O meu é este, com três passarinhos...
O meu é este, com três passarinhos...
A navegar num doce mar de mosto,Capitão no seu postoDe comando,S. Leonardo vai sulcandoAs ondasDa eternidade,Sem pressa de chegar ao seu destino.Ancorado e feliz no cais humano,É num antecipado desenganoQue ruma em direcção ao cais divino.
Nem vinhedosNa menina dos olhos deslumbrados;Doiros desaguadosSerão charcos de luzEnvelhecida;Rasos, todos os montesDeixarão prolongar os horizontesAté onde se extinga a cor da vida.
![]() |
Praia de Moledo - Caminha Como seu fiel guardião; o Monte de Santa Tecla - Galiza (Foto minha) |
Ibéria
Terra.Quanto a palavra der e nada mais.Só assim a resumeQuem a contempla do mais alto cume,Carregada de sol e de pinhais.Terra-tumor-de-angústia de saberSe o mar é fundo e ao fim deixa passar...Uma antena da Europa a receberA voz do longe que lhe quer falar...Terra de pão e vinho( A fome e a sede só virão depois,Quando a espuma salgada for caminhoOnde um caminha desdobrado em dois).Terra nua e tamanhaQue nela coube o Velho-Mundo e o Novo...Que nela cabem Portugal e EspanhaE a loucura com asas do seu Povo.
MARIA LIONÇA
Com o filho sempre agarrado às saias, como um permanente sinal de que já pagara à vida o seu tributo de mulher, mourejava de sol a sol para manter as courelas fofas e gordas. Depositária do pobre património do casal, queria mantê-lo intacto e grangeado. Se o outro parceiro desertara, mais uma razão para se manter firme e corajosa ao leme do pequeno barco.
- Nada, Maria? - O prior já nem se atrevia a alargar a pergunta.
- Nada.
Respondia sem revolta ou renúncia na voz. Objectivava a situação, lealmente. O que sentia por dentro, era o segredo da sua serenidade.
Até que um dia o Ruivo deu finalmente notícias. Regressava. E Galafura, solidária com a grandeza humana da Maria Lionça, dispôs-se a esquecer todas as ofensas e a receber festivamente a ovelha desgarrada.
Quem representava esse perdão colectivo e essa saúde da alma da terra era o Pedro, o filho, que ao lado da mãe, na estação de Gouvinhas, deixava a imaginação correr desenfreada pela linha fora até se perder nos últimos degraus da escada fugidia feita de aço.
Infelizmente, o comboio que surgiu ao longe, avançou e passou junto dele a travar o passo, trazia dentro uma desilusão. O pai pareceu-lhe uma sombra esbatida da imagem recortada que sonhara.
- Seu moço está mesmo um homem!
A voz rouca e dolente foi apenas a confirmação duma ruína que se lhe estampava no rosto esquelético, cor de palha. O Ruivo que ficara em Galafura, na caução de um retrato em corpo inteiro, era a saúde personificada. E o Ruivo que, escanchado sobre a cavalgadura que o conduzia, respirava à sobreposse, só abstractamente se identificava com o original. Talvez para justificar essa desfiguração, culpado diante da mulher, do filho e dos montes eternamente arejados e limpos da Mantelinha, o renegado confessou tudo. Vinha doente e desenganado. Males ruins... Já lhe custava engolir. E aquela abafação a apertar, a apertar... Mas nada de aflições. Voltava só para morrer.
No hospital da Vila os doutores ainda lhe fizeram um furo no pescoço para o aliviar do garrote.. Mais uns contos de réis, mas paciência. Galafura, na pessoa da Maria Lionça, se não podia apertar nos braços generosos um corpo comido dos vícios do mundo, queria que ele respirasse ao menos livremente o seu ar puro.
Um mês depois estava estendido sobre a cama onde noivara, imóvel, muito amarelo, muito seco, já com a alma a dar contas a Deus. E no dia seguinte, pela manhã, a boca do cemitério de Galafura tragava-lhe os ossos descarnados.
Do rescaldo dessa mortalha singular, saiu mais viva ainda a figura de Maria Lionça. Não o chorou fora dos limites do seu amor atraiçoado, nem se carregou de um luto para além da melancólica negrura que lhe apertava o coração. Manteve-se na justa expressão do sentir de Galafura. Enojada e apiedada ao mesmo tempo. Enterrou-o e começou a pagar os juros da operação.
