Arredavam-se logo. E assim conseguiu sentá-lo e sentar-se a seu lado.

    Galafura quase não compreendia como pudera com ele, embora fosse meão e magro. O que é certo é que pudera e sem lágrimas nos olhos lhe falava ternamente mal o revisor aparecia no compartimento.

    - Dói-te, filho? Dói-te muito?  Pois dói...dói...

    Encostava-o ao ombro, enrolava-lhe a manta nas pernas hirtas e mostrava os bilhetes.

    Em Gouvinhas apeou-se. À porta da estação, o guarda arregalou muito os olhos, mas deixou passar. Daí a pouco, no macho do Preguiças, o Pedro subia a serra para dormir o derradeiro sono em Galafura, que era ao mesmo tempo a terra onde nascera e o regaço eterno de sua mãe.

FIM.



 

Nota da autora do blog: 

Permito-me dizer do meu desencanto com os 45 minutos de filme a que acabei de assistir e que, em quase nada faz jus ao belíssimo Conto escrito por Miguel Torga.
Sei que a intenção foi e é boa, já que outros contos se lhe seguirão e eu, não assistirei. A interpretação de todos os actores e da actriz que desempenha o papel de Lionça, não poderia ser melhor. Mas não bastou. Torga merecia melhor. Mais detalhes, mais fidelidade aos pormenores a que o escritor tanta atenção prestava. Não me digam nunca mais que uma imagem vale mais do que mil palavras. A prova de que mil palavras valem muito mais do que um milhão de imagens, está na desilusão - minha, obviamente - que tem representado a adaptação ao Cinema de filmes como "Chocolate", "Crónica de uma Morte Anunciada" e "Amor em Tempos de Cólera". Só para enunciar três, dos muitos que vi .

Obrigada a todos quantos me acompanharam nesta minha 'cruzada', em prol da Maria Lionça de Miguel Torga.

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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

DIGNIDADE E CARÁCTER.

 CONTOS DA MONTANHA.
Miguel Torga
* * *

MARIA LIONÇA.


Continuação:

   Em pequenina, logo o seu riso escarolado encheu a Aldeia de lés a lés. Velhos e novos acostumaram-se desde o primeiro instante àquele rosto miúdo e rosado, onde brilhavam dois olhos negros. Depois, durante a meninice e a mocidade, foi ela ainda o ai-Jesus da terra. Qualquer coisa de singular a preservava do monco das constipações, dos remendos mal pregados. Airosa e desenxovalhada, dava o mesmo gosto vê-la a guardar as cabras, a comungar ou a segar erva nos lameiros. E quando, já mulher, se falava pelas cavas nas moças casadoiras do lugar, nenhum rapaz lhe pronunciava o nome sem uma secreta emoção. Além de ser a cachopa mais bonita, dada e alegre da terra, era também a mais assente e respeitada. O seu riso significava tudo menos licença. Ninguém lhe punha um dedo. Embora igual às outras, pela pobreza e pela condição, havia à sua volta um halo de pureza que simbolizava a própria pureza de Galafura.

    Quem é que merecia a dádiva de uma riqueza assim? Foi preciso que o Lourenço Ruivo acabasse a militança e voltasse a Galafura com a mão mais apurada para apertar a dela. O padre Jaime, o Prior de então, abençoou-os como se fossem filhos. Galafura, depois do arroz-doce, pôs-se confiada à espera da felicidade futura do casal. Esquecidos das manhas e artimanhas da vida, todos sonhavam para os dois a ventura que não tinham tido. Só o Destino, fiel às misérias do mundo, sabia que fora destinado a Maria Lionça um papel mais significativo.

    O polimento do Ruivo, em que a Aldeia pusera tantas esperanças, delira-lhe apenas os calos gerados pelo cabo do enxadão. Não fizera dele o companheiro que a rapariga merecia. Engravatado aos domingos e de costas direitas o resto da semana, ao fim dos nove meses meses sacramentais, quando o Pedro nasceu, gordo, caladão, rosado, em vez de tirar daquela presença ânimo para se atirar às leiras, acobardou-se de uma boca a mais na casa, empenhou-se e partiu para o Brasil.