O filho, o Pedro, é que não resistiu ao desencanto. Envergonhado de um pai que lhe passara pelos lhos como um fantasma de podridão e sem poder abarcar a grandeza daquela mãe, abalou para Lisboa. E nova via-sacra começou na loja do correio.
- Não tens nada, Maria.
Velha, branca, igual, a Lionça voltava pelo mesmo caminho e sentava-se ao lume a fiar. Galafura saudava respeitosamente nela uma permanência que resgatava a traição do marido e a fraqueza do filho. Como à fonte incansável do largo, assim a viam, segura e repousante no seu posto.
Movediço como a insensatez da sua idade, o filho fizera-se marinheiro. E Galafura, enraizada no dorso da serra, olhava esse rebento mergulhado em água, como um proscrito. Antes o degredo do pai no Brasil, ao menos aproado a um chão que fazia parte da cosmogonia de Galafura. Quando, inesperamente chegou um telegrama da capitania de Leixões e ela partiu é que viram todos como fora capaz, sozinha, de manter indelével a realidade do ausente. Se se metia a caminho, se enfrentava de rosto calmo a primeira viagem distante e o pavor da Cidade, lá teria as suas razões, que eram necessariamente razões de Galafura.
Tal e qual. No dia seguinte a Aldeia viu com espanto e comoção que trouxera nos braços de sessenta anos o filho morto. Deram-lho no hospital, a exalar o últimos suspiro. Meteu-se então com ele ao colo, já a arrefecer, embrulhado numa manta, a pedir licença a todos, que levava ali uma pessoa muito doente. Arredavam-se logo. E assim conseguiu sentá-lo e sentar-se a seu lado.
Galafura quase não compreendia como pudera com ele, embora fosse meão e magro. O que é certo é que pudera e sem lágrimas nos olhos lhe falava ternamente mal o revisor aparecia no compartimento.
- Dói-te, filho? Dói-te muito? Pois dói...dói...
Encostava-o ao ombro, enrolava-lhe a manta nas pernas hirtas e mostrava os bilhetes.
Em Gouvinhas apeou-se. À porta da estação, o guarda arregalou muito os olhos, mas deixou passar. Daí a pouco, no macho do Preguiças, o Pedro subia a serra para dormir o derradeiro sono em Galafura, que era ao mesmo tempo a terra onde nascera e o regaço eterno de sua mãe.
FIM.
MARIA LIONÇA.
Em pequenina, logo o seu riso escarolado encheu a Aldeia de lés a lés. Velhos e novos acostumaram-se desde o primeiro instante àquele rosto miúdo e rosado, onde brilhavam dois olhos negros. Depois, durante a meninice e a mocidade, foi ela ainda o ai-Jesus da terra. Qualquer coisa de singular a preservava do monco das constipações, dos remendos mal pregados. Airosa e desenxovalhada, dava o mesmo gosto vê-la a guardar as cabras, a comungar ou a segar erva nos lameiros. E quando, já mulher, se falava pelas cavas nas moças casadoiras do lugar, nenhum rapaz lhe pronunciava o nome sem uma secreta emoção. Além de ser a cachopa mais bonita, dada e alegre da terra, era também a mais assente e respeitada. O seu riso significava tudo menos licença. Ninguém lhe punha um dedo. Embora igual às outras, pela pobreza e pela condição, havia à sua volta um halo de pureza que simbolizava a própria pureza de Galafura.
Quem é que merecia a dádiva de uma riqueza assim? Foi preciso que o Lourenço Ruivo acabasse a militança e voltasse a Galafura com a mão mais apurada para apertar a dela. O padre Jaime, o Prior de então, abençoou-os como se fossem filhos. Galafura, depois do arroz-doce, pôs-se confiada à espera da felicidade futura do casal. Esquecidos das manhas e artimanhas da vida, todos sonhavam para os dois a ventura que não tinham tido. Só o Destino, fiel às misérias do mundo, sabia que fora destinado a Maria Lionça um papel mais significativo.
O polimento do Ruivo, em que a Aldeia pusera tantas esperanças, delira-lhe apenas os calos gerados pelo cabo do enxadão. Não fizera dele o companheiro que a rapariga merecia. Engravatado aos domingos e de costas direitas o resto da semana, ao fim dos nove meses meses sacramentais, quando o Pedro nasceu, gordo, caladão, rosado, em vez de tirar daquela presença ânimo para se atirar às leiras, acobardou-se de uma boca a mais na casa, empenhou-se e partiu para o Brasil.