    A Maria Lionça, essa, ficou. Como todas as mulheres da montanha, que no meio do gosto do amor enviuvam com os homens vivos do outro lado do mar, também ela teria de sofrer a mesma separação expiatória, a pagar os juros da passagem anos a fio, numa esperança continuamente renovada e desiludida na loja da Purificação que distribuía o correio com a inconsciente arbitrariedade  dum jogador a repartir as cartas de um baralho.

    - O teu homem tem-te escrito Maria? - perguntava o Prior de Páscoa a Páscoa.

    - Ele não, senhor. Há quinze anos...

  Não acrescentava a mínima queixa à resposta. Fiel ao amor jurado, deixava que todos os encantos lhe mirrassem no corpo, numa resignação digna e discreta.


Continua... 

  



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domingo, 3 de setembro de 2023

DIGNIDADE E CARÁCTER.

 

Foto Minha

Tem início, a partir de amanhã, dia 04 de Setembro, na RTP1, uma série de cinco contos de Miguel Torga do seu livro Contos da Montanha.  Ao transcrever do livro este conto, não pretendo ser desmancha prazeres e tirar o interesse de quem deseja acompanhar. Até porque também conheço todos os contos, pois já os li e reli, e tenciono acompanhar. A imagem e o som dá uma realidade e plenitude que a narrativa não tem, embora esta seja mais pormenorizada e emocionante.

[ Para aceder à notícia, clique no texto.]

* * * 

 Maria Lionça 

    Galafura, vista da terra chã, parece o talefe do mundo. Um talefe encardido pelo tempo, mas de sólido granito. com o céu a servir-lhe de telhado e debruçada sobre o Varosa, que lhe corre ao fundo, no abismo. Quem quiser tomar-lhe o bafo tem de subir por um carreiro torto, a pique, cavado na fraga, polido anos a fio pelos socos do Preguiças, o moleiro, e pelas ferraduras do macho que leva pela arreata. Duas horas de penitência.

    Lá, é uma rua comprida, de casas com craveiros à janela, duas quelhas menos alegres, o largo, o cruzeiro, a igreja e uma fonte a jorrar água muito fria. Montanha. O berço digno da Maria Lionça.

    Fala-se nela e paira logo no ar um respeito silencioso, uma emoção contida, como quando se ouve tocar ao Senhor. E nem ler sabia!

  Bens - os seus dons naturais. Mais nada. Nasceu pobre, viveu pobre, morreu pobre, e os que por parentesco ou mais chegada convivência lhe herdaram o pouco bragal, bem sabiam que a grandeza da herança estava apenas no íntimo sentido desses panos. Na recatada alvura que traziam da arca e na regularidade dos fios do linho de que eram feitos, vinha a riqueza duma existência que ia ser a legenda de Galafura.

    Quando Deus a levou, num Março que se esforçava por dar remate prazenteiro a três meses de invernia sem paralelo na lembrança dos velhos, Galafura não quis acreditar. Embora a visse entendida no caixão, lívida e serena, aspergia sobre o cadáver a água benta do costume, sem que o seu entendimento concebesse o fim daquela vida. O próprio Prior, tão acostumado à transitória duração terrena, ao ser chamado à pressa para lhe dar a extrema-unção, ungiu-a como se ela fosse mãe dele. Tremia. Até o Latim lhe saía da boca aos tropeções. Apenas o Dr. Gil, o médico, ao tomar-lhe o pulso, não teve qualquer estremecimento. Receitou secamente óleo canforado e saiu. Mas o Dr. Gil pertencia a outros mundos. A rotina do ofício empedernira-lhe os sentimentos. O ele declarar calmamente, já de pé no estribo do cavalo, que não havia nada a fazer, foi como se um vedor afirmasse que a fonte da Corredoura ia secar. Sabia-se de sobejo que a fonte da Corredoura era eterna por ser um olho marinho. Assim que a moribunda exalou o últumo suspiro, cá de fora respondeu-lhe um soluço prolongado. O enterro, no outro dia, pela manhã, pareceu a todos uma romagem voluntária e simples ao cemitério. Não. Não podia morrer no coração de ninguém uma realidade que em setenta anos fora o sol de Galafura.


Continua...

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terça-feira, 28 de março de 2023

OLHAI, SENHORES!

 🌺 🌺  🌻  🌻 🌺 🌺

Olhai os lírios do campo, que não trabalham nem tecem, contudo,
 nem Salomão em toda a sua glória se vestiu com tanta magnificência.


Pedido

Ama-me sempre, como à flor do lírio
Bravo e sozinho, a quem a gente quer
Mesmo já seco na recordação.
Ama-me sempre, cheia da certeza  
De que, lírio que sou  da natureza,
Na minha altura eu brotarei do chão.


Poema de Miguel Torga
'in' Antologia Poética.


 🌺 🌺  🌻  🌻 🌺 🌺

quinta-feira, 22 de abril de 2021

DIA DA TERRA.

 Mal abri,  ao início desta manhã fria, a janela que me dá acesso ao mundo,  logo Mr. Google me lembra que é Dia de celebrar a Terra. Assim:

                                                                    


Escolhi, para falar por mim, quem tão bem soube louvar, em belas palavras, o nosso solo; este nosso lindo e tão mal estimado,  Planeta Azul.


A TERRA

Também eu quero abrir-te e semear

Um grão de poesia no teu seio!

Anda tudo a lavrar,

Tudo a enterrar centeio,

E são horas de eu pôr a germinar

A semente dos versos que granjeio.


Na seara madura de amanhã

Sem fronteiras nem dono,

Há de existir a praga da milhã,

A volúpia do sono

Da papoula vermelha e temporã,

E o alegre abandono

De uma cigarra vã.


Mas das asas que agite,

O poema que cante

Será graça e limite

Do pendão que levante

A fé que a tua força ressuscite!


Casou-nos Deus, o mito!

E cada imagem que me vem

É um gomo teu, ou um grito

Que eu apenas repito

Na melodia que o poema tem.


Terra, minha aliada

Na criação!

Seja fecunda a vessada,

Seja à tona do chão,

Nada fecundas, nada,

Que eu não fermente também de inspiração!


E por isso te rasgo de magia

E te lanço nos braços a colheita

Que hás-de parir depois...

Poesia desfeita,

Fruto maduro de nós dois.


Terra, minha mulher!

Um amor é o aceno,

Outro a quentura que se quer

Dentro dum corpo nu, moreno!


A charrua das leivas não concebe

Uma bolota que não dê carvalhos;

A minha, planta orvalhos...

Água que a manhã bebe

No pudor dos atalhos.


Terra, minha canção!

Ode de pólo a pólo erguida

Pela beleza que não sabe a pão

Mas ao gosto da vida!

* * * 

Quem escolhi? Claro que só poderia ser:

Miguel Torga

                                                                 FONTE da Imagem.


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domingo, 3 de janeiro de 2021

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

DAR MUNDO AO CORAÇÃO.

 




Eis-me nu e singelo!
Areia branca e o meu corpo em cima.
Um puro homem, natural e belo,
De carne que não peca e que não rima.

A linha do horizonte é um nível quieto;
As velas, de cansaço, adormeceram;
E penas brancas, que eram luto preto,
Perderam-se no azul de onde vieram.

Sol e frescura em toda a grande praia
Onde não pode haver agricultura;
Esterilidade limpa, que não caia
De pão e vinho a cósmica fartura.

Dançam toninhas lúdicas no céu
Que visitam ligeiras e felizes;
Uma força sonâmbula as ergueu,
Mas seguras à seiva das raízes.

Nem paz, nem guerra, nem desarmonia;
O sexo alegre, mas a repousar;
Um pleno, largo e caudaloso dia,
Sem horas e minutos a passar.

Vem até mim, onda que trazes vida!
Soro da redenção!
Vem como o sangue doutra mãe pedida
Na hora de dar mundo ao coração!




“Ode” de Miguel Torga, ‘in’  Diário
 (1946)





Foto Minha



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terça-feira, 11 de junho de 2019

MAIS VALE MORRER CANTANDO.


A IMAGEM FUI ROUBAR
  AQUI.


"Fábula da Fábula" – Miguel Torga

Era uma vez
uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda a gente
Inteligente
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insectos
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.
E, realmente…
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.

Miguel Torga
Diário VIII, 1956

* * *

A ideia para este postal nasceu AQUI



É isso tudo que estão a pensar... Desta vossa companheira de jornada, apenas pertence o trabalho de elaborar e publicar... E olhem que não é pouco!! Gostava que gostassem! :)




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E, já agora, estas flores também são minhas!!