A Maria Lionça, essa, ficou. Como todas as mulheres da montanha, que no meio do gosto do amor enviuvam com os homens vivos do outro lado do mar, também ela teria de sofrer a mesma separação expiatória, a pagar os juros da passagem anos a fio, numa esperança continuamente renovada e desiludida na loja da Purificação que distribuía o correio com a inconsciente arbitrariedade dum jogador a repartir as cartas de um baralho.
- O teu homem tem-te escrito Maria? - perguntava o Prior de Páscoa a Páscoa.
- Ele não, senhor. Há quinze anos...
Não acrescentava a mínima queixa à resposta. Fiel ao amor jurado, deixava que todos os encantos lhe mirrassem no corpo, numa resignação digna e discreta.
Continua...
___________________________
![]() |
Foto Minha |
[ Para aceder à notícia, clique no texto.]
* * *
Maria Lionça
Galafura, vista da terra chã, parece o talefe do mundo. Um talefe encardido pelo tempo, mas de sólido granito. com o céu a servir-lhe de telhado e debruçada sobre o Varosa, que lhe corre ao fundo, no abismo. Quem quiser tomar-lhe o bafo tem de subir por um carreiro torto, a pique, cavado na fraga, polido anos a fio pelos socos do Preguiças, o moleiro, e pelas ferraduras do macho que leva pela arreata. Duas horas de penitência.
Lá, é uma rua comprida, de casas com craveiros à janela, duas quelhas menos alegres, o largo, o cruzeiro, a igreja e uma fonte a jorrar água muito fria. Montanha. O berço digno da Maria Lionça.
Fala-se nela e paira logo no ar um respeito silencioso, uma emoção contida, como quando se ouve tocar ao Senhor. E nem ler sabia!
Bens - os seus dons naturais. Mais nada. Nasceu pobre, viveu pobre, morreu pobre, e os que por parentesco ou mais chegada convivência lhe herdaram o pouco bragal, bem sabiam que a grandeza da herança estava apenas no íntimo sentido desses panos. Na recatada alvura que traziam da arca e na regularidade dos fios do linho de que eram feitos, vinha a riqueza duma existência que ia ser a legenda de Galafura.
Quando Deus a levou, num Março que se esforçava por dar remate prazenteiro a três meses de invernia sem paralelo na lembrança dos velhos, Galafura não quis acreditar. Embora a visse entendida no caixão, lívida e serena, aspergia sobre o cadáver a água benta do costume, sem que o seu entendimento concebesse o fim daquela vida. O próprio Prior, tão acostumado à transitória duração terrena, ao ser chamado à pressa para lhe dar a extrema-unção, ungiu-a como se ela fosse mãe dele. Tremia. Até o Latim lhe saía da boca aos tropeções. Apenas o Dr. Gil, o médico, ao tomar-lhe o pulso, não teve qualquer estremecimento. Receitou secamente óleo canforado e saiu. Mas o Dr. Gil pertencia a outros mundos. A rotina do ofício empedernira-lhe os sentimentos. O ele declarar calmamente, já de pé no estribo do cavalo, que não havia nada a fazer, foi como se um vedor afirmasse que a fonte da Corredoura ia secar. Sabia-se de sobejo que a fonte da Corredoura era eterna por ser um olho marinho. Assim que a moribunda exalou o últumo suspiro, cá de fora respondeu-lhe um soluço prolongado. O enterro, no outro dia, pela manhã, pareceu a todos uma romagem voluntária e simples ao cemitério. Não. Não podia morrer no coração de ninguém uma realidade que em setenta anos fora o sol de Galafura.
Continua...
************************
🌺 🌺 🌻 🌻 🌺 🌺
![]() |
Olhai os lírios do campo, que não trabalham nem tecem, contudo, nem Salomão em toda a sua glória se vestiu com tanta magnificência. |
Poema de Miguel Torga'in' Antologia Poética.
Mal abri, ao início desta manhã fria, a janela que me dá acesso ao mundo, logo Mr. Google me lembra que é Dia de celebrar a Terra. Assim:
Escolhi, para falar por mim, quem tão bem soube louvar, em belas palavras, o nosso solo; este nosso lindo e tão mal estimado, Planeta Azul.
A TERRA
Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.
Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.
Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!
Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.
Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!
E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás-de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.
Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!
A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.
Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!
* * *
Quem escolhi? Claro que só poderia ser:
Miguel Torga
FONTE da Imagem.
![]() |
Foto Minha |
![]() |
A IMAGEM FUI ROUBAR AQUI. |
![]() |
IMAGEM DAQUI |