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quinta-feira, 9 de maio de 2019

Para Mitigar A Saudade.





Nas minhas frequentes deambulações pelo CR (Crónicas do Rochedo) vou percorrendo os caminhos já muitas vezes percorridos. Desta vez detive-me demoradamente nos postais incluídos na etiqueta:
«Há Poesia no Rochedo» 
Gostei tanto deste poema, que pensei estar a lê-lo pela primeira vez.
Só depois, ao ler os comentários, verifiquei que o conhecia desde que o li, naquela publicação, vai para mais de sete anos.
Hoje, partilho-o também convosco, porque o acho muito, muito bonito.


"Poema melancólico não sei a que mulher"


Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...

( Miguel Torga)

Obrigada, CBO.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Via Sacra.





Tantas formas revestes, e nenhuma 
me satisfaz! 
Vens às vezes no amor, e quase te acredito. 
Mas todo o amor é um grito 
desesperado 
que apenas ouve o eco... 



Peco 
Por absurdo humano: 
Quero não sei que cálice profano 
cheio de um vinho herético e sagrado.  




  Esperança – Poema de Miguel Torga,  in “Poemas do Purgatório”




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sábado, 9 de junho de 2018

O Sangrar do Sobreiro.





Pátria pequena, deixa-me dormir,
um momento que seja,
No teu leito maior, térrea planura
Onde cabe o meu corpo e o meu tormento.

Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão,
E ao lado do sereno sofrimento
Dum sobreiro a sangrar

Pode, talvez, um pobre coração
Bater e ao mesmo tempo descansar...



"Insónia Alentejana" Poema de Miguel Torga

(fotografia minha, claro! )








segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

A Alegria E O Canto Da Cigarra....

É um direito adquirido. :) Não um erro nem um defeito.



Cega-Rega


É difícil.  Isto de começar num montouro, e só parar na crista dum castanheiro, tem que se lhe diga. É preciso percorrer um longo caminho. Embrião, larva, crisálida...
Todas as estações do íngreme calvário da organização. Animada pelo sopro da vida, a matéria necessita do calor dum ventre. Antes dessa íntima comunhão, desse limbo purificador, não poderá ter forma definitiva. Custa. Mas a lei natural é inexorável.
Exige consciência de cosmos antes da consciência de ser. O calor dá no ovo. Aquece-o e amadurece-o. A casca quebra. Depois... Ah, depois é essa descida ao húmus, essa existência amorfa, nem germe, nem bicho, nem coisa configurada.

IMAGEM  DAQUI

Largos dias assim. Até que finalmente em cada esperança de perna nasce uma perna, e cada ânsia de claridade é premiada com dois olhos iluminados. Cresce também uma boca onde a fome a reclama, e surgem as asas que o sonho deseja...
É difícil, mas vai. Desde que haja coragem dentro de nós, tudo se consegue. Até fazer parte do coro universal.

(…)


   -  Muita alegria tem tal bicho!

   - A alegria passa-lhe... É deixar vir o Inverno...
A pressurosa formiga! A coitada! Como se trabalhar fosse um destino!

   - E temo-lo aí, não tarda muito.

Evidentemente. Mas que lhe importava? A escolha estava feita. Que as folhas do calendário, como as das árvores, fossem caindo, e que os ceifeiros lançassem as gadanhas ao trigo maduro, numa condenação de galerianos. Que nas tulhas se acumulassem toneladas de grão. Ao lado dos celeiros atestados, ficaria um celeiro vazio. Um símbolo de inquebrantável confiança.
  - Mas em quê? - Perguntava um pardal suspicaz.
Outro que não compreendia. Outro que só concebia a existência a saltar de migalha em migalha.

  - Chega-lhe, Cega-Rega!

O Poeta!…Louvado seja Deus!  Até que enfim lhe aparecia um irmão!... Um irmão que sabia também que cantar era acreditar na vida e vencer a morte…

A morte que a espreitava já, com os olhos frios do Inverno...




Da página 85 à 89.

(Excerto do conto «Cega-Rega» de Miguel Torga)

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Liberdade

— Liberdade, que estais no céu…
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
— Liberdade, que estais na terra…
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga

